3.2 Resultat frå undersøkinga
3.2.1 Korleis fungerer emnet i klasserommet?
Ainda que possuindo distintas áreas do saber, Vygotsky propôs uma teoria psicológica e Bakhtin se encontrava mais próximo da Filosofia, não tendo pretensões psicopedagógicas, mesmo realizando com seus escritos uma aproximação com a Psicologia – ambos, no entanto, pressupõem a “dialogicidade” e do método dialético na busca do entendimento do sistema e práticas de linguagem e sua relação com o ambiente exterior e interior ao sujeito. Além disso, ambos possuíam uma mesma fundamentação teórica, pautada no materialismo histórico-dialético, em uma perspectiva marxista, e compreendiam, portanto, a linguagem como instrumento simbólico produzido e produtor do processo histórico.
Como evoca Freitas (1994), o principal ponto comum entre esses dois teóricos é que eles têm a mesma perspectiva dialética em suas teorias. Além disso, para ambos nos seus estudos sobre a linguagem, esta é considerada instrumento de comunicação, mas também organizadora do pensamento e planejadora de ações, graças à sua função simbólica que viabiliza a relação entre sujeito e ambiente social, entre o psiquismo do sujeito e o contexto histórico-social que o envolve.
Se, por um lado, Vygotsky utiliza o conceito de mediação cultural para a dinâmica por meio da qual o psiquismo se organiza com base nas relações sociais, nas situações de linguagem engendradas por um determinado ambiente cultural, por outro, Bakhtin utiliza o conceito de interação verbal como o fenômeno que dá sentido ao signo linguístico, o qual é apreendido pela consciência em virtude dessa interação, que implica necessariamente uma relação com um outro, exterior à pessoa. Ele diz, em nota de rodapé, que
O processo pelo qual a criança assimila sua língua materna é um processo de integração progressiva da criança na comunicação verbal. À medida que essa integração se realiza, sua consciência é formada e adquire conteúdo. (BAKHTIN, 2010, p. 111).
Tanto para Vygotsky como para Bakhtin, o outro e o diálogo entre eu e o(s) outro(s), que possui como mediador a palavra, signo linguístico, são elementos
fundamentais para os processos de interiorização, sem os quais não haveria uma organização na vida psíquica. É pelo outro, com o qual nos relacionamos graças à mediação simbólica proporcionada pelo signo em um plano interpsíquico, que o sujeito se desenvolve no âmbito intrapsíquico e realiza aprendizagens.
Bakhtin, com seus estudos sobre os fenômenos linguísticos, nos exprime uma teoria da “dialogicidade”, em que a palavra tem natureza interdiscursiva, interativa. Ele reconhece a existência da alteridade e supera uma concepção subjetivista do discurso (ROMAN, 1992). O conceito de interação verbal nesse teórico é central, haja vista que os demais conceitos, como polifonia, polissemia, ato enunciativo, ideologia, se estruturam com suporte na visão sobre o papel do contexto discursivo entre duas ou mais pessoas, papel esse que engendra o desenvolvimento do psiquismo, o reconhecimento recíproco das consciências, como também a transformação das práticas sociais e políticas. “[...] o sujeito de Bakhtin se constitui na e através da interação e reproduz na sua fala e na sua prática o seu contexto social imediato.” (RECHDAN, 2003, p. 47).
Sendo assim, tanto para Vygotsky como para Bakhtin,
É através da atividade semiótica que o homem ultrapassa a ação instrumental, transformando-a em ação significativa, e, nesse processo, faz história, superando as limitações das determinações puramente genéticas da espécie. (COLAÇO, 2001, p. 43).
Colaço (2001) também assinala que, para ambas as teorias, o signo tem uma importância fundamental, pois é pela linguagem, pela mediação simbólica “que a experiência adquire sentido” e que, para Vygotsky e Bakhtin, o sentido é dado na e pela relação discursiva, pela interação verbal. Para eles, a palavra é um elemento da consciência humana, um “microcosmo”, bem como um signo que se concretiza na interação verbal.
Assim como para Vygotsky não existe palavra sem significado, para Bakhtin não existe atividade mental sem expressão semiótica. Portanto, pensamento e linguagem apresentam uma relação intrínseca, na qual está implicada a interação verbal. Isto significa que, para estes dois teóricos, o princípio organizador e formador da atividade mental e da consciência não é interno ao sujeito, mas se constitui na interação verbal. (COLAÇO, 2001, p. 50).
A linguagem nas teorias de Bakhtin e Vygotsky é considerada como atividade constitutiva do pensamento, ela é “trabalho”, “processo” e “ação” sobre o pensamento (MORATO, 2000). Com arrimo nessa atividade, mediante atos de linguagem, emergem processos de significação, necessariamente sociais e históricos, pelo fato mesmo de resultarem desses atos, que são, ademais, intersubjetivos. “Para Vigotski, o caminho da criança para o objeto (e vice-versa) e a fala que acompanha a ação ou os apelos verbais diretos aos objetos do mundo, ‘passam através de outras pessoas’.” (MORATO, 2000, p. 159). Desse modo, consoante Vygotsky, mas também para Bakhtin, as interações humanas dão ensejo a situações enunciativas e discursivas que regularizam, organizam a linguagem interna, os processos de pensamento.
