A viagem de Agassiz ao Brasil justificou-se, a princípio, pela continuação do projeto de escrever a história natural como obra divina. Orientado pela sua teoria da criação de convicções idealistas e práticas disciplinares empíricas, o naturalista prometeu buscar nos rios brasileiros evidências de que espécies não evoluíam-se gerando novas espécies, ou seja, seres vivos eram criações. A origem da vida era o grande problema científico daqueles dias. A natureza brasileira guardava as respostas para esclarecer como o planeta se tornou habitado, sobre os seres que povoavam as eras passadas e se haveria alguma razão para crer na mutabilidade dos viventes com relação aos extintos. Se comprovada a influência das geleiras na história do planeta naquela região, o argumento sobre o isolamento do continente da América do Sul seria mais um aliado contra a seleção natural, sendo que o desaparecimento dos seres deu-se por catástrofes e não na luta pela sobrevivência.341
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 341
Cf. AGASSIZ, E. ; AGASSIZ. Viagem ao Brasil, p.29; O assunto foi previamente explorado em: FREITAS,
Quando a expedição chegou ao fim, pouco disso foi retomado nas cartas ao Brasil, pois a comunicação epistolar entre Agassiz e D. Pedro II caminhou em uma outra direção. A tradução do capítulo do livro da natureza brasileira em linguagem científica da história natural não foi a única leitura da obra divina. Nas cartas ao Brasil, a diversidade e as riquezas tropicais apontavam para um futuro calculado no modelo de civilização e modernidade reinventado sob valores americanos.
A discussão seguirá na direção de mostrar como, no século XIX, uma dupla atuação do naturalista Agassiz ganhou proporções muito visíveis nas cartas ao Brasil. A primeira representação discutida nas cartas científicas, mostra o naturalista traduzindo a natureza em um conhecimento racionalizado do mundo natural como expressão do pensamento do Criador, com referências no sistema de classificação de Lineu, no romantismo paisagístico de Humboldt, no idealismo da Naturphilosophie e nas disciplinas empírico-históricas da embriologia, da anatomia e da paleontologia de Cuvier.
Uma segunda postura se apresentou nas cartas ao Brasil. Após a viagem, tal qual um bom civilizador europeu e patriota americano, Agassiz escreveu cartas na condição de homem de ciência em missão científico-diplomática, arquitetando estratégias políticas, sociais e econômicas que atenderiam os interesses das nações. As cartas ao Brasil circularam em meio a dois processos simultâneos da história natural em curso no século XIX. Essa ciência da natureza foi tanto um sistema de conhecimento, quanto serviu a uma ideologia política para interferir em sérias ações de transformações, identidades e conquistas continentais. Talvez, pela primeira vez na história do Ocidente, esses processos não aconteciam centrados no Velho Mundo. As ações se deslocaram para as Américas, ocupadas com a formação de identidades e novas hegemonias em seus processos de descolonização.342
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 342
Essa constatação não é uma novidade histórica. Nesse caso específico, apresenta-se como uma contribuição para uma nova abordagem tão importante dos estudos da descolonização. Em diferentes momentos históricos, a história natural, através de seus projetos e homens de ciência, fez alianças políticas. Vários pesquisadores brasileiros tratam da questão política da história natural, principalmente evocando as viagens científicas desde a colonização até o império. Entre eles destaco alguns trabalhos: PATACA, Ermelinda Moutinho. Coletar, preparar, remeter, transportar – práticas de História natural nas Viagens Filosóficas portuguesas (1777-1808).
Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, jul-dez, 2011. BARBOZA, Christina Helena
da Motta. Ciência e natureza nas expedições astronômicas para o Brasil (1850-1920). Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 5, n. 2, p. 273- 274, maio-ago. 2010. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/bgoeldi/v5n2/a06v5n2.pdf>. Acesso em: 30 de maio de 2016. FERREIRA, Lúcio Menezes. Ciência nômade: o IHGB e as viagens científicas no Brasil imperial. História, Ciências, Saúde – Manguinhos,v. 13, n. 2, p. 271-292, abr.-jun, 2006. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702006000200005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 30 de maio de 2016. Uma reflexão teórica do tema imperialismo e história natural foi tratado em: SIVASUNDARAM, Sujit. Sciences and the global: on methods, questions, and theory source. Isis, v. 101, n. 1, p. 146-158, March. 2010. O objeto analisado sob a nova tendência da história global está presente no trabalho de: FERNANDEZ-ARMESTO, Felipe. Os desbravadores uma história mundial da exploração da Terra. São Paulo. Companhia das Letras, 2009; e no artigo de: JUNQUEIRA, Mary A. Ciência, técnica e as expedições da
Na República Americana, quando articulou seu projeto Contributions, interpretado por ele como seu ato mais generoso ao país, Agassiz acreditava que a superioridade de seus conhecimentos europeus em história natural dariam ordem à natureza americana, ainda que nos Estados Unidos, o naturalista movia-se com consciência eurocêntrica. Deslocar-se entre as Américas, permitiu, mais uma vez, que ele se comportasse como mediador do conhecimento entre continentes. Mas além disso, de volta à pátria americana, ele próprio, ali, um americano naturalizado, engajou-se em uma missão patriótica, na qual ciência e viagem aliavam-se à ideia do progresso civilizador das Américas e não mais europeu, de um lado ampliando a influência norte-americana na modernização do Brasil e do outro lado sustentando a construção da nação brasileira pelo olhar exterior.343
Os ideais políticos republicanos da nação norte-americana não eram compatíveis com a cultura política imperial brasileira. Nos Estados Unidos, historicamente a maioria dos americanos era hostil ao Estado centralizado e às autoridades centrais tributadoras; ao contrário, prezavam localismo e liberdade individual. Mesmo com essas diferenças, as ambições comerciais avançavam nas relações de aproximação diplomática dos países. As expectativas de boas relações foram expressas na declaração ao Congresso Americano do então presidente dos Estados Unidos, Andrew Johnson, ao apoiar a Expedição Thayer344:
Nosso comércio com a América do Sul está para receber grande incremento com a linha direta de vapores para o florescente Império do Brasil. O ilustre grupo de cientistas que recentemente deixou nosso país, com o objetivo de realizar explorações científicas pelos rios e cordilheiras daquela região, recebeu do Imperador a amável acolhida que, de resto, se esperava, pela sua constante amizade pelos Estados Unidos e reconhecido zelo em promover o progresso dos conhecimentos.345
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! marinha de guerra norte-americana, U.S. Navy, em direção à América Latina (1838-1901). Varia Historia, Belo Horizonte , v. 23, n. 38, p. 334-349, Dec. 2007 . Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010487752007000200006&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 de maio de 2016.
343
Ao que parece, os brasileiros viam Agassiz como um americano, desconhecendo sua naturalidade suíça, talvez porque naquela altura, o próprio Agassiz já houvesse se desvinculado dessa identidade. No relato de viagem, os autores reproduzem uma carta convite no Amazonas que identificava Agassiz como o “eminente americano”: “A incerteza, porém, da demora de sua permanência entre nós me obriga a oferecer ao eminente americano, desde já, uma prova, mesmo humilde, de nossa profunda estima.” AGASSIZ, E. ; AGASSIZ. Viagem ao Brasil, p.275.
344
Andrew Johnson (1808-1875) assumiu a presidência dos Estados Unidos como sucessor de Abraham Lincoln (1809-1865). Seus vetos e políticas da Reconstrução, que eram brandas com o Sul, amarguraram os republicanos mais radicais no Congresso. Foi o primeiro presidente a sofrer um impeachment, do qual foi absolvido. Entre suas conquistas mais importantes estão a compra do Alasca. Cf. Andrew Johnson biography. Disponível em: <http://www.biography.com/people/andrew-johnson-9355722>. Acesso em: 22 de abril de 2016.
345
JOHNSON, Andrew. A compilation of the messages and papers of the Presidents, 1789-1897.Washington, Imprensa Oficial, v.6, 1897, p.367. Apud. JAMES. O Imperador do Brasil e os seus amigos da Nova Inglaterra, p.126. [Tradução portuguesa: Mário José da Silva Cruz].!
