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10.2 De enkelte artene

10.2.4 Koraller og annen bunnfauna

A subjetividade precisa recuar para deixar o mundo passar. Mas as experiências amplificadas do mundo vivo, as experiências superlativas do vivo, incapturável, um grande outro, são como imensas ondas de vida em que a subjetividade pode naufragar ou desaparecer. A transcendência não pode ser vivida quando se torna descomunal. Às vezes parece não bastar um mergulho ou a imersão e a escritora parece desejar o naufrágio mesmo, nem sequer um desaparecimento só temporário.

Há textos em que “a soberba impersonalidade” do vivo, sua indiferença em relação aos viventes que o desejam, a indiferença do Deus, da substância primária e neutra, parece sublimada e só celebrada, sem que seja estimada a desolação dos viventes e o risco para eles de despersonalização caso sejam atirados contra o Ser sem a mão dos seres. Não é a despersonalização das pessoas aderidas aos papéis sociais, mas a despersonalização dos amantes quando querem praticar o desaparecimento de qualquer intervalo em que fossem ainda reconhecíveis o amante e o amado. Há textos em que parece vir a vontade de uma voz impossível: uma voz sem o falante e que fosse feita de só falar o ser.

Mas nada disso é absolutamente evidente em nenhum texto da autora. A orientação de Clarice Lispector para a grande vida não deixa sem reconhecimento uma orientação para as pequenas vidas. Nunca é evidente um sentimento indiscriminado do Ser Maiúsculo e um sentimento derrotado dos seres minúsculos, então desprezados.

O mar e a escuridão. Dois seres vastíssimos que costumam aparecer nas narrativas de Clarice Lispector. Por vezes, o mar e a escuridão são o ponto de partida ou o ponto de chegada, o ápice da narrativa. O mar e a escuridão começam sendo eles mesmos e passam a metaforizar a vida infinita e imortal do mundo. Nestes casos, a afeição que tenha visitado os seres finitos e mortais

vai parecer lateral e temporária, só passagem para o amor e a admiração do ser maior que tudo abraça e supera.

Nas imersões claricianas, muitas vezes é incontestável o seu anseio de só silenciar, sem sequer guardar reverência, pois a reverência ainda separa o mergulhador e o oceano. Um anseio assim apaixonado tornaria difícil ou impossível decidir se corresponde a um desejo de fusão ou de comunhão. Por isso é que queremos agora acentuar os textos de comunhão entre núcleos, núcleos cujo centro não estão em si mesmos, núcleos descentrados e centrífugos, mas ainda assim núcleos, separados e irredutíveis. Julgamos que as leituras cautelosas podem reconhecer, a respeito do mundo e dos núcleos, uma variação nos textos de Clarice Lispector que ora faz mistura e ora faz distância ou coordenação entre quatro fenômenos: a fusão, a reversibilidade, a separação e a comunhão.

Nas vezes em que há separação entre mundo e núcleo, fica mais visível um gosto pela multiplicidade das fisionomias e das vozes. A separação reage à confusão, tempera o fascínio da reversibilidade, faz apreciar os núcleos e admite comunhão entre núcleos e com o mundo espantoso.

Se houvesse constante equilíbrio na obra de Clarice Lispector, ela estaria dividida entre dois temas: o mundo e os núcleos. A onipresença da figura mundo, entretanto, não vale para a figura dos núcleos. A explosão neutra do vivo muitas vezes enfraquece e vence a experiência das formas separadas.

O núcleo, em Clarice Lispector, é tema controverso e nos distancia de uma linha forte de interpretação que ficou consagrada por intérpretes de base heideggeriana - Benedito Nunes seja lembrado como um caso muito representativo.

A ideia de núcleo faz mais de uma aparição na obra da escritora e foi de lá que o tomamos para realçá-lo quando ele não aparecer textualmente. São vezes em que fica afirmada uma experiência que, recorrendo a Lévinas (1988), nós a designaríamos como vivência da unicidade não-identitária e que inclui especialmente, mas não só, a vivência de pessoas.