Ainda de acordo com essa autora, Vygotsky, ao compreender a linguagem como formadora e instrumento de atividade consciente, entende que a relação entre linguagem e pensamento (e cognição) transcende a ideia de comunicação e de representação, abarcando ainda a de significação, que implica a construção do significado ou sentido. Assim, em razão das distintas compreensões sobre esses conceitos, optei nesta Tese por não utilizar o conceito “representação”, mas sim de concepção, isto é, uma ideia carregada de sentido particular, que a criança tem sobre o que pode fazer uma pessoa que lê e escreve.
A perspectiva da linguagem feita atividade, mais especificamente como trabalho, também é trazida por Leontiev (2004), célebre colaborador de Vygotsky, no texto O desenvolvimento do psiquismo, no qual ele nos fala como o processo de hominização e formação da sociedade humana passou pela a atividade do trabalho como prática social, tendo a linguagem por instrumento por excelência, distanciando o homem da atividade instrumental animal. E ainda é importante considerarmos que, segundo Luria, a linguagem humana se distingue dessa atividade animal, pois esta não envolve um código de língua propriamente, isto é, são sons baseados em reflexos, na medida em que “A linguagem dos animais nunca designa coisas, não distingue ações nem qualidades, portanto, não é linguagem na verdadeira acepção da palavra.” (LURIA, 1999a, p. 78).
A relação do homem com a natureza é, portanto, mediatizada pelo trabalho, uma vez que este possui um caráter social, coletivo, quando o ser humano ultrapassa uma relação individual com a natureza, relacionando-se também com os outros em um vínculo de produção organizada, com motivos e objetos separados, sob mediação da linguagem, diferentemente do que ocorre com os animais, em que a atividade e sua
motivação são sempre orientadas para o biológico, e a imediata satisfação da necessidade.
No raciocínio de Leontiev (2004), entre os seres humanos, a ação de um justifica a de outros e dá-lhes sentido. Ele traz o seguinte exemplo: assustar a presa para outro vir e apanhá-la é uma relação social e não natural. A consciência, nessa perspectiva, se estrutura na medida em que uma ação existe não só como realidade objetiva, mas também passa a se conservar como ideia permeada de significados, como processo consciente, de pensamento.
Chamamos pensamento, em sentido próprio, o processo de reflexo consciente da realidade, nas suas propriedades, ligações e relações objetivas, incluindo os mesmos objetos inacessíveis, à percepção sensível imediata. (LEONTIEV, 2004,p. 90).
Na perspectiva desse Psicólogo moscovita, a atividade de trabalho e todas as suas implicações leva ao aparecimento da consciência, pois as operações do trabalho são realizadas por meio de instrumentos13, que, ainda que materiais, são sociais e, portanto, possuem significados partilhados socialmente pela linguagem.
A consciência, também para Leontiev, se estrutura a partir da atividade social de linguagem. Ele especifica é que essa atividade está vinculada às relações de produção pela necessidade do trabalho. “As particularidades do psiquismo humano são determinadas pelas particularidades dessas relações (de produção entre os homens), dependem delas.” (LEONTIEV, 2004, p. 97).
Luria também compreende a linguagem como fundante e essencial para a atividade consciente, quando diz que “A linguagem é o fator fundamental de formação da consciência.” (1999a, p. 80). Ainda segundo ele, os processos psíquicos são afetados pela linguagem na medida em que esta aprofunda a percepção humana e altera a atenção e os processos de memória.
As contribuições de Leontiev e Luria aqui passam por essa perspectiva da linguagem como atividade fundamental para o desenvolvimento do pensamento, a qual é compartilhada por Vygotsky e Bakhtin. Nesse quadro teórico, esses autores podem dialogar na medida em que possuírem reflexões e argumentações semelhantes acerca da
13 “[...] tendo um certo modo de emprego elaborado socialmente no discurso do trabalho coletivo e
função da linguagem humana na organização do pensamento e na estruturação do sistema da consciência, apoio minha tese sobre a construção de concepções que a criança possui sobre ler e escrever. Vimos nas reflexões trazidas por esses teóricos o quanto as relações de linguagem estabelecidas entre as pessoas atuam no sentido de desenvolver as funções mentais, bem como a produção de significado partilhada nessas relações se desdobra em significados particulares; ganham sentido intrassubjetivo. É justamente nesse sentido e como se dá o seu percurso que busquei investigar, no que se refere, especificamente, à linguagem escrita em crianças que estão em um momento formal de alfabetização escolar.
Optei, portanto, por pesquisar a concepção que a criança possui sobre a linguagem escrita com base nas interações discursivas que se estabelecem no ambiente da sala de aula, pois que, como vimos, essa concepção é gestada e transformada mediante essas interações.
A criança no processo de aprendizagem dessa linguagem vivencia no cotidiano escolar, especificamente, a concretude dos signos via discursos instaurados entre ela e seus pares, entre ela e a professora, entre ela e os livros de texto e de atividades. Esse universo intersubjetivo, mediado pela interação verbal, dá sentido ao que ela aprende, ampliando suas aprendizagens e, como resultado, seus processos psicológicos internos.
Passemos, a seguir, a algumas reflexões sobre os processos de aquisição da linguagem escrita pela criança, no esforço por compreendê-los, e como a criança concebe essa aquisição, sem perdermos de vista nossa base histórico-dialética do desenvolvimento e da aprendizagem.
3 APRENDIZAGEM E CONSTRUÇÃO DA CONCEPÇÃO DA LINGUAGEM