3.1 Lastberegninger og dimensjonering
3.1.9 Kontroll for nedbøyning
A partir de 1740, o Papa Bento XIV começou a fazer recomendações aos bispos brasileiros para que fundassem seminários em suas dioceses (TRINDADE, 1951; RODRIGUES, 1986).
O clero que atuava no Brasil era formado em Portugal e havia a intenção do Papa de que se iniciasse a formação de um clero nativo. Em Minas havia também um desejo dos moradores de que fosse formado um colégio neste estado, porque era demasiadamente caro mandar os filhos estudarem fora do Brasil ou no Rio de Janeiro e Bahia. Para além do simples desejo da formação de um clero nativo, a Igreja parecia particularmente preocupada com os costumes dos moradores mineiros.
A povoação em Minas foi realizada, em um primeiro momento, sem a presença da Igreja e do Estado (CARRATO, 1968; VILLALTA, 1997, 1998). Os primeiros a chegarem a essa região e nela levantar morada foram bandeirantes e aventureiros que vinham a estas terras à procura de ouro, instalando-se principalmente nas futuras Comarcas de Ouro Preto, Rio das Velhas, Rio das Mortes e Serro do Frio (CARRATO, 1968). Tais circunstâncias fizeram com que Minas Gerais fosse considerada “terra de ninguém” (VILLALTA, 1998, p. 70), pois como afirma Carrato (1968), esses primeiros aglomerados não possuíam lei, autoridade ou moral eclesiástica, civil ou militar. Assim, no século XVIII, as condutas dos mineiros tidas como “inadequadas” eram os inúmeros concubinatos, principalmente de homens vivendo com suas escravas ou escravas forras, a prática de jogos, a libidinagem e alcovitice, os empréstimos a juros altos e lucros excessivos, o feitiço e o descumprimento de deveres religiosos (CARRATO, 1968). Havia também os homens de posse que,
cansados de suas mulheres, mandavam-nas para um Convento, mantendo sobre elas uma espécie de custódia (CARRATO, 1968).
O Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra do século XVIII bastante difundida em Minas Gerais, descreve a viagem alegórica de um Peregrino que sai da Bahia e chega a Minas Gerais. Essa obra enfatiza a necessidade da correção dos costumes, principalmente entre os mineiros e ressalta o dever de emendar crenças e práticas dos negros, como os feitiços e calundus. Entre os viciosos encontrados pelo Peregrino da América estão donos de vendas que roubam nos pesos de suas mercadorias, homens e mulheres que há muito tempo não se confessavam nem ouviam missa porque não chegavam padres em suas fazendas, homens que faziam seus escravos trabalharem nos domingos e dias santos impedindo-os de participar das festividades e comemorações religiosas, moças de boa família que haviam fugido, mulheres mulatas amaziadas e homicidas.
Carrato (1968), colhendo depoimentos do Livro II das Devassas ou Visitas de
1733 – 1734, assim descreve a moralidade do século XVIII mineiro:
O grande resvaladouro da frágil virtude daquelas gentes aventureiras é a geral mancebia em que vivem quase todos os homens e mulheres disponíveis, inclusive sacerdotes. A falta de mulheres brancas é aguda [...] As Minas Gerais estão cheias de pretas escravas ou mulatas fôrras, solteiras, concorrendo com os homens nas minas, nas vendas, nas estradas, em casa, nas igrejas (CARRATO, 1968, p. 10)
Tal quadro, fazia com que as autoridades eclesiásticas achassem previdente a presença e atuação de padres e religiosos de forma a modificar e educar os costumes, promovendo, então, o “controle da moral e da religiosidade das populações mineiras” (VILLALTA, 1998, p. 73).
