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2.6 Krav gitt av Statens Vegvesen

Pensamento é criação. Essa frase sintetiza, a nosso ver, a questão central da pesquisa. Porém ela não esgota o assunto. Podemos imaginá-lo como o ponto no centro da dissertação, mas a sua composição de três palavras se abre para um leque de derivações que percorrem novos caminhos e amplia em larga escala o horizonte. “Pensamento”, “é/ser”, “criação” são conceitos da perspectiva filosófica francesa sobre a qual nos debruçamos durante os nossos estudos. Cada conceito poderia ser pensado por si mesmo, o que garantiria uma longa pesquisa sobre a obra de Gilles Deleuze. Contudo, não é possível recortar e guardar em “caixas” os conceitos do filósofo francês que não trabalha com método lógico convencional, mas com uma espécie de cartografia que almeja um sistema aberto. Portanto, ao longo dessa pesquisa foram tratados alguns aspectos do pensamento filosófico deleuziano que abordam as relações entre pensamento e diferença, entre criação e pensamento, entre pensamento e arte, entre diferença e arte, entre literatura e criação do pensamento. Tudo como um embaralhamento desses códigos binários (pensamento e diferença/ criação e pensamento/ pensamento e arte/ diferença e arte/ literatura e criação do pensamento), mas não justapostos, e das suas múltiplas interferências de uma temática sobre a outra.

Levantamos tais relações a partir do conteúdo teórico dos livros Diferença e

Repetição, Proust e os Signos e O que é filosofia? Tais obras foram escritas em

diferentes contextos que inscreve o pensamento do autor. O que encontramos em comum nessas obras, para além dos seus conteúdos teóricos, foi à problemática acerca da criação do pensamento da diferença. E de modo geral, observamos também nesses livros o mesmo que percebemos ao longo de todos os escritos de Deleuze incluindo aqueles em que ele compartilhou as suas reflexões junto à Guattari: “uma só e mesma paixão por escrever; mas não a mesma” (DELEUZE, 2015, p. 76). Utilizando um trecho dos autores na obra Kafka, por uma literatura menor podemos ter uma dimensão do diálogo virtual que criamos com as obras no percurso de nossos estudos:

Jamais se fez obra tão completa com movimentos, todos abordados, mas todos comunicantes. Por toda parte, uma só e mesma paixão por escrever; mas não a mesma. Cada vez a escrita transpõe um limiar, e não há limiar superior ou inferior. São limiares de intensidade, que não são mais altas ou mais baixas a não ser pelo sentido em que se percorrem (DELEUZE, 2015, p. 76).

No entrecruzamento teórico das obras em relação ao pensamento da diferença vimos que Gilles Deleuze se propôs a pensar um pensamento novo. Um pensamento

112 contrário ao instaurado pela linguagem do platonismo no qual se valoriza os pressupostos da representação, por exemplo, o método, a verdade, a identidade, entre outros. O filósofo denunciou a imagem representacional do pensamento demonstrando os danos que ela causou ao pensamento ao torna-lo adestrado, submisso, acovardado diante das questões do erro e da verdade; como também questionou a ideia comumente aceita sobre o que vem a ser pensamento e como o mesmo se manifesta. Tanto mais, Deleuze não somente criticou a imagem representacional, mas propôs uma nova e outra imagem do pensamento. Um pensamento novo que ele denomina como “Pensamento sem Imagem”. Esse primeiro ponto buscamos apresentá-lo no capítulo Modulações do

pensamento da diferença: seu plano diretor.

O pensador reconhece a dificuldade da filosofia de voltar para si mesma e buscar as suas falhas, reconhecer os seus vícios de pensamento. Não apenas por um narcisismo exacerbado, mas porque a autorreflexão exigiria um olhar de fora para si - uma tarefa que é não das mais fáceis quando participam da autorreflexão tradições de pensamentos com tamanha pregnância junto à tradição filosófica ocidental. O filósofo encontrou outra maneira para pensar a filosofia. Pensá-la pelas interferências dos seus aliados: as outras áreas do humano, como, e principalmente, a arte. Como explicitamos no capítulo Aventuras criadoras: sobre a intempestividade dos encontros, Deleuze encontrou uma rica aliança teórica no romance de Marcel Proust Em busca do tempo

perdido. Através do conteúdo artístico do romance ele pode denunciar as falhas do

pensamento representacional, pode pensar o movimento primeiro do pensamento e, entre outras coisas, se deparou com uma imagem outra do pensamento, o que considerou um pensamento sem imagem. A literatura lhe foi cara desde o início de seus trabalhos. O filósofo encontrou nessa arte diversas alianças para pensar junto, mas encontrou também escritos que estavam um passo adiante do pensamento filosófico em respeito ao pensamento vivo. Assim, em diversos casos, Gilles Deleuze não pensou com a literatura, mas pensou a partir dela.

E isso tudo não somente pela semelhança na maneira de produção das suas obras. O filósofo frisa, avançando, a igualdade entre o pensador filósofo e o pensador literato que utilizam as mesmas matérias primas para construírem seus trabalhos, qual seja, a própria experiência vivida. “Do que viu e ouviu, o escritor [assim como o filósofo] regressa com os olhos vermelhos, com os tímpanos perfurados” (DELEUZE, 2011, p. 14). Retornam perturbados, pois, com os atravessamentos que os acometeram e recorrem à criação a fim de expressar aquilo que tocou o seu íntimo.

