Ao conceber a língua como um sistema adaptável, dinâmico, e a gramática da língua como a codificação lingüística do mundo externo que nos cerca resultante de forças internas e externas ao sistema, descreveremos e analisamos, sincronicamente, a variação do subjuntivo em alternância com o indicativo em orações subordinadas substantivas introduzidas pela partícula que, na língua falada do Cariri.
Assim procuraremos:
1) Demonstrar que, em ambientes específicos de intercambialidade do indicativo e do subjuntivo, o emprego dessas formas em orações encaixadas se neutraliza principalmente em função da carga semântica do verbo da principal, sendo apenas variantes morfológicas condicionadas pelo verbo da oração matriz.
2) Controlar orações subordinadas substantivas no presente do indicativo x presente do subjuntivo e imperfeito do indicativo x imperfeito do subjuntivo, com o objetivo de analisar a correlação do tempo e do modo verbal na alternância indicativo/subjuntivo.
3) Demonstrar que a alternância no português é motivada pela interação de fatores de natureza diversas: morfossintáticas (estrutura da
assertividade da oração), semânticas (tipo de verbo da oração matriz, modalidade), formais (padrão morfofonológico do verbo) e discursivas (pessoa verbal da matriz e da encaixada).
4) Arrolar os fatores sociais, sexo, faixa etária e escolaridade que favorecem ou restringem o uso variável do presente do indicativo x presente do subjuntivo e imperfeito do indicativo x imperfeito do subjuntivo.
5) Investigar se o fenômeno em estudo reflete um estado de variação estável ou mudança em progresso.
6) Contribuir para a descrição da variável em questão no Português do Brasil, especificamente, na língua falada do Cariri, região que fica ao sul do estado do Ceará.
Apresentamos, a seguir, algumas questões que nortearão a investigação do presente estudo:
1) Até que ponto, em contextos de alternância de orações subordinadas, o modo verbal se atualiza? Podemos falar de modo nesses ambientes ou a forma modal se neutraliza em função da carga semântica do verbo principal?
2) Em que medida o tempo verbal da oração é um fator importante para a alternância modal?
3) Que fatores entram em competição no uso variável da alternância modal em orações subordinadas substantivas?
4) O fenômeno é sensível às variáveis sociais sexo, escolaridade e faixa etária?
5) O padrão de uso dessa variável reflete uma variação estável ou mudança em progresso? Em que ambientes lingüísticos o subjuntivo ainda é preservado?
Como possíveis respostas às questões formuladas, em geral, propõem-se as seguintes hipóteses:
1) Em contextos de alternância, em orações subordinadas substantivas, a força modal da oração se concentra no verbo da oração principal, sendo a noção semântica de modo da oração encaixada neutralizada, em função, principalmente, da carga semântica do verbo principal. Nesses contextos, as formas do indicativo e do subjuntivo propensas a receber a noção semântica do verbo principal funcionam como variantes morfológicas condicionadas pelo verbo da matriz.
2) O tempo verbal da matriz condiciona o modo da encaixada, contudo a força propulsora da alternância reside na complexa interação de muitos fatores, especificamente, no tipo de verbo da oração principal.
3) O tipo de verbo da matriz, a estrutura de assertividade da oração matriz (oração declarativa negativa e afirmativa), a modalidade (futuridade, certeza, incerteza/avaliação, dicendi), a pessoa verbal da matriz são fatores que interagem em favor da seleção do modo da encaixada. Acreditamos que a primeira pessoa restringe o modo subjuntivo na encaixada por envolver maior comprometimento do falante e a terceira pessoa promove o subjuntivo dado o distanciamento do falante com o que enuncia. Acreditamos que o padrão morfofonológico do verbo (verbos regulares e irregulares), ou seja, a influência fonético-fonológica dos verbos influencie no uso dos modos indicativo e subjuntivo. O modo subjuntivo recobre a modalidade irrealis, modalidade que envolve noção de incerteza, futuridade, hipótese. Com base nesse pressuposto, a escolha do modo subjuntivo será mais favorável em contextos que exprimam traços semântico-pragmáticos de incerteza, conjectura, desejo e futuridade.
4) Acreditamos maior o nível de escolaridade mais favorecimento da forma subjuntiva, nos contextos de alternância, por essa forma requerer contexto sintático mais específico, mais delimitado do que o indicativo e ser a escola o espaço onde supostamente se tem acesso a modalidades mais formais da língua . Embora, estudos da Sociolingüística (Labov, 1966; Silva & Paiva, 1996) apontem as mulheres como favorecedoras da norma padrão, acreditamos que não teremos essa confirmação em nossos dados, em virtude de a alternância, em orações subordinadas substantivas, não constituir estigma
social, sendo a definição de norma padrão ou não-padrão de difícil decisão. Acreditamos que a alternância dos modos em português é sensível à variável faixa etária e que falantes mais jovens favorecem o uso do indicativo, por ser essa a forma mais geral, não-marcada na língua.
5) É possível que a alternância indicativo/subjuntivo reflita mudança em tempo aparente para mais indicativo nos contextos de alternância por ser essa a forma mais geral na língua portuguesa, contudo acreditamos que, nos dados em estudo, o uso do subjuntivo é resistente em ambientes lingüísticos considerados de uso obrigatório, como por exemplo, com verbos volitivos do tipo querer, desejar, esperar (ter expectativa).
Os dados serão rodados separados, por tempo verbal, a fim de aferir os condicionamentos em função de cada tempo, em outras palavras, os condicionadores da variação do subjuntivo no presente do subjuntivo podem não ser os mesmos dos condicionadores em construções no pretérito imperfeito.
Na próxima seção, serão apresentados os procedimentos metodológicos desta pesquisa.