Finalmente, após a exibição da problemática teórica e da metodologia da investigação, a Parte III destina-se à apresentação de resultados. A seguir, são apresentados extratos relevantes extraídos das notícias referentes aos dois eventos de análise. O que se objetiva é a demonstração de como as vítimas e os responsáveis pelos crimes foram abordados e elaborados ao longo das reportagens, além da análise das implicações sociais e políticas dos eventos. Isso se dá a fim de ilustrar e corroborar com a exposição teórica realizada, mostrando, também, como ocorre a conexão entre movimentos migratórios expandidos pelo mundo global, atos terroristas, criminalidade transfronteiriça, populações suspeitas, investimentos em mecanismos de controle de determinados grupos. Por fim, busca-se apresentar como a imprensa, responsável pela criação do pânico moral, se envolve com tudo isso e influencia determinadas práticas.
Vítima
Os primeiros extratos aqui apresentados se relacionam com a abordagem da imprensa em torno das vítimas dos casos em análise. Abaixo, o primeiro trecho, do jornal de referência alemão Süddeutsche Zeitung, cita a morte de Maria L., uma jovem estudante que veio a óbito após ter sido vítima de um estupro e estrangulamento. Já o segundo, retirado do mesmo jornal, expõe que essa vítima era comprometida com questões sociais, além de ser filha de um cidadão detentor de alto cargo profissional e possuidor de vínculos com a Igreja.
Maria L., estudante de medicina de 19 anos, é encontrada morta às margens do rio Dreisam, em Freiburg. Ela foi estrangulada e estuprada.
(22.03.2018/Assassinato Maria L./Süddeutsche Zeitung/Hussein Khavari/18)
Sua vítima [Maria L.]: uma mulher socialmente engajada, filha de um alto funcionário da EU, ligado à igreja.
(22.03.2018/Assassinato Maria L./Süddeutsche Zeitung/Hussein K/1)
Em relação à exposição da vítima do crime, nesse caso a Maria L., os excertos acima nos fazem observar como que a imprensa a aborda sob uma ideia de pureza, jovialidade e compromisso com estudos e questões sociais, características essas que impactam positivamente a sociedade. No segundo extrato, há menção a um familiar da vítima e sua ligação com a igreja,
o que corrobora com a ideia de ‘bons costumes’ dos que sofreram, direta ou indiretamente, com o ato criminoso. Tudo isso estimula a criação de identificação e simpatia entre os leitores e as vítimas, consideradas indefesas, ‘cidadãs de bem’, cumpridoras dos seus deveres, além de um “sofrimento à distância” por parte do público que se compadece com a história narrada (Gomes 2013; Lyon 2004; Machado apud Machado & Santos 2009; Machado & Santos 2011:161). A abordagem do elevado status do pai da vítima cumpre um dos critérios de noticiabilidade de Jewkes (2004), qual seja o interesse da mídia na apresentação de uma pessoa de alta posição na sociedade, pois ela chama atenção por si só. Tal exposição, junto com a apresentação dos outros detalhes mais pessoais dos envolvidos, denota a personificação. Esse critério corresponde à apresentação aos expectadores de pormenores mais íntimos dos personagens envolvidos nos casos, contribuindo para a criação de vínculos entre ambos, o que é uma característica dos dramas criminais (Gomes 2013).
Abaixo, por sua vez, pode-se observar a transmissão do sofrimento daqueles que estavam presentes no atentado ao Bataclan a quem lê, conectando, ainda mais, vítimas e leitores, uma vez que estes se solidarizam com o infortúnio vivido por aqueles. Dentro dessas narrativas dramáticas, o extrato a seguir, retirado de uma notícia do Le Parisien, descreve o estado incrédulo de uma das pessoas que vivenciou o momento de horror provocado pelo ataque à casa de shows. Pela gravidade do ocorrido, a mesma chegou a pensar que estava sonhando, em um momento em que ouvia os sons dos disparos das armas juntamente com os gritos das vítimas.
"Eu sonho ou o que?", continua outro [espectador do Bataclan], incrédulo. O som das balas se funde com os gritos das vítimas [do atentado ao Bataclan] no andar térreo.
(15.04.2016/Atentado Bataclan/Le Parisien/Samy Amimour/11)
Como visto, dentro daquilo que é considerado noticiável, o drama literário da imprensa acerca de temáticas criminais fomenta a identificação entre audiência e as vítimas dos crimes divulgados (Gomes 2013). Essa aproximação, somada ao desenvolvimento das notícias ao longo do tempo – serialização e periodicidade – cria não só a adesão do público como, novamente, um “sofrimento à distância” e reivindicações por parte do mesmo (Machado & Santos 2011; Machado & Santos 2011:161).
