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KRAV 7: AREALINNGREP

KONSEPTER PÅ TRINN 4

5.9 KRAV 7: AREALINNGREP

―O espírito do vazio (Wu ji) está grávido das galáxias, do homem e da história. Estar vazio é como ter o universo dentro de si‖.

(Anônimo)

Inicialmente, visando tornar bem sucedida essa aproximação entre conceitos tão complexos e demonstrar a sustentabilidade teórica e possibilidade estética de abordagem aproximativa do conteúdo teórico da Metafísica do belo e da Metafísica ética de Arthur Schopenhauer, será indispensável lembrar o que foi tratado no tópico 1.5, precisamente sobre a essência do gênio.286

Puro sujeito que conhece e objetividade mais perfeita do espírito. Com estes conceitos

preciosos, Schopenhauer nos apresentou a essência do gênio esteta. Mas, pretendemos compreender mais a figura do santo para podermos constatar de que maneira aqueles dois conceitos, apresentados acima equiparam ambas as figuras no que tange ao conhecimento objetivo. Por isso, começaremos considerando a possibilidade de salvação no Nada.287

Desse modo, poderemos refletir criticamente sobre o fato de a libertação proporcionada pela arte, segundo Schopenhauer, não ser apresentada como definitiva, mas apenas momentânea. Para ele a libertação de caráter mais duradouro é a que implica na conduta ascética. Isto seria o que justifica a passagem e que representaria um avanço no processo de superação do sofrimento universal, avanço da Metafísica do Belo à Metafísica da

ética. Contudo, Schopenhauer não propôs uma ética, porque sua teoria não admite

justificativas racionais para qualquer tipo de dever ou imperativo da razão para a ‗correta‘ direção da conduta humana. Antes, ele rejeitou as antigas formas coercivas e imperativas de filosofar sobre os hábitos humanos.

286 ―Digo: a essência do gênio é a capacidade de apreender nas coisas efetivas suas Idéia e, visto que isso só pode

ocorrer numa contemplação puramente objetiva, na qual todas as relações desaparecem – em especial as relações das coisas com a própria vontade somem da própria consciência -, então o gênio também pode ser definido como a objetividade mais perfeita do espírito, isto é, a capacidade de proceder intuindo puramente, de perder-se na intuição, de abandonar o conhecimento a serviço da vontade, isto é, de perder de vista seu interesse, seu querer seus fins, de desfazer-se de sua personalidade e permanecer como puro sujeito que conhece, claro olho cósmico. É justamente essa capacidade que diferencia o gênio do homem comum.‖ In SCHOPENHAUER, 2003, p. 66.

287 O Nada em questão pode ser entendido como um mal menor do que o mundo, ou a totalidade dos seres que

Ao que nos parece, apenas do ponto de vista do fenômeno, ou seja, observando empiricamente a conduta do artista e do santo é possível admitir uma diferenciação de duração no estado contemplativo que aquieta o sofrimento de todo querer.

Por outro lado, enquanto o esteta contempla a verdade do belo, o santo, livre de qualquer observância a mandamentos, contempla a verdade da ação. Mas, isto, sem se ater às imposições necessárias da Vontade. Agindo assim, ambos praticam o bem, mas; não como finalidade moral, e, sim, como ação livre oriunda de uma negação da vontade.

Para Schopenhauer, o egoísmo - cuja superação somente seria possível mediante o conhecimento da natureza única universal da Vontade e que faz do homem o lobo do homem, advém da ilusão de vontades independentes que afirmam seus ímpetos individuais - é um dos principais impedimentos à possibilidade de uma conduta livre do domínio da vontade, e que só pode ocorrer pela superação do principium individuationis. Isto implicando no desaparecimento da individualidade. Nisto se caracteriza o homem nobre. Desse modo, ao espírito de luta contra os semelhantes segue-se o espírito de simpatia, de compaixão, e, libertado pela compreensão do Tat-tvam asi, o homem atinge o princípio que é o fundamento de toda verdade moral, a saber: não contribuir para aumentar o sofrimento de nenhum ser, agindo sempre com base na identificação com o outro e não na diferença. Este princípio não apelaria para uma constatação meramente racional, não derivaria de estudo, mas, de contemplação; embora possa ser formulado racionalmente. Isto poderia ser entendido como uma ética da compaixão cuja formulação mais acabada está no princípio sapiencial e evangélico, conhecido como a lei de ouro: 288 "ama a teu próximo como a ti mesmo". Mas,

nem mesmo uma ética da piedade possibilitaria ao homem atingir a felicidade, a liberdade definitiva da Vontade. Pois, a mais completa forma de salvação para o homem somente pode ser encontrada na renúncia ascética ao mundo e a todas as suas solicitações, numa contradição dos instintos naturais neles mesmos, mediante uma negação consciente de todo desejo. Isto culminaria numa espécie de nada-querer.