Sendo assim, a Igreja tomou diversas medidas no que se refere a promover a ordem das condutas e a religiosidade na população, como por exemplo, as visitas pastorais. E em 1750, providenciou-se a fundação, na cidade de Mariana, de um Seminário, sob a proteção de Nossa Senhora da Boa Morte, com o objetivo de formar padres, mas também para educar os rapazes que não quisessem se dedicar à vida sacerdotal . Na época, o bispo responsável por esta diocese era D. Frei Manoel da Cruz, antigo Bispo do Maranhão.
O Seminário ficou sob a responsabilidade do Padre Jesuíta José Nogueira, formando os novos padres para a missão da “melhoria dos costumes, catequese intensa e no trabalho educacional, a regência de todas as cadeiras escolares” (RODRIGUES, 1986, p. 30). A
determinação de que se criassem seminários em cada diocese era uma das recomendações do Concílio tridentino para a reforma do clero (BOSCHI, 1985), daí que a melhoria dos costumes fosse um dos objetivos educacionais desta instituição.
Entretanto, motivos políticos que culminam, em 1760, com a expulsão dos jesuítas do Brasil impedem a vinda de outros padres da Companhia de Jesus, fazendo com que a instituição não prossiga o modelo de ensino já iniciado e sua direção fique vaga até o ano de 1764, quando é determinado um novo reitor.
A partir daí, alguns dos próprios padres que eram ordenados pelo Seminário tornavam-se seus professores, como é o caso do Padre Luís Vieira da Silva, professor de Filosofia que, segundo Carrato (1968), Frieiro (1981), Trindade (1951) e Villalta (1997, 1998), imprimiu a estes estudos a tendência ilustrada que começava a penetrar no Brasil nesta época.
A tendência ilustrada do Seminário evidenciou-se também no envolvimento de alguns padres que faziam parte dessa instituição com a Inconfidência Mineira, inclusive o Pe. Luis Vieira, que teve sua biblioteca confiscada, como afirma Eduardo Frieiro (1981) em seu livro O Diabo na Livraria do Cônego.
Além dos muitos clérigos envolvidos em política, Moreira (1992) conta, como um dos exemplos do tipo de problemas do clero mineiro da época em que D. Viçoso chegou na diocese, o exemplo do padre João Antunes Correia, pároco de São Bento de Tamanduá. Esse padre conciliava suas tarefas sacerdotais com cargos na corte imperial, atividades rurais e vida familiar, pois vivia com Rita Maria de Jesus, tendo muitos filhos.
Os padres mineiros do final do século XVIII e início do XIX têm histórias que valem a pena conhecer para entendermos o árduo trabalho que o clero dava ao bispo lazarista. Camello (1986) descreve uma carta que a comunidade do Arraial de Sant’Ana envia a D. Viçoso, informando ao bispo que não vão prestar obediência ao padre de sua paróquia, pois este que os atendia só ia ao arraial se fosse pago e nunca aparecia para dar os sacramentos aos moribundos, que acabavam por morrer sem assistência. Além disso, o padre tinha uma loja de Secos e Molhados. Segundo a população, a loja e o vinho roubavam todo o tempo que o padre deveria dedicar aos seus fiéis.
Uma outra correspondência de 1844 descrita por Camello (1986) mostra D. Viçoso às voltas com um padre que tinha amásia e filhos e um outro, que havia assassinado um homem, embora sem imediata vontade.
Também Martina (1996), ao tratar da situação da Igreja na América Latina no século XIX, dá o exemplo do Brasil:
Na América Latina, o número dos eclesiásticos teria sido suficiente ou quase, para as exigências pastorais, se seu nível moral estivesse à altura da situação. Pela consistência numérica, lembremos a título de exemplo: [ ... ] no Brasil, mil sacerdotes para dez milhões de habitantes (dos quais metade escravos ainda!). Mas o verdadeiro problema era outro: a má seleção dos candidatos, o isolamento em que os sacerdotes eram obrigados a viver, os exemplos que os cercavam e os levavam muitas vezes para a pior politicagem, para os negócios, para a imoralidade. No Brasil, o concubinato de sacerdotes era amplamente difundido e ninguém se preocupava em esconder isso. (MARTINA, 1996, p. 119)
O bispo, que havia estado algum tempo em Minas Gerais, já conhecia bem a região e suas necessidades. Antônio Viçoso já havia andado por boa parte da região de Minas Gerais enquanto esteve no Caraça. De acordo com Zico (2000), a atividade missionária era a primeira finalidade da Congregação. De 1820 a 1828, foram registradas, pelo vigário de Roças Novas, vinte e nove localidades visitadas pelos lazaristas (ZICO, 2000).
