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As preocupações com a enunciação foram tomando corpo nos estudos semióticos paulatinamente. Conforme diz Bertrand ([2000] 2003), a história da lingüística francesa, e da semiótica de inspiração lingüística, em particular, passa por três grandes fases, que podem ser representadas, grosso modo, por três palavras-chave.

Como já vimos, pode-se dizer que a primeira fase, nas décadas de 1960 e 1970, se caracteriza pela presença da palavra estrutura. Nela, a semiótica encontra-se fortemente

marcada pelas concepções saussurianas, revisitadas e radicalizadas por Hjelmslev ([1943] 1975), fonte de inspiração para os postulados greimasianos. Os lingüistas desta primeira fase procuram investigar a língua como forma, independentemente do sujeito da fala. Focalizam o sistema da língua e procuram descrever, de modo objetivo, os mecanismos estruturais que o constituem. Nos estudos dos textos, igual procedimento era adotado: a subjetividade era simplesmente alijada da descrição.

Destaca-se nesta fase o firme propósito de eliminar da descrição qualquer dispositivo que remetesse ao sujeito da fala, por receio do retorno de um tratamento psicológico ou ontológico do sujeito aos estudos do texto. Em nome de uma abordagem objetiva do texto, a enunciação é vista apenas como instância que converte as potencialidades paradigmáticas do sistema em processo sintagmático. À luz desta perspectiva teórica é que se deve procurar compreender a frase “Hors du texte n’a pas de salut”, muitas vezes citada e fonte de inúmeros mal-entendidos, dado que ela foi cunhada a partir da concepção estruturalista do discurso, própria da semiótica dos primeiros tempos.

A segunda fase, que já se inicia na década de 1970, gira em torno da palavra

enunciação e tem na figura de Benveniste um seu precursor. Aqui, a preocupação com a

instância produtora do enunciado, instância logicamente pressuposta pela existência do enunciado e apreensível através das marcas que ela deixa nele, passa a ocupar o centro da cena. Num procedimento diferente do estruturalista da primeira fase, os lingüistas, aqui, dão relevo ao exercício da fala, passam a ver a linguagem como atividade enunciativa, determinadora do estatuto das formas lingüísticas. No dizer de Bertrand, nesta segunda fase “triunfa a pragmática, convidando a olhar o sentido ‘em ação’, na esteira da famosa obra de Austin, Quando dizer é fazer, que pôs em evidência a dimensão performativa da linguagem” ([2000] 2003, p. 78).

A terceira fase, na década de 1980, é marcada pela palavra interação. Os lingüistas desta fase priorizam a dimensão interativa, dialógica e conversacional, da linguagem. Assumem que a compreensão e o estudo da linguagem não podem ser levados a efeito sem que se considere a dimensão intersubjetiva como constitutiva do discurso. Desta forma, eles se opõem à concepção egocêntrica que caracterizou a fase precedente.

Com efeito, a semiótica discursiva não teve o seu campo de investigação substancialmente modificado, como já vimos, mas ampliado, uma vez que as preocupações com relação à enunciação e à interação redimensionaram o modelo semiótico,

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incorporando áreas de pesquisa que, segundo muitos semioticistas, já estavam embrionariamente previstas no modelo clássico.

Os avanços atuais da semiótica discursiva tendem a ampliar ainda mais o alcance do modelo, por isso pode-se falar numa nova fase. Na década de 90, espaços teóricos foram abertos no modelo para dar conta da edificação do valor a partir da percepção. Assim, foi postulado um nível tensivo-fórico, reintrodutor do contínuo e das tensões não discretizáveis nas preocupações semióticas, nível este que repercute em todos os pontos da cadeia gerativa dos sentidos e tem forte influência na fase da figurativização, esta já se constituindo uma simulação da própria percepção17.

É nesta linha de raciocínio que devemos compreender a seguinte passagem de Fontanille e Zilberberg ([1998] 2001), quando tematizam o devir como principal característica da enunciação: “Admitamos, a título de premissa, que a predicação”, e a referenciação, ousamos acrescer, “se aplique a um ‘espaço tensivo’ organizado em torno de um centro dêitico” (p. 154). Em outras palavras, enunciar é organizar o espaço tensivo em torno de um centro sensível, é construir um campo discursivo com cujo núcleo as grandezas convocadas mantêm relações tensivas.

Para o semioticista, este centro é um efeito-fim, convergência das relações de sentido recorrentes em uma dada totalidade discursiva; e mais que apontar para um sujeito empírico como origem do discurso, este centro o cria. O sujeito enunciante, assim, não corresponde a uma instância fonte, cuja existência precede o ato linguageiro. É, na verdade, uma decorrência dele. É por isso que os autores fazem questão de assinalar que “o ‘eu’ semiótico não se reduz ao ‘eu’ lingüístico: o ‘eu’ semiótico é um ‘eu’ sensível, afetado, muitas vezes atônico, quer dizer, comovido pelos êxtases que o assaltam, um ‘eu’ mais oscilatório que identitário” (op. cit.: p. 128).