Como se vê, o santo é este ser humano que superou os horizontes carentes do homem comum e o mundo da vontade, atingindo a perfeita consciência de si identificando-a ao

288 Uma das normas morais mais importantes que surgiram na história da humanidade é chamada Lei de Ouro

(em inglês: golden rule). Esta norma surge em diferentes épocas e culturas, e não apenas na tradição judaico- cristã, como muitas vezes é afirmado. A sua redação algumas vezes assume um caráter beneficente e ativo, de fazer o que é bom, outras vezes não-maleficente, negativo, no sentido de não fazer o que é ruim. Todas, contudo, têm o mesmo objetivo: preservar a dignidade da pessoa humana. Confúcio (551 a.C. - 489 a.C.) já dizia:"Aquilo que não desejas para ti, também não o faças às outras pessoas" e o Rabi Hillel, no Sabbat 31ª (60 aC - 10 dC); "Não faças aos outros o que não queres que te façam" e Jesus Cristo (c 30 d.C), "Tudo o que vocês desejarem que as pessoas façam a vocês, façam-no também a elas". Mateus 7,12 e Lucas 6,31. Cf. Küng H. Projeto de

mundo externo para, finalmente, poder renunciar a tudo e subsistir apenas no conhecimento puro, isento de desejos, e, desse modo, poder ser um fenômeno no mundo sem ser, contudo, prisioneiro dele.

Considerando o sofrimento humano como um dos elementos mais indispensáveis da teoria de Schopenhauer, podemos deixar claro desde já que, à pergunta deste tópico, num primeiro momento, caberia uma resposta negativa, no sentido de que, nem a intuição estética tampouco a clarividência do santo propõem uma superação cabal do sofrimento humano.

A Eudemonologia corresponde a uma noção de vida humana como existência venturosa. Mas, a filosofia de Schopenhauer, por outro lado, principalmente a sua Metafísica

da Ética, não se presta a isto. Portanto, vista de uma perspectiva estética ou como

conhecimento objetivo, a felicidade289 humana pode ser tratada como vontade de vida, no

presente tópico, isto implicaria dizer que a obra de arte ainda expressaria apego ao mundo da vontade mesmo ela sendo produzida por uma ação desinteressada290 e sem relação direta com

o curso comum do mundo.291

A Eudaimonia, portanto, enquanto proposta de um télos moral estaria, assim, repousada ―sobre um erro originário‖ e acomodada sobre o ―terreno do comum‖, onde o erro é sempre presente, como é o que ocorre com o conhecimento científico.292

Sabemos que uma ação pós-meditativa costuma ser sempre mais segura, profícua e definitiva do que aquela, meramente impulsiva e irrefletida, isto para fins de utilidade. Mas, em geral, na produção da bela arte, o elemento irracional é indispensável, portanto, é como que indeterminada no tempo e no espaço, como ocorre no caso do artista que escreve poesia ou pinta uma tela.

289 Lembremos que o Olho cósmico ou sujeito puro do conhecimento é o estágio final de consciência que

consiste unicamente no conhecimento imediato da essência do mundo. Portanto, felicidade e infelicidade são estados ilusórios superados e que desaparecem, como disse Schopenhauer: ―Tudo isso provém do fato de que, no instante do abandono ao intuir puramente objetivo, libertamo-nos de todo querer, e, com isso, como que entramos num outro mundo, onde tudo o que antes excitava a Vontade e nos abalava tão veementemente desaparece‖. In SCHOPENHAUER, 2003, p. 94.