Ainda tendo em mente o conceito de vítima, pode-se mencionar a ideia que as notícias transmitem no sentido de que o perigo pode estar a qualquer lado e que, assim, qualquer um é
visto como vulnerável ao acontecimento de crimes. Em outras palavras, as reportagens influenciam a percepção de que, no dia a dia, qualquer pessoa está suscetível ao contato com quem pode vir a cometer crimes, se tornando uma vítima, o que causa receio da população em geral. Isso pode ser traduzido pela sensação de risco que é transmitida ao leitor com a proporção gerada dos casos por suas amplas divulgações (Jewkes 2004). Essa realidade estimula uma sensação de onipresença do perigo, de aleatoriedade da vitimação, principalmente diante da imprevisibilidade das consequências das ameaças de um mundo global, que acabam por romper o discurso de segurança (Machado & Santos 2011; Ungar 2001). Para melhor ilustrar a onipresença do perigo, o extrato que se segue, do tabloide Bild, diz que a jovem Maria L. encontrou com Hussein K., seu assassino, a cerca de um quilômetro e meio do local de seu dormitório. É, então, exposto que um crime pode se efetivar, inclusive, nas proximidades da residência da vítima, em locais familiares, como no caso. Isso provoca receios ao leitor a partir do momento em que demonstra ideia de que não haveria segurança nem mesmo nas redondezas de seus lares, que geralmente são assimilados a locais de repouso e de segurança, onde nada deveria acontecer.
Cerca de um quilômetro e meio de seu dormitório, a jovem mulher [Maria L.] - de acordo com os investigadores - deve ter encontrado seu assassino [Hussein K.].
(05.12.2016/Assassinato Maria L./Bild/Hussein K/66)
Em relação ao atentado ao Bataclan, que era uma casa de shows, pode-se pontuar que o mesmo se configurou em um local onde as pessoas frequentavam por lazer, ou seja, até nesses momentos prazerosos o risco pode estar presente. O excerto abaixo do tabloide Le Parisien refere que Samy Amimour, de vinte e oito anos, originário de uma comuna francesa chamada Drancy e um dos responsáveis pelo ataque ao Bataclan, era um antigo motorista de ônibus da RATP, ou seja, do transporte público de Paris. Além disso, o mesmo treinou o uso de armas de forma legal em um clube de tiros parisiense, frequentado e gerenciado por policiais ativos e aposentados, do qual ele, inclusive, se tornou um membro. O trecho, então, transmite aos demais cidadãos a noção de que um possível criminoso pode participar de atividades comuns a eles, como ser motorista de transporte público ou participar de clubes e atividades legais, o que os fazem crer que estão expostos a um risco ainda maior, corroborando com a ideia da possibilidade de aleatoriedade de vitimação (Machado & Santos 2011).
Um dos terroristas de Bataclan, Samy Amimour, ex-motorista de ônibus da RATP, de 28 anos e originário de Drancy (Seine-Saint-Denis), treinou o uso de armas legalmente, em um
campo de tiro parisiense (...). Ele até se tornou membro de um clube frequentado e gerenciado por policiais aposentados e ativos.
(30.11.2015/Atentado Bataclan/Le Parisien/Samy Amimour/1)
Segundo um dos requisitos elaborados por Jewkes (2004) a respeito das notícias de crimes, podemos citar o da proximidade, que tem a ver com as dinâmicas espaciais e sociais entre os casos narrados e a audiência. Nesse caso, quando se respeita o critério e se seleciona fatos próximos às realidades dos leitores, são estimulados sentimentos inseguros, corroborando com a ideia da possibilidade de aleatoriedade de vitimação, ou seja, que qualquer um pode ser uma possível vítima e por isso corre constante perigo (Machado & Santos 2011). Assim, cabe ressalvar que, no mundo moderno, os discursos da mídia além de provocarem uma sensibilidade do público leitor para com as vítimas, colocam os sujeitos em igualdade de perigo face a criminalidade e suas abrangências (Jewkes 2004). Essa realidade, portanto, acaba por contribuir com a formação do medo na sociedade, que por sua vez tem a ver com episódios de pânico moral e medidas de controle daqueles que representam ameaças, como será visto adiante.