A identidade está ligada a sinais carregados por alguém e que vêm de seu prolongado vínculo com os horizontes e coordenadas de um mundo estável: são marcas ou atributos mais ou menos fixos, mais ou menos móveis. Podem ser descritos quase do modo como descrevemos uma coisa ou um conjunto afinado de coisas, comparando, contrastando e unindo uma coisa a outras coisas, um conjunto a outro.

Numa mulher que se aproxima, por exemplo, poderíamos verificar uma indiana. A decisão terá sido conduzida por uma infinidade de signos reconhecíveis no corpo e no jeito da moça. A pele e os cabelos, a estatura, evocam caracteristicamente a fisionomia da população milenarmente instalada naquela região da Terra e em que, tal como ocorre com povos e regiões, a espécie humana viveu com a natureza um processo bem particular de interação ontogenética e filogenética. As maneiras, as vestes, o idioma e tantos outros sinais ligam-se, por sua vez, a formações histórico-culturais resultantes das práticas de trabalho, ação e conversação também ali consolidadas. Haverá traços que distinguem a mulher em seu próprio grupo: por exemplo, um ofício ou uma arte em que foi iniciada e que adotou por tradição e com originalidade.

Os detalhes de determinação do tipo indiano podem crescer sem fim: conhecem instituições e variações institucionais que se foram reafirmando e modificando com a atividade conservadora e inventiva dos indianos. O ponto é que todos estes traços mostram a mulher em duradouro relacionamento com o seu mundo natal e associam a identidade de um mundo e a identidade de seus habitantes.

Pode acontecer, todavia, que a percepção da mulher experimente um desprendimento das informações horizontais e, por assim dizer, aconteça verticalmente. É quando a percepção vai além das informações identitárias a que havíamos amarrado a mulher e deixa aparecer alguém: aquela mulher e nenhuma outra! Ela furou os esquemas cognitivos aos quais a tínhamos anexado. De agora em diante, minhas palavras só poderão interpelá-la, falar a ela, jamais conhecê-la. Apareceu alguém a quem se pode estender a mão ou

com quem conversar sem nunca mais confundir com seus conterrâneos, seus compatriotas, seus congêneres. Agora não a confundo com ninguém no mundo, nenhum semelhante. O nome próprio sai de uma manifestação assim e vem só sinalizá-la: fico sabendo que o nome da moça é Lata Mangeshkar, mas com isso não sei nada, só sei que posso assim chamá-la. Se a chamo, ela responde voltando-se para mim, vou acenar-lhe ou aproximar-me dela. Se conversarmos sobre sua condição indiana, isto nunca será conversar sobre ela tanto quanto simplesmente conversar com ela. Nestes instantes é que a máscara indiana anima-se como um rosto único e irrepetível, incomparável, irredutível, sem correspondentes. Esse é o núcleo.

Há em Clarice Lispector, como em toda literatura, a experiência do rosto. E há vezes em que a experiência encontra também a visão de coisas, árvores ou bichos. No conto "Uma Galinha”, atentemos para o emprego fortemente singular assumido pelo pronome uma. O que importa agora é só frisar o acontecimento de se haver ali vivido verticalmente uma galinha, uma só, ela, a galinha que até desistiram de sacrificar e manjar, porque entrou num campo de percepção em que vibrou sua revelação separada: a galinha apareceu destacada e temporariamente livre de uma confusão com os galináceos todos, assim subsistindo em companhia dos humanos até que o tempo e outras intempéries voltaram a recobri-la pela percepção indiscriminada e ela, aquela, voltou a parecer apenas mais um galináceo e foi sacrificada, comida, esquecida.

Em “A festa do termômetro quebrado”, o mercúrio frustra as mãos que o querem apanhar. Como um núcleo invencível, foge em mil bolinhas prateadas, em cada uma ainda o mesmo mercúrio. As bolinhas, por sua vez, pequenos corpos resilientes, dividem-se mais ainda se o esmagamento não parar. Qualquer pausa na manipulação e as bolinhas aproveitam para restaurar o primeiro núcleo, unindo-se de novo. Núcleo ou pequenos núcleos persistentes, separados.

O espírito, através do corpo como meio, não se deixa contaminar pela vida, e esse pequeno e faiscante núcleo é o último reduto do ser humano. As feras também possuem esse núcleo irradiante, tanto que elas se conservam íntegras, indomesticáveis e vitais. (Lispector, 1972/1999, AFTQ, p. 425)

“[...] é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador”. (Lispector,1978/1999, M, p.124-125)

Núcleo faiscante, irradiante, selvagem. É o grão cintilante que não pode ser adestrado: invencível, intangível e incognoscível. Ameaçador quando pisado. Está nas coisas, nas feras, nos humanos.

Em “Os espelhos”, a meditação traz Clarice Lispector para a levíssima condição de quem não marcasse um espelho e concedesse assim, em jejum de si mesmo e em extrema delicadeza, que o espelho mesmo aparecesse, sem cor e sem contornos. A ausência de cor de um espelho é comparada à ausência de gosto da água: o espelho e a água como manifestações neutras do mundo.

A ausência de cor ou de gosto são ambas descritas como “violenta ausência”. É que outra vez houve a irrupção da violenta impersonalidade do vivo. Houve quase anulação da pessoa que não devia aparecer refletida pelo espelho para que ele aparecesse, quase anulação de núcleos. A anulação carrega também a extrema delicadeza de deixar ser o espelho e de deixá-lo aparecer. O ser do espelho é então visto incolor, insípido, incólume, imune, absoluto, emancipado de quaisquer marcas subjetivas que o tivessem colonizado: espelho neutro. O neutro.

É curioso que a meditação sobre os espelhos não tenha cruzado o horror do duplo. Se topasse comigo mesmo aí fora, eu diante de mim mesma, um outro eu mesmo; se topasse com um eu que não sou eu e, ao mesmo tempo, é o perfeito equivalente de mim, então eu viveria como uma ilusão o sentimento de

mim como de um eu único. O nivelamento de mim a um outro, e dele a mim, roubaria de ambos sua ipseidade. Aquele mínimo de separação possível e que repousa sobre o fato de que eu sou eu, intransferível, sem equivalente, estaria enfraquecido em realidade e em consciência. E a experiência do duplo é o que, em certa medida, o espelho e a experiência de ver-se ao espelho podem quase efetivar. A realidade do eu depende de não ser possível realizá-lo fora de si próprio: o eu que se apresentasse diante de si, como um objeto que se dá ao conhecimento, perderia sua realidade. Uma ilusão de que os espelhos são capazes.

Foi Emmanuel Lévinas(1988) quem asseverou, paradoxalmente, que o eu só cai no sentimento de si próprio quando antes caiu no sentimento de um eu impróprio, um outro eu, não um eu duplicado, mas alguém que não sou eu.

A interrupção da visão do espelho por causa de minha imagem nele refletida é experiência diferente da interrupção do sentimento de mim por causa da duplicação de minha imagem no espelho. Num caso, o espelho, coberto pela imagem-pedra de mim mesmo, ficaria impedido de aparecer como água: eu estaria no lugar do mundo e bloqueando sua manifestação neutra e líquida. No outro caso, a petrificação de minha imagem no espelho dá o horror de uma experiência de mim que não é apenas a experiência de uma coisa em lugar de alguém, mas é como a experiência de uma duplicação que faz quase irremediavelmente perder a intuição de um núcleo único e separado.

Há disso em Clarice Lispector: visão do ser sem visão de alguém; visão do ser e visão de alguém. Há os casos em que a visão do ser e a visão de alguém ficam fundidas, ficam separadas, fazem conflito, fazem comunhão.