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5.2 Krav til montering
A exposição de um breve histórico das cidades de Tiradentes (Brasil), Santarém e Alcobaça (Portugal) leva-me a destacar um fator ligado ao patrimônio e tradição de cada uma: o entorno paisagístico de Tiradentes é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Santarém é conhecida como “Capital Portuguesa do Gótico” e o Mosteiro de Alcobaça é classificado como “Patrimônio da Humanidade” pela UNESCO e como “Monumento Nacional” pelo Instituto Português do Patrimônio Arquitetônico (IPPAR).
Contextualizando a tradição e o patrimônio histórico e artístico das cidades de Tiradentes (Brasil), Santarém e Alcobaça (Portugal) e sua valorização, deve-se lembrar da identidade do local ou cidade, onde as atividades com potencial para a geração de renda, emprego e riqueza apresentam os produtos e serviços ligados ao entretenimento, artes, lazer e cultura, que fazem com que o indivíduo realize suas escolhas, as quais irão atender suas necessidades e beneficiar o lugar ou cidade escolhidos.
Tiradentes é uma cidade histórica, com ruas coloniais calçadas com pedras pés-de- moleque, igrejas do século XVIII, apresentando uma paisagem com sobrados coloniais, onde o turista e visitante pode encontrar restaurantes, pousadas, antiquários e lojas de artesanato que acendem seus lampiões na fachada ao anoitecer, oferecendo um visual característico da cidade. Além disso, a Serra de São José rodeia a cidade, mostrando as montanhas típicas de Minas Gerais. O cenário já serviu de locação para filmes, seriados e novelas. As charretes, estacionadas no Largo das Forras, convidam a circular pela cidade com direito a paradas nas principais atrações, como o Chafariz de São José, o Museu Padre Toledo, as igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, de Nossa Senhora das Mercês e a Matriz de Santo Antônio, a mais bonita de Tiradentes com trabalhos atribuídos a Aleijadinho. Ao longo do passeio, conhecer os ateliês que se espalham pelas ruas Direita e da Câmara é programa obrigatório. Chama a atenção a criatividade dos artesãos, que confeccionam suas obras com materiais que vão da madeira ao estanho, passando pelo papel machê e o ferro.
Ampliando este contexto, devem-se relembrar algumas atividades complementares que acontecem na vizinhança de Tiradentes e que atraem muitos visitantes e turistas que participam do festival. Seis quilômetros de Tiradentes está Vitoriano Veloso, pequeno vilarejo conhecido como Bichinho e por seu artesanato, que faz parte do município de Prados. É lá que fica a Oficina de Agosto, criada em 1991 pelo paulista Antonio Carlos Bech, o Toti. Ex-dono de um antiquário em São Paulo, ele adotou o vilarejo, onde produz objetos de arte com material reciclado, como madeira de demolição. Muitos ex-funcionários abriram suas próprias lojas e, hoje, o que mais se vê por lá são casinhas vendendo artesanato.
Tiradentes vem, a cada dia, deixando de ser apenas um destino histórico para se tornar um polo cultural, apresentando concorridos eventos há mais de dezesseis anos, como a Mostra de Cinema e o Festival de Cultura e Gastronomia. A boa mesa, aliás, é uma das características marcantes da cidade. A comida mineira é servida com fartura nos restaurantes, que capricham nas receitas tradicionais e as incrementam com ingredientes como o ora-pro-nóbis, um tipo de folha que dá um gosto todo especial ao frango e ao angu, pratos típicos da região.
Como foi descrito anteriormente, todo o entorno paisagístico de Tiradentes é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e hoje, Tiradentes se orgulha de sua vocação turística, sendo considerado um polo turístico importante do Brasil.
A cidade de Santarém é conhecida como “Capital Portuguesa do Gótico”, por todo o seu patrimônio arquitetônico. A cidade foi palco de inúmeras cortes, mas foi perdendo sua importância para Lisboa. A Igreja da Graça localiza-se no centro histórico da cidade e é uma das igrejas mais importantes, pois o navegador Pedro Alvares Cabral, descobridor do Brasil encontra-se sepultado nesta Igreja, que fica ao lado da sua antiga casa, agora museu e no largo com o seu nome. Santarém é Monumento Nacional desde 1910, sendo um dos exemplos de arte gótica mais importante do país.
