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Kraftmarkedsanalyse av vindkraft og klimagassutslipp

In document Norsk vindkraft og klimagassutslipp (sider 9-14)

A análise "detida", de que nos fala Kitis e Milapides, bem com Li, ajuda a identificar a natureza da obscuridade no discurso e tornar explícita a complexa relação entre texto e contexto, como prega a Linguística Crítica. O uso da língua é constitutiva na maneira como modela identidades, coletividades e instituições. Foi isso que a análise da transitividade e dos papéis projetados de nomeação e de atribuição nos permitiu verificar.

Guarnieri lança mão do que foi chamado de 'obscuridade criativa', uma estratégia discursiva geral, que van Dijk (1997) define como um modo de atingir metas através do discurso. A obscuridade permite que metas e interpretações diferentes e divergentes possam coexistir.

4.4 A segunda minialegoria: Alienação como impedimento da encenação da peça

4.4.1 Análise da representação da realidade: transitividade e papéis sociais

Selecionei um trecho entre as páginas 199 e 201 (tal como no livro que está inserido) para analisar a segunda minialegoria que perpassa a peça.

Fernando (diretor) – (num acesso de raiva muito real) Chega, está bem! Chega!...Que é que estão pensando! É pra trabalhar ou pra que é?... Na hora do pagamento todo mundo quer receber… E na hora de trabalhar? Vamos deixar de frescura, está bem…É todo mundo muito espirituoso, muito entediado, muito na sua, mas pra mim encheu!...Encheu! Vocês são contratados…são artistas…são gente, diabo!...Vamos trabalhar…E quem não quiser é bom avisar já…Assim dá tempo de substituir…

Augusto – Falô, chefinho…Não se aborrece, não, se não mela tudo…Vamo lá…É tudo de mentirinha…Tá um sol lindo lá fora…Calor…Preguiça…Mormaço…Falô, chefinho…

Fernando – Vocês me desculpem, não é…Mas se a gente não encarar seriamente isso…Não sai…Eu não quero construir uma catedral aqui dentro, entende? Eu quero fazer um espetáculo que tenha gente falando e que se entenda o que estão dizendo…Esse texto aqui é importante…Ou vocês não acham?

Nara – Maravilhoso!...

Fernando – Não é isso que eu quero…Adjetivo, pra quê? O que foi que esse texto disse pra você…O que é que você sentiu?...Em que é que você se modificou?

Nara – Eu sei lá, eu gostei…

Fernando – O que é que você entendeu… Nara – Ih, mas por que comigo? É picadeiro, é?

Augusto – Liga, nao, chefinho…É burrice mesmo…Não tem cura, não! Nara – Cala a boca, gay power …

Augusto – Estudando ingles, boneca…

Amanda – Não, espera aí…Vamos trabalhar a sério, ou não vamos…(Toca o telefone) Augusto – Desculpe, desculpe, desculpe, desculpe, desculpe…

Fernando – Pombas, mas não é pra pedir desculpas…Eu só estou querendo falar a sério um pouco…Que diabo…Tá um sol bonito lá fora… calor… mormaço… piscina ou mar – que é de graça… E nós estamos aqui. Endividados… Sem saber como fazer realmente… pra ter… pra ter… a profissão da gente… Mas estamos aqui, não estamos?... Há uma razão!... O comportamento de vocês é como o do marido, do amante, sei lá… que procura ferir a

mulher que ama… É como o outro que está por aí... que é um necrófilo, não é... Vive apregoando que o teatro morreu ... E faz teatro adoidado... ama o teatro ... Não vive sem ... Põe até gravata pra salvar o teatro ... E os teatros, com seu público de teatro, fazem teatro para salvar o teatro dele, que quase deixa de ser teatro ... Mas estão lá, fazendo teatro e podendo salvar um teatro. Que que há, minha gente?

Flora – Não há nada… Nada, Fernando… É só trabalhar… Fernando – Só…

Os trechos, em especial os sublinhados, evidenciam a alienação do grupo teatral em relação à dificuldade de se encenar a peça.

FERNANDO Os participantes dos processos

(28)(...)Que é que estão pensando! É pra trabalhar ou pra que é?...

