5. DISKUSJON
5.6. S KREDVARSLET
“Aí a minha vida se torna um cinema na vida real” (Carla)
A relação do sujeito com a realidade é mais uma importante questão a ser discutida ao se tratar do campo da psicose, além de se relacionar de forma estreita com os sintomas apresentados: delírio e alucinação.
Retomando o conceito básico de psicose, percebe-se que a relação com a realidade tem importante participação em todo o processo que se empreende nesse quadro. Quando Freud (1924[1923]/1996) afirma que a psicose é um conflito, ou um
145 distúrbio, nas relações entre o eu e o mundo externo, percebe-se que a realidade está totalmente implicada nessa demanda.
Vale lembrar aqui a idéia defendida por Freud (1924[1923]/1996) de que o mundo externo governa o eu de duas formas. A primeira é por meio de percepções atuais e presentes, percepções estas que são sempre renováveis. Já a segunda acontece mediante o armazenamento de lembranças de percepções anteriores, as quais modelam um “mundo interno”, exercendo um domínio sobre o eu e ao mesmo tempo é parte constituinte dele.
Tendo como base essa explicação freudiana, percebemos que ao falar de realidade, na verdade ele quer tratar da realidade externa que é renovável, mas, também, de uma realidade psíquica constituída por representações registradas e guardadas. Mas no caso da psicose, a realidade que traz a necessidade de ser excluída é a realidade psíquica, e portanto simbólica (Fernandes, 2002).
No final do artigo sobre Neurose e Psicose, começam a aparecer alusões a um processo semelhante ao recalque – mecanismo específico da neurose – que na psicose realizaria o desligamento do eu com a realidade. Freud (1924[1923]/1996) também sugere que este mecanismo deve relacionar-se com a retirada da catexia enviada pelo eu às pessoas e coisas do mundo.
No mesmo ano em que publicou este artigo, Freud (1924/1996) publica outro para tratar especificamente da questão sobre A perda da realidade na neurose e na
psicose. Sua primeira contribuição é delimitar que na psicose o eu deixa-se vencer pelo
isso e se afasta de um fragmento de realidade. Por outro lado, observa ainda que na neurose, essa perda da realidade seria evitada e na psicose a perda estaria
146 imperativamente presente. Na neurose aconteceria um afrouxamento dessa relação e, na psicose, uma rejeição ou recusa da realidade.
Nas entrevistas realizadas com os quatro sujeitos que participaram deste estudo, podemos elencar várias falas para demonstrar indícios da ocorrência dessa recusa da realidade:
Carla: Eu acho que sou muito ambiciosa. Eu acho que eu devo estar muito ambiciosa. Que parece que só existe eu na face da Terra, né? Aí fica assim.
Entr.: Parece que só existe você na face da terra?
Carla: É. Só eu. Aí não dá certo não. Porque fica distante das outras pessoas. Aí as outras pessoas morrem.
Entr.: Você sente dificuldade de conversar com outras pessoas? Carla: Sinto. Aí as outras pessoas morrem, sabe? Aí acaba o mundo. Aí todo mundo morre. Aí eu vou morrer também. Aí não vai dar certo, sabe? Fica uma coisa assim tipo um cinema. Uma coisa assim, que só tem que viver daquele jeito. Aí não dá certo. Aí eu penso ai não vai dar certo não.
Carla demonstra a recusa da realidade e deixa transparecer uma importante conseqüência deste fato: a não percepção de pessoas e coisas às quais possa investir. Percebe que está sozinha na face da Terra. No inicio refere-se a um distanciamento das pessoas e depois fala da morte das mesmas e, por fim, afirma que o mundo acaba e as coisas passam a ser como em um cinema. Essa sua descrição deixa clara as duas fases da psicose: a recusa da realidade e depois a reparação dessa realidade por meio da construção de uma nova, percebida por ela por comparação a um cinema. Ater-nos- emos por enquanto à recusa da realidade.
