4. Empiri og funn
4.3. Funn i studie
4.3.1. Kreative rangeringer
A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) é um exemplo marcante de aplicação da arquitetura e construção com terra. Localizada na cidade de Guararema, distante 70 Km de São Paulo, trata-se de conjunto de edificações construídas com Blocos de Terra Comprimida (BTC) e painéis monolíticos, ambas as técnicas produzidas a partir de terra estabilizada com cimento. O que torna esta obra distinta das demais é a forma como foi organizado seu canteiro de obras: trata-se da junção de canteiro escola com o canteiro de obras, cujos integrantes eram trabalhadores voluntários.
E aqui, o trabalho voluntário, a priori, não é feito para a geração de bem imóvel a outrem, foi empregado para a construção de uma escola de propriedade coletiva de toda a classe de trabalhadores rurais sem terra, organizados através do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
“A construção da ENFF realiza-se pelas mãos de trabalhadores de várias partes do país, entendendo que não são apenas construtores da obra, mas também construtores da organização do MST. O documento Brigadas de Trabalho Voluntário para a construção da ENFF (...) apresenta o trabalho voluntário como um processo de aprendizagem que se dá na prática, no cotidiano. O sentido pedagógico que se expressa no trabalho voluntário proposto pelo MST na construção da ENFF é o reconhecimento do objeto produzido como uma obra coletiva. Ou seja, os trabalhadores Sem Terra passam a se reconhecer no produto do trabalho a partir de uma dimensão real de apropriação coletiva, diferente do trabalho realizado nos acampamentos e assentamentos”. (Lobo, 2005, p. 222)
O canteiro de produção foi organizado em brigadas de trabalhadores, de todo o Brasil, que atuavam na construção da escola por um período de 60 dias. Com o decorrer da obra, a percepção das dificuldades de adaptação de cada novo grupo de trabalhadores que chegava levou a criação de uma Brigada Permanente, que atuava por um ano, formada por 35 assentados e que contribuía para uma melhor continuidade da produção.
“São vários os fatores que causam estranheza a estes novos trabalhadores que chegam, como a própria técnica de bloco de terra comprimido(sic) ou solocimento, a estrutura organizativa da ENFF e a grande quantidade de trabalhadores envolvidos. A dificuldade de adaptação é grande, principalmente na primeira semana, visto que não se conhece as pessoas, suas habilidades reais, havendo um grande movimento entre as equipes de trabalho.” (Lobo, 2005, p. 230)
Outra mudança na organização dos trabalhadores do canteiro foi dada a partir de 2002, foram estabelecidos coordenadores de setor – divididos entre as frentes de hidráulica, elétrica, carpintaria, pedreiros e BTC – para colaborar com a continuidade das atividades e suprir as diversas dificuldades que surgiam ao longo da obra.
A afirmação de que se trata de canteiro de obras que incorpora um canteiro escola ocorre pois, a maioria dos trabalhadores chega com pouca ou nenhuma experiência de obra, já que em sua maioria são agricultores.
Além disso, um dos motivos que orientou a escolha pelo uso da terra como material de construção está vinculado ao fato de que, posteriormente, cada trabalhador poderá levar o conhecimento apreendido a seus assentamentos ou acampamentos para aplicar em suas casas e para difundir na comunidade em que está inserido.
“Uma outra justificativa para a escolha deste método de construção é a formação profissional dos acampados e assentados (para além da área da agricultura), com possibilidades reais de socializar os conhecimentos técnicos em seus Estados de origem e de garantir a permanência na terra em condições dignas de moradia sem a exigência de custos muitos elevados.” (Lobo, 2005, p. 186)
Esta motivação já começou a produzir resultados em 2003 pois a técnica BTC passou a ser empregada no Assentamento Justino Draszewiski, em Araquari, Santa Catarina. Com o objetivo de construir 15 casas vedadas e estruturadas por BTC, foi criado um Setor da Construção Civil, com trabalhadores atuando nas tarefas de fabricação de tijolos e de execução de obra. Neste setor trabalham 9 assentados, 5 na execução das obras e 4 na produção dos BTC’s. Relata-se que a produção alcançava 1000 blocos por dia e que naquele ano de 2003, 9 de um total de 15 já haviam sido construídas (MST, 2003, p. 30).
O PROJETO E A OBRA
A construção da nova sede da ENFF teve seu início em março de 2000. O projeto de construção da Escola Nacional foi elaborado pela direção nacional do MST e pela arquiteta Lílian Lubochinski. Para o treinamento das primeiras brigadas, houve também a participação do arquiteto Eduardo Salmar.