Vale lembrar que no governo Johnson, os Estados Unidos realizaram uma das maiores compras de sua história: o território do Alasca. O discurso do presidente deixou evidente a esperança do governo americano na trupe de cientistas e de que a expedição era também um empreendimento do Estado com olhos no Brasil. A exploração dos rios e cordilheiras promoveriam maior conhecimento da região brasileira visada para incrementar a navegação entre as Américas e promover o comércio. Embora os Estados Unidos se tornassem o grande comprador do café brasileiro, quando o presidente diz “nosso comércio”, ele enfatizou que era a nação americana quem visava ampliar as trocas entre produtos na América do Sul. Ciência era então sinônimo de progresso. Progresso era definido conforme os padrões Ocidentais de civilização, de princípios europeus mas que pouco a pouco foram incluindo os valores morais e, principalmente, econômicos dos Estados Unidos no modelo globalizado da nascente potência mundial.
Em pleno mar aberto, “a bordo do navio mercante” Colorado, rumo ao Brasil, Agassiz deu conferências científicas aos tripulantes. Sua lição endossou a posição do presidente Johnson de aliar ciência e interesses nacionais naquela expedição. Agassiz tinha plena consciência de sua tarefa patriótica. Primeiro ele se lembrou das condições peculiares e das censuras sofridas pelos viajantes: os custosos preparativos, o transtorno da presença do naturalista a bordo de navios comuns, a indiferença da tripulação à história natural. Para Agassiz, as condições da Expedição Thayer marcavam uma nova era das viagens. O naturalista era levado em alta consideração pelos governos. No lugar das condições lastimáveis, o navio aparelhado para fins “exclusivamente comerciais”, acolhera com “inteligência” os homens de ciência. Agassiz registrou seu contentamento: “Esta viagem, graças às circunstâncias especiais em que se realiza, parece-me o presságio de uma nova era em que os homens, que têm interesses diversos, se auxiliarão uns aos outros, em que os naturalistas serão mais liberais e os homens do mar mais cultos, em que as ciências naturais e a navegação trabalharão de mãos juntas.”346
Diferente do Brasil, nos Estados Unidos, os investimentos em educação já eram maciços. Ciência e cientistas eram envolvidos em um movimento de popularização do conhecimento. A ciência circulava através de conferências públicas para uma ampla audiência sem excluir o homem comum, fosse ele fazendeiro, operário ou pescador. Atos governamentais criavam agências e universidades visando à educação científica, para um número cada vez maior de indivíduos, incluindo mulheres. Uma cultura da filantropia !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
346
fortalecia os museus de arte e ciência com grandes doações financeiras. Nessa altura, Agassiz havia requerido sua cidadania americana e lutava por um programa nacional de educação civilizadora para instruir “as classes menores” nos valores da democracia, além do constante apoiou a educação científica feminina.347
As cartas de Agassiz, por fim, da mesma forma que a declaração do presidente Johnson, acabaram revelando a mesma perspectiva econômica da Expedição Thayer. A ciência serviria ao ato civilizador:
Estou arrebatado pela natureza grandiosa que tenho diante de meus olhos. Vossa Majestade reina, sem dúvida, sobre o mais belo Império do mundo e todos aqueles, dos quais recebo atenções, onde quer que eu me encontre, me fazem pensar no generoso e hospitaleiro caráter dos brasileiros e nos interesses das classes superiores pelo progresso da ciência e da civilização, sem os quais eu não teria encontrado as facilidades que estão em meus passos.cxlii348 [grifos desta autora].
Se nos Estados Unidos o investimento em ciência já era maciço e preocupado com as “classes menores”, no Brasil eram as classes superiores que dominavam e se beneficiavam das iniciativas do “progresso da ciência e da civilização”. Os esforços eram quase nulos para educar cientificamente indivíduos para além daqueles que serviriam o Estado. Não possuíamos universidades, somente escolas de direito, medicina e engenharia, mas que, na maior parte das vezes, atendiam às elites ou tinham pouquíssimo alunos, a exemplo da Escola da Minas de Ouro Preto. Os poucos museus e as instituições, como o Instituto Histórico, buscavam construir a imagem da nação e não uma ciência estrita e aplicada. No entanto, para Agassiz, a hospitalidade dos brasileiros foi interpretada como um sinal positivo de que o país se apresentava no caminho para um o progresso civilizador que a ciência tinha a obrigação de facilitar. Nas cartas, a ciência seria não só o conhecimento com pretensões de uma linguagem da natureza, europeia e letrada, mas também pensada por um meio do qual haveria uma transformação mundial liderada por um modelo dos Estados Unidos.
