Diante da trajetória já percorrida pelos gestores culturais desde a década de 1980, a questão relativa ao significado que é dado à noção de profissão ganha outra dimensão. Este momento atual é um período em que a gestão cultural passa a ser inserida e articulada no ambiente social como campo de trabalho no mundo contemporâneo.
O levantamento sobre a evolução do verbete profissão, em tempos diferentes, revela a visão corrente a respeito dessa questão, bem como as transformações ocorridas no mundo do trabalho que levaram à complexificação da própria definição da terminologia – que passou a incluir outros significados. No século XIX, entendia-se profissão como “o estado, modo de vida, em que alguém se exercita; offício”. (SILVA, 1813.) Trazendo para o contexto contemporâneo, profissão é “atividade para a qual um indivíduo se preparou e que exerce ou não; trabalho que uma pessoa faz para obter os recursos necessários à sua subsistência e à de seus dependentes; ocupação, ofício; profissional liberal - aquela de nível superior que habilita o indivíduo a trabalhar por conta própria, como medicina, odontologia, advocacia etc.” (HOUAISS, 2001, p. 510.) Na definição de outro dicionário (FERREIRA, 1986, p. 1.398), encontra-se a seguinte definição: “Atividade ou ocupação especializada, e que supõe determinado preparo. Carreira. Meio de subsistência remunerado resultante do exercício de um trabalho, de um ofício. Profissão liberal, profissão de nível superior caracterizada pela inexistência de qualquer vinculação hierárquica e pelo exercício predominantemente técnico e intelectual de conhecimento”; e ainda: “Profissão que encerra certo prestígio pelo caráter social ou intelectual: a profissão de jornalista, de ator, as profissões liberais.” Essas definições apontam uma visão corrente, do senso comum, sobre o significado de profissão em tempos diferentes. Comparativamente, eles têm em comum o estado, o modo de vida, de ser, de alguém que exercita, na prática, uma atividade.
Na realidade, esse processo de profissionalização vai se delineando para o campo da gestão cultural a partir da década de 1980, quando, até então, era muito difícil viver exclusivamente do trabalho de produtor ou gestor cultural, que nem mesmo era considerada uma profissão. Esse tema foi explicitado por Bruna ao
afirmar que: Até a década de 80 não era confortável, num certo sentido, sobreviver de projeto cultural, fazendo aquilo que você gosta de fazer. Na verdade, profissionalização é quando você pode viver desse trabalho, no meu caso, o trabalho da gestão cultural. Nos dizeres atuais são introduzidas algumas questões que apontam o processo de complexificação do significado de ser profissional, ou seja, “ocupação especializada”, “supõe determinado preparo”, “carreira”, “meio de subsistência remunerado” .
A idéia de profissão também pode estar associada a “determinado preparo”, que inclui tanto o de nível superior quanto os de extensão, livre, técnico- profissionalizante, não especificando necessariamente um conhecimento adquirido nas universidades. Como apontado por Bruna, é interessante a gente colocar que profissionalização não significa necessariamente uma educação formal. De modo nenhum. Devemos entender a profissionalização num sentido mais lato. Imagina se eu a entendesse do ponto de vista restrito da academia?
Os verbetes anteriormente citados permitem fazer uma exploração inicial do significado da profissão, das possíveis trajetórias, da relação de profissionais e de suas formas de inserção no mercado de trabalho, o processo formativo (preparo) e o papel do Estado e do mercado na construção de novos perfis profissionais. Mas, ao mesmo tempo, faz-se preciso compreender o “caráter fluido e indistinto das fronteiras profissionais” (DINIZ, 2001, p. 19) no mundo contemporâneo, ambiente em que a gestão cultural se desenvolve e se encontra ainda em processo de estruturação como profissão.
Os estudos relativos à profissão levam em consideração o fato de ela estar inserida em um contexto sociopolítico, econômico, histórico e cultural que define algumas características específicas e identitárias, em decorrência das
diferentes realidades entre países e regiões. Portanto, a questão fundamental deve girar em torno da discussão em que “o processo de construção de uma identidade profissional própria não é estranho à função social da profissão, ao estatuto da profissão e do profissional, a cultura do grupo de pertença profissional e ao contexto sócio-político em que se desenrola”. (HOLLY. In: NÓVOA, 1992, p. 116.)
