A abordagem metodológica desta tese segue o propósito de expor o caminho percorrido para chegar ao objetivo formulado. Este processo é destacado por Gil (2010) quando afirma que, nas ciências, a abordagem metodológica disciplina o caminho percorrido ao longo de uma pesquisa e visa a garantir a cientificidade do trabalho frente à comunidade científica. Assim, a abordagem metodológica procura dar a direção e os passos que a pesquisa percorreu em seu desenvolvimento. No caminho trilhado, há alguns pontos importantes a serem deixados claros para os leitores do trabalho de pesquisa. Mezzaroba e Monteiro (2008) apontam para importância da classificação da pesquisa. Isso devido ao fato que, ao deixar clara a classificação, não haverá problemas de má-interpretação quanto à condução da pesquisa. Dentro desta ótica, verifica-se que a pesquisa aqui desenvolvida é tida como qualitativa. Mezzaroba e Monteiro (2008, p.110) destacam que a pesquisa qualitativa ―é uma propriedade de ideias, coisas e pessoas que permite que sejam diferenciadas entre si de acordo com suas naturezas‖.
Mezzaroba e Monteiro (2008) mencionam, ainda dentro da classificação da pesquisa, a possibilidade de se ter uma pesquisa teórica
ou prática. Os autores destacam que a pesquisa pode ser exclusivamente teórica, mas a pesquisa prática sempre dependerá do suporte teórico (MEZZAROBA, MONTEIRO, 2008). Dessa forma, a pesquisa em curso se configura como teórica, mas de cunho prático no que tange à verificação empírica da arquitetura conceitual de conhecimento para e- participação na segurança pública.
Dentro da abordagem metodológica, deve ser apresentado como instrumento principal de pesquisa o método (MARCONI; LAKATOS, 2009). O emprego do método depende da complexidade da pesquisa a ser desenvolvida.
Morin (2002) destaca que, dentro da Teoria da Complexidade, existe a percepção sistêmica, que revela a primazia do ambiente e sua importância para o ecossistema. O autor afirma que ―não podemos conceber um objeto ou um sistema independentemente do seu ambiente, o qual participa da sua definição interna permanecendo exterior‖ (MORIN, 2002, p.399).
Nesse sentido, enquanto método, a pesquisa desta tese balizar-se- á pela abordagem sistêmica, para guiar a condução do método científico sistêmico.
Segundo Maturana e Varela (2007), o conhecimento é uma representação subjetiva da realidade, não havendo como separar o conhecimento do mundo da experiência humana. ―Toda experiência particularmente nos modifica, ainda que às vezes as mudanças não sejam de todo visíveis‖ (MATURANA; VARELA, 2007, p. 197). Nesse sentido é que o método sistêmico emerge, pois possibilita a observação das mudanças ocorridas pela interação dos vários elementos (fenômenos) existentes no mundo.
Bertalanffy (1956) definiu de forma simples as interações sistêmicas como sendo um conjunto de unidades entre as quais há relações. Esta definição oferece dois elementos de análise, ou seja, as unidades ou objetos e as relações existentes entre eles. O autor acrescenta dizendo que, embora as unidades sejam importantes à característica que define o sistema, é a relação entre os objetos que são analisados (BERTALANFFY, 1956). Bertalanffy (1968) menciona que um sistema é uma totalidade que está baseada na competição (luta) que existe entre seus elementos (partes). Destaca-se que também há subsistemas que se relacionam com os sistemas e que desenvolvem interação entre si ou mesmo entre as unidades do sistema.
Sewald Junior e Rover (2014) destacam que a interação é o que difere um sistema do simples conjunto de componentes independentes; há casos, inclusive, em que a interação dos componentes do sistema gera
novas características que não são encontradas se analisadas isoladamente.
Observa-se que uma das consequências da utilização do método sistêmico é que o pesquisador pode focalizar nas possíveis e necessárias relações entre as disciplinas e verificar as possíveis contribuições entre elas, o que caracteriza uma interdisciplinaridade (VASCONCELLOS, 2009).
Capra (1996, p. 14) destaca que os problemas do mundo são complexos, destaca que quanto mais se estudam os problemas da atualidade, mais se é levado a crer que não podem ser entendidos isoladamente, pois observa-se que ―são problemas sistêmicos‖ e ―estão interligados e interdependentes‖.
Dessa forma, o método sistêmico procura desenvolver a análise de maneira a identificar o todo e as parte relacionadas ao sistema e buscar entender suas inter-relações, visando a propor soluções. Está percepção é evidenciada por Capra, que destaca:
De acordo com a visão sistêmica, as propriedades essenciais de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem das interações e das relações entre as partes. Essas propriedades são destruídas quando o sistema é dissecado, física ou teoricamente, em elementos isolados. Embora possamos discernir partes individuais em qualquer sistema, essas partes não são isoladas, e a natureza do todo é sempre diferente da mera soma de suas partes (CAPRA, 1996, p. 31).
Percebe-se que não é prudente dividir o sistema para estudá-lo, mas analisar as partes e como elas se relacionam com o todo. Assim, pode-se ter a noção que os sistemas são determinados por sua estrutura, e este entendimento é de vital importância para compreensão de muitas áreas da atividade humana (MATURANA, VARELA, 1995). Com base nas colocações, empregar-se-á o método sistêmico, como aponta a Figura 2.
