3. Beskrivelser av alternative løsninger for omfundamenter ing og andre tiltak
3.1 Krav til omfundamentering . rammebetingelser og konflikter
Os moradores da comunidade de Canto Verde usam seus saberes também para conseguirem organizar melhor as construções de suas casas, e esses saberes, por traduzirem a ânsia do novo e o desejo perene de algo conservar no tempo, por virem amalgamados a temporalidades diversas, por isso mesmo são signos de saberes de construção. O historiar concreto, que vem da etnografia, ajuda a ver o sentido, quando ele migra. É o movimento do tempo que ele vê.
A comunidade se faz em cima das dunas (figura 28), ou seja, de muita areia e lagoas. Essas dunas se movimentam sempre com os ventos que sopram muito mais forte já que a localidade é praieira e os ventos se tornam mais fortes e frequentes. É que no início da comunidade, as casas eram feitas de palha de coqueiros, por conseguinte, de taipa (barro da praia batido); depois, já nos anos 1980, com o aumento do capital social e econômico da comunidade, muitos construíram suas casas de tijolos. Atualmente existem pouquíssimas casas de palha, a grande parte é de tijolo.
Figura 29- Casas entre as dunas
Fonte: Arquivo da Comunidade
Para a construção das moradias é preciso que os moradores percebam e avaliem a questão dos ventos, e os melhores lugares de construção para que não haja soterramento das casas. Assim, é necessário um vasto conhecimento sobre os próprios movimentos dos ventos e os lugares que alagam ou não, e esse conhecimento está atrelado à observação e à experiência dos moradores com a paisagem local.
Para conter as dunas que também estavam e estão avançando em alta velocidade para as casas e a estrada da comunidade, muitas vezes chegando a deixar a comunidade isolada, com dificuldades de entrar carros, mercadorias e outras coisas, devido ao avanço das dunas na estrada, bem como devido a ocorrência de haver mais casas enterradas, inclusive o prédio do posto de saúde da comunidade, os moradores buscaram técnicas que pudessem amenizar os impactos das dunas nas moradias.
A gente aqui já tem sofrido muito com a areia. Aí temos que arranjar um jeito de conter ela para não prejudicar ainda mais. Eu acho que hoje vem mais areia pra cá do que antes. Os meninos dizem que os cascas no mar estão tudo enterrado, aqui mais na costa, né. Então tem muita areia vindo. Dizem que pode ser porque as pessoas tão tirando os mangue para plantar o camarão, aí a areia que eles segurava, vai todinha pro mar e vem pra cá. Então a gente tem que arranjar um jeito de ajeitar.
Aí vamos colocando palhas, essas coisas para não enterrar as coisas que a gente constrói que é nossa vida, né. (Dona de casa).
Nas dunas da comunidade não tem vegetação, a maioria delas é só areia mesmo, devido a isso elas se deslocam com uma facilidade maior rumo ao local onde se concentram as moradias, assim a questão das dunas torna-se um problema para os comunitários, pois o medo de perder as casas para as dunas é grande, depois de tantas histórias de lutas. Bom, isso não é uma situação frequente, a perca das casas para as dunas, porém, se os moradores não se precaverem pode prejudicar ainda mais e de modo rápido.
A partir dessa situação-limite (FREIRE, 1992), ao verem em outros locais a contenção das dunas, os prainheir@s resolveram experimentar a ação; e iniciaram fazendo paredes de palhas. Porém, essas paredes continuaram a juntar dunas, assim, viram que a prática não seria apropriada e deste modo resolveram colocar palhas deitadas em cima das dunas; essa ação ajudou completamente na diminuição de dunas, bem como paralisou algumas dunas no local sem deixá-las deslocar-se. Aos poucos também foram plantando mais vegetações para ajudar a segurar as dunas em seu movimento.
Atualmente, moradores que moram mais próximo das dunas realizam esse trabalho de contenção da mesma, devido ao grande avanço delas, assim, já se torna necessário um trabalho para que estas não venham a afetar, de forma mais severa e negativa a vida dos prainheir@s, já que o seu território, espaço para moradia, fica entre as dunas. “Então a
Associação aconselha o pessoal de não construir as casas nas dunas assim em cantos que pode enterrar e alagar também. Porque você logo vai perder a casa. Mas como já tem muita casa hoje, fica mais difícil achar canto bom”.
No entanto, há também um cuidado de não se construir em cima das mesmas, tanto por conta do espaço ser móvel, como também pelo fato de as dunas serem um espaço de preservação ambiental. Deste modo, uma das regras sobre o plano de manejo da comunidade é não realizar construção sob a duna. Isso é respeitado. As dunas são paisagem de Canto Verde, se tornam lugar de admiração, brincadeiras e passeios de turistas e comunitários, bem como detém os lençóis freáticos que acumulam água para o consumo da comunidade e da região.
Portanto, apesar destes trabalhos de contenção há um cuidado com estes acumuladores de água que são de grande relevância para o meio ambiente e assim para toda a comunidade.
Um conceito que nos parece chave para nosso estudo é o de paisagem e ecologia da paisagem. “A paisagem pode ser considerada como um mosaico de hábitats, desde os
menos tocados pela ação humana até aqueles que sofreram uma atividade humana intensa”, observa Diegues et al. (2000). Seria, portanto, a paisagem, a resultante da interação entre os processos naturais e as atividades humanas; e mais, que a paisagem é fruto das interações natureza e inserção humana, constituindo uma História humana e ao mesmo tempo natural.