A partir da concepção de profissionalização do ponto de vista contemporâneo, respaldadas em trabalhos de autores como Bourdieu (1979), Holly (1992), Coelho (1999) e Diniz (2001), aponta-se que, além do contexto histórico determinante de suas especificidades, a profissão, em amplo sentido, deve ser entendida como um processo contínuo, que requer uma seqüência de fatos. Torna- se importante pontuar que autores como Diniz (2001) e Coelho (1999) apontam, de forma mais precisa, algumas questões associadas ao desenvolvimento das profissões no Brasil, tais como: quando a ocupação vira, de fato, um trabalho especializado e reconhecido, a formação profissional passa a ser uma exigência de mercado, o Estado reconhece a profissão como um elemento constituinte do seu próprio quadro de funcionários, a criação de associações de classe começa a ser discutida e, por fim, questiona-se a falta de estatutos de regulamentação da profissão e de um código de ética – instrumentos que possam oferecer parâmetros para seus grupos profissionais, aspectos que serão analisados ao longo do capítulo.
Tal dinâmica é considerada inerente ao processo de estruturação das profissões, respeitando os atributos específicos de cada uma. No entanto, o mais difícil é saber identificar o que é, de fato, essencial para cada profissão e, principalmente, que a ordem da apresentação dos elementos não pode ser apreendida como um sentido cronológico e linear de estágios evolutivos. A reflexão a respeito do reconhecimento e estabelecimento de uma atividade como categoria
profissional é necessária, mas o aprofundamento desta questão foge dos limites propostos dessa pesquisa.
Outro aspecto dessa discussão diz respeito à profissionalização a partir do ponto em que a ocupação se torna um trabalho de tempo integral, ou seja, quando se faz a escolha da gestão cultural como caminho profissional e da capacidade de viver exclusivamente desse trabalho. Os relatos de Maria, que iniciou suas atividades em um período mais recente, confirmam com veemência esta realidade:
Eu não tive nem um desvio de rota desde que fiz o curso de Gestão no IEC.23 Todos os projetos em que me envolvi a partir dali foram da área cultural. Eu não precisei lançar mão de nenhuma atividade paralela à cultura para garantir a minha sobrevivência.
Continua dizendo:
Tenho conseguido traçar uma linha ascendente na área cultural. Cada vez mais tenho conseguido sobreviver de cultura e de arte melhor do que eu sobrevivia ontem. Hoje, sobrevivo melhor do que ontem e vejo, por uma tendência, que amanhã eu talvez vá sobreviver melhor do que hoje.
Esse é um fato a ser considerado entre os gestores culturais de atuação mais recente, tendo em vista que se iniciaram profissionalmente em um cenário cultural em Belo Horizonte bem mais complexo e estruturado em termos de recursos financeiros para o setor, de incentivos para a produção artística e diante da própria ampliação e disponibilização de equipamentos culturais na cidade, dando condições básicas de sobrevivência profissional nesse mercado de trabalho.
23 Curso de especialização em Planejamento e Gestão Cultural promovido pelo Instituto de Educação Continuada, da PUC Minas em 1999.
A estrutura profissional nas sociedades contemporâneas tem sido discutida a partir de sua dinâmica, que vem sofrendo mudanças rápidas, portanto, como afirma Holly (in: NÓVOA, 1992, p. 46), “se algumas profissões tornam-se mais vulneráveis a certos controles externos e perde privilégios e prerrogativas, outras surgem ou se fortalecem abrindo novas áreas funcionais na divisão social do trabalho profissional e expandindo o seu controle”. Assim, por detrás do processo de “universalização de novas linguagens e visões do mundo criado pela informatização das comunicações encontram-se novas expertises à procura de sua forma profissional.” (HOLLY, in: NÓVOA, 1992, p. 166.)
Questiona-se em qual estágio do processo de profissionalização a gestão cultural se encontra e quais as formas possíveis de construção desse processo, que parecem não ser únicas, pois as realidades são múltiplas, portanto, devem estar sintonizadas com as peculiaridades de cada atuação profissional e, principalmente, com o contexto sociopolítico no qual estão inseridas. Como parâmetro para a discussão, considera-se a afirmação de que toda ocupação qualificada é, de certa forma, profissionalizada.
A discussão em torno do tema “profissão e profissionalismo” tornou-se um grande desafio para os gestores culturais, principalmente no momento em que precisaram definir suas carreiras profissionais, entendendo quais eram as possibilidades de atuação no mercado de trabalho. A questão era clara: Qual o caminho ainda a ser trilhado para alcançar as suas perspectivas profissionais, pois se encontravam diante do risco de se definir por uma profissão que, até determinado momento, mais precisamente em meados da década de 1990, não era considerada ou reconhecida como uma profissão?