As missões eram as visitas empreendidas pelos religiosos nas regiões mais distantes da cidade, como fazendas, sítios e vilarejos, que não contavam com a presença constante de um padre, fazendo com que os moradores ficassem privados de ir às missas e receber os sacramentos. Além do ministério dos sacramentos como a confissão, as visitas tinham o objetivo de acompanhar e cuidar das necessidades do povo, visitando os doentes, dando aulas de catecismo às crianças. Havia também o objetivo de pregação, visando à conversão e cura das almas ou à emenda dos costumes, como por exemplo, verificar a ocorrência de concubinatos e outras situações irregulares.
Para D. Viçoso, o eclesiático deveria ser doutor dos cristãos, possuindo a responsabilidade de dissipar a ignorância em que os homens estavam metidos. A cura das
almas deveria ser realizada por meio da pregação e da instrução (CAMELLO, 1986), daí a
importância de que os padres chegassem aos mais longíqüos lugares.
Em 1853, D. Viçoso escreveu ao Papa Pio IX, dizendo que passava seis meses do ano visitando a Diocese e que para percorrê-la toda precisou de seis anos. No Relatório Decenal de 1866, o bispo comentou:
Rendo graças a Deus Onipotente por ainda me conceder forças para dedicar a metade de cada ano à Visitação do Bispado, quando então confiro o Sacramento da Crisma e, com alguns Sacerdotes que me acompanham, entregamo-nos à pregação da palavra de Deus e à escuta de confissões, o quanto nos é possível, e ainda cuidamos da correção dos costumes. (VIÇOSO, 1866, p. 44)
A valorização da atividade missionária que cuidava da alma, das necessidades das pessoas e sua salvação vinha do exemplo de São Vicente de Paulo. Nesse sentido, a ênfase da ação dos lazaristas voltava-se para o socorro das necessidades das almas humanas, no que eram ajudados pelas Irmãs cuja principal função era o socorro dos pobres.
Um artigo da Selecta de 1° de novembro de 1846, com comentários sobre a vida de S. Vicente de Paulo, nos revela essa característica dos lazaristas:
O seo primeiro fundamento foi de instituir a Congregação da Missão, composta de ecclesiasticos de boa vida e costumes, cujo estatuto era de se dedicarem ao allivio dos habitantes dos campos, andando de aldea em aldea, a sua propria custa, socorrendo e instruindo esta pobre gente, sem receberem a menor retribuição de qualquer especie que fosse. Elle mesmo era visto correr as provincias, visitando hospitaes, estabelecendo confrarias de caridade, acudindo aos pobres, e procurando por toda a parte os lugares de miseria, como qualquer outro teria procurado as occasioes de prazer. (Selecta Catholica, 1° de novembro de 1846, p. 283)
O texto narra ainda o trabalho de São Vicente de Paulo junto aos criminosos que se encontravam presos e a fundação de hospitais para o cuidado de meninos órfãos. A atuação atribuída pelo jornal a São Vicente de Paulo resume de forma significativa as iniciativas dos lazaristas em Minas Gerais:
Vicente de Paulo foi hum desses homens raros, que apparecem de tempos em tempos como para servir de modelo aos outros homens. Sua longa carreira sobre a terra foi toda consagrada a fazer o bem. Os estabelecimentos de caridade, que elle instituio, e que existem ainda, concorrerão poderosamente para modificar os costumes, e fazer adiantar o paiz no caminho da civilização. (Selecta Catholica, 1° de novembro de 1846, p. 279)
O jornal afirma também que Vicente de Paulo empenhou-se “para restabelecer a gravidade dos costumes entre o clero” (Selecta Catholica, 1 de novembro de 1846, p. 284). A Congregação da Missão quando foi fundada na França tinha como um de seus objetivos básicos a implantação da reforma católica, que deveria começar pelo clero (AZZI, 1983).