A ação das diversas sociedades modela a natureza e seus diversos hábitats, construindo um território. A vegetação também tem uma dinâmica própria, trazendo sempre traços do passado e a paisagem modelada, necessariamente, se transforma. Um mosaico de diferentes hábitats espelha a ação material e simbólica das diversas comunidades humanas que os ocuparam ao longo dos séculos. Ecólogos da paisagem consideram que a estrutura da paisagem é importante para a manutenção dos processos ecológicos e da diversidade biológica, particularmente em áreas onde vivem comunidades tradicionais diretamente dependentes dos usos dos recursos naturais. Nesse sentido, a paisagem é fruto de uma história comum e interligada: a
história humana e natural. (DIEGUES, 2000, p.08).
A paisagem é de se olhar, mas é de se escutar, pois é natural e humana. Quando geralmente estamos nos aproximando dos barracões na praia, é possível ainda ao longe ouvir já as vozes dos pescadores, estes tem o costume de falarem alto e esse o costume está atrelado ao convívio do mar.
O pescador costuma falar alto porque no mar a gente sempre tem que falar gritando para poder se comunicar com o outro, porque é muito vento. E as vezes fica uma jangada pescando perto da outra aí a gente fica conversando, aí tem que ser alto pra poder escutar, é muito vento no mar. (Pescador, 44 anos).
Hoje na comunidade existem aproximadamente quatro pescadores que constroem botes (jangadas menores) e jangadas grandes que já aprenderam com pescadores mais velhos. A maioria dos apetrechos de pesca também são produzidos por pescadores. São conhecimentos que servem para o dia a dia da vida na pesca, e geralmente são transmitidos de geração em geração, de pais para filhos e também entre uns aos outros.
O diálogo entre gerações – intergeracional – se fez instrumento educativo nunca esquecido; é que de certo, quando havia grandes enfrentamentos – e os há, ainda – seria preciso se unir a força antiga com a nova; as gerações que vêm se assumindo sujeitos agora, da luta, junto aos que historicamente já se dizem velhos, lutadores ainda, mas desejosos de que um frutuoso diálogo entre gerações sele os compromissos coletivos.
A vida em Canto Verde acontece, principalmente, em volta ao mar; é dele que as famílias retiram seu principal sustento e organizam a vida econômica e social da comunidade. O mar também serve como “palco” para as brincadeiras das crianças que costumam imitar o ofício dos pais, com suas jangadinhas feitas artesanalmente à beira mar. É perceptível nelas o deslumbramento diante da profissão arriscada de pescador e muitos dizem querer seguir esse
ofício. O mar para estes campos dialógicos simboliza vida, pois tudo em terra se relaciona com a vida do mar. Como se fosse um par indissolúvel, mesmo que com suas diferenças: um se define em função do outro.
Deste modo, para a maioria dos pescadores o ofício tem muitas adversidades e com a escassez do pescado, principalmente da lagosta, aumentou o desinteresse dos mais jovens pela profissão. No entanto, existem muitos pescadores que ainda são apaixonados pelo mar, pescam satisfeitos e sentem-se felizes com o trabalho que exercem. “Existem muitos
pescadores que gostam demais de pescar, gostam demais do mar, não ir para o mar pra eles é ficar doente”.
No entanto, em conversa com alguns pescadores, muitos dizem ainda sentir uma discriminação e falta de valorização da profissão de pescador, pois ainda há uma visão construída ao longo tempo dando negativo valor a esse ofício, que leva no bojo o desvalor à pesca artesanal. Isso tem dado impacto na escolha da profissão de pescador pelos jovens e, às vezes, os próprios pais não querem que seus filhos sigam o mesmo caminho da pesca. Assim, a maioria dos pescadores têm entre 30 e 65 anos de idade, e existem apenas, aproximadamente uns 20 jovens de 20 à 29 anos de idade seguindo a profissão. A palavra difícil comparece repetidamente. E as políticas públicas, além de não avançarem, diz-se se retraírem, extinguindo-se os mínimos direitos dos que fazem a pesca suas vidas, tirando daí seu sustento.
Hoje ser pescador está mais difícil, o peixe está escasso, a lagosta que é o nosso principal ouro nem aparece mais. Ano passado não conseguimos pescar nada. Ainda existe uma grande burocracia para ajeitar nossas documentações, tudo se torna mais complicados para o pescador, por isso muitos jovens não querem mais pescar, ainda tem essa questão do seguro defeso que parece que vai acabar (Pescador, 29 anos).
Para outro pescador:
Creio que seja pela diminuição da pesca ano passado a lagosta que nós pegamos todinha viva, nós pegamos 120 kg de lagosta viva e isso pescamos três meses, enquanto na década de 90 até 2000, por exemplo 120 kg a gente pegava de uma puxada só, em um dia só a gente pegava isso, hoje a gente pesca três meses para pegar 120 kg. Em 2015, nós pescamos dois meses e meio, pegamos 14 lagostas, não foi nem 14 kg foi 14 lagostas, pescamos dois meses e meio, esse ano, ano passado houve uma melhora, mas foi pouca a produção da Prainha todinha, do ano passado foi entre 1100 e 1200 lagostas vivos que quer dizer, chega a mais ou menos uns 400 kg de caudas, onde a Prainha pescava 17 e 18 toneladas. Em 90, 92, 93 uma embarcação que encalhasse com 10 12 lagostas as pessoas ficavam era sorrindo. E nós pescamos um ano e dois meses pra pegar 12 14 lagostas. (Pescador, 40 anos).
A maioria dos jovens prainheir@s, ou melhor, dos homens da Prainha já foram ao alto mar pescar, ou de alguma forma frequentam por vezes esse local, mas nem todos seguem
isso cotidianamente, pois muitos jovens têm procurado viver de outros modos, para não seguirem a vida de pescador, embora seu imaginário, referenciais, diálogos e os fatos comuns da vida girem em torno da vida do mar. Daí a jangada ser um signo que condensa significações não raro contraditórias. Vejamos.