Relacional mental material relacional

Elenco: Portador Elenco: Portador

(29) Na hora do pagamento todo mundo quer receber… E na hora de mental

(30) trabalhar? Vamos deixar de frescura, está bem…É todo mundo

material mental relacional

Elenco: Ator Elenco: Portador

(31) muito espirituoso, muito entediado, muito na sua, mas pra mim (32) encheu!...Encheu! Vocês são contratados…são artistas…são

mental mental relacional relacional relacional

Elenco: Portador Elenco: Portador Elenco: Portador

(33) gente, diabo!...Vamos trabalhar…E quem não quiser é bom avisar

material mental relacional verbal

Elenco: Ator Elenco: Portador

(34) já…Assim dá tempo de substituir… existencial material

Fernando: Ator Elenco: Meta

FERNANDO

(35) Vocês me desculpem, não é…Mas se a gente não encarar Comportamental

(36) seriamente isso…Não sai…Eu não quero construir uma catedral

(não acontece) – existencial material Fernando: Ator

(37) aqui dentro, entende? Eu quero fazer um espetáculo que tenha

material existencial Fernando: Ator

(38) gente falando e que se entenda o que estão dizendo…Esse texto

verbal mental verbal

(39) aqui é importante…Ou vocês não acham?

Relacional mental Texto: Portador

NARA

FERNANDO

(41) Não é isso que eu quero…Adjetivo, pra quê? O que foi que esse

Relacional mental relacional Adjetivo: Portador

(42) texto disse pra você…O que é que você sentiu?...Em que é que

(significa) mental relacional comportamental relacional

Texto: Portador Nara: Portador

(43) você se modificou?

Comportamental

FERNANDO

(44) Pombas, mas não é pra pedir desculpas…Eu só estou querendo

Relacional comportamental mental Nara: Portador

(45) falar a sério um pouco…Que diabo…Ta um sol bonito lá fora…

verbal existencial

(46) calor… mormaço… piscina ou mar – que é de graça… E nós relacional

Piscina ou mar: Portador

(47) estamos aqui. Endividados… Sem saber como fazer realmente…

existencial material mental material

(48) Pra ter… pra ter… a profissão da gente… Mas estamos aqui, não existencial existencial existencial

(49) estamos?... Há uma razão!... O comportamento de vocês é como

existencial existencial relacional Elenco: Portador

(50) o do marido, do amante, sei lá… que procura ferir a mulher que

comportamental

(51) ama… É como o outro que está por aí... que é um necrófilo, não

mental relacional existencial relacional

Crítica a algum diretor: Portador

(52) é... Vive apregoando que o teatro morreu ... E faz teatro

verbal existencial material Algum diretor: Ator

(53) adoidado... ama o teatro ... Não vive sem ... Põe até gravata pra

mental existencial material Algum diretor: Ator

(54) salvar o teatro ... E os teatros, com seu público de teatro, fazem

material material

Algum diretor: Ator Os teatros: Ator

(55) teatro para salvar o teatro dele, que quase deixa de ser teatro ... existencial

(56)Mas estão lá, fazendo teatro e podendo salvar um teatro. Que que

Existencial material material

Os teatros: Ator Os teatros: Ator

(57) há, minha gente?

existencial

DISCUSSÃO

Este trecho refere-se à tentativa do diretor Fernando de conscientizar seu elenco de que o trabalho deles é de suma importância para a realização da peça. Em seu discurso, pode-se observar que inúmeras vezes chama a atenção para o trabalho do ator e também para a situação do teatro. Ao analisar os processos material e relacional, encontra-se em evidência o elenco e o teatro.

O elenco

Vejamos como o elenco está representado no sistema da transitividade:

(em 28, 30, 32, 33 e 49) o elenco é Portador de todas as características que o diretor Fernando necessita para trabalhar, como – “é pra trabalhar ou pra que é?”, “vocês são artistas, são contratos (...)”. Esses são alguns exemplos dos argumentos de Fernando para chamar a atenção da trupe ao trabalho.

Ainda para enaltecer essa alienação do grupo, Fernando utiliza a personagem Nara, também atriz do elenco, para criticar a postura dos atores quanto ao trabalho. Assim em (40 e 42) Nara é portador, no processo relacional, de “o que sentiu” e “o que te modificou para evidenciar a leviandade da leitura do texto da peça.

Percebe-se que Fernando é Ator em:

(34) “assim dá tempo de substituir” – novamente uma ameaça aos atores, porém desta vez na voz de Fernando.