290 Propor uma abordagem estética da ética implica no entendimento de que o bem fazer é ação comum ao artista

e ao santo, e que ambas são desinteressadas, isto é, não apelam ao princípio de razão. Ora, se assim é, este tipo de ação pode ser verificado no mundo, mas, na visão mais comum ou da maioria é tido como nada, ou seja, uma ação sem razão é, aos olhos da moral vigente, uma ação impelida pela loucura. Contudo, aos olhos do artista e do santo, é ação motivada por uma intuição pura, portanto, ocorre no âmbito mais elevado daquilo que se entenderia por liberdade. Uma racionalidade livre, isto é, sem necessidade, deverá ser, também, sem razão. Como podemos notar, tudo leva a crer que o princípio de razão não deixa margem para a liberdade. Cf. SCHOPENHAUER, 1993. Los dos problemas fundamentales de la ética, p. XVII.

291Cf. SCHOPENHAUER, A. Aforismos para sabedoria na vida. Tradução do original e prefácio de Genésio de

Almeida Moura. São Paulo: Melhoramentos, 1956 p. 19.

292Cf.SCHOPENHAUER, A. El Mundo como Voluntad y Representación. Tomo II. (Complementos). Tradução

O que estamos considerando aqui é que, muito provavelmente, a ação do santo, semelhantemente à ação293 do artista, não apela a imperativos éticos ou morais. Isto porque,

em ambos os casos, o princípio de razão não pode exercer qualquer influência sobre a consciência do agente. Lembremos, ainda, que, para além da representação, há o sujeito mediante si mesmo, Olho cósmico do particular. Nesse sentido, a filosofia de Schopenhauer alude às considerações que se ancoram no pensamento de Kant, senão, vejamos o que se segue:

Com efeito, em seu sistema, tudo quanto é apreendido objetivamente é tão-só e unicamente representação e não fenômeno ao qual corresponde um noumeno, como

queria Kant. Entretanto, ao perguntar se existe algo mais que a representação, o sujeito se descobre a si mesmo, como ponto de partida, que é para a cognição universal. E quando se vê, a um só tempo, como sujeito e como objeto, na dupla posição de contemplador e contemplado, descobre em si algo de imediato, de não representado, isto é, a Vontade, como íntima propulsora do ‗EU‘ e da vida, Vontade essa que é objetivada pelo corpo. A Vontade é, pois, o em-si do corpo, ou seja, a própria coisa- em-si. Vontade, porém, não é apenas a humana. É todo impulso interior pelo qual se operam as transformações, nos três reinos da natureza.294

A partir disto, podemos entender que, para Schopenhauer, uma vida venturosa não existe, propriamente falando, porque os desejos nos torturam e deveríamos renunciar a eles visando ao aprimoramento de nossa liberdade moral em detrimento das energias primitivas volitivas. Considerar isto é como que intentar contra o movimento e o conhecimento da coisa-

em-si, o que nos condiciona sempre no erro originário. Mas, não é justamente essa quebra

com o necessário impulso da vontade que apontaria para a possibilidade da liberdade?295 A

resposta schopenhaueriana a esta questão é positiva.

Sabemos que tempo, espaço e causalidade incidem sobre as Idéias, ocultando-as na sombra de Maia, ou, como também enunciou Platão296.

É por meio dos conceitos que notamos a sucessão e a diversidade dos fenômenos e de tudo que se determina, desde os graus mais inferiores de força natural até a suprema atividade

293 Somente um ser que é resultado e obra de si mesmo pode ser entendido como livre e incondicionalmente

responsável por seus atos.

294 In SCHOPENHAUER, Arthur. SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para sabedoria na vida. Tradução do

original alemão e prefácio de Genésio de Almeida Moura. São Paulo: Melhoramentos, 1956, p. 10.

295 Para entendermos a negação da vontade, importa considerar que não há, dentro dos atos da vontade, termo

médio entre determinação e liberdade. Nesse sentido, a liberdade do fazer difere radicalmente da liberdade de não-querer. A liberdade pertenceria, assim, ao âmbito da pura indeterminação ou liberum arbítrio indiferentiae. Cf. SCHOPENHAUER, 1993. Los dos problemas fundamentales de la ética, p. XVII.

296 O mundo da Idéia é justamente o que fundamenta o mundo da Doxa. Semelhantemente, o sujeito eterno do

conhecer, ou o sustentáculo do todo é o indivíduo, na fugacidade ou essencialidade daquilo que o torna finito, mas que, contudo, possibilita a determinidade de uma Idéia, uma vez que a essencialidade das coisas é acessada por aquilo que fundamenta a experiência do ver; porque, a visão é o modo de conhecimento sensível mais perfeito. Cf. SCHOPENHAUER 2003, p. 38-39.

consciente. A filosofia bem o sabe isto, contudo, ela mesma nos descreve acerca das Idéias, que somente os artistas e os santos a alcançam através da perenidade do entusiasmo contemplativo e da criação genial.

