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Kontekstuelle forhold

Kapittel 8. Kronologi

8.4 Kontekstuelle forhold

As consequências do abuso sexual infantil não se limitam às lesões físicas porventura ocasionadas à criança e/ou adolescente vítima. Tão ou mais profundos e graves são os danos psíquicos causados, que muitas vezes se protraem no tempo, alcançando a vida adulta da vítima, chegando a transformá-la em novo agressor, perpetuando o ciclo de terror e sofrimento. LUÍSA FERNANDA HABIGZANG e RENATO MAIATO CAMINHA85 citam

estudo que classificou as consequências do abuso sexual infantil como orgânicas e psicológicas. Dentre as orgânicas encontram-se a gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e lesões físicas. As psicológicas englobam dificuldades com adaptação interpessoal e sexual, processo de ensino-aprendizagem e adaptação afetiva. Vale transcrever trecho acerca da dificuldade de adaptação afetiva, por espelhar muito bem quão complexo e intenso é o efeito causado pelo delito:

As dificuldades de adaptação afetiva estão freqüentemente associadas ao sentimento de culpa, a idealizações e/ou tentativas de suicídio e fixação em idéias de morte. O sentimento de culpa é uma reação típica em vítimas de abuso sexual na infância e adolescência. Segundo Azevedo, Guerra e Vaiciunas (1997), são três as possíveis explicações para esse sentimento: 1) medo das pressões oriundas do “complô de silêncio” que cerca a criança- vítima; 2) auto-condenação por ter experimentado algum prazer físico; 3) vergonha por ter se deixado abusar durante um longo tempo.

84 SCHMICKLER, Catarina Maria, O Protagonista do Abuso Sexual – sua lógica e estratégias, Chapecó: Ed.

Argos, 2006, p. 32.

85 HABIGZANG, Luísa Fernanda e CAMINHA, Renato Maiato, Abuso Sexual contra Crianças e Adolescentes – conceituação e intervenção clínica, 2ª edição, São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo, 2004, p.

LUCIA ALVES MEES86 cita quatro fatores traumatogênicos definidores da

experiência do abuso sexual: sexualização traumática, traição, impotência e estigmatização. A sexualização traumática “pode ocorrer quando a criança é repetidamente premiada pelo ofensor devido a algum comportamento sexual inapropriado para o seu nível de desenvolvimento...”87. A traição, por sua vez, “se refere à dinâmica na qual cada criança

descobre que alguém de quem era vitalmente dependente lhe causou um dano, um mal”88.

A impotência “ocorre quando o território da criança e seu espaço corporal são repetidamente invadidos”89. Esclarece a autora que “força e ameaças não são necessárias:

qualquer tipo de situação na qual a criança se sinta presa em uma armadilha pode criar uma sensação de impotência. Obviamente, uma situação em que a criança conta e não é acreditada criará também um maior grau de impotência”90. Por fim, a estigmatização é proveniente de

conotações negativas, como maldade, vergonha e culpa, que, muitas vezes são passadas à vítima criança ou adolescente, como relacionadas à experiência sofrida, mas que ela incorpora à sua própria imagem. Tal fator é intensificado se, “após a revelação, as pessoas reagem chocadamente ou com histeria, ou culpam a criança pelo que aconteceu”91.

Analisando os efeitos do abuso sexual nas vítimas crianças, verificou GISELA OLIVEIRA DE MATTOS92 que:

No que se refere aos efeitos da violência sexual, muitos apontam para o fato de que o conjunto da sintomatologia apresentada por crianças abusadas sexualmente não difere de maneira significativa daquela apresentada por crianças que são levadas a serviços de saúde mental sem essa queixa específica. Já McLeer ET AL. (1998), pp. 1326-33) apontam que a síndrome do estresse pós-traumático, distúrbios do comportamento sexual e depressão com risco de suicídio ocorrem com maior frequência entre crianças e adolescentes abusados sexualmente...

86 MEES, Lucia Alves, Abuso Sexual – trauma infantil e fantasias femininas, Porto Alegre: Ed. Artes e

Ofícios, 2001, p. 44.

87 MEES, Lucia Alves, Abuso Sexual – trauma infantil e fantasias femininas, Porto Alegre: Ed. Artes e

Ofícios, 2001, p. 44.

88 MEES, Lucia Alves, Abuso Sexual – trauma infantil e fantasias femininas, Porto Alegre: Ed. Artes e

Ofícios, 2001, p. 44.