O Festival Nacional de Gastronomia demonstra em cada atividade apresentada, o posicionamento da cultura nos programas locais de desenvolvimento econômico e social e a revelação de oportunidades, identificando os ativos da economia criativa. A programação do festival procura a cada ano interagir com os visitantes e participantes com: jantar de abertura, almoços temáticos, animação para as crianças e famílias, concurso de petiscos e sopas, tasquinhas24, vinhos e outras bebidas, além de estandes com o artesanato de Portugal, com a
24 Tasquinhas: nome que são conhecidos os restaurantes que representam as respectivas regiões portuguesas, presentes no Festival Nacional de Gastronomia.
famosa doçaria conventual, queijos e enchidos e um programa cultural com especial destaque para a cultura Ribatejana25.
O Festival Nacional de Gastronomia de Santarém apresenta além das atividades descritas, exposição de produtos agroalimentares como enchidos, queijos e ervas aromáticas, artesanatos regionais, representação culinária do receituário de diferentes cidades e regiões portuguesas, prova de vinhos e tasquinhas, almoços temáticos, gastronomias mediterrânicas26,
conferências que debatem de forma informal temas ligados à gastronomia e ao turismo das diferentes regiões.
A história da cidade de Alcobaça está vinculada ao Mosteiro de Alcobaça, que é classificado como “Patrimônio da Humanidade” pela UNESCO e como “Monumento Nacional” desde 1910, pelo Instituto Português do Patrimônio Arquitetônico (IPPAR). Em 2007, por iniciativa do Ministério da Cultura de Portugal, o Mosteiro de Alcobaça foi eleito como uma das sete maravilhas de Portugal.
Do século XII ao século XIX, os monges e monjas cistercienses27 imprimiram a sua
marca na cultura alcobacense, nomeadamente na doçaria conventual, que tanto diferencia e que coloca a cidade na vanguarda da promoção e recuperação desse patrimônio. Desta forma, o Festival de Doçaria Conventual há mais de dezesseis anos, coloca Alcobaça como “Cidade dos Doces Conventuais”.
A tradição conventual, verdadeiras iguarias criadas através de diferentes experiências de longa prática e dedicação, que ao longo dos séculos foram envoltas de secretismo e hoje são colocadas ao dispor dos visitantes e turistas que visitam o local buscando participar do festival. A gastronomia e os produtos e serviços disponibilizados no festival refletem o modo de vida e a economia das cidades, recriando espaços, pratos, saberes e atividades culturais guardados nas memórias das histórias dos avós e familiares. Os segredos do sucesso, em que se podem relacionar os ativos da economia criativa estão as sociabilidades regionais e simultaneamente o fator de desenvolvimento do potencial econômico das regiões, com suas
25 Ribatejo: Província tradicional de Portugal.
26 Gastronomia mediterrânica: é a culinária ligada a vários povos que se encontram ao redor do Mediterrâneo e que são típicos desta região as oliveiras, os citrinos e uma enorme variedade de ervas de cheiro que dão cor e sabor especiais a esta culinária.
características peculiares: a gastronomia local, o vinho, o convívio e interação social, o compromisso e sentido de pertença dos municípios, a riqueza etnográfica e identidade cultural.
Atenta à preservação das tradições da cidade, a organização de cada cidade em que os festivais acontecem, tem procurado que a programação e apresentação gastronômica tenha a presença de pratos característicos e típicos e, desta forma, algumas das receitas regionais, muitas delas de raiz secular, que corriam o risco de desaparecimento ou desvirtuamento, sendo assim recuperadas e reabilitadas, constituindo um apelo à criatividade e aos aspectos da riqueza cultural e patrimonial
O breve histórico das cidades referenciadas relaciona-se aos dizeres de Bourdieu (2010:157-158), o qual comenta sobre as propriedades dos diferentes mercados e do agente, que determinam a eficácia da aquisição desejada:
[...] A competência específica (em música clássica ou em jazz, em teatro ou cinema, etc.) depende das hipóteses que os diferentes mercados, familiar, escolar ou profissional, oferecem, inseparavelmente, à sua acumulação, à sua utilização e à sua valorização, ou seja, ao grau em que favorecem a aquisição dessa competência, prometendo-lhe ou garantindo-lhe proveitos que são outros tantos reforços e incitações a novos investimentos. [...] Também aqui, é na relação entre as propriedades do campo (nomeadamente, as hipóteses de sanções positivas ou negativas que oferece “em média”, para um qualquer agente) e as propriedades do agente que se determina a eficácia [...].
Bourdieu contextualiza as competências específicas, as quais se pode ponderar a criatividade nas atividades gastronômicas e culturais dos festivais, considerando os diferentes mercados e consumidores, garantindo e favorecendo novos investimentos, que refletem a economia dos locais. Neste caso, a abordagem de cidades criativas se faz necessária e será descrita no próximo item, numa interseção entre o lado econômico e cultural em que se insere a dimensão criativa nas cidades dos festivais pesquisados.