Autor do crime
Ao levarmos em consideração os autores dos crimes por ora abordados, pode-se observar a exposição de uma série de questões já referidas no presente trabalho e que impactam a representação do crime, da justiça criminal e, principalmente, do criminoso (Jewkes 2004). Inicialmente, os extratos a seguir expõem a ligação feita entre os suspeitos, e até mesmo seus familiares, e determinadas origens. Essa conexão estimula a atribuição, por parte do leitor, de práticas criminosas violentas a agentes pertencentes a determinados grupos e possuidores de certas características, ampliando o estigma social face a eles e legitimando o crescimento de mecanismos de controle sobre os mesmos.
O primeiro trecho, de uma notícia do Bild, menciona que o acusado de ter assassinado Maria L. é pertencente ao grupo étnico afegão hazara e que, provavelmente viveu um tempo no Irã antes de sua fuga para a Alemanha. O segundo, recortado de uma reportagem do Le Parisien, diz que o enterro de um dos envolvidos no atentado ao Bataclan, Ismaël Omar Mostefaï, poderia ser tanto na França, quanto na Argélia, país esse de origem do seu pai e sua esposa. Já o terceiro extrato, também do Le Parisien, diz que, de acordo com declarações de sua mãe, proveniente de
Oujda, Marrocos, Foued Mohamed-Aggad, outro envolvido no ataque à casa de shows, ficou sozinho na Síria e regularmente deu notícias à sua família. Assim, diante de alguns comportamentos, sobretudo criminais, é constantemente divulgado a pertença dos agentes a minorias étnicas, culturais ou religiosas, como afrodescendentes e pessoas do Oriente Médio (Jewkes 2004; M’Charek et al 2014). Em todos estes extratos pode-se perceber a menção às origens diretas ou indiretas dos responsáveis pelos atos, o que contribui para a uma maior vinculação feita entre criminalidade e as comunidades às quais eles possuem laços.
Hussein K. pertence ao grupo étnico afegão hazara e provavelmente viveu no Irã por um longo tempo antes de fugir para a Alemanha.
(10.12.2016/Assassinato Maria L./Bild/Hussein K/58)
O enterro [de Ismaël Omar Mostefaï] poderia ser na capital francesa ou na Argélia, o país de seu pai e sua esposa.
(18.01.2016/Atentado Bataclan/Le Parisien/Ismaël Omar Mostefaï/8)
Sozinho para ficar na Síria, Foued Mohamed-Aggad "regularmente" deu notícias à sua família, de acordo com as declarações de sua própria mãe, nascida em Oujda, no
Marrocos.
(09.12.2015/Atentado Bataclan/Le Parisien/Foued Mohamed-Aggad/6)
Em relação ao ataque ao Bataclan, além da apresentação das origens dos familiares dos agentes, nos extratos que se seguem, é evidenciado que os suspeitos, embora sejam nascidos na França, estiveram um tempo na Síria, Oriente Médio. Isso provoca uma associação, de maneira geral, entre esse local e os que ali estão com a ideia de ameaça. Por meio da análise das notícias, percebe-se uma relutância no momento de se aceitar divulgar que eles são nascidos na França, o que acarreta numa constante tentativa de associá-los a outras origens e locais considerados de risco, ou seja, à ideia de ‘Outros’. Seria algo como: os agentes nasceram na França, mas o que é passado ao leitor é que eles só cometeram o crime porque tiveram influências de suas vivências na Síria. Além de discursos criminalizadores em outras esferas, a abordagem midiática focada nessas associações busca conectar o ‘Outro’ à ideia de ‘ameaça’ (Bhambra 2017). Isso acaba por despertar um medo público que se torna mais uma justificativa para as apostas em mecanismos de controle voltados para a vigilância tecnológica e dispersa de corpos e movimentos
de certos indivíduos (Rose 2000; Foucault apud Galič & Timan 2017). Corroborando com essa ideia, o extrato abaixo, por exemplo, diz que, em relação aos atentados de novembro de 2015, inclusive ao Bataclan, os responsáveis estiveram por um tempo na Síria antes de voltarem e atacarem no país de origem, fugindo dos serviços de inteligência.
Alguns, especialmente entre os autores dos atentados de 13 de novembro de 2015, fizeram uma estada na Síria antes de voltarem a atacar o país de origem, fugindo dos serviços de
inteligência.
(14.02.2017/Atentado Bataclan/Le Monde/Foued Mohamed-Aggad/2)
Também para enfatizar a associação apresentada ao público entre a Síria e perigo, nesse caso o terrorismo, um outro trecho extraído de notícia do Le Parisien, diz que o pai de Samy Amimour, de família franco-argelina esperava que seu filho, participante do ataque ao Bataclan, voltasse da Síria e reconstruísse sua vida sem se arriscar à morte nem à prisão por atos terroristas.
