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Kostnader

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4. Resultater

4.8. Kostnader

O Movimento Free Love remonta ao período do ante-bellum americano e criticava a instituição do casamento por convenção social e sem amor. A condição da mulher casada era o principal foco de discussão por parte dos defensores do movimento, que se opunham à anulação desta enquanto indivíduo em prol do marido e dos filhos, frutos de relações sexuais não raro forçadas pelo homem. Acreditava-se mesmo que os filhos concebidos sem amor nasceriam doentes ou seriam adultos com propensão a desvios de caráter. No entanto, o Free Love não se definia como um movimento de viés feminista.

Victoria Claflin Woodhull foi a mais polêmica entusiasta feminina do Free

Love. Woodhull fora casada com um alcoólatra com quem teve dois filhos, um deles

com problemas mentais, razão pela qual ela fazia da sua própria experiência argumento na defesa de que as mulheres possuíam desejos sexuais - contrariando os discursos religiosos da época que privilegiavam a alma em detrimento dos prazeres do corpo -, que deveriam ser satisfeitos numa relação com amor, pois o

bad sex seria a origem de muitas enfermidades.

Woodhull era adepta do espiritismo e também acreditava na troca de energias durante a relação sexual, as quais fluiriam para manter a harmonia entre o corpo e a alma. De outro modo, o sexo sem amor e prazer seriam as causas do padecimento do corpo. Ela ainda defendia que mulheres que se submetiam a um casamento por convenção eram equiparáveis às prostitutas, com a diferença que estas últimas ainda podiam escolher quando ter relações sexuais. De acordo com os preceitos do Free Love, a estabilidade financeira trazida pelo casamento que as mulheres oitocentistas almejavam deveria ser substituída pela a independência dessas mulheres. Argumentava-se que as mesmas deveriam estudar e trabalhar para o seu próprio sustento e optar pelo casamento apenas quando houvesse amor. Portanto, o Free Love advogava o amor livre das convenções sociais e não necessariamente uma oposição à monogamia, embora também a questionasse.

O sentido do termo Free Love n O Guesa parece ter sido ignorado pelos mais respeitados críticos sousandradinos, como Luiza Lobo e os irmãos Campos.

Esses últimos, no glossário elaborado para o Inferno de Wall Street, contido no livro

Re Visão de Sousândrade, informam simplesmente ... free-love (ing): amor-livre;

Sousândrade aplica, usualmente, a expressão para designar a mulher adepta do amor livre ... CAMPOS; CAMPOS, , p. . Como se nota, o verbete não explica o que foi o movimento Free Love nos Estados Unidos oitocentista, além de dar margem à ambiguidade do termo amor livre .

Luiza Lobo, por sua vez, em Épica e Modernidade em Sousândrade escreve que o maranhense deve ter sido um pioneiro no uso de um termo que define o amor livre de então, freelove , e que ainda hoje é atual LOBO, , p. . Ou ainda, na primeira edição atualizada d O Guesa, lançada em 2012, lemos: No Canto Décimo, volta a condenar o comportamento feminino, desta vez das freeloves , as namoradas norte-americanas, que desdenha com moralismo (...) LOBO, , p. 17). Nessa mesma edição, nas notas adicionadas ao canto décimo, a autora define freeloves como mulheres de costumes livres de Nova York, que decepcionam O

Guesa LOBO, , p. . Lobo também demonstra desconhecimento em relação aos preceitos e reivindicações do movimento contestatório do casamento como contrato social que foi o Free Love, sobretudo quando atribuí de modo improcedente a Sousândrade o pioneirismo no uso do termo em inglês.

Frederick G. Williams, que defendeu tese de doutorado sobre a vida e obra de Sousândrade, comenta as menções ao Free Love no artigo Sousândrade em Nova

lorque: Visão da Mulher Americana, publicado em 1991. Mesmo que tardiamente,

Williams foi o primeiro a contextualizar historicamente o movimento e relacioná- lo a Victoria Woodhull e sua irmã Tennessee Claflin. Contudo, os comentários de Willliams são enviesados, pois, sem citar nenhuma fonte, ele associa o Free Love somente às mulheres inclinadas à devassidão e à prostituição, o que caracterizaria as menções ao Free Love no poema como sinônimo de infidelidade feminina. Apesar disso, o pesquisador americano acerta quando diz que as seis citações ao