No caso deste discurso, onde o conhecimento está sendo tomado do ponto de vista da conduta humana, e se pretende atinar com a Idéia da conduta, devemos lembrar que ―embora pretenda ser um tratado da Vida Venturosa, os ‗Aforismos‘ nos previnem de que essa vida não existe, na acepção comum, sendo melhor renunciar à tortura dos desejos e buscar o aprimoramento das forças morais, em detrimento das energias propriamente volitivas‖.297

Por fim, quando tratamos da Metafísica do belo, refletimos acerca de um pensamento único capaz de assumir a conduta humana de modo honesto, e dissemos com Schopenhauer:

na beleza a salvação. Agora, quando nos dirigimos às considerações finais da presente

dissertação, devemos considerar uma expressão do mesmo nível, desta vez, relacionada à teoria Metafísica da ética, e que propõe: no nada a salvação. 298

Para aqueles que assumem que a simples utilização do termo salvação, já implicaria a entrada de um otimismo299, ainda que de forma sub-reptícia, no pessimismo metafísico de

Schopenhauer, podemos contrariar tal argumentação, considerando que o querer NADA não pode implicar em otimismo, seja ele prático ou teórico porque otimismo e salvação no NADA seriam, do ponto de vista da razão, um tipo de esperança, no mínimo contraditória.

297 Idem, p.11.

298 Cf. RÁBADE, 1989, p. 18.

299 Esta leitura é presente na filosofia de HORKHEIMER, Max. Shopenhauer y la sociedad. In: Horkheimer,

Max; ADORNO, Theodor. Sociológica: Madrid: Taurus, 1986. & HORKHEIMER, Max. La actualidade de

CONCLUSÃO

Partindo para as considerações de caráter conclusivo desta dissertação de mestrado acadêmico, consideraremos inicialmente que: contra o idealismo de Fichte, Schelling e Hegel, Schopenhauer propôs uma filosofia do concreto, tipificada na Vontade como fundamento imanente da realidade.

Schopenhauer percebeu em Wolff e em Kant,300 a necessidade de fundamento metafísico para a ética, 301 entendendo que a vida possui uma inegável tendência ético-

metafísica, independentemente de considerações religiosas. Dito isto, convém considerar que o presente trabalho pretendeu destacar a importância da Metafísica do belo de uma forma que pode até ser vista como pouco ortodoxa, dentre as demais propostas interpretativas da filosofia schopenhaueriana. Mas, isto, não sem propósito, uma vez que o objetivo principal era apresentar uma abordagem relevante ao tema da importância filosófica da estética - diante do predomínio quase que dogmático dos tratados éticos, e da postura quase axiomática de que: é na ética que culmina o significado geral da existência - mas que, ao mesmo tempo, possuísse sustentação teórica incontestável, principalmente a partir do exposto em O mundo

como vontade e como representação. Nesta obra, o mesmo tempo em que a ascese, na Metafísica da Ética, é apresentada como o tipo mais propício de atitude para a conduta livre; a

intuição estética, na Metafísica do Belo, é posta como o modo mais perfeito de conhecimento da essência do mundo, isto inclui necessariamente as condutas humanas. Por isso, a resposta à pergunta do tópico 3.1.4. deve ser proposta com um tipo de sic et non. 302

300 Quando do seu escrito sobre O fundamento da moral ―Schopenhauer dedicou um amplo capítulo à crítica da

fundamentação kantiana da ética. As razões dessa atenção especial a Kant são principalmente duas: em primeiro lugar, o fato de que a de Kant seja a ética vigente na época; mas, sobretudo, no que a ética de Kant serve a Schopenhauer como ponto de contraste da sua, e sua crítica como introdução a esta. – A crítica de Schopenahuer a Kant toma como fonte principal a Fundamentação da Metafísica dos Costumes. O primeiro apartado, dedicado à forma imperativa da ética kantiana e aos conceitos de lei, dever e obrigação, intenta manifestar a origem teológica de tais conceitos kantianos. Segundo Schopenhauer, depois de haver sido prejudicada pela teologia especulativa, a sua filosofia teórica, Kant propõe uma ética que tem sua base sub-reptícia na moral teológica; isto, para depois intentar deduzir daí uma teologia moral que, por resultado, teria de haver aparecido como suposto. – Desse modo, Kant incorre em uma petitio principii ao tomar a existência da lei moral como um fato dado e não necessitado de justificação ulterior, e adota uma ética prescritiva concebida como doutrina do dever. Frente a isto, Schopenhauer propõe uma ética limitada a explicar e aclarar o dado‖. In SCHOPENHAUER, 1993, Los dos problemas fundamentales de la ética, p. XXVII.