O pai da família franco-argelina esperava convencer seu filho [Samy Amimour] a deixar a Síria e ajudá-lo a reconstruir sua vida no país, onde não arriscaria nem a morte nem a
prisão por cumplicidade no terrorismo.
(15.11.2015/Atentado Bataclan/Le Parisien/Samy Amimour/16)
Com essas abordagens é passada a mensagem de que a Síria seria um lugar ruim por ser fortemente associada com o terrorismo. Por isso, ao mesmo tempo que trocas globais crescem, a tendência de se rejeitar tudo aquilo que ‘não pertence’ a um certo contexto social e local também aumenta (Giddens 1991). A insegurança global se manifesta por ameaças externas a um lugar e essa ideia, como visto, é corroborada nas narrativas apresentadas.
Juntamente com a ênfase que as notícias do ataque na casa de shows deram sobre a permanência dos responsáveis na Síria antes do ato, também é importante dizer que as reportagens analisadas em relação ao assassinato ocorrido na Alemanha mencionam constantemente o status de refugiado do agente do crime contra Maria L. Essa frequente abordagem que aparece nas notícias do caso alemão, assim como a relação de causalidade apontada pelos jornais franceses entre o tempo passado pelos atacantes do Bataclan na Síria (local de procedência de muitos pedidos de refúgio) e o atentado terrorista, provoca ainda mais preocupações acerca dos refugiados. Tais abordagens estimulam a visão deles sob um prisma de
ameaça e a adoção de posturas negativas face a eles, como as dificuldades que países de acolhimento impõem em recebê-los mesmo após a assinatura de acordos de Direitos Humanos que os obrigam a isso (Bhambra 2017; Tutton et al 2014). A título expositivo, em uma notícia do Bild acerca do assassinato de Maria L., podemos ressaltar a parte abaixo, em que é citado, ressaltando sua condição de refugiado, que Hussein K. supostamente estuprou e matou a estudante de medicina em outubro.
Hussein K. (17), um refugiado do Afeganistão, supostamente estuprou e assassinou a estudante de medicina em outubro.
(06.12.2016/Assassinato Maria L./Bild/Hussein K/65)
Ainda relacionando as abordagens da imprensa acerca dos autores dos crimes, podemos observar outras questões enfatizadas sobre eles. Levando em consideração a Teoria da Rotulagem (Machado 2008), em que determinados comportamentos e indivíduos são classificados como desviantes por instâncias de controle, o extrato que se segue menciona o uso de drogas pelo responsável por assassinar Maria L., na Alemanha. Ao mencionar esses usos por parte do agente é passado ao leitor uma ideia de que, antes mesmo do crime cometido, ele já era desviante à uma norma social no que tange ao uso de substâncias entorpecentes. O trecho, retirado de notícia do Süddeutsche Zeitung, refere que o acusado da morte de Maria L. fazia uso de maiores quantidades de cannabis, segundo resultados das análises feitas em amostras de cabelo recolhidas, e também de pequenas quantidades de cocaína.
O acusado [Hussein K.] usava há meses uma maior quantidade de cannabis, disse o médico forense. Isso estava nas amostras de cabelo recolhidas. Cocaína também foi encontrada
em pequenas quantidades.
(26.10.2017/Assassinato Maria L./Süddeutsche Zeitung/Hussein Khavari/66)
Por seu turno, o extrato abaixo, retirado do mesmo jornal, cita a violência elevada e persistente do réu Hussein K. De acordo com um especialista que falou no tribunal, o mesmo também tem interesse em práticas sexuais agressivas e possui um comportamento misógino (de ódio, desprezo, preconceito face a mulheres), ou seja, outras condutas desviantes por parte do réu.
O réu [Hussein K.] tem uma violência grande e persistente, interesse em práticas sexuais agressivas e uma atitude misógina, disse o especialista Hartmut Pleines no tribunal.
(02.03.2018/Assassinato Maria L./Süddeutsche Zeitung/Hussein Khavari/28)
Já em relação ao atentado do Bataclan, uma notícia do Le Parisien expõe a opinião de uma professora de Ismaël Omar Mostefaï, um dos agentes envolvidos. Segundo ela, o suicida bombista era um estudante extremamente difícil que apresentou problema quando ainda jovem. Assim, podemos considerar que o trecho denota um comportamento desviante de Ismaël desde pequeno.
Do suicida bombista de Bataclan, ela [professora do Ismaël Omar Mostefaï] lembra-se, acima de tudo, "um estudante extremamente difícil, que apresentou um problema".