Podemos citar também a narração de João com relação ao seu sentimento no momento em que está tendo a alucinação auditiva, demonstrando uma certa crítica em relação ao que passou:
147 João: [...] Porque na hora que você está ali ouvindo parece que não
está acontecendo nada, mas depois que tudo passa você fala ”meu Deus, será que fui eu mesmo que fiz isso? Como aconteceu isso? Como pude me deixar levar?”, você tenta procurar ajuda de toda maneira, mas parece que ninguém me ouve. Todo mundo está contra mim.
[silêncio]
Entr.: Você disse que parece que ninguém te ouve, isso parece quando você está...
João: Quando estou tendo alucinações... Quero pedir socorro e não consigo botar pra fora, “socorro, me ajuda. Por favor, me ajuda”. Fico paradão, diante do meu problema e fico sem ter condição de pedir ajuda. Fico como se tivesse usado uma droga.
Percebe-se, nessa fala, um abandono objetal juntamente com a recusa da realidade. João não consegue pedir ajuda a ninguém. O investimento nas outras pessoas tem o seu fluxo quebrado e é percebido como um movimento delirante em que todos estão contra ele. Neste momento, também, não percebe a realidade externa e diz que fica como se tivesse usado droga, experiência que as pessoas dizem parecer estar fora de si e se assemelha a uma viagem.
Em outra ocasião, refere-se novamente ao momento das crises, percebendo-se sozinho no mundo:
Entr.: Em relação às suas crises, como tem se sentido?
João: Parece que estou sozinho no mundo. Tenho a impressão que ninguém mais olha para mim.
O desligamento objetal das pessoas e objetos do mundo é percebido por João como um sentimento de estar sozinho no mundo. Ademais, o não investimento por sua parte é interpretado como não investimento dos outros com relação a ele, uma vez que a recusa da realidade e o desinvestimento objetal não podem deixar pistas para qualquer questionamento por parte do sujeito.
A percepção com relação à crise por parte de Amanda é bem próxima dessa relatada por João, como podemos verificar retomando uma fala sua:
148 Amanda: [...] Eu tive um distúrbio mental, um distúrbio que a cabeça
fala coisa com coisa. As pessoas estavam... Minha irmã estava roubando minha identidade.
E quando indagada sobre o que mais acontecia durante as crises, relata como era a sua relação com as outras pessoas:
Amanda: Acontecia assim... Que tudo pra mim era meu inimigo. Tudo pra mim era meu inimigo.
Entr.:Todas as pessoas eram seus inimigos.
Amanda: Eram meus inimigos. A minha irmã principalmente. Eu não se dava bem com a minha irmã de jeito nenhum. Cheguei a odiar.
É importante demarcar que na paranóia o sujeito não apresenta uma completa recusa da realidade, mas sim, de fragmentos dessa realidade que é rejeitado, e por projeção comparece novamente o intolerável. O que é recusado é percebido como vindo de fora, não sem antes passar por certa transformação.
O amor que sente pelas pessoas será percebido como ódio vindo delas (Freud 1896/1996; Freud 1911/1996). No caso de Amanda, a irmã é odiada e se transforma pelo delírio em perseguidora.
A este respeito, é importante ressaltar que o impulso amoroso dirigido ao objeto sofre duas inversões para atingir o objetivo de defesa. A primeira é o sentimento de amor para o ódio e o segundo é com relação à origem e ao alvo, que passa a ser dirigido do objeto para o sujeito. Como resultado, o sujeito com paranóia apresenta a fantasia de estar sendo perseguido pelo objeto (Santi, 2004).
No delírio de perseguição existe uma busca pelo investimento em um objeto exterior, por meio da identificação com ele. O que demanda uma negação do afeto dispensado à pessoa e, num segundo momento, a projeção desse resultado para o mundo externo, faz com que este seja percebido como vindo de fora. O processo de
149 identificação com outro objeto que não o próprio eu, nos deixa o rastro de que o investimento objetal já encontrou um caminho mais favorável que ficar represado. No entanto, existe uma regressão à etapa de satisfação alucinatória de desejo onde a realidade vivida passa a ser substituída pela fantasia expressa durante o delírio que se empreende com a projeção realizada (Martins, 2003).