301 Idem, pp. 286-287.

302 Pedro Abelardo, Petrus Abaelardus (Le Pallet próximo de Nantes, Bretanha, 1079 – Chalons-sur-Saône, 21 de

abril 1142) ficou conhecido do público por sua vida pessoal e o relacionamento com Heloísa, de que fala em sua

História das Minhas Calamidades. O conteúdo doutrinário do seu ensino era, também ele, revolucionário. Para

aprofundar o estudo dos temas, utilizou o método, embora já usado, mas que ele desenvolveu e que consistia em analisar os diferentes pontos de vista contraditórios em relação a uma mesma questão, lançando, assim, as bases da escolástica, em especial, a técnica das disputaciones que culminou na Summa. Este método foi tratado por ele

Vimos que: ao modo subjetivo de conhecimento, por ser incapaz de conhecer os arquétipos universais e independentes do princípio de razão, cabe uma limitação insuperável de acesso à idéia de humanidade. Em Schopenhauer, conhecimento objetivo, por ser independente do princípio de razão, é o que se dá pela intuição estética imediata do mundo, sendo o conhecimento desinteressado da Idéia, e, o homem de gênio é aquele que alcança o essencial das coisas em suas formas e conteúdos, superando a subjetividade do conhecimento das meras aparências.

Desse modo, entendemos que é possível conhecer objetivamente para além do mundo fenomênico até a essência imanente do real, o que, enquanto parte, se mostra como autêntico representante do todo. E isto, de um modo que, a consciência303, livre de todo querer, atinja o

conhecimento perfeito da realidade pela satisfação da intuição estética: atitude desinteressada diante do mundo e capaz de superar todo sofrimento, aqui, advindo do querer conhecer, atitude sempre prisioneira do princípio de razão. Na Metafísica do Belo, isto ocorre num instante fugaz de genialidade, não obstante o fato de a obra de arte, estranhamente, o prolongar no tempo e no espaço, como, por exemplo, numa pintura que expresse a idéia do sofrimento humano e onde se pode verificar que o conhecimento estético é o mais profundo e

verdadeiro da essência propriamente dita do mundo.304

Portanto, o conhecimento objetivo pode ser aplicado à conduta humana, isto é, o gênio - partindo inclusive da contemplação desinteressada de si mesmo ou intuindo a natureza essencial da ação do homem no mundo - pode propor a Idéia da conduta humana. Assim, a

Metafísica da ética pode ser compreendida pela Metafísica do belo, mesmo porque, para

produzir um auto-retrato, por exemplo, o artista atua como que se encarnasse a Idéia em si mesmo, partindo de sua própria feição e ação no mundo. Ademais, em autobiografias ele

na obra conhecida como Sic et Non (Sim e Não). Original foi também a sua concepção ética: afirmava que a intenção é tão importante como o acto que dela dimana. Cf. SPINELLI, Miguel. A Dialética Discursiva de Pedro

Abelardo. Revista Veritas, Porto Alegre, v. 49, n. 03, 2004, pp. 437-447. O programa de Anselmo — penetrar racionalmente as verdades da fé, encontrou uma seqüência essencialmente técnica na obra de Pedro Abelardo, homem tão notável pela sua personalidade e agitada vida como pelas suas realizações e originalidade. Para avivar a problemática e aprofundar o estudo dos temas, explora o método fundado pelos canonistas (Bernaldo de Constança), consistente em enfrentar dialeticamente as "autoridades" opostas em torno de uma determinada questão. Este é o fundamental da sua obra. Exerceu grande influência sobre a formação da escolástica, especialmente sobre a técnica das discussões, que, como já vimos, constituíam o arcabouço das Sumas. Sua obra ética principal tem o título: Ethica- seu seita teipsum. Seus escritos lógicos, recentemente descobertos por Geyer e Grabmann, colocam-no "na primeira linha das cabeças filosóficas da Idade Média" (Grabmann) Geyer, Die