A continuação da correspondência entre Agassiz e D. Pedro II sustentou essa visão norte-americana do naturalista e também do imperador de aliar conhecimento e transformação !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
347
No século XIX, o contexto de popularização da ciência nos Estados Unidos foi ressaltado na obra: FREITAS.
Charles Frederick Hartt, p.18-19; sobre Agassiz e sua atuação como popularizador da ciência, ver: LURIE. Louis Agassiz: a life in science, p.305.
348
Carta de Louis Agassiz a Dom Pedro II, abordo do Icamiaba, sobre o Amazonas, 20 de agosto de [1865]. In:
JAMES. O Imperador do Brasil e os seus amigos da Nova Inglaterra, p.88. Transcrição francesa: David James. Tradução desta autora.
no progresso das suas respectivas pátrias. Adepto aos valores republicanos, o imperador letrado buscava inventar a sociedade brasileira sob o imaginário romântico da nação natureza. Igualmente buscava uma ciência comprometida com os avanços econômicos, ou seja, com seu uso pragmático. Nessa segunda leva de cartas ao Brasil, Agassiz participou de várias negociações entre os países. Mergulhado na diplomacia política, o naturalista recusou enfrentar o debate científico da origem das espécies, como revelou no prefácio de Viagem ao Brasil, lembrando-se dos problemas de saúde agravados nos invernos rigorosos dos Estados Unidos e da sugestão de um retorno à Europa: “o ativo movimento científico do Velho Mundo constituía um obstáculo”, para aquele que buscava “repouso para o espírito”. 349 Dirigiu-se ao Brasil com a convicção de que nunca levaria a sério o darwinismo. O desejo de combatê-lo na viagem ao Brasil não passou de uma ilusão nas suas cartas. Em outro momento, o diário da viagem expõe o que de fato Agassiz pretendia com a natureza brasileira: “as espécies novas que encontrarmos só terão importância com a condição de lançar um pouco de luz sobre a distribuição e a limitação dos diferentes gêneros e famílias, seus laços comuns e suas relações com o mundo ambiente.”350 Agassiz nunca ousou duvidar de si mesmo, era tarde demais para acreditar que algo mudaria a ordem e o plano divino da natureza.
Na verdade, naquele momento o que mudou foi sua postura como correspondente e o conteúdo das cartas ao Brasil. Se, como naturalista, ele se negava a aceitar a revolução darwinista dos estudos sobre a vida, como patriota não foi indiferente às profundas questões históricas que vivia. Nos Estados Unidos, o fim da Guerra Civil, em 1865, levou a nação ao período chamado Reconstrução, marcado pela luta de unificação dos estados do sul e do norte que, dentre muitas diferenças, discordavam das políticas de liberdade e de inclusão da população negra na sociedade. O conteúdo das cartas ao Brasil reflete esse contexto da nação duplamente segregada (negros versus brancos, nortistas versus sulistas) lutando por sua unificação. No melhor dos espíritos patrióticos, Agassiz escreveu sobre mudanças sociais importantes, como a questão dos negros pós-abolição e o rumo político das disputas entre o Sul e o Norte:
Ultimamente, temos tido bastante agitação política em todo o país, resultado da imprudência com que o Presidente quer disponibilizar prematuramente todos os seus direitos políticos aos homens mais comprometidos na nossa revolução. Isso resulta, em nosso passado e em todo o Sul, numa espécie de delírio, que leva à esperança de restaurar todas as coisas no pé em que !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
349
AGASSIZ. Viagem ao Brasil (Prefácio), p.13. Para Marcus Vinícius de Freitas, o envolvimento de Agassiz com a política afastava-o da pura vida científica, deixando-o muito mal preparado para defender suas ideias anti- evolucionistas. Cf. FREITAS. Charles Frederick Hartt, p.65.