A projeção tem duas vias importantes: manter a representação conflituosa afastada e preservar o estado narcísico que o sujeito se encontra após a regressão ao estádio do narcisismo. Mas agora com certa elaboração, pois o investimento vem por parte de um terceiro, um objeto que não deixa de ser percebido e, dessa forma, investido pelo sujeito paranóico.
Por outro lado, Luciana com toda a sua forma peculiar de organização fala de sua recusa da realidade da seguinte maneira:
Entr.: Ontem a senhora me disse alguma coisa relacionada com Deus, o que foi?
Luciana: Eu penso que o sonho dele é me enterrar. Porque eu vou pro hospital pra eu vagar. Eu fico desesperada.
Entr.: Então a senhora não está viva, a senhora esta só vagando aqui no mundo?
Luciana: Só vagando.
Ela não se percebe habitando o mundo, diz estar apenas vagando nele. No entanto, não apresenta uma total ruptura com a realidade, pois faz uso de suas percepções para justificar a sua construção delirante relacionada com a questão corporal, observemos:
Luciana: Pois é, eu estou estralando já. Entr.: E o que acontece quando estrala?
Luciana: Se eu apertar dobra, olha. Porque está mole.
[dobra as partes do corpo nas articulações e mostra que ela consegue dobrar os ossos]
150 Luciana: Já. Já. [silêncio] Toda mole.
[...]
Luciana: Oh, Oh... Está estralando os ossos, oh. [Mexe os braços e escuta estalos vindos da omoplata e da clavícula]
As percepções da realidade objetiva do seu corpo são utilizadas para embasar e justificar tudo o que diz respeito à sua vivência corporal. Assim, a realidade das partes do corpo dobra-se nas articulações e o barulho emitido por outras partes contribuem com a construção delirante de que os ossos estão podre e estralando. Outra percepção corporal que utiliza é a sua aparência física. Por estar bastante magra, diz que está seca. No entanto, além da aparência, precisamos demarcar que sua questão é subjetiva, mas a objetividade torna tudo inquestionável.
A recusa da realidade que presenciamos nessas falas é explicada por Freud (1914a/1996) por meio da existência de uma antítese entre a libido do eu e a libido objetal. Para ele, quando uma é mais aplicada a outra, em contrapartida, é mais esvaziada. Assim, com o retorno da libido ao eu, no narcisismo, ou às zonas erógenas, no retorno ao auto-erotismo, ela deixa de ser empregada no mundo externo, ocasionando certa ruptura com este e a perda do contato com a realidade.
Relaciona-se com este fato a vivência do fim do mundo na psicose, de forma especial na paranóia, pois além de ser entendida pela via da projeção do seu desmoronamento interno, possibilita-nos outra interpretação ancorada na idéia da existência dessa antítese entre a libido objetal e a libido do eu. No momento em que a libido retorna para o eu e deixa de ser investida no mundo, faz com que este se torne irrelevante para o sujeito (Freud, 1911/1996).
Mas além da recusa da realidade, outra etapa pode ser distinguida como segundo momento do processo psicótico: a tentativa de restabelecimento do vínculo com os objetos e pessoas que antes eram investidas e a reparação da perda da realidade que foi
151 recusada. Agora não por meio da restituição da que foi rejeitada, mas com a criação de uma nova, sem as contradições trazidas pela antiga (Freud, 1924/1996).
Para que a nova realidade possa ser construída e não seja questionada, a construção delirante utiliza as percepções trazidas pela alucinação para manter certa relação com algo que diga respeito ao próprio sujeito (Freud, 1924/1996). A alucinação trará “dados de realidade” que embasarão toda a construção delirante. Ao falar em dados de realidade, estamos nos referindo a percepções próprias que o sujeito tem e são percebidas como pertencentes à realidade, neste caso, à sua realidade psíquica.
Nos casos em que não comportam as alucinações e o delírio, a construção dessa nova realidade acontece de forma diversa. Ao apresentar apenas alucinações, o sujeito terá as percepções que o remete ao fragmento de realidade que foi rejeitado, mas não terá a interpretação do delírio, que parece fazer a costura dessas percepções com o objetivo de criar a nova realidade delirante. Por outro lado, nos casos em que não apresentam as alucinações, situação mais difícil de acontecer, a construção delirante tem maior dificuldade de realizar o seu papel de reconstrução e restabelecimento, por não ter um ponto de partida e um fio condutor que o relacione com a vida do sujeito. Sabemos que nem sempre os dois sintomas aparecem concomitantemente nos quadros clínicos de paranóia e esquizofrenia. No entanto, raramente, encontramos casos em que o sujeito não apresente nenhuma forma de alucinação, mesmo que não seja proeminente.