(36) ‘não quero construir uma catedral”. Fernando se coloca na posição de mandante do grupo

(37) “quero fazer”. Neste trecho, entretanto, torna-se nítido que o personagem Fernando é quem quer realmente fazer a peça.

Após a articulação de Fernando para demonstrar a inerência do grupo, Fernando infere portanto sobre a situação do teatro brasileiro.

O teatro

“O teatro” surge como Ator em (54 e 56), como “fazer teatro” e “salvar o teatro”. Evidencia-se a ideologia de Fernando ainda acreditar no teatro. Principalmente pela forma que critica algum diretor da época (em 52 e 53) que apregoa que o teatro morreu.

O que a análise da transitividade mostra é a alienação do grupo perante à situação do teatro: (i) em diversos momentos, Fernando, diretor da peça, chama a atenção para que os atores prestem atenção ao texto, principalmente no que pode modificá-los, assim como espera que acordem para a realidade, para a importância do papel desempenhado por eles na peça; e (ii) o teatro como o lugar onde estão

inseridos esses personagens está passando por um momento de dificuldade, ou seja, é necessário “salvar o teatro”.

Assim, nesta análise da transitividade podemos observar que o elenco encontra-se novamente como Atores, porém ainda em situações humilhante. Porém, a figura do diretor, antes considerado como algoz desse grupo, agora é visto como Ator porque quer “fazer” (HALLIDAY, 1994), quer salvar o teatro.

Notemos que a análise superficial da transitividade resulta na tentativa de Fernando, diretor da peça, conscientizar seus atores de que eles precisam demonstrar atitude em meio a uma situação difícil a que perpassa o teatro. Dessa forma, podemos observar o dialogismo no enunciado criado por ele em oposição ao outro diretor que apregoa que o teatro morreu, pois para FIORIN (2008, p.21) as relações dialógicas podem ser contratuais ou polêmicas, de convergência ou divergência. Portanto, neste trecho observamos que a figura do diretor deixa de ser algoz do elenco e passa a ser a personagem que manifesta sua ideologia ao longo do texto.

Vejo aqui uma minialegoria, que remete à conscientização do povo. O grito de Fernando ainda não encontra eco em seus colegas de palco. Sua ideologia ainda é solitária e encontra-se parada no ar. Sua luta é contra a alienação do elenco, ou seja, do povo, para que possam ver a realidade da difícil situação do teatro, ou do país, como podemos averiguar na análise do contexto da peça.

4.4.2 Análise da avaliação da realidade: Avaliatividade e recursos retóricos

Indico com (+) e com (-), as Avaliatividades positiva e negativa, respectivamente; quanto à Graduação da Avaliatividade, indico com setas:  ou para maior ou menor intensidade respectivamente. Os papéis projetados serão

indicados, por exemplo, assim: nomeação/Ator (envolvendo o papel e de nomeação e de atribuição).

FERNANDO

(28) (...)Que é que estão pensando! É pra trabalhar ou pra que é?...

Avaliação Social(-) Avaliação Social(-)

(29) Na hora do pagamento todo mundo quer receber… E na hora de

Avaliação Social

(30) trabalhar? Vamos deixar de frescura, está bem... É todo mundo

Julgamento (+),

[mas (-) considerado o contexto]

(31) muito espirituoso, muito entediado, muito na sua, mas pra mim

Graduação Julgamento (+),GraduaçãoJulgamento(-),GraduaçãoJulgamento (-), [mas (-) considerado o contexto [mas (-) considerado o contexto]

(32) encheu!...Encheu! Vocês são contratados…são artistas…são

Afeto(-) Afeto(-) Julgamento(+) Julgamento(+)

(33) gente, diabo!...Vamos trabalhar… E quem não quiser é bom avisar

Julgamento(+) Julgamento(-)

(34) já…Assim dá tempo de substituir…

FERNANDO

(35) Vocês me desculpem, não é…Mas se a gente não encarar Julgamento(+) Apreciação(+)

(36) seriamente isso…Não sai…Eu não quero construir uma catedral

Apreciação(+) Apreciação (+) [mas (-) considerado o contexto]

(37) aqui dentro, entende? Eu quero fazer um espetáculo que tenha

Apreciação(+)

(38) gente falando e que se entenda o que estão dizendo…Esse texto

Apreciação (+) Apreciação (+)

(39) aqui é importante…Ou vocês não acham?