O projeto de reforma era sempre dirigido ao clero e ao povo:
A reforma era encarada através de duas perspectivas distintas e complementares: em primeiro lugar atuaçao sobre o clero já existente, chamando-o na medida do possível a uma vida mais exemplar; ao mesmo tempo, porém, iniciar sobre novos moldes a formação sacerdotal do clero, o que exigia por sua vez uma profunda reforma nos seminários diocesanos. A segunda meta do movimento reformador devia visar o povo. Para a renovação da vida cristã diversos meios eram indicados
como principais: frequentes visitas pastorais à diocese, promoção das sagradas missões entre o povo, ensino do catecismo, e divulgação de novas devoções piedosas.(AZZI, 1983, p. 121)
A reforma, de acordo com o Concílio de Trento, deveria começar primeiro pelo clero e depois atingir os leigos, porque a organização eclesiástica está fundada em um exercício de vigilância das virtudes e costumes que se exerce de cima para baixo: o papa cuida dos bispos, os bispos se preocupam com o clero e este, por sua vez, deve cuidar dos fiéis (FLICHE e MARTIN, 1976). Desse modo, a crença é que o exemplo em termos de virtudes e bons costumes deveria partir do clero, pois padres virtuosos e bem formados poderiam cuidar melhor e mais dignamente das almas que lhes são confiadas. A maior responsabilidade da Igreja, de acordo com o Concílio, é o cuidado com as almas. A integridade dos que são a cabeça da sociedade depende da saúde de seus membros. Dom Viçoso era partidário desse pensamento pois acreditava que “a alma das comunidades cristãs era o seu pároco” (MOREIRA, 1992, p. 113).
Assim como S. Vicente que procurava restabelecer a gravidade dos costumes entre os padres, também para D. Viçoso o comportamento do clero era objeto de preocupação. Nesse sentido, as viagens missionárias serviam também para dar apoio aos clérigos que residiam em regiões mais distantes e portanto ficavam mais solitários em sua vocação religiosa. Muitas vezes, o bispo tinha notícias de padres que vivendo solitariamente, aderiam a circunstâncias não permitidas ao seu estado sacerdotal, possuindo mulheres e filhos.
O Concílio de Trento preconizava como dois elementos fundamentais da moral do clero a observação do celibato, exigindo castidade e o afastamento dos negócios do mundo, que consistia principalmente no não envolvimento dos padres com movimentos, partidos e cargos políticos.
Além do descuido da Igreja com os seus fiéis e a má conduta do clero, D. Viçoso acreditava ter, nos padres políticos, uma grande frente de batalha que parecia ter uma estreita relação com um dos maiores responsáveis pelo tipo de corrupção dos costumes que se via em solo mineiro: os ideais liberais e maçônicos e algumas idéias iluministas. Ao que parece, no início do seu bispado, essa parece ter sido sua maior luta. Na história dos lazaristas no Brasil já havia diversos episódios de confronto desse grupo de religiosos com
os iluministas brasileiros, como já foi dito a respeito de sua briga com o jornal O Universal e as disputas com os seguidores do Pe. Feijó.
Os ideais iluministas que estavam ganhando cada vez mais espaço em território nacional parecem ter sido, portanto, um dos motivos para a difusão dos primeiros impressos católicos publicados sob o espírito de Dom Viçoso.