A fala de Carla deixa bem claro para nós uma percepção de que a realidade na psicose parecer ser “fabricada”, ou melhor, construída. Isso se passa tanto em relação à realidade externa quanto em relação à realidade do corpo:
Carla: Então estou imaginado aqui se eu viajasse, por exemplo, pro Japão. Eu ia chegar lá eu ia ser a mesma pessoa. Eu ia ver aquelas coisas bonitas, aquela arquitetura toda desenhada, com outras pessoas diferentes. Se eu fosse pra França eu ia ver aquelas meninas,
152 aqueles rapazes franceses, aquelas meninas francesas. Na Itália, tudo
francês, Italiano. No Canadá tudo diferente. Nos Estados Unidos, tudo diferente. Americano come alface com tomate, não é assim na realidade? Desenhado?
[...]
Carla: Então, eu acho que eu só fico me sentindo que eu sou uma espécie de resp., resp... de observar nas outras pessoas. Mas é claro que eu não sou um... Uma pessoa de outro planeta, [risos] Um andróide, mas eu fico sentida.
A digressão apresentada no discurso de Carla mostra o deslizamento e a ausência de enraizamento na realidade externa bem como a desvitalização com relação ao mundo externo. Há por outro lado, em relação ao corpo, um estranhamento da imagem de si, ao qual tenta fazer uma crítica, mas nos revela que esta realidade do corpo é também transformada: “outras pessoas” e “uma pessoa de outro planeta.
[risos] Um andróide”. Ou seja, a fala de Carla nos mostra a sua dificuldade de organizar
o mundo externo e ao mesmo tempo a imagem de si.
Outra colocação sua nos chama a atenção por nos fazer retomar a idéia principal deste trabalho com relação ao delírio, como um processo de reconstrução e remodelamento (Freud, 1911/1996), vejamos:
Carla: Só que eu fico, assim, pensando assim, com... pensando assim, que um... que lá no Rio de Janeiro só tem aquele mar e fizeram a novela. E ver a novela na realidade, aquelas coisas mais bem feita, é muito melhor do que ver só aquela praia branca com tudo destruído. Parece tudo velho. Eu fico sentida com isso, sabe? Sentida, que se tiver favela eu fico mais sentida ainda. Eu acho que... que eu penso assim, se eu pensasse assim. Ah, lá é muito bonito, tem gente só bonita, mas não é verdade. Não tem só aquelas pessoas lindas, de cabelos amarelos, pegadas de sol, pretas. Não é só isso. Tem o outro lado também, né? Tem as outras pessoas que são tudo pobres. Pobres com cara de pobre. Aí eu fico pensando assim, porque que existe isso? Essa diferença eu não queria que existisse isso, sabe?
Este trecho nos remete à idéia de que o delírio é a forma encontrada pelo sujeito para restaurar o seu próprio mundo, onde um novo cenário possa ser construído e torne
153 possível o reaparecimento dos objetos e indivíduos para serem novamente investidos pela via fantasiosa. O delírio deixa de ser entendido como signo da doença e passa a ser encarado como o caminho para a cura e seu contorno (De Waelhens, 1990). Juntamente com a alucinação, sintomas por excelência da psicose, o delírio sugere uma dificuldade, mas também a tentativa de encará-la (Bell, 2005).
Carla parece refletir sobre a sua relação com a realidade. Afirma que ver a novela na realidade é melhor que reparar as coisas como elas são. Ou seja, é melhor viver nessa realidade construída, possibilitada pela fuga para a psicose, a viver na realidade como esta se mostra. Para ela, a realidade é definida por meio de sua descrição da praia como branca e destruída. Além de desorganizada, a realidade é vivenciada como sem cor. É nítida a sua preferência pela realidade construída: “E ver a novela na
realidade [...] é muito melhor [...]”.