Free Love no Inferno de Wall Street contêm sentido negativo "embora tenha o

A figura acima125, publicada no jornal Harpers's weekly em fevereiro de 1872, faz crítica ao Free Love. Na imagem, em primeiro plano, vemos Victoria Woodhull travestida de demônio segurando um cartaz no qual se lê "Seja salva pelo Free Love". A mulher que aparece no segundo plano afasta-se de Woodhull carregando nas costas o marido bêbado, que segura uma garrafa de rum, além de dois filhos pequenos também pendurados a ela. Na legenda da parte inferior da imagem lê-se a resposta dessa esposa resignada à Woodhull: "Eu prefiro percorrer o caminho mais difícil do matrimônio do que seguir os seus passos". Assim, a partir dos elementos contidos na imagem, é possível compreender qual o papel que se esperava da mulher na sociedade da época e como que as ideias propagadas por meio da figura de Woodhull foram negativamente recebidas.

125 In: Harper's weekly, v. 16, no. 790, 1872 Feb. 17, p. 140. Library of Congress Prints and

Photographs Division Washington, D.C. 20540 USA http://hdl.loc.gov/loc.pnp/pp.print FIGURA 10 - "Get thee behind me, (Mrs.) Satan!"

Wife (with heavy burden). “I'd rather travel the hardest path of matrimony than follow your footsteps.”

Em A Masculine View of Women's Freedom: Free Love in the Nineteenth

Century, a autenticidade das posições sustentadas por Woodhull são, entretanto,

colocadas em dúvida, pois essas seriam, na realidade, manipuladas por seu segundo marido, Colonel Blood126. De acordo com o artigo, a maioria daqueles que advogavam e organizam o Free Love eram homens, haja vista que os preceitos do movimento seriam mais convenientes a eles. Haveria pelo menos duas razões para tanto, primeiro por que naquela época, dada a má aceitação do divórcio pela sociedade, desfazer-se de um casamento era mais penoso para as mulheres127; segundo por que o Free Love promovia um discurso individualista que para a maioria das mulheres, criadas para servirem ao outro, era difícil de ser acolhido (SPURLOCK, 1994, p. 39). Talvez isso explique o motivo pelo qual, mais tarde, Woodhull viria a renegar toda a sua atuação contra o matrimônio à frente do Free

Love, ao casar-se pela terceira vez, quando também se converteu ao catolicismo e

foi viver na Inglaterra.

Embora os estudiosos apontem que o número de homens responsáveis pela organização e elaboração de ideias do Free Love fosse maior que o de mulheres, o movimento era popularmente associado às mulheres tidas como exibicionistas (flamboyant women, SPURLOCK, 1994, p. 37.) e Victoria Woodhull indubitavelmente encaixava-se nessa categoria. Como militante do Free Love ela defendia o sufrágio feminino e os direitos de participação política às mulheres, por isso, lançou-se como candidata à presidência dos Estados Unidos em 1872, pelo

Equal Rights Party. O líder negro Frederick Douglass - abolicionista, orador,

escritor e feminista - foi indicado pelo partido como vice-candidato de Woodhull, mesmo sem o consentimento dele. No entanto, Victoria foi presa na véspera das eleições pela publicação da denúncia de adultério envolvendo o Reverendo Beecher no jornal semanal do qual ela era responsável, o Woodhull & Claflin s

Weekly, sob a alegação de propagadora de conteúdo obsceno. A lei que permitiu a

prisão temporária de Woodhull enquadrava como crime o envio por correio de material com conteúdo sexual.

126 Apparently much of Victoria Woodhull's career as a reform activist was managed by Col. Blood

and Stephen Pearl Andrews. It is difficult to tell how much Woodhull contributed to the ideas she expressed. It is clear, however, that in the end she rejected free love (SPURLOCK, 1994, p. 37).

127Women faced informal social sanctions as well as legal difficulties if they ended even bad

Conforme os estudiosos das ideias de Woodhull, o interesse dela ao fazer a denúncia não era desmoralizar o reverendo da igreja de Plymouth, mas sim trazê- lo para o lado da causa Free Love, uma que vez que ao envolver-se como uma senhora casada ele estava praticando o que pregava o Movimento, a saber: o sexo por amor longe das amarras das convenções do matrimônio. Vale lembrar que o caso Tilton/Beecher teve grande repercussão na época, tanto que Sousândrade faz menção a ele diversas vezes no Guesa. No Inferno de Wall Street, encontramos referências à candidatura de Woodhull e ao direito de voto às mulheres, em diferentes momentos do poema:

(Thanksgiving ao progresso, CORONEL MISS CLAFFIN :) — Eleita do meu regimento,

Eleição direitos perfaz : Nos céus bem convexos Os sexos

Se não guerram . . . lá reina a paz.

( canto décimo, p. 237)

(Candidata á presidencia americana e rainhas europeas luctando contra a dureza dos positivos tempos :) — Subir, é melhor para a gloria ;

Descer, para a respiração . . . — A Bíblia escachaça Em fumaça,

Se é cabeça e não coração ! (idem)

(EMERSON philosophando :)

— Descer . . . é tendencia de principe ; Subir . . . tendencia é do vulgar : Faz um stagnação ;

Da nação

(V. WOODHULL no mundo dos espiritos :) — Napoleão ! Grand'Catharina !

Trema a terra á crys-sensação ! Demosthenes ! Grande

Alexandre !

Woman rights, hippodromo e pão ! (idem)

(Freeloves passando a votar em seus maridos :) — De americanos o unico Emerson

Não quer prezidencias, o atroz ! == O bem justiçados, Estados

Melhoram p ra vós e pr a nós !

(canto décimo, p. 250)

É característica do poema de Sousândrade temas serem apresentados e retomados em diferentes momentos do texto. Na primeira estrofe, a menção ao

Coronel Miss Claflin é uma referência imediata a Tennessee, irmã de Victoria, que

foi eleita em 1872 coronel honorária de uma guarda negra veterana da Guerra Civil. O agradecimento ao progresso se dá pela eleita daquele regimento ser militante do direito de a mulher eleger-se na política nacional. Mas a leitura da estrofe também agrega ambiguidade jocosa, se considerarmos que o marido de Victoria era também coronel e que as irmãs carregavam o mesmo sobrenome de família, embora Victoria fosse mais conhecida pelo sobrenome do seu primeiro marido, Woodhull. Decorre, então, que a patente de coronel, substantivo masculino, remete ao Coronel Blood, ao passo que o pronome de tratamento miss Claflin nos lembra também Victoria, sua esposa, estabelecendo desse modo o enlace entre o casal. Podemos ler os versos citados como uma provocação de que somente o sexo poderia apaziguar os diferentes anseios sociopolíticos entre homem e mulher. O Coronel agradeceria a Deus pelo progresso eleitoral, mas Woodhull é eleita apenas sua amada e não presidente.

Na estrofe seguinte, a candidata em questão é Woodhull que, pela sua pretensão de tornar-se governante americana, é colocada junto às rainhas da Europa, mulheres em posição de poder. A ordem de apresentação das personagens

na didáscalia sugere um diálogo entre elas, muito embora chame atenção na passagem a ausência do travessão duplo usado geralmente por Sousândrade para marcar a intervenção de uma segunda voz nas estrofes. Woodhull reflete sobre os perigos do seu anseio pela ascensão política, pois o movimento de subida ao poder, bom para glória, é também uma ameaça à respiração, ou à vida. As rainhas europeias, vivendo na era do embate positivista entre subjetividade e ciência, percebem a ruptura que ocorreria caso os preceitos religiosos fossem questionados à luz da razão. Talvez aqui haja um questionamento sobre a teoria do direito divino dos réis, que seriam representantes de Deus na terra, pois, como se sabe, Sousândrade era avesso ao sistema monárquico. Essa hipótese de leitura é reforçada pela terceira estrofe, na qual Emerson - muito provavelmente o ensaísta, poeta e filósofo transcendentalista Ralph Waldo Emerson, bastante conhecido na sociedade americana na segunda metade do XIX - fala sobre a queda da Monarquia e a ascensão da democracia republicana.

Na sequência, há referência à mediunidade de Victoria Woodhull que se encontra no mundo dos espíritos em contato com grandes personagens políticos. A questão levantada na passagem concerne aos direitos das mulheres, que é diminuída em sua importância pela associação com a política do panem et

circenses, praticada no Império Romano para alienação do povo em relação aos

problemas políticos correntes. Na última estrofe, o tema do sufrágio feminino reaparece e a ironia da passagem está na sugestão de que pouco importaria que os candidatos ao posto maior da república fossem as mulheres adeptas do Free Love ou seus maridos, porque o que todos almejavam era somente a glória do poder. O único cidadão que se desprenderia dessa ambição é o referido Emerson, admirado por Sousândrade128.

Outras referências ao Free Love ocorrem nos seguintes excertos do Inferno

de Wall Street:

(DUQUE ALEXIS recebendo freeloves missivas; BRIGHAM :)

128 Emerson é citado quatro vezes no Canto Décimo. A versão londrina, a última, inclui versos

sobre sua morte: Segue ao Poeta o Philosopho — estalaram/ Todas da america harpa as grandes chordas !/D Emerson pensador a filha ás bordas/ Do tum lo e os lirios de Platão acharam. p. .

— De quantas cabeças se fórma Um grande rebanho mormão ? == De ovelha bonita,

Levita,

Por vezes s'inverte a equação.

(Hymnos de SANKEY chegando pelo telephono a STEINWAY HALL :)

— O Lord ! God ! Almighty Policeman ! O mundo é ladrão, beberrão,

Burglar e o vil vandalo Escandalo

Freelove . . . e hi vem tudo ao sermão !

(canto décimo, p. 234)

(Astronomicas influencias, CANCRO e CAPRICORNIO :) — São freeloves Ursas do Norte ;

Ped'rasta o Cruzeiro do Sul . . . == A yanky ! o carioc !

Stock, stock,

Minotauro e de Io o ôlho azul !

(canto décimo, p. 235)

(MACDONALD, SHWAB, DONAHUE ; Freeloves CALIFORNIAS e Pickpockets pela universal revolução :)

— De asphalto o ar está carregado ! == Hurákan ! o raio ora cae ! — Caniculo mez,

De uma vez,

Vasto Storm-god em Fourth-July !

(canto décimo, p. 237)

(...)

(Freeloves meditando nas free-burglars bellas artes :) — Roma, começou pelo roubo ;

New York, rouba a nunca acabar, O Rio, anthropophago ; == Ophiophago

Newark . . . tudo pernas p ra o ar . . .

O movimento Free Love é associado à poligamia praticada pelos mórmons. Duque Alexis, quem recebe cartas de freeloves , parece estar interessado em compor seu harém, por isso pergunta a Brigham sobre quantas mulheres, chamadas de ovelhas, seriam necessárias para tanto e este responde que, dependendo do caso ou da inversão da equação, seriam as mulheres freelovers a formar o seu rebanho. Enquanto isso, na estrofe posterior, o pregador cristão Ira Sankey, evocando Deus e as autoridades, condena em seu sermão pecados como o roubo, o vício pelo álcool e o Free Love.

Na sequência ocorre um trocadilho entre a constelação da ursa maior e a figura das mulheres ianques como ursas da bolsa de valores (freeloves Ursas do Norte), lembrando que os bears são os especuladores que provocam baixa nas ações. A presença do pederasta carioc(a), parece sugerir alguma transação financeira entre ambos (stock, stock). Nos chama atenção a menção ao comportamento sexual do carioca no contexto em que as freelovers também são mencionadas. O tom aqui, mais uma vez, é de censura a ambos. Ainda em tom negativo, as duas últimas estrofes supracitadas associam o freelove com contravenções como o roubo, dada a referência aos pickpockets, batedores de carteira em inglês, e aos free-burglars, algo como ladrões à solta ou ladrões impunes, livres. Portanto, todas essas associações do Free Love com transgressões da lei, além das questões de conduta moral e sexual, talvez se justifiquem pelo fato de Victoria Woodhull e sua irmã Tennessee Claflin serem consideradas as primeiras mulheres a atuarem em Wall Street com a corretora Woodhull, Claflin &

Company, que elas teriam aberto com a ajuda do magnata Cornelius Vanderbilt

(HOROWITZ, 2000, p. 411)129.

As referências ao Free Love n O Guesa concentram-se no canto décimo, situado em Nova York, e são mormente negativas, consoantes com a visão geral da sociedade americana da época. Mas no canto segundo, no fragmento do

129 O interesse de Cornelius Vanderbilt por Tennessee, irmã de Woodhull, e as sessões

espiritualistas conduzidas por esta última, nas quais ele buscaria contato com a mãe, teriam feito com que o milionário nutrisse certa estima pelas irmãs e, por conta disso, as teria ajudado a abrir a corretora em Wall Street. Cf: HOROWITZ, 2000, pp. 403-434.

Tatuturema, na versão derradeira130 do poema, Sousândrade acrescenta ali também uma referência ao Free Love. Vejamos o trecho:

( Moral educação práctica : ) — A mulher é Jovita ; O homem, Bennettetão : Oh ! faz Hudson-manbusiness, Freeloves ; Amazonas, poltrão ! (canto segundo, p. 29)

Jovita Alves Feitosa (1849-1867) ficou conhecida pela sua coragem e patriotismo ao disfarçar-se de homem para alistar-se aos Voluntários da Pátria na guerra do Paraguai. Mesmo depois de descoberta sua identidade, ela foi aceita como sargento e embarcou junto ao batalhão em Teresina com destino ao Rio de Janeiro em agosto de 1865. A cearense Jovita, com apenas 18 anos na época, foi associada à Joana d Arc e recebida na Corte como heroína131. A estrofe do canto segundo mencionada fala de uma educação moral prática e contrasta a moral da mulher a do homem tomando o exemplo de Jovita e Bennettetão, corruptela do sobrenome de James Gordon Bennett, diretor do jornal nova-iorquino The New

York Herald132.

Jovita foi sinônimo de coragem, ao passo que o termo tetão aglutinado ao nome de Bennet remete ao aumentativo da palavra teta, cujo significado, além de

mama ou peito, pode também referir-se a homem mole133 , ou covarde. Os três últimos versos, todavia, parecem inverter os valores da lição dos dois primeiros sobre moralidade. Iniciada pela interjeição de espanto ou admiração Oh! , a

130 O Tatutrema recebeu quatro versões: Semanário Maranhense (1867); Impressos v. I (1868);

Obras Poéticas – Guesa Errante (1874); O Guesa (1887).

131 Cf.: GALVÃO, Walnice Nogueira. A Donzela Guerreira: Um Estudo de Gênero. São Paulo: Editora

Senac, 1998. p. 104-112; FLORES, Hilda Agnes Hubner. Mulheres na Guerra do Paraguai. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 33-37.

132 CAMPOS; CAMPOS, 2002, P. 402

133Cf: Dicionário Antonio de Moraes Silva (1789). Disponível em:

terceira estrofe menciona o rio Hudson, que banha a ilha de Manhattan, e sua ação de fazer ou produzir homens de negócio, os manbusiness , e freeloves , enquanto o rio Amazonas, no norte do Brasil, seria produtor de poltrão ou covarde. A passagem soa irônica, pois as rimas em A-B-C-C-B contradizem o exposto e reforçam a primeira lição dos versos inicias, pois os atributos de Bennettetão (covarde versus coragem, de Jovita) são reforçados pela sonoridade da rima em B que liga Bennettetão a poltrão , ou seja, o produtor do poltrão não seria o Amazonas, como está posto, mas o Hudson. Desse modo, o ensinamento prático em questão afirma que manbusiness e freeloves são moralmente inferiores a Jovita, a donzela guerreira e patriota brasileira.

Por fim, de volta ao canto décimo, as freelovers são contrapostas ao protótipo da mulher virtuosa, ou da nova-iorquina benevolente como a temos chamado até aqui, exemplificado na figura de Lady Hayes, conforme veremos abaixo.

Acompanhai Lady Hayes, a fronteira Mulher-intelligencia, amor, acção. Pre-sente-se que o ides : sois os lares

Da sacra chamma patria — Oh, creio e te amo Joven America ainda a delirares,

E mais de ti, portanto, é que reclamo : De ti depende o mundo do futuro ;

Es o destino, a ti prende-se o homem, Qual á magia a estar de um verbo puro,

Que desdenha do error, que á fôrça o tomem. . . Em commum. . . não commum, que hi fórma a Davis E a freeloves das liberdades-vicios

(Corrupted free men are the worst of slaves)

(canto décimo, p. 196)

Lady Hayes mencionada por Sousândrade como símbolo da Mulher- intelligencia, amor, acção ; a mulher educada, que se dedica ao cuidado dos seus e que também é dotada de atitude, trata-se Lucy Ware Webb Hayes (1831-1889). A

esposa do Rutherford B. Hayes, 19° presidente dos Estados Unidos entre 1877 a 1881, ficou conhecida por ter sido a primeira dama a possuir formação em nível superior. Lucy Hayes, apesar das ocupações domésticas e cuidados com os oito filhos que tivera, também impressionou a sociedade da época pelo apoio a carreira política de seu marido, tendo inclusive assumido agenda de visitas independentes quando em viagens oficiais com o presidente. Uma das anedotas mais profícuas em torno da figura de lady Hayes foi a proibição de bebidas alcoólicas na Casa Branca, o que lhe atribuiu a alcunha de Lemonade Lucy, embora a proibição tenha partido do presidente, tendo a primeira dama apenas o apoiado. Por todos esses elementos, Lucy Hayes entrou para a história como símbolo de mãe exemplar, esposa dedicada, além de mulher culta. Sua posição de destaque na sociedade da época chamou atenção de movimentos pelo direito da mulher, que tentaram atraí- la para suas causas.

Contudo, a primeira dama sempre se eximiu do apoio público a qualquer movimento, fosse feminista, da temperança ou religioso. Em relação ao sufrágio feminino, por exemplo, Lucy Hayes corroborava a posição de seu esposo, quem defendia que as mulheres não possuíam educação suficiente para exercer o voto,

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