A reflexão sobre o conceito de projecto, tendo como ponto de partida a filosofia existencialista e as suas múltiplas utilizações pelas ciências humanas e sociais, particularmente a Psicologia, pode ser de grande utilidade conceptual para a compreensão e desenvolvimento deste projecto de investigação: A família (pais) e a construção de projectos vocacionais dos seus filhos. A relevância ôntica do projecto, no domínio da orientação, já foi sublinhada por vários investigadores referenciados anteriormente (Guichard, 1997; Riverin-Simard, 2000; Young et al. 2001).
Na linha de Jean Guichard (1997), sendo a dimensão vocacional uma das tarefas fundamentais da construção da identidade na adolescência (Erikson, 1968), etapa decisiva de reintegração/recapitulação de uma matriz nuclear dinâmica/energética que se vai desenvolvendo ao longo do ciclo vital numa relação autónoma, mas inter- dependente e mútua, do self com o mundo (psicossocial), o conceito existencialista de projecto –– o sujeito ser projecto e de projectos ––, tal como foi explorado, é o mais adequado para nos referirmos ao desenvolvimento vocacional, o que implica ir projectando intenções de configuração de um projecto pessoal, em que o projecto vocacional se assume como uma dimensão proeminente na sua concretização.
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Assim, o projecto vocacional constitui-se como uma dimensão de concretização da identidade pessoal, que se vai realizando na confrontação do self com as sucessivas tarefas relacionadas com a elaboração, planificação, implementação e reformulação de acções intencionais complexas, multidimensionais e imprevisíveis, ao longo do ciclo vital –– projecto (Young & Valach 2000) ––, onde estão em jogo a educação, a formação, a qualificação e a actividade profissional, integrados num projecto de vida que comporta a coordenação dos diferentes papéis da existência: familiar (como filho(a), cônjuge, pai ou mãe), cidadão, consumidor, membro de grupos de vária ordem... (Campos, 1989).
A partir deste ponto de vista, não faz qualquer sentido estabelecer clivagens entre projecto vocacional e os outros projectos que concretizam e são concretizados no projecto pessoal. Assim, o projecto vocacional, como a trajectória que cada sujeito vai projectando nos quotidianos das suas vidas pelos múltiplos papéis em que cada história se concretiza, poderá ser considerado como a dimensão fundamental de integração de todas as dimensões da existência e da consubstanciação do projecto pessoal (Campos, 1989).
Ora, até tempos recentes, o projecto vocacional era encarado, de forma linear, simplista e previsível, numa sequência de etapas em que se articulavam: a formação escolar, a qualificação profissional, a profissão e o emprego. Salvo raras excepções, os mais afoitos, que, por razões de ordem variada, optavam pela reformulação desse projecto de vida, que poderia implicar a mudança de curso, de domínio de formação, de profissão ou de emprego. Eram os não conformistas (ou os inadaptados) de uma ordem social selectiva e discriminatória, legitimada por uma determinada ideologia social e técnico-científica sustentada, frequentemente, por modelos teóricos e práticos da Orientação Vocacional, reflexo de uma determinada forma de organização social, que previa a existência de um lugar certo para cada um na sociedade, através de mecanismos de perpetuação das desigualdades que reproduziam diferentes possibilidades de acesso e de sucesso, inviabilizando a igualdade de oportunidades (Coimbra, 1997/98). Contudo,
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esta ordem, marcada pela linearidade e simplismo criava nos sujeitos a ilusão de ser detentora de algum valor preditivo dos projectos pessoais de carreira2 (Sennet, 1998).
Este modo linear, sequencial, unidireccional e fechado de compreender a construção do projecto vocacional não parece ser a abordagem mais adequada e mais útil para encarar actualmente o problema, tanto da perspectiva dos projectos pessoais como das realidades sociais. Temos assistido, nas últimas décadas, e num ritmo progressivamente mais acelerado, a transformações profundas no nosso mundo. A vertiginosa evolução científica e tecnológica, a globalização e a consequente interdependência das economias, as novas formas de organização de trabalho e as exigências — nem sempre postas em causa — da competitividade, a sociedade da informação em rede, para citar alguns factores, têm produzido, nos últimos anos, alterações vertiginosas com implicações inquestionáveis nas vidas das pessoas e das sociedades, levando a crer que tais mudanças terão continuidade ou até se agravarão no futuro. Estes fenómenos de complexificação, diversificação e imprevisibilidade das realidades pessoais e sociais questionam as lógicas de uma carreira ascendente, previsível e unidireccional (Coimbra, 1997/98).
A emergência, no mundo do trabalho, de fenómenos sociais, como o reconhecimento da escassez e da precaridade do emprego, mesmo em profissões de qualificação superior, da flexibilização e da não correspondência entre formação e trabalho, da necessidade da opção por formações abrangentes, garantes de competências transversais (uma sólida educação geral e científica de base), da necessidade de maior importância à preparação para o desempenho de outros papéis sociais (familiares, cívicos, lazer/ócio, de consumidor...), que não apenas o de profissional e o de trabalhador e, especialmente, a tomada de consciência de que a incerteza é, provavelmente, a única certeza razoável quanto à evolução futura do mundo do trabalho, torna ainda mais premente e adequado o conceito de projecto para reflectir, com algum realismo, este novo cenário de oportunidades e de constrangimentos pessoais e sociais.
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A carreira como algo previsível, linear e ascendente, tal como foi e continua a ser conceptualizada pelas perspectivas clássicas da Psicologia Vocacional, é, desde o nosso ponto de vista, um conceito obsoleto e inadequado para responder à realidade actual do mundo do trabalho. Opta-se, como alternativa, pelos conceitos de trajectória, percurso ou projecto, porque nos remetem para algo que se vai construindo e reconstruindo num processo de avanço e recuos nos contornos das possibilidades pessoais e sociais a que se pode aceder e realizar os investimentos possíveis. Esta assumpção implica, frequentemente, alternância entre trabalho e formação, fazendo cada vez mais sentido e urgente a aprendizagem ao longo da vida.
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A concepção de projecto, como uma trajectória existencial que se vai realizando e concretizando em microprojectos possíveis, sempre em aberto, porque sujeitos à reconstrução no confronto com outros projectos, com interesses comuns e diferenciados num contexto em constante mutação, não se compadece com visões lineares, muitas vezes ascendentes, das trajectórias vocacionais, como se estas fossem possuidoras de um sentido único e previsível que lhes está imanente. O projecto, como algo indeterminado e imprevisível resultante de um constante processo de construção pessoal, contraria as lógicas da certeza, da objectividade, da previsibilidade e dos programas, alicerçando-se em concepções alternativas, multidimensionais e recorrentes na abertura a múltiplas possibilidades de evolução, numa trajectória consubstanciada numa atitude activa de questionamento e de exploração no seio da qual vão emergindo pequenos projectos que se reformulam, conduzindo sucessivamente a outros (Coimbra, 1997/98).
2. Um quadro teórico de compreensão construtivista, ecológico e