(16.11.15/Atentado Bataclan/Le Parisien/Ismaël Omar Mostefaï/10)
Desse modo, fatos desviantes sobre as personalidades dos agentes são revelados, como o uso de substâncias entorpecentes, comportamentos misóginos e histórico problemático. Levando em consideração o trabalho de Sílvia Gomes (2013), essa exibição possui relação com o binômio vítima ‘inocente’ versus autor do crime ‘monstro’, estimulando a antipatia e o medo sociais no tocante a esse último. A exposição desses tipos negativos de comportamento acima expostos e de certos atributos físicos, como será observado nos trechos abaixo, revelam outros estereótipos formados acerca de quem é visto como ameaça e provocam uma repulsa social não só em relação ao agente, como também a todo o grupo do qual ele faz parte (Welch et al 2002; Gomes 2013). Em extrato retirado de notícia do Le Parisien, é referido a mudança de Samy Amimour ocorrida um ano antes do seu ataque ao Bataclan, junto com outros dois terroristas. De acordo com o que é dito, ele deixou sua barba crescer e raspou a cabeça. Isso transmite ao leitor que esses traços físicos seriam familiares aos que possuem intenções criminais, sugerindo, ainda que de forma implícita, a associação de outras pessoas que possuem esses traços com a prática de atos criminosos.
Sua [de Samy Amimour] mudança de comportamento veio um ano antes. Sua barba cresceu, ele raspou a cabeça.
Ainda em reportagem do tabloide francês Le Parisien, o trecho abaixo menciona o uso de djellaba e saroual – trajes muito utilizados por povos africanos e do Oriente Médio – no verão de 2012. Novamente, características externas são expostas, nesse caso, o uso de determinadas roupas, o que sugere ao público a ideia de que quem as usam, de uma forma geral, podem ser vistos como potenciais criminosos.
No verão de 2012, Samy começa a usar a djellaba e o saroual (...). (12.07.2016/Atentado Bataclan/Le Parisien/Samy Amimour/17)
Nessa perspectiva, as exposições de aspectos comportamentais e físicos acima mencionadas também podem ser enquadradas no critério de individualismo de Jewkes (2004). Segundo ela, notícias criminais focam nesses aspectos individuais dos envolvidos, ignorando contextos sociais mais amplos, que poderiam contribuir para uma explicação mais completa das motivações para os crimes e desmistificar algumas ideias que associam determinados grupos e criminalidade (Jewkes 2004). Exposições de características externas, quando atreladas ao apontamento que as reportagens fazem em relação à frieza e crueldade dos agressores e dos próprios atos em si, contribuem ainda mais para a formação do estereótipo daquele que seria o criminoso por excelência (Gomes 2013). Essa realidade incita um medo e repulsa sociais não só face a eles, como também a todos que possuem além de determinadas origens, características, como o uso de drogas, de barba ou determinadas peças de roupas. Vemos, então, que a abordagem midiática pode ser perversa no sentido de criar representações falsas generalizadas fazendo o público crer naquilo que é divulgado (Bourdieu 1997).
Ainda, para apresentar a ideia de brutalidade, no Bild, como revela o extrato abaixo, uma notícia diz que, de acordo com o promotor, Hussein K. arrastou sua vítima Maria L. para fora do estádio em Freiburg, mordeu seu peito e rosto e abusou brutalmente dela. Ainda segundo ele, por agonia, a mulher ficou inconsciente e, então, o réu a colocou de bruços no rio Dreisam, afogando- a.
De acordo com o promotor, ele [Hussein K.] arrastou Maria para fora do estádio de futebol de Freiburg, mordeu o rosto e o peito e brutalmente abusou dela. Através da agonia, diz-se que a menina perdeu a consciência. O promotor está certo de que Hussein então colocou a
menina de bruços no rio Dreisam e a afogou. (08.09.2017/Assassinato Maria L./Bild/Hussein K/17)
Em relação ao ataque na França, um trecho retirado de reportagem do Le Monde explicita a continuidade dos tiros disparados pelos terroristas do Bataclan. Um sobrevivente relatou que eles recomeçaram a atirar quando outros reféns se levantaram, no que parecia ser um divertimento para eles, pois estavam rindo. Esse extrato mostra ao leitor, além da violência do ato, a frieza, a maldade dos que o praticaram, o que contribui para a construção social do crime e do criminoso, que são associados à violência, perversidade.
"Os terroristas recomeçaram e outros reféns se levantaram. Mais uma vez, eles