4 Analyse
4.4 Kontekst
Ao observarmos que a caixa operante foi construída para permitir que se falasse de certa maneira do comportamento, devemos levar em consideração que ela era, por meio de seu uso, produto e produtora de conhecimento. Assim, podemos observar para quais fins ela era utilizada e o que se podia falar dos dados que produzia. Percebemos que a caixa de Skinner foi apropriada pelos brasileiros de diferentes maneiras: pesquisa e ensino. Consideramos válido sublinhar que os laboratórios de Análise do comportamento constituíram-se em espaços de socialização para um conjunto de brasileiros que os ocupavam. Verificamos, assim, a formação de uma comunidade científica que, pelas fontes aqui trabalhadas, se constituiu no laboratório, desenvolvendo atividades de pesquisa e ensino.
Neste ponto, julgamos pertinente notar a experiência de outros laboratórios de Psicologia implantados no Brasil, como por exemplo, o da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro e o da Escola de Aperfeiçoamento de Minas Gerais. Podemos verificar que nesses laboratórios, também havia um duplo papel: atendia-se, tanto às finalidades de pesquisa quanto de ensino. Talvez porque, para além de produzir novos conhecimentos, era necessário formar os profissionais para atuação nos próprios laboratórios. Os primeiros laboratórios de Análise do Comportamento não parecem ser diferentes, pois além de constituírem espaços para se formar psicólogos, já que estavam presentes justamente no momento de regulamentação da profissão (cf. Lei 4.119 de 27 de agosto de 1962) e do fortalecimento/criação dos primeiros cursos de Psicologia no Brasil (cf. ANTUNES, 2004), também produziam conhecimentos novos. Isso se faz sensível, por exemplo, nos artigos tanto nacionais quanto internacionais produzidos pelo primeiro grupo de analistas do comportamento, bem como pela participação em instituições e congressos, tais como a SBPC. Ao considerarmos o laboratório uma espécie de museu (GOODAY, 2008), podemos dialogar com Sophie Forgan (2005), que afirma que a estrutura física nos fornece
indicativos da credibilidade dada a uma forma de conhecimento. Notamos, assim, mais indícios da importância dos laboratórios inicias de Análise do Comportamento, neste caso, o da USP. Isso porque ele salienta a ocupação de ambientes institucionais, pelo uso de espaço físico para sua constituição que, mesmo sendo estruturalmente simples, ocupava um conjunto de salas que poderia ter sido utilizado para outros fins. Esta importância se acentua, pois foi um local em que se produziram novos conhecimentos.
O conjunto de fontes trabalhadas nos sugere uma prevalência do ensino e, conseqüentemente, da relevância da caixa de Skinner nesse uso. Da mesma forma que para os demais laboratórios de Psicologia citados, antes de observar e medir, o laboratório de Análise do Comportamento precisava criar condições para o ensino dessas habilidades e da teoria operante. Nessa direção, o laboratório didático propiciou a aprendizagem de comportamentos específicos, contingentes ao trabalho de uma ciência experimental de laboratório. Em consonância com esta afirmação, tomamos outro relato de Kerbauy (1996), que trata das principais contribuições de Keller à Análise do Comportamento: (1) ensinar, em um curso introdutório na graduação em Psicologia, o modelo experimental com laboratório e rato branco como sujeito; (2) conduzir, à pesquisa, diversos estudantes, a partir de práticas de laboratório nas quais eram demonstrados princípios de Análise do Comportamento. Nesse mesmo sentido, Rachel Cunha (2004) afirma: “[...] ele [Keller] nos deu a conhecer muito além dos princípios e métodos da ciência do comportamento, ele nos ensinou a ensinar e a ensinar a fazer a ciência comportamental” (p.201). Kerbauy (1996) elenca como primeira contribuição o fato de Keller ter criado condições para a aprendizagem do ensino de Análise do Comportamento em graduação com laboratório didático. Esta afirmação é condizente, tanto com a de Rachel Cunha (2004) quanto com a nossa análise.
Percebemos, por fim, que a recepção e a estabilização de uma teoria em outro contexto, diferente daquele no qual ela foi desenvolvida, não se dá apenas pelo trabalho de algumas pessoas, como foram Fred Keller, Gilmour Sherman, Carolina Bori e Rodolpho Azzi. Evidentemente, eles foram alguns dos principais articuladores dos movimentos iniciais da Análise do Comportamento no Brasil, mas a história dessa teoria se deu por inúmeros atores e, também, por inúmeros motivos: pelas instituições e universidades que acolhiam esses pesquisadores e que lhes davam meios de realizar seus estudos; pelos possíveis contatos nos conselhos políticos de educação que apoiavam (