Ao final, afirma que não gostaria que existisse diferença entre a realidade demonstrada pela novela e o que realmente existe, talvez esteja falando da diferença entre a realidade objetiva e a subjetiva, a realidade partilhada por todos e a construída como a saída encontrada por seu psiquismo para habitar o corpo próprio e estar no mundo tal como nos diz De Waelhens (1990).
Outras questões importantes podem ser discutidas com base no caso João. Percebamos sua tentativa de reinvestimento ao relatar o que as vozes lhe falavam:
Entr.: E o que mais essas vozes falavam?
João: Pra sair correndo, para falar com qualquer pessoa na rua, tentar conectar com qualquer pessoa na rua, falar qualquer coisa, e eu falava na minha mente. Eu ficava parado falando na minha mente, ouvindo tudo aquilo só na minha mente. Ficava desorientadinho, sem condições de nada.
154 Ele demonstra uma tentativa desesperada de investimento na realidade por meio do investimento nos objetos, aqui representados por qualquer pessoa que estivesse perto dele. O desespero é tão grande que fala em tentar se conectar com qualquer pessoa na rua. Qualquer forma de vínculo seria capaz de apaziguar esse desespero e angústia vivenciados por não conseguir manter o mínimo contato com a realidade e as pessoas que nela habitam. No entanto, este investimento não é realizado a contento, neste momento, e deixa claro o auto-investimento narcísico: “eu falava na minha mente”.
Em outro momento parece ser um pouco melhor sucedido nesse investimento: “Aí parece que eu tenho que fazer alguma coisa. Alguém tá me chamando para fazer
alguma coisa e eu não sei o que é isso”. Quando relata que alguém o chama, existe uma
possibilidade de relação sujeito-sujeito acontecendo. O seu desespero pode ser percebido também neste trecho: “Todos os movimentos que eu fazia parecia que alguém
tava tentando me dizer alguma coisa ou tentando me culpar de alguma coisa”. Mesmo
sendo um movimento narcísico e delirante, essa percepção de que tem alguém querendo falar consigo e até mesmo culpá-lo por alguma coisa, é, também, um investimento objetal e uma tentativa de investimento na realidade, atravessada pelo delírio.
No caso da paranóia, esse reinvestimento objetal também é realizado pelo mesmo mecanismo que exerce a recusa do fragmento de realidade rejeitado – a projeção. Quando se afirma que o que é recusado na paranóia é percebido vindo de fora, traz a possibilidade de reconhecimento da existência de um vínculo com a realidade exterior. Concomitante a isso, a projeção também restabelece a relação do sujeito com os objetos e pessoas que anteriormente havia abandonado por conta do narcisismo (Freud, 1911/1996). Por exemplo, podemos citar o sentimento de perseguição que Amanda tem como vindo de sua irmã. O que acontece é a projeção do amor que esta
155 sente pela irmã, mas após sofrer deformações, o afeto é percebido de forma invertida, como ódio, vindo de fora, tendo como desencadeador a sua irmã. Situação semelhante à relatada quando tratamos do Caso Schreber no capítulo teórico.
Aqui podemos demarcar uma importante idéia defendida por Freud (1911/1996) de que na paranóia a pessoa que hoje é percebida como perseguidora, antes era alvo de amor por parte da pessoa perseguida. Em Schreber, o doutor Flechsig, médico que cuidou dele no momento de suas crises, foi quem assumiu depois o papel de perseguidor.
O delírio de perseguição pode ser entendido por duas vertentes. A primeira faz com que o sujeito delirante experimente uma aguda relação com os outros, mesmo que esta seja de cunho negativo. Essa relação o ajuda a sair do isolamento que o narcisismo exacerbado lhe impõe. O segundo benefício que precisa ser marcado para o delírio de perseguição, já que também permite que uma aproximação intolerável, ou muito próxima, seja evitada (Scharfetter, 1997).
Hoje, fora da crise, Amanda parece ter certa crítica com relação à sua construção delirante:
Amanda: [...] Era só da... Criação da minha cabeça, né? Eu criava