Portanto, este centro dêitico não deve ser tomado apenas como uma estrutura formal. É mais um invólucro sensível, o corpo-próprio de Merleau-Ponty ([1945] 1999), a que só se tem acesso, na análise, através da depreensão das astúcias da enunciação18 e do simulacro, imagem-fim, de um sujeito enunciante, cujos procedimentos enunciativos,

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Silva (1995), por meio da metáfora da metamorfose, tenta apreender a constituição da base figurativa de toda semiose possível. Assim, aproxima-se de Peirce (1995), que vê o processo da semiose como uma “transformação” contínua envolvendo um objeto dinâmico, um representâmen, um objeto imediato e um interpretante, quando assinala que “exagerando um pouco, diria que na transformação de uma experiência em signo ocorre uma metamorfose fundadora. Metamorfose porque não fica tudo da experiência no signo, uma forma nova que é uma redução; fundadora porque está nas raízes da semiose.” (1995, p. 32).

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sobretudo as operações de convocação de grandezas para o discurso e sua conversão nos diferentes níveis gerativos do sentido, constroem uma voz própria, com um tom específico, isto é, um modo singular de habitar o espaço social e com ele interagir.

De acordo com esta abordagem, o esforço dos semioticistas deveria concentrar-se na operação de passagem do “texto-relato” para o “texto-discurso” (COQUET, 1997, p. 23), para flagrar a enunciação concebida como ato. De uma concepção para outra, o texto, ainda compreendido como organização transfrástica, vê-se irremediavelmente ligado a uma ou mais de uma instância enunciante. Neste contexto teórico, merece destaque especial o conceito de práxis enunciativa, que apresentamos a seguir.

1.2.1. Práxis enunciativa

A práxis enunciativa é a operação que articula a estrutura, o uso e a história. A distinção entre langue e parole, apresentada no Curso de Lingüística Geral (SAUSSURE: [1916] s/d), perde sua eficácia metodológica, por separar de modo radical o social do individual, e surge a noção de instância enunciativa, lugar de mediação onde são articulados as virtualidades do sistema e os usos repertoriados na cultura, num dado ato de fala, visto a um só tempo como individual e social. Tudo se passa como se o sistema, funcionando como estrutura de possibilidades combinatórias, tivesse algumas destas possibilidades sedimentadas pelo uso, e a práxis enunciativa, nos atos de fala concretos, convocasse esses produtos do uso, que passariam a exercer um papel coercitivo referentemente ao próprio fazer discursivo. A história então desempenha papel crucial. É ela, na qualidade de práxis enunciativa, que fecha a estrutura e deposita na memória de uma comunidade lingüística os produtos do uso para convocações posteriores. Esses produtos, por sua vez, se depositam no sistema da língua na qualidade de primitivos, compondo o discurso social, tecido por configurações já prontas, blocos pré-moldados e prontos para serem reutilizados.

Disto resulta que a fala, antes concebida como exercício livre e individual da língua, passa a ser duplamente condicionada. Deixemos a esse respeito a palavra com Bertrand ([2000] 2003, p. 87):

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Podemos, pois, dizer que “o cerceamento de nossa condição de homo loquens” se fundamenta em duas ordens de restrições que determinam a realização do discurso, as imposições a priori das categorias morfossintáxicas e os limites, de ordem sociocultural, impostos pelo hábito, pelas ritualizações, pelos esquemas, pelos gêneros, e até pela fraseologia, que moldam e modelam, sem que o saibamos, a previsibilidade e as expectativas de sentido.

A fala, portanto, não pode mais ser encarada como exercício soberano de um fazer solipsista, nem a língua deve ser concebida como um todo fechado, um sistema abstrato de puras relações, infenso aos efeitos do uso a curto prazo. Esta simples polarização não mais se sustenta. Na verdade, cumpre substituir o conceito dicotômico língua/fala por uma tricotomia, em que se interpõem, entre a fala e o sistema, os produtos do uso que o locutor atualiza em seu discurso e que tornam a comunicação eficaz, como, aliás, sugerira Hjelmslev (1991, p. 84) ao distinguir esquema, norma e uso.

Assim entendida, a práxis enunciativa opera um vai-e-vem entre sistema e discurso. Na versão “figural” e dinâmica de Zilberberg e Fontanille ([1998] 2001), ela gerencia as formas de convivência das grandezas convocadas para o discurso e seus modos de presença, conferindo ao discurso uma espessura, uma profundidade. Para estes autores, que redimensionam, em alguma medida, as postulações de Greimas, tal mecanismo pode ser traduzido em termos de modos de existência das grandezas em discurso, grandezas estas que estariam co-presentes, mas em diferentes graus de profundidade. Acompanhemo-los neste ponto:

1) As formas semionarrativas (o sistema) constituem a competência enunciativa virtual;