Engraçado ano, esse de 2000 que poderá ficar conhecido como o ano de todas as utopias. Mas vejamos apenas duas delas, uma promovida pela União Europeia e a outra pelas Nações Unidas, e que aproveitando o simbolismo do número e perante o início de um novo milénio, aproveitaram para estabelecer objectivos, definir programas e planos de acção. A primeira recebeu o nome de Estratégia de Lisboa e como vimos neste trabalho, pretendia colocar a União Europeia como a zona mais competitiva na sociedade da informação no ano 2010. Como se o objectivo fosse já de si pouco ambicioso, seria ainda acompanhado por adequados níveis de coesão social, de protecção do meio ambiente e teria pela frente um alargamento a países da Europa de Leste, com os consequentes custos envolvidos.
A segunda, promovida pelas Nações Unidas e com um horizonte temporal até 2015, diz respeito ao programa “Millennium Project” e pretende promover o desenvolvimento dos países mais desfavorecidos, traduzindo-se em oito grandes objectivos com inúmeros indicadores de apoio, objectivos esses que vão desde a erradicação da fome e pobreza extrema, promoção da educação, igualdade de oportunidades entre diferentes sexos, redução da mortalidade infantil e melhoria das condições de saúde na maternidade, combate às doenças como a Sida e a malária, garantia da sustentabilidade ambiental e criação de uma parceria global para o desenvolvimento.
Muitas outras poderiam ser definidas, como por exemplo os objectivos estabelecidos para o consumo de energia nas próximas décadas ou a redução de emissões de gases com efeito de estufa. Mas relativamente aos dois projectos referidos, os resultados obtidos não são propriamente os que se pretendia atingir, a ponto de a União Europeia ter tido a necessidade de reformular o seu plano para dar novo impulso à desacreditada Estratégia de Lisboa, isto porque na realidade pouco se tinha avançado1. Relativamente ao projecto millennium, tem-se verificado que avanços em alguns dos indicadores são acompanhadas por recuos noutros, e embora a globalização ofereça grandes oportunidades, tanto os benefícios como os custos estão a ser muito mal distribuídos, e as disparidades de desenvolvimento são enormes, com alguns países a ficar claramente para trás2. De facto em alguns destes países têm-se assistido ao aumento da pobreza e da fome (africa sub-sahariana) embora em outros se tenha verificado uma melhoria significativa (alguns países asiáticos). Esta pobreza cria obstáculos à melhoria das condições de educação, levando a que segundo dados das Nações Unidas, 10,5 milhões de crianças tenham morrido em 2004 antes do 5º aniversário, quase sempre por causas evitáveis.
Com base numa análise mais detalhada verificamos que estes objectivos não são tão difíceis de atingir como se poderia imaginar, estão bem formulados e são sempre acompanhados pelos indicadores necessários. No entanto a sua concretização não tem sido capaz de ultrapassar os obstáculos encontrados, que vão desde as pequenas inércias, sacrifícios que é necessários aceitar e até aos interesses instalados. O paralelismo com a Gestão do Conhecimento é inevitável, pois ela enfrenta esta mesma realidade, estes mesmos obstáculos e estes mesmos resultados desoladores. Embora se apresente à partida como um conceito abstracto e de difícil concretização, verificamos neste trabalho, com base nos resultados obtidos pelo questionário que foi apresentado, que não só é possível enumerar as práticas de gestão de conhecimento recomendáveis, como a sua concretização mais do que recursos financeiros requer acima de tudo vontade, envolvimento e dedicação ao trabalho. Verificamos também que o discurso dos gestores é claramente pró-GC, mas as iniciativas no terreno são raras, e quando existem são pouco sistematizadas.
Quando se pensa em GC, pensa-se frequentemente numa aposta na implementação de tecnologias, quase nunca acompanhadas por apostas em outras áreas, desde a formação, avaliação de desempenho, criação de incentivos, responsabilização de quadros superiores. Aceita-se que as apostas na tecnologia sejam mais fáceis, pela sua própria tangibilidade e visibilidade, mas verifica-se que a sua rentabilização ainda está por fazer. Esta é uma perspectiva de GC não só limitativa como principalmente cara, envolvendo montantes consideráveis e é também parte da explicação das organizações considerarem ser a GC uma área que envolve elevados custos. Caso não houvesse essa associação com as tecnologias de informação, haveria uma maior probabilidade de terem uma perspectiva mais correcta, a de que a GC nem sempre tem custos elevados. Embora se possa compreender quem defende que a criação e partilha de conhecimento devem fazer parte de uma postura natural e espontânea por parte dos colaboradores
1 Para mais informações consuiltar o website: http://ec.europa.eu/information_society/eeurope/i2010/index_en.htm 2 Para mais informações consuiltar o website: http://www.un.org/millenniumgoals/
das organizações, a realidade demonstra que sem incentivos e reconhecimento, tais práticas não surgem com uma frequência e regularidade mínima. Os colaboradores necessitam por isso de se sentir estimulados para partilhar conhecimento.
Os bons exemplos irão seguramente aparecer, seja no âmbito de iniciativas de GC seja de iniciativas que tenham outros nomes, mas respeitando os mesmos princípios. Esperamos que eles consigam atrair novos interessados e sejam exemplos que permitam potenciar outras tentativas de implementação.
Anexo 1 - Questionário usado
Objectivos do Questionário
Na nossa sociedade existe um consenso generalizado sobre a importância da informação e do conhecimento enquanto fontes de vantagens competitivas para as organizações. Neste estudo consideramos como preocupações da gestão da informação o facilitar do acesso a fontes de informação (ex: browser de acesso à internet), o armazenamento de informação (ex: utilização de bases de dados), ou disponibilizar aplicações para a distribuição de informação (ex: correio electrónico, newsletters).
A gestão do conhecimento já se preocupa com os hábitos de trabalho dos colaboradores independentemente da utilização de alguma aplicação informática, colocando questões como : Os colaboradores têm por hábito partilhar o
conhecimento que têm, ou retêm esse conhecimento só para si ? Preocupam-se em obter conhecimento novo e em
incorporá-lo nas decisões que tomam ? Os colaboradores saebm onde está disponível o conhecimento ?
O que se pretende com este questionário é identificar as práticas organizativas executadas nas empresas, que tenham como objectivo a promoção da criação, partilha, armazenamento e utilização de conhecimento, com ou sem o recurso a tecnologias de apoio, e por outro lado qual a percepção existente em cada um dos níveis da organização para a importância do conhecimento.
Todos os dados preenchidos são confidenciais, e serão guardados num servidor da Universidade do Minho. No questionário, terá ainda oportunidade de escolher se quer ou não que a sua empresa seja identificada e se pretende receber as conclusões do presente estudo, quando elas estiverem disponíveis.