Apreciação (+) Avaliação Social(-)

NARA

(40) Maravilhoso!...

Apreciação (+)

FERNANDO

(41) Não é isso que eu quero…Adjetivo, pra quê? O que foi que esse

Afeto(-) Julgamento(-)

(42) texto disse pra você…O que é que você sentiu?...Em que é que

Afeto(+)

(43) você se modificou?

FERNANDO

(44) Pombas, mas não é pra pedir desculpas…Eu só estou querendo

Avaliaçao Social (-)

(45) falar a sério um pouco…Que diabo…Tá um sol bonito lá fora…

Julgamento(+) Apreciação(+)

(46) calor… mormaço… piscina ou mar – que é de graça… E nós

Apreciação (+) Apreciação (+) Apreciação (+)

(47) estamos aqui. Endividados… Sem saber como fazer realmente…

Julgamento(-) Julgamento(-)

(48) pra ter… pra ter… a profissão da gente… Mas estamos aqui, não

Avaliação Social(+)

(49) estamos?... Há uma razão!... O comportamento de vocês é como

Avaliação Social(+)

(50) o do marido, do amante, sei lá… que procura ferir a mulher que

Julgamento(+) Julgamento(+) Julgamento(-) [mas (-) considerado o contexto] [mas (-) considerado o contexto]

(51) ama… É como o outro que está por aí... que é um necrófilo, não

Afeto(+) Nomeação/Ator Julgamento(-)

(52) é... Vive apregoando que o teatro morreu ... E faz teatro

Julgamento(-)

(53) adoidado... ama o teatro ... Não vive sem ... Põe até gravata pra

Julgamento(+) Afeto(+) Afeto(+) Julgamento(+)

(54) salvar o teatro ... E os teatros, com seu público de teatro, fazem

Avaliação Social(+)

(55) teatro para salvar o teatro dele, que quase deixa de ser teatro ...

Julgamento(-) Julgamento(-)

(56) Mas estão lá, fazendo teatro e podendo salvar um teatro. Que que

Avaliação Social(+) Avaliação Social(+)

(57) há, minha gente?

Nomeação

DISCUSSÃO

Este trecho trata-se do discurso de Fernando para seu elenco, com exceção de apenas uma exposição de Nara. Indaga sobre o que representa o elenco naquele lugar, qual a posição que eles querem tomar e o que entendem sobre o assunto.

Notemos, através da Avaliatividade, que ora Fernando utiliza o Julgamento(-) para se referir aos atores, como explicitado de (28) a (34), ora utiliza Julgamento(+), como em (32) e (33), ou mesmo Afeto e Apreciação como visto de (35) a (39). Inicia o discurso repleto de Julgamento(-), mesmo quando utiliza Julgamento(+), podemos observar pelo contexto que trata-se de uma ironia tornando o Julgamento(-).

Podemos atribuir essa oposição no enunciado de Fernando, ao que BAKHTIN (2006) denomina de “oposição dialógica”, pois há no discurso, pelo menos duas

vozes: a sua própria e aquela em oposição “a qual se constrói”. Esse recurso utilizado pelo autor, acentua a sua posição ideológica.

Por vezes, o discurso de Fernando aparece em tom monoglóssico e logo é modalizado quando se dirige ao elenco. Aqui, mais uma vez, podemos constatar a ambiguidade estratégica no termo adjetivo (aparentemente neutro), mas utilizado para criticar a personagem Nara sobre sua visão leviana da peça. Dessa forma, utiliza as expressões “sentir”, “modificar” como Avaliação Social negativa como uma tentativa direta de modificação para a plateia, ou seja, o povo.

Para amenizar o conflito estabelecido, nota-se que o autor utiliza apreciações positivas na voz do diretor quando ele se refere à peça a ser montada. A persuasão para o discurso que tem com os atores envolve um token de atitude - O token de Atitude é uma expressão com aparência de informação neutra, mas que - de acordo com a posição do leitor - pode significar algo diferente (MARTIN 2000). A expressão caracteriza uma ironia: a atitude nela expressa é oposta em tom ao da atitude do significado literal (DEWS; WINNER 1999 apud EL REFAIE 2005). E mais uma vez quando refere-se aos atores utiliza de uma apreciação negativa. Guarnieri utiliza a expressão metafórica “que tenha gente falando e que se entenda o que estão dizendo” como uma Avaliação Social positiva, utilizando o apito do cão, explicita que “gente falando” vai contra a ditadura imperante da época e - “se entenda o que estão dizendo” enaltece que existe uma mensagem implícita em toda a obra da peça. Por isso, segue com um julgamento positivo sobre a peça e através da polifonia faz uma pergunta direta ao povo – “Ou vocês não acham?”

4.5 A terceira minialegoria: Dificuldades de relacionamento como impedimento da encenação da peça

4.5.1 Análise da representação da realidade: transitividade e papéis sociais

Selecionei um trecho entre as páginas 196 e 197 (tal como no livro que está inserido) para analisar a terceira minialegoria que perpassa a peça.

FERNANDO - É bom poupar a voz, viu, Amanda!

AMANDA - Poupar o que, não tenho mais ... Ó,ó ... Hum! ... Mini! ... Mini! ... AUGUSTO – É melhor não forçar... Fica quietinha... Cochicha... Fica sexy! FLORA – Eu já disse pra ela ter aulas com a Madalena... Ela não vai... AMANDA – Isso é gripe... Não é falta de aula.

FLORA – Uma tecnicazinha sempre ajuda.

AMANDA – Técnica, imagina... Pra cima de mim, Flora... Sou atriz de praça pública, eu! Que é que você está pensando. Na época que ainda se fazia teatro em praça pública, eu

representava e todo mundo ouvia, meu anjo. E sem colher de chá de microfone. Não tinha disso, não. Era no peito mesmo... E até o infeliz lá do fundo, montado no cavalo, me ouvia... e muito bem... Não vem com essa, não...

FLORA – Santo céu! Não quis ofender, só ajudar... AMANDA – Você tem mania de espicaçar a gente! FERNANDO – Que é isso, Amanda... Criando caso?

AMANDA – Como se eu não conhecesse a Florinha... Ela está sempre pondo defeito em tudo...

AUGUSTO – Flora é recalcadinha... Tem cinquenta anos e quer fazer papel de mocinha amada, não é Florinha, hein, diz a verdade?

FERNANDO – Que é isso, gente... já estamos em outro assunto...

AUGUSTO – O assunto é a rouquidão da Amanda... Que por sinal é uma rouquidão sagrada! FERNANDO – Vocês parecem crianças... Vamos trabalhar, vai...

AMANDA _ É o tal negócio, a gente não pode ficar doente que cai todo mundo em cima...

FLORA – Não estou dizendo nada, meu amor... Só dei um conselho... Umas aulinhas de colocação de voz não fazem mal pra ninguém.

AMANDA – Sempre tive minha voz colocada, meu Deus do céu... Preciso gritar para que me entendam... Na praça pública... FLORA – Pois é, meu bem... Vai ver que do esforço criou um calozinho nas cordas vocais...

AMANDA – Ah, com franqueza...

AUGUSTO – Tá com vontade que a pobrezinha tenha um calo nas cordas, é... Recalcada! FLORA – Recalcada, mas emissão de voz perfeita! Ó!

FLORA Os participantes dos processos

(58) Uma tecnicazinha sempre ajuda

comportamental

AMANDA

(59)Técnica, imagina... Pra cima de mim, Flora... Sou atriz de praça

Existencial

(60)pública, eu! Que é que você está pensando. Na época que ainda

relacional mental Flora: Atributo

(61) se fazia teatro em praça pública, eu representava e todo mundo

material material

Teatro: Ator Amanda: Ator

(62) ouvia, meu anjo. E sem colher de chá de microfone. Não tinha

mental existencial

(63) disso, não. Era no peito mesmo... E até o infeliz lá do fundo,

existencial

(64)montado no cavalo, me ouvia... e muito bem... Não vem com essa,

material mental comportamental

O infeliz lá do fundo: Ator

FLORA

(66) Santo céu! Não quis ofender, só ajudar...

Verbal mental

AMANDA

(67) Você tem mania de espicaçar a gente

Existencial material Flora: Ator

FERNANDO

(68) Que é isso, Amanda... Criando caso?

Relacional comportamental Amanda: Atributo

AMANDA

(69) Como se eu não conhecesse a Florinha... Ela está sempre pondo

Mental relacional mental Flora: Portador

(70) defeito em tudo... mental

AUGUSTO

(71) Flora é recalcadinha... Tem cinquenta anos e quer fazer papel de

Relacional existencial mental Flora: Portador

(72) mocinha amada, não é Florinha, hein, diz a verdade?