350
estavam antes da guerra, acompanhada de uma tentativa de colocar o negro na dependência, em que se encontrava antes, sob uma nova forma. [...] e se a emenda constitucional que esclarece a dívida inviolável vier a passar, tudo ficará bem. Eu não acredito nos ruídos alarmantes, que acusam o Presidente da intenção de dar um golpe de estado para validar e executar seus projetos de reconstrução e, mesmo que tente, o bom senso de nossa população irá invalidar tais atos de loucura arbitrária.cxliii351
“Revolução”, “golpe”, “loucura arbitrária” foram usados para qualificar o quadro de tensão experimentado pelo país no período da Reconstrução. As cartas de Agassiz não escondiam do seu destinatário, D. Pedro II, as disputas políticas e mudanças sociais das mais delicadas da história dos Estados Unidos. Seu discurso político evidencia sua postura contra a escravidão e contra qualquer outra forma de manter o negro prisioneiro e dependente da vontade branca.
Conhecimento e política não se excluem. Além das particularidades do período da Reconstrução, paralelamente, as cartas tratavam também de inteirar o imperador sobre o mundo científico e letrado da Nova Inglaterra. Agassiz concedeu um espaço menor aos assuntos científicos nessas cartas, mas continuou escrevendo sobre eles, em tópicos muito variados. Bastante tumultuada, a narrativa passava da teoria das cores de Goethe aos comentários literários; à existência de vida humana na era glacial; aos avanços científicos com os trabalhos geológicos e às controvérsias sobre as recentes descobertas de ossadas, fósseis e objetos que, para alguns cientistas, eram interpretadas como indícios de que o homem viveu os períodos gelados, quando para outros era exatamente o contrário.
Esses assuntos científicos eram sempre sobre as descobertas de outros homens de ciência, já que naquela altura Agassiz não fazia muito como naturalista. Restava-lhe agradar o imperador, enviando-lhe, junto com as cartas, toda sorte de textos: artigos, poesias, jornais ... Afinal, lembrando novamente na representação de Agassiz, “[...] Vossa Majestade se interessa por todos os progressos do espírito humano [...]”cxliv 352. Ao fluir de um assunto a outro, as cartas de Agassiz tinham contornos de grandes bate-papos encorajados pelo Pedro amante das ciências e letras:
Vossa boa carta de 25 de setembro, que acabei de receber, me aliviou de um grande peso. Eu temia ao escrever longas cartas para Vossa Majestade, uma atrás da outra, em cansá-lo ou chateá-lo, e ainda assim não pude resistir ao desejo de fazê-lo, sentindo que tinha algo a dizer e que, talvez, o Senhor
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 351
Carta de Louis Agassiz a Dom Pedro II, Cambridge, 18 de outubro de 1866, In: JAMES. O Imperador do
Brasil e os seus amigos da Nova Inglaterra, p.140. Transcrição francesa: David James. Tradução desta autora. 352
Carta de Louis Agassiz a Dom Pedro II, Salem, 20 de agosto de 1869. In: JAMES. O Imperador do Brasil e
acolheria. E não só acolheu quanto me encorajou, e me entrego sem atraso ao prazer de escrever novamente.cxlv353
As cartas de Agassiz estrategicamente responderam aos dois “Pedros” e, consequentemente, às duas orientações de ciência: uma como conhecimento que alimenta o espírito do homem e a outra que serve ao Estado como um instrumento para modernização da nação. Essa foi a fórmula de comunicação de Agassiz, correspondendo às ansiedades do imperador pela modernidade e pela construção da imagem de um Brasil como nação moderna e liberal. Por trás de tanta informação, rezava a ideia de agir “à maneira dos negociantes, mesmo para os assuntos literários e científicos, sem excluir os interesses superiores do Estado,” declarou Agassiz.354
Dentro dessa visão civilizadora, as cartas ao Brasil narram ao imperador as próprias ações concretas de Agassiz, relacionadas ao modelo norte-americano de ciência, sociedade e poder ou do próprio quadro político envolvendo guerra, natureza e civilização. Muitos