Figura 2 - Aplicação do Método Sistêmico na Tese
Fonte: Elaborado pelo Autor
Na Figura 2, observa-se a teoria da agência, que aponta para uma prática a ser combatida na gestão pública. Esta prática se configura como um problema para a sociedade. O governo eletrônico, na vertente da e-participação, aponta para uma possível solução através da participação social, mas não há na literatura uma arquitetura, framework, modelo ou metodologia estruturada para resolver o problema por meio da e-participação. A engenharia do conhecimento tem as ferramentas necessárias para dar o suporte conceitual, metodológico e prático para estrutura de uma efetiva e-participação, através da estruturação de uma arquitetura conceitual de conhecimento para e-participação para esfera pública.
Dessa forma, empregando a análise destes três elementos teóricos, ou seja, e-participação, teoria da agência e engenharia do conhecimento, procura-se discorrer sobre cada um deles e, assim, analisá-los, buscando verificar a inter-relação que pode surgir para resolução do problema.
A verificação da aplicabilidade e adaptação ao domínio (Figura 3) da arquitetura de conhecimento para e-participação será na segurança pública (CONSEGs). Assim, com emprego do método sistêmico, colher-
se-á elementos teóricos para direcionar a atuação da engenharia do conhecimento, com base em requisitos teóricos da e-participação (Governo Eletrônico) e de elementos vistos na literatura para mitigar a possibilidade de ocorrência dos problemas evidenciados pela teoria da agência no setor público. A Figura 3 exemplifica a interação disciplinar das revisões teóricas da tese, que direciona para construção da arquitetura e aponta para verificação da aplicabilidade na segurança pública.
Figura 3 - Aplicabilidade da Análise Sistêmica
Para atingir o propósito da tese, buscou-se encadear a pesquisa de maneira estruturada, observando os elementos imprescindíveis de uma pesquisa teórica para garantir o correto fluxo lógico de análise para alcançar o objetivo ventilado. A figura 4 apresenta o caminho trilhado ao longo da pesquisa.
Primeiramente, ocorreu a criação dos elementos estruturantes da pesquisa, que compõem a parte introdutória desta tese. Nesse ponto, a tese buscou, na introdução, primeiro tópico, contextualizar a pesquisa dentro dos padrões estabelecidos pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento.
Em segundo lugar, preocupou-se com a revisão teórica da literatura para pesquisa. A técnica de pesquisa bibliográfica foi utilizada, pois Gil (2010) destaca que esta técnica é imprescindível para desenvolvimento de pesquisas teóricas.
Figura 4- Estrutura Metódica da Tese
Dessa forma, no segundo tópico, trabalhou-se a revisão teórica focando no tripé teórico da tese, ou seja, a visão sobre a teoria da agência, com foco na gestão pública, governo eletrônico, por meio da utilização da e-participação, e os conhecimentos acerca da engenharia e gestão do conhecimento. Buscou-se, assim, com revisão teórica, verificar o ineditismo da pesquisa sobre as ações para evoluções do governo eletrônico, focando de maneira mais profícua a visão sobre e- participação.
O processo de seleção dos documentos foi amparado pela Revisão Sistemática da Literatura para dois dos três elementos teóricos tratados na revisão teórica da tese. A Revisão Sistemática da Literatura (RSL) é apontada como de grande valia para observar o estado da arte e encontrar os gaps de pesquisa, ou seja, observar formas de abordagem que não foram ainda empregadas nas pesquisas científicas (BIOLCHINI, 2005; JACKSON, 2004).
Nesta tese foram desenvolvidas duas Revisões Sistemáticas da Literatura (RSL) (Apêndice B), sendo uma sobre a teoria da agência, que procurou destacar o problema a ser evidenciado na gestão pública, e a segunda foi para e-participação, que buscou o estado da arte e prospectou o conhecimento de trabalhos que pudessem ter sido desenvolvidos com o mesmo escopo desta tese.
Com relação à primeira Revisão Sistemática da Literatura (RSL), verificou-se que o problema da agência é identificado também no setor público. Com relação à RSL sobre a e-participação, não foram encontrados trabalhos que se propunham a estruturar uma arquitetura de conhecimento para participação eletrônica, tampouco vislumbrar a aplicação de uma arquitetura de conhecimento na segurança pública.
Ainda com referência à pesquisa bibliográfica, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre a engenharia e gestão do conhecimento para apresentar o entendimento das ferramentas, técnicas e metodologias de engenharia.
No terceiro tópico, apresentou-se a metodologia para desenvolvimento da arquitetura conceitual de conhecimento para e- participação. Nesse tópico, abordou-se os elementos necessários para propor a criação da arquitetura, pois com a análise possibilitada pela revisão da literatura teve-se meio para conceber os elementos teóricos (requisitos) para amparar a estrutura de e-participação necessária.
Depois da estruturação da arquitetura, pautou-se na verificação de sua aplicabilidade. Como o serviço público tem suas regras específicas, buscou-se, no quarto tópico, trabalhar a base teórica e legal que vigora no domínio da segurança pública em relação à filosofia de polícia
comunitária e a instrumentalização da filosofia por meio dos Conselhos Comunitários de Segurança (CONSEGs).
No quinto tópico, observou-se a aplicação da arquitetura conceitual de conhecimento para e-participação na segurança pública. Procurou-se, assim, discorrer sobre os passos a serem empregados para aplicação da arquitetura nos Conselhos Comunitários de Segurança - CONSEGs.
O processo de aplicação visou à gestão do conhecimento, com suporte da engenharia do conhecimento, buscando oferecer a redução do problema da agência na gestão pública.