113 A literatura constrói novos mundos, novos povos, novas paisagens, para além do vivido ou vivível, sobretudo em seus romances. “Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido” (DELEUZE, 2011, p. 11). Deleuze assegura que a “finalidade da literatura: é a passagem da vida na linguagem que constitui as Ideias” (DELEUZE, 2011, p. 17). Utilizando a própria definição de Deleuze presente no seu último trabalho antes do seu falecimento, sobre a escrita literária ele aponta:

Mas a literatura segue a via inversa, e só se instala descobrindo sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal, que de modo algum é uma generalidade, mas uma singularidade no mais alto grau: um homem, uma mulher, um animal, um ventre, uma criança... As duas primeiras pessoas do singular não servem de condições à enunciação literária; a literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos destitui do poder de dizer Eu (DELEUZE, 2011, p. 13).

Por considerarmos uma potencialidade importante para o pensamento da diferença é que visamos apresentar algumas das contribuições da arte literária durante o percurso da criação do pensamento sem imagem. As alianças e as interferências das demais áreas do saber acompanharam Deleuze por todos seus escritos, mas é apenas na década de 90 que ele publica a obra O que é Filosofia? na qual tematiza a horizontalidade das criações do pensamento apresentando um apanhando teórico que trata a criação do pensamento tanto na arte como na filosofia, e também na ciência. Foi sobre a criação da arte e da filosofia que direcionamos o capítulo Pássaros em

liberdade: criação e re-criação do pensamento sob filtro deleuze-guattarinian. Donas

dos seus planos, interferências e produtos de criação, cada área singulariza o processo criador; na filosofia: plano de imanência, personagens conceituais, conceitos; na arte: plano de composição, figuras estéticas e monumentos artísticos. Ambos os processos estão submetidos às adversidades que provocam o pensador a lidar com as interferências externas que o desestabilizaram, as mesmas que o levaram a criar. Ou seja, os signos são os agentes percussores do pensamento filosófico ou do pensamento artístico. Em um caso ou no outro, são os encontros violentos com os signos que levam o sujeito ao seu limite, o que lhe possibilita criar um pensamento expresso por conceitos ou por sensação.

É importante retomar na conclusão, algo que foi recapitulado durante toda a pesquisa, a saber: o pensamento para Deleuze não tem preexistência, ele não é inato,

114 algo dado; ao contrário: o pensamento deve ser provocado, o pensamento em qualquer um dos eixos é criação. Não há um juízo moral sobre qual área pensa melhor, pensa mais ou que pensa corretamente. O moralismo não encontra espaço na teoria francesa da diferença. Arte e filosofia criam pensamento. Ambas pensam. Pensam juntas e pensam separadamente. Mas pensam por mecanismos distintos, o que não torna seus pensamentos melhores ou piores, mas apenas diferentes ou complexos.

Podemos dizer que o legado do pensamento de Deleuze consiste em aprendemos com ele o mesmo que Manoel de Barros aprendeu Rômulo Quiroga. Em sua poesia As lições de R.Q. o poeta escreve que “A expressão reta não sonha./Não use o traço acostumado./A força de um artista vem das suas derrotas./Só a alma atormentada pode trazer para a voz um/ formato de pássaro” (BARROS, 2004, p. 75). Algo muito próximo à teoria de um filósofo reconhecido como um pensador da diferença. Muito mais do que uma um sistema filosófico de pensamento, encontramos nas obras de Gilles Deleuze um grito de apelo em favor da criação de um pensamento livre de qualquer sistemática colocada de antemão. Um apelo à diferença. O pensador quer oferecer à filosofia uma maneira outra de criá-la e de pensá-la. Oferecer um novo fôlego àquilo que caduca debaixo do guarda-sol 28por medo das queimaduras solares. Ao insistir na ruptura da concepção de que o pensamento é um atributo somente da filosofia ele abre o diálogo para o de-fora, para a não-filosofia, para as artes. No seu intuito de transver o

mundo a partir da diferença, Deleuze aprendeu a pensar com a arte e não a fazer

filosofias sobres às artes. Sentiu o que a arte tinha para contribuir e escreveu sua teoria baseando-se, em muitas vezes, nas obras artísticas. O filósofo se aliou a arte e se apropriou das suas singularidades no seu projeto de pensamento. Seguimos com o aprendizado de Manoel de Barros:

Arte não tem pensa:/ O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê./ É preciso transver o mundo./ Isto seja:/ Deus deu a forma. Os artistas desformam./ É preciso desformar o mundo:/ Tirar da natureza as naturalidades./ Fazer cavalo verde, por exemplo./ Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall./ Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar./ Até já inventei mulher de 7 peitos para fazer vaginação comigo (BARROS, 2004, p. 75).

O pensamento novo requer novos meios para pensar o diferente. Audacioso e perigoso; é um pensamento que requer coragem. Pensar com Deleuze e se envolver com sua teoria é lançar-se na busca de um pensamento que não se contenta na reprodução do

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115 mesmo. Um pensamento que busca romper com a representação para assegurar a diferença. Um desafio e tanto em tempos como os nosso: em que as diferenças minoritárias ainda são vistas caminhando pelas margens. O que é ainda mais alarmante quando verificamos que é preciso uma nova imagem do pensamento. Como disse o poeta “agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar”. Deleuze já soou o alarme silencioso da diferença, cabe, agora, prosseguir na criação de pensamentos outros e de novos mundos.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS