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Tal como discutido na seção anterior, as relações políticas e econômicas entre o principado Rus´ e Bizâncio se expandiram enormemente a partir de meados do século X, quando a preferência pela rota Grega do comércio fluvial Rus´ se tornou latente com os tratados comerciais obtidos por Oleg e Igor e o batismo de Olga, como corolários dessa nova orientação, voltada para o mar Negro, estreitando as relações com o Império Bizantino. O batismo de Vladimir vem na esteira dessas relações.

A complexidade deste próprio comércio deu origem a diversas respostas políticas, tanto da parte dos príncipes Rus´, quanto da parte do Império Bizantino. Este último passou por uma transformação de sua orientação política durante o século X. A partir de sucessivos governos de imperadores com notável destreza militar, a conquista de novos territórios e a defesa dos já existentes pela força das armas se tornou um objetivo possível. Se até a metade do século X, com os governos de Constantino VII, Porfirogênito (913-959) e em parte o de seu filho Romano II (959-963), a orientação básica era a defesa de territórios e a convivência pacífica com os povos situados além das fronteiras, a partir de Nikephorus II Phocas (963-969) e, principalmente, de João Tzimisces (969-976), a orientação passou a ser a submissão dos outros povos pelas

armas, com a consequente expansão da oikoumene.64 A contraposição entre as duas mentalidades, a diplomática e a militar, foi explorada por Liutprando de Cremona, bispo da cidade mencionada, na Itália, que visitou Constantinopla em 949 e em 968 e notou a diferença de atitude entre os imperadores nos dois contextos de sua estadia na sede do Império Bizantino. Ele descreveu Constantino VII como “Um homem brando [que] faz os outros povos amigos de si com coisas da natureza” e Nikephorus como “Um homem devotado à guerra [que] não ganha a amizade dos povos por oferecer-lhes dinheiro, mas os subjuga pelo terror e pela espada” (STEPHENSON, 2004: 54).65

Contudo, essa imagem do Império Bizantino como poderoso subjugador de povos, tal como fornecida pela propaganda imperial, estava mais distante da realidade do que gostariam de admitir os próprios bizantinos. Logo após a morte de João Tzimisces em 97666, quando assumiram Basílio II e Constantino VIII, filhos de Romano II, as conquistas de Nikephorus II Phocas (963-968) e João Tzimisces (969-976) foram postas em cheque. A Bulgária, reincorporada ao Império Bizantino após as campanhas de Nikephorus Phocas e João Tzimisces, se reorganizou devido à ausência de uma política de ocupação imperial capaz de manter essa região subjugada. Juntamente com isso, a situação de Basílio II se deteriorou graças às revoltas de duas grandes famílias da Anatólia67, os Skleros e os Phocas, duas famílias de prestígio nobiliárquico. Essas famílias entraram em confronto com os novos imperadores, Basílio e Constantino, para assumir o controle do império.

A primeira família a se rebelar contra esses dois imperadores foi a dos Skleros. Tal como relatado por Miguel Psellus, filósofo e historiador bizantino do século XI, o combate a Bardas Skleros, líder da revolta, foi encabeçado por Bardas Phocas, general habilidoso, que conseguiu conter a revolta e derrotar Skleros (OSTROGORSKY, 1963:

64 Palavra que significa tanto universo quanto mundo habitado. Nesse caso o território controlado pelo

Império Romano e posteriormente o Bizantino (KAZHDAN, ODB, 1991: 1518).

65 Primeiro trecho: “a mild man... [Who] made other peoples friendly to him with things of this nature”.

Por “coisas da natureza” devemos entender o oferecimento de dinheiro, produtos e presentes luxuosos; Segundo trecho: “a man devoted to warfare [Who] does not win the friendship of peoples by offering them Money, but subjugates them by terror and the sword” (Tradução nossa).

66 As fontes não fornecem relatos concordantes entre si quanto à morte de João Tzimisces. Tal como o

historiador Alexander Kazhdan expôs no verbete sobre João I Tzimisces no Oxford Dictionary of Byzantium (O.D.B.), enquanto Mateus de Edessa preserva uma lenda de que ao fim de seu reino João devolveu a coroa para Basílio II (do qual era regente enquanto o principe não atingia a maioridade) e se retirou para um monastério, há rumores de que ele tenha sido envenenado por Basílio, o bastardo, eunuco proeminente na corte bizantina no século X (KHAZDAN, ODB, 1991: 1045)

67 Região situada no centro da Ásia Menor, atual Turquia. Ambas as famílias tinham profundos laços com

o poder imperial. A família Skleros estava ligada a João Tzimisces, o último imperador, e os Phocas eram os descendentes de Nikephorus II. Bardas Phocas era sobrinho deste último.

296). Logo após a rebelião, Basílio II68 se lançou à reconquista da Bulgária em 986, mas foi derrotado próximo à cidade de Sardica em 17 de Agosto do mesmo ano. Segundo Andrzej Poppe, essa derrota se deu graças à má condução da guerra pelos generais bizantinos que pertenciam a algumas das mais nobres famílias do império e pretendiam ensinar uma lição a Basílio, este Imperador suspeito, jovem, excessivamente independente e inexperiente em assuntos militares (POPPE, 1976: 224). Após esses reveses, o interesse da nobreza pelo poder foi despertado novamente, gerando a rebelião de Bardas Skleros. Novamente o Imperador se valeu da perícia militar de Bardas Phocas, que nesse momento era governador das províncias do Leste do Império. O Imperador o nomeou domesticus69 do Leste (i.e. Ásia Menor) e comandante-em-chefe do exército. No entanto, Phocas, após participar ativamente da repressão à primeira rebelião de Bardas Skleros, se sentiu negligenciado e desprestigiado na corte constantinopolitana. Entrou em acordo com Skleros para em seguida o depor e se proclamar imperador na Anatólia, de onde marchou rumo a Constantinopla visando destronar os dois imperadores (SEWTER, 1966: 34).

A situação dos imperadores se tornou desesperadora. Com o rebelde Bardas Phocas contando com o apoio de tropas da Ibéria70 e com toda a Ásia Menor reconhecendo a autoridade deste, eles se viram obrigados a recorrer ao tratado estabelecido entre Sviatoslav e João Tzimisces em 971, no qual ficou estabelecido que os Rus´ ajudariam os Gregos, caso necessário, em troca de privilégios comerciais. Confiar nesse acordo não era fácil, visto que foi estabelecido logo após Sviatoslav invadir a Bulgária, entrando em conflito direto com o Império Bizantino pelo controle dessa região. O historiador bizantino Léo o Diácono, contemporâneo a esses eventos, afirmou que Sviatoslav havia prometido que estaria logo montando suas tendas dentro dos muros de Constantinopla (NIEBUHR, 1828: 175).

Esse tipo de acordo da diplomacia bizantina com chefes bárbaros sempre gerava desconfianças dentro do Império e para isso essa mesma diplomacia procurava jogar uns contra os outros nos casos em que esses chefes voltavam os olhos para a capital bizantina. Tal como afirma Andzej Poppe, “a promessa de um rei Rus´ morto por

68 O imperador que detinha o poder de fato. Seu irmão, Constantino VIII se retirou espontaneamente das

decisões do Império, preferindo viver uma vida faustosa e de privilégios (SEWTER, 1966: 27).

69 Cargo do oficialado militar bizantino (também existiu em outras esferas da administração, notadamente

civíl e eclesiástica, mas não nesse caso), chefe de um regimento (tagma). No fim do século X o cargo era de grande importância e podia se extender (como aconteceu com Bardas Phocas) a vários tagmata diferentes, ou até mesmo de regiões inteiras (KHAZDAN, ODB, 1991: 646).

70 Região situada no extremo nordeste da Ásia Menor. Foi incorporada ao Império Bizantino por volta de

Pechenegues sob instigação Bizantina dificilmente poderia ter muito peso” (1976: 221).71 Contudo, apesar da desconfiança em relação aos Rus´ e apesar do histórico das relações muitas vezes conflituosas entre Bizâncio e eles, era ainda mais difícil confiar na fidelidade das grandes famílias dentro do império, as quais, em sua maioria, se aliaram a Bardas Phocas. Dessa forma, pareceu ser, a Basílio II, uma solução possível, ainda que não recomendável, estabelecer um acordo com o príncipe Rus´ de então, Vladimir de Kiev.