Mental verbal

DISCUSSÃO

Este trecho demonstra os conflitos pessoais do elenco, principalmente das atrizes da peça, Amanda e Flora. Ambas desejam enaltecer seu papel na peça e sua posição dentro do grupo. A análise da transitividade, referente aos processos material e relacional destacam essa discussão.

Flora

(em 60) Flora é atributo, no processo relacional, do esbravejamento de Amanda, que enaltece suas qualidades como atriz em resposta à ofensa anterior de

Flora

(em 67) Flora é Ator, no processo material, que tem mania de “espicaçar a gente”, ou seja, possui a mania de criticar o elenco.

(em 69 e 71) Flora é Portador em processo relacional. Em (69) no discurso de Amanda – “está sempre pondo defeito em tudo”. E em (71) na voz de Augusto, Flora é “recalcadinha”.

Amanda

Percebe-se que Amanda é também alvo das críticas de Flora, porém de maneira implícita.

(em 61): Amanda é Ator em processo material em sua própria voz demonstrando o quanto já trabalhou para o teatro.

(em 68): Apenas na fala de Fernando, seu marido e diretor da peça, é que Amanda é Atributo em processo relacional de “criando caso”.

O que a análise da transitividade mostra é uma discussão pessoal entre os atores, principalmente Flora e Amanda, com contribuições de Augusto para aumentar a tensão. O autor demonstra neste trecho a mesquinharia destes atores em detrimento a uma preocupação maior – a de montar a peça.

É notória a falta de união deste elenco que se preocupa apenas com as questões individuais e não coletivas para que o objetivo do grupo seja alcançado.

Vejo aqui uma minialegoria, que remete à situação do País: mesmo com a ditadura imperante, o povo preocupa-se apenas com questões pessoais, ao invés de fortalecer uma união para lutar contra o que pode reprimi-los.

4.5.2 Análise da avaliação da realidade: Avaliatividade e recursos retóricos

Indico com (+) e com (-), as Avaliatividades positiva e negativa, respectivamente; quanto à Graduação da Avaliatividade, indico com setas:  ou para maior ou menor intensidade respectivamente. Os papéis projetados serão

indicados, por exemplo, assim: nomeação/Ator (envolvendo o papel e de nomeação e de atribuição).

FLORA

(58) Uma tecnicazinha sempre ajuda.

Graduação  Apreciação(+)

AMANDA

(59) Técnica, imagina... Pra cima de mim, Flora... Sou atriz de praça Avaliação Social(-) Julgamento(+)

(60) pública, eu! Que é que você está pensando. Na época que ainda

Julgamento(+) Avaliação Social(-)

(61) se fazia teatro em praça pública, eu representava e todo mundo

Apreciacao(+)

(62) ouvia, meu anjo. E sem colher de chá de microfone. Não tinha Nomeação Julgamento(-)

(63) disso, não. Era no peito mesmo... E até o infeliz lá do fundo,

Julgamento(-) Julgamento(-)

(64) montado no cavalo, me ouvia.. .e muito bem... Não vem com essa,

Julgamento(-) Graduação  Julgamento(+) Avaliação Social(-)

(65) não...

FLORA

(66) Santo céu! Não quis ofender, só ajudar...

Afeto(+) Afeto(+)

AMANDA

(67) Você tem mania de espicaçar a gente!

Julgamento(-) Julgamento(-)

FERNANDO

(68) Que é isso, Amanda... Criando caso?

Julgamento(-)

AMANDA

(69) Como se eu não conhecesse a Florinha... Ela está sempre pondo

Nomeação Graduação 

(70) defeito em tudo... Julgamento(-)

AUGUSTO

(71) Flora é recalcadinha... Tem cinquenta anos e quer fazer papel de

Julgamento(-)

(72) mocinha amada, não é Florinha, hein, diz a verdade?

DISCUSSÃO

Este trecho, em que podemos observar o confronto de Flora e Amanda pela disputa de atriz principal do grupo, relata a importância do “eu” dentro do grupo social. Esta necessidade de sobrepor-se ao outro, torna-se maior do que os problemas que devem ser encarados pelo grupo para que a peça aconteça.

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