Ao longo de mais de duas décadas, a psicóloga brasileira Lígia Assumpção Amaral (1941-2002) dedicou-se aos estudos da deficiência – ou das diferenças significativas, expressão por ela adotada – período em que igualmente produziu, orientou e inspirou inúmeros trabalhos de pesquisa e intervenção. Esse fato motivou-nos a buscar entender suas principais propostas, bem como a procurar a articulação das ideias por ela desenvolvidas com nossa própria análise – tarefa essa que consideramos, por ora, apenas iniciada.
A produção científica e as principais obras dessa autora, publicadas em livro, cobrem o período que vai de 1988 a 2001. Dentre seus escritos, destaca-se, à nossa leitura, o trabalho intitulado “Conhecendo a deficiência em companhia de Hércules” (Amaral, 1995), que nos serviu como base para a apresentação, de forma bastante sucinta, de algumas de suas ideias.
Amaral (1995), que no livro em questão aborda a aproximação conceitual e reflexiva sobre a deficiência a partir da utilização do mito grego sobre Os Doze Trabalhos de Hércules, aponta haver um fenômeno básico que subjaz à temática da deficiência, qual seja, o desvio e sua complementar condição de desviante, conforme anuncia, desde o início do texto. Ao delinear, no plano histórico, as diferentes conceituações da deficiência, a partir de seus marcos histórico-temporais, Amaral sublinha o caráter fragmentário dos conceitos desenvolvidos nessa perspectiva. A partir disso, seu foco de interesse se desloca para o conjunto de ideias que formam a base multidimensional da atual conceituação de deficiência e que engloba aspectos biológicos, funcionais e sociais. Passando pela discussão do impacto da deficiência como acontecimento no contexto familiar, Amaral também mapeia “as discussões e formulações atuais sobre as formas possíveis e usuais de apropriação da deficiência por seus portadores”. (p. XVIII).
Também são alvo de sua discussão os aspectos psicológicos envolvidos na questão, em especial os mecanismos de defesa e as representações sociais diante da deficiência por meio de atitudes, preconceitos, estereótipos e estigmas. Por fim, seu olhar se dirige a questões de caráter interventivo e preventivo, pensando estratégias e desenvolvendo propostas.
Para a autora, o desvio/condição desviante é estabelecido em função de três critérios: a moda estatística; o aspecto anatômico-funcional e o tipo ideal. O primeiro se refere à frequência de ocorrência de um fenômeno, medida em números e demais instrumentos de medida. O segundo, à “vocação das formas e funções” de objetos ou pessoas. As modalidades do desvio são definidas pelo critério de integridade da forma e o de competência para a
função. Como exemplos, ela cita um automóvel sem portas, uma banqueta de duas pernas ou um homem com apenas uma. O terceiro critério baseia-se em um protótipo, a partir do qual se processa, por semelhança ou distinção, o afastamento ou a aproximação do que se analisa e o protótipo. Mas pode-se questionar o desvio, como faz a autora, de forma a pensá-lo como a expressão da diversidade, tanto da natureza quanto da condição humana, e não mais e exclusivamente como uma patologia. E isso pode ser feito mesmo por meio de qualquer um dos critérios já mencionados.
Para Amaral (1995), a deficiência não passa sem registro, dada sua capacidade de desorganizar, ameaçar, mobilizar. É o que foge ao que se espera, em termos de simetria, beleza, eficiência, perfeição. Tende a provocar, por isso, reações emocionais como o medo, a cólera, a repugnância. E é de sentimentos como esses que se podem ativar mecanismos de defesa que serão traduzidos em comportamentos de superproteção ou de abandono, por exemplo.
A autora, falando sobre o desvio, aponta como um enunciado que afirma sermos todos deficientes – como a dizer que somos todos imperfeitos e diferentes, uns dos outros – pode, embora sem má intenção de quem o enuncia, evidenciar como a noção de desvio é marcante. Mas, diz ela, usar óculos é diferente de ser cego; ter “pés chatos” não é o mesmo que ser paraplégico. Há, segundo ela, necessidade de se conhecer o divisor de águas entre o normal e o anormal, entre o desvio e o não desvio. Diante de uma situação de ameaça, pode-se sentir medo e necessidade de defesa, o que possibilita duas formas de reação: o ataque e /ou a fuga. Nesse último caso, são várias as formas, em termos psicológicos, com que se pode fugir da deficiência, tornada problema. Dentre essas, o abandono, a superproteção e a negação.
Amaral, ao discutir os aspectos psicológicos presentes nas discussões sobre a deficiência, destaca a importância que os mecanismos de defesa e representações sociais que identifica (atitudes, preconceitos, estereótipos e estigmas) assumem nesse contexto, situando- os, uns em relação aos outros.
Sobre a atitude, ela nos diz:
Atitude refere-se [...] a uma disposição psíquica ou afetiva em relação a determinado alvo: pessoa, grupo ou fenômeno. Sendo anterior ao comportamento ela é apenas inferível. Pode-se então dizer que as atitudes estão para os comportamentos assim como os preconceitos estão para os estereótipos. (AMARAL, 1995, p.119)
Adiante, (p. 122), Amaral ainda retoma o conceito de atitude, para afirmar que parte do pressuposto que “atitude e ambivalência são fenômenos ligados, basicamente, ao emocional”.
Quanto ao preconceito, ele “representa uma atitude favorável ou desfavorável, positiva ou negativa, anterior a qualquer conhecimento.” (p.120) enquanto o estereótipo é “um julgamento qualitativo baseado no preconceito e, portanto, anterior a uma experiência pessoal” (idem). A autora também considera que, uma vez “lastreado na aversão ao diferente, ao mutilado, ao deficiente” o preconceito poderá fornecer a base para estereótipos como “o deficiente é mau, é vilão, é asqueroso...”. Por outro lado, se “baseado em atitude de caráter comiserativo, de pena”, disso adviriam estereótipos tais como: “o deficiente é vítima, é sofredor, é prisioneiro...” (p.120).
Ainda quanto ao estereótipo, quando ele é “negativo”, vem a construir estigmas e estabelecer-se nas relações sociais de modo a permitir generalizações indevidas sobre a deficiência/o deficiente. Ela cita o exemplo do tratamento de uma pessoa cega como se fosse surda ou deficiente mental, concluindo que “O estigma estabelece-se, portanto, nas relações interpessoais”. (p.122)
Entre atitude e opinião há diferenças que a autora destaca: a primeira se inscreve na esfera da racionalidade enquanto a segunda se encontra na esfera afetivo-emocional. Segundo ela, a compreensão da percepção interpessoal como uma relação entre percebido e percebedor e do processo de interação entre o homem e a natureza como a base para a criação e o desenvolvimento das representações de si e do mundo é patrimônio da Psicologia.
Amaral ainda destaca a historicidade da percepção e das representações, de modo que, segundo ela, estão atreladas à ideologia e ressalta a importância dos meios de comunicação como fatores influentes, de modo positivo ou não, na visão sobre a diferença.