As discussões envolvendo o conceito de quase-renda não podem ser dissociadas do conceito de renda. Elas surgem na literatura econômica, justamente na época em que a controvertida teoria do valor (ricardiana) dividia os economistas em posições irreconciliáveis. Nessa oportunidade, Marshall conseguiu, graças principalmente à introdução do fator tempo na análise econômica, reconciliar o princípio clássico do custo de produção com o princípio da utilidade marginal que perdura até os dias atuais. Ao introduzir o fator tempo na análise econômica, pela distinção entre curtos e longos períodos, Marshall procurou determinar o papel do custo objetivo de produção (longos períodos) e da utilidade marginal (períodos curtos) na determinação do valor dos bens e serviços (Strauch & Almeida, 1982). Esse procedimento, segundo Keynes24, citado por Strauch & Almeida (1982), “tinha como um dos objetivos traçar um encadeamento contínuo, atravessando e conectando as aplicações da teoria geral de equilíbrio da procura e da oferta a diferentes períodos de tempo”.
24 KEYNES, J.M. Bibiographical list on the writings of Alfred Marshall. Economic Journal, v.34, n.136,
Na verdade, quando Marshall procurou determinar o papel do custo objetivo de produção e da utilidade marginal na determinação do valor dos bens e serviços, ele estava preocupado em explicar a distribuição de renda, ou seja, como são remunerados os recursos de um proprietário individual. É dentro deste contexto que é retomado o conceito de renda e é introduzido o conceito de quase-renda.
I nicialmente, Marshall (1982a, p.81) admite “(...) haver maior vantagem em reservar o termo renda para o rendimento derivado dos bens gratuitos da Natureza, toda vez que a discussão dos assuntos de negócios passa do ponto de vista do indivíduo para a sociedade em geral”. À quase-renda são associados os rendimentos derivados das máquinas e de outros instrumentos de produção feitos pelo homem (ver também Dooley, 1991). Nesse sentido, a renda verdadeira é proporcionada por um bem ou serviço que tem o seu estoque permanente e fixo, diferente dos instrumentos e dos equipamentos de produção feitos pelo homem (por exemplo, melhoramentos na terra, construção ou maquinaria), que apresentam um fluxo capaz de crescer ou de reduzir-se, de acordo com as variações da demanda efetiva as quais eles contribuem para produzir.
Posteriormente, Marshall (1982b) considera que os conceitos de renda e de quase-renda se aplicam tanto aos bens e serviços “feitos” pelo homem, quanto aos que fazem parte de um fundo oferecido pela Natureza, ou seja, encontrados livremente na Natureza. Assim, é estabelecida uma semelhança entre a verdadeira renda e a quase- renda. A semelhança está no fato de que alguns bens e serviços não podem prontamente ser produzidos, constituindo-se em estoques fixos para curtos períodos. Nestes, as receitas provenientes desses bens e serviços ficam na mesma relação com o valor do produto que eles elaboram, isto é, são determinados pelos preços dos produtos, como se fossem as verdadeiras rendas.
Segundo Ferguson (1992, p.425), “no uso clássico, renda constitui o retorno a um recurso cuja oferta é absolutamente fixa e não aumentável (ou seja, aquele cuja oferta é uma linha perpendicular ao eixo das quantidades). O retorno dos insumos fixos a curto prazo é denominado de quase-renda, porque suas quantidades são variáveis no longo prazo”.
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Vale salientar que a renda pura, ou renda verdadeira, no estrito sentido do termo, dificilmente é encontrada. Quase todo rendimento, por exemplo, o da terra, contém elementos mais ou menos importantes, derivados de esforços investidos na construção de casas, construções rurais, sistematização do solo, drenagem da área etc. (Marshall, 1982a). Milgrom & Roberts (1992) consideram que embora a renda possa existir, somente momentaneamente em economias competitivas, a quase-renda é muito mais comum.Até o momento, renda e quase-renda geradas pelos bens e serviços estão sendo diretamente associadas a estoques fixos, ou seja, à escassez. No entanto, renda e quase-renda também são determinadas pela especificidade dos bens e serviços, ou seja, pela presença de fatores específicos, em cada empresa individual, que não possam ser alugados a outras empresas, ou contratados por elas (por exemplo, a capacidade empresarial) (Friedman, 1971). Marshall (1982a) considera que “rendas de escassez” e “rendas diferenciais”25 não necessitam de distinção. Em certo sentido,
todas as rendas são “rendas de escassez” e todas são “rendas diferenciais”. Milgrom & Roberts (1992) reforçam essa idéia, ao considerar que tipicamente renda surge devido à escassez, seja ela natural ou induzida.
Outra aplicação interessante dos conceitos de renda e quase-renda pode ser encontrada em Castanias & Helfat (1991). Esses autores, apesar de rejeitarem
algumas das suposições da teoria neoclássica26, em seu estudo sobre recursos
gerenciais e renda, aceitam que a renda econômica dos fatores é de dois tipos: renda ricardiana (que reflete escassez) e quase-renda. Esta última é definida pelos autores como a diferença entre o valor de um ativo, em seu primeiro melhor uso, e seu valor no próximo melhor uso. Ativos que são especializados para um particular uso e, conseqüentemente, perdem valor em outro uso produzem quase-renda. Pode-se observar que Castanias & Helfat (1991) reforçam a associação entre renda ricardiana (econômica) e escassez, e consideram a quase-renda como um reflexo do custo de
25 O termo “diferenciais” está sendo usado com o mesmo sentido de específico.
26 Os autores desenvolvem as suas idéias dentro da perspectiva do modelo da firma, baseado no recurso
(The Resource-Basead Model of the Firm). Resumidamente, do ponto de vista deste modelo, a raridade e a dificuldade para se imitarem os recursos internos das firmas é a chave para a firma adquirir e manter sustentáveis vantagens competitivas (Castanias & Helfat, 1991).
oportunidade, ou seja, do melhor uso alternativo. Quando um dado recurso é utilizado alternativamente melhor, há geração de quase-renda.
Rumelt27, citado por Castanias & Helfat (1991), considera que a renda
ricardiana surge da escassez relativa para uma dada demanda, de tal forma, que a renda proporcionada pelo fator é insuficiente para atrair novos recursos para serem utilizados. Em outras palavras, não existe recurso alternativo que proporcione retorno superior. Assim, qualquer outro recurso, nas mesmas condições, daria menor retorno. Tal conceito de escassez relativa está associado à idéia de recurso superior. Se um recurso produz um bem ou serviço superior àquele produzido por um recurso similar, então o recurso proporciona um prêmio, ou seja, uma renda. Pela definição, recursos superiores têm uma limitada oferta relativa, quando comparados aos recursos menos superiores, mais amplamente disponíveis. Portanto, recurso superior produz renda ricardiana.