89 MEES, Lucia Alves, Abuso Sexual – trauma infantil e fantasias femininas, Porto Alegre: Ed. Artes e

Ofícios, 2001, p. 45.

90

MEES, Lucia Alves, Abuso Sexual – trauma infantil e fantasias femininas, Porto Alegre: Ed. Artes e Ofícios, 2001, p. 45.

91 MEES, Lucia Alves, Abuso Sexual – trauma infantil e fantasias femininas, Porto Alegre: Ed. Artes e

Ofícios, 2001, p. 45.

92 MATTOS, Gisela Oliveira de, Abuso Sexual em crianças pequenas: peculiaridades e dilemas no

diagnóstico e no tratamento, in FERRARI, Dalka C. A. e VECINA, Tereza C. C., O Fim do Silêncio na Violência Familiar – teoria e prática, 3ª edição, São Paulo: Ed. Ágora, 2002, p. 176.

Quando os danos psíquicos permanecem, alcançando a vida adulta – o que ocorre na maioria dos casos - externam-se de diversas formas, inclusive por meio de distúrbios sexuais, como descreve MATILDE CARONE SLAIBI CONTI93:

Os distúrbios sexuais são constantes em adultos que sofreram abuso sexual na infância ou na adolescência, esses problemas consistem em inibição, desprazer ou aversão ao ato sexual, incapacidade de atingir o orgasmo e de ter uma vida sexual normal com pessoas adultas e até comportamentos que podem se transformar também em pedofilia, entre outros.

MATILDE CARONE SLAIBI CONTI relata também acerca das sequelas advindas do abuso sexual intrafamiliar, especificamente94:

Há fatores que agravam ainda mais os efeitos da pedofilia. No caso do pedófilo ter alguma relação de parentesco com a vítima, pois configura uma traição, um roubo de confiança, como também os abusos sexuais duradouros e freqüentes; os utilizados como ameaça ou força; os abusos sexuais com penetração e ainda se a família da vítima for desestruturada não dando o apoio necessário, maior será o trauma, levando a criança, assim maltratada, até mesmo à depressão, sendo sua origem biopsicossocial.

Dentre os efeitos mais graves, que configuram mazelas sociais, referida autora aduz que “essa dinâmica poderá levar muitas meninas à prostituição. Nesta venda do corpo através do sexo, o interesse principal não é o dinheiro, mas sim a busca do afeto, que acaba sendo em alguns casos oferecido pelo gigolô”95.

Pesquisas diversas realizadas nos Estados Unidos, referidas por CATARINA MARIA SCHIMICKLER corroboram a ocorrência das sequelas acima descritas, na medida em que relatam que de 44 a 70% de pessoas viciadas em drogas foram vítimas de incesto na infância, e que 70% de estupradores em Nova Jersey haviam sido submetidos a abusos sexuais na sua infância. Ainda, em Seattle, uma em cada quatro prostitutas havia sido vítima de incesto96. Acerca da complexidade dos efeitos psíquicos do abuso sexual na vítima,

escreveu LUCIA ALVES MEES97:

93

CONTI, Matilde Carone Slaibi, Da Pedofilia – Aspectos Psicanalíticos, Jurídicos e Sociais do Perverso

Sexual, Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2008, p. 85. 94

CONTI, Matilde Carone Slaibi, Da Pedofilia – Aspectos Psicanalíticos, Jurídicos e Sociais do Perverso

Sexual, Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2008, p. 85. 95

CONTI, Matilde Carone Slaibi, Da Pedofilia – Aspectos Psicanalíticos, Jurídicos e Sociais do Perverso

Sexual, Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2008, p. 76. 96

SCHMICKLER, Catarina Maria, O Protagonista do Abuso Sexual – sua lógica e estratégias, Chapecó: Ed. Argos, 2006, p. 41.

...no caso de ocorrer o traumatismo, ele se dará com manifestações variadas, embora guardando sempre a característica de desestruturação psíquica e ausência de elaboração. O tipo de sintomatologia que se desenvolverá a partir do trauma só se sabe a posteriori, não sendo pertinente o estabelecimento de um feixe de sintomas designativo do quadro. O que a clínica psicanalítica demonstra é que os efeitos de um trauma são variados e a desestruturação é a tônica de todos eles.

O discorrido acerca das possíveis sequelas do abuso sexual infantil demonstra não só a patente gravidade do delito, por suas perniciosas consequências, mas também a complexidade no trabalho do profissional que atuará no tratamento e na entrevista com a vítima, na medida em que sua palavra, na maioria das vezes, é imprescindível para a responsabilização do agressor.