O MST descreve o projeto da seguinte maneira:
“A Escola Nacional Florestan Fernandes está projetada em forma de agrovila. Uma escola constituída por áreas administrativas, espaços pedagógicos, institucionais, alojamentos, equipamentos de cultura, lazer e serviços de apoio dimensionados para
atendimento de até 500 alunos. Embora o projeto como um todo seja grande, iremos construir em partes, priorizando as salas de aula, alojamentos e cozinha com refeitório” – Texto extraído da campanha internacional para construção da escola (apud Salmar, 2002).
Por se tratar de projeto de grande área contruída, um total de 4.500 m2, sua construção ocorreu em etapas ao longo de 4 anos. A construção do Refeitório (Fig. 1) foi a primeira grande obra, se estendeu por dois anos (de 2000 a 2002) e contou com a participação de 12 brigadas de trabalho voluntário. A área construída foi de 1044 m2 (Lobo, 2005, p. 187).
Em seguida foram construídos os prédios dos Alojamentos. Ao todo foram construídos com oito prédios de dois pavimentos (térreo e superior) que resultaram em 1133 m2 de área construída. Cada prédio abriga 25 pessoas, 11 no térreo e 14 no pavimento superior.. No total a escola oferece alojamento para 200 alunos. Esta estrutura ainda conta com sala de convivência e espaço de lazer. Cada quarto possui um banheiro individual (Lobo, 2005, p. 187). Quatro edifícios foram construídos ao mesmo tempo. A sequência de obra foi a seguinte: estaqueamento, blocos das fundações, alvenarias estruturais, contrapiso, lajes, instalações hidráulicas, esquadrias (portas e janelas), caixa d´ água, telhado, instalações elétricas, chapisco/emboco interno, azulejos, cerâmica em piso, pintura geral, acabamentos externos Desta maneira 100 trabalhadores foram envolvidos na obra de forma simultânea. Destes, 30 tinham experiência e 70 estavam em processo de formação (Lobo, 2005, p. 187).
Em 2003, concomitante à conclusão da construção dos Alojamentos, inicia a construção do Edifício Pedagógico, de 2100 m2. O programa era o mais complexo: salas de aula, salas de professores, auditório, biblioteca (com capacidade para 50 mil livros), laboratórios de física, química, biologia, informática e artes. Em julho de 2004 foi concluído encerrando a primeira etapa de construção da ENFF (Lobo, 2005, p. 222).
Detalhes sobre a primeira brigada de trabalhadores puderam ser coletados em Salmar (2002). Foi composta por 24 integrantes do Mato Grosso do Sul, dentre eles acampados, pré- assentados e assentados. Atuaram de março a abril de 2000, em jornadas de 9 horas.
Diversos dos trabalhadores tinham alguma experiência na área da construção civil. No entanto, os saberes eram de pouca especialidade, geralmente haviam atuado como ajudantes em obras urbanas. A atuação deste grupo foi direcionada à instalação do canteiro de obras, que contava com espaços de produção bastante específicos por causa dos sistemas construtivos que ali seriam empregados: paredes monolíticas de solo-cimento, blocos de terra comprimida (BTC) e arrimos de pedra rachão.
Figura 3.3 - Edifício do Refeitório. Fonte: Salmar & Negreiros (2001).
Figura 3.4 - Edifícios dos Alojamentos. Fonte: Salmar & Negreiros (2001).
As atividades da primeira brigada compreenderam (Salmar 2002): - Limpeza do terreno;
- Preparação de canteiros para a horta;
- Ensaios práticos para reconhecimento de solos; - Análises preliminares da compactação de solos;
- treinamento para manipulação de equipamentos compactadores;
- preparação da área onde seria instalado o barracão-oficina de produção de BTC; - construção do barracão-oficina de produção de BTC, de 80 m2 (Fig. 3.5).
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES:
O canteiro de obras da ENFF parece proporcionar algum ganho de autonomia aos participantes. Por se valerem da experiência para adquirir alguma formação profissional existe uma pré- disposição para o aprendizado que foi destacada por Lobo (2005): “Muitos apresentam a necessidade de ter domínio de todo o processo de construção da ENFF, sempre com a perspectiva de desenvolver esta relação no seu acampamento/assentamento”.
Se estes trabalhadores tiveram condições de empregar estas técnicas para a produção de suas casas e as de outros membros de sua comunidade, trata-se de importante resgate pelo qual passa a Arquitetura e Construção com Terra: o homem do campo voltar a empregar técnicas que se assemelham àquelas que anteriormente eram comuns ao meio rural e, ao mesmo tempo, com material disponibilizado no próprio local, desvencilhando-os parcialmente cidade, fortalece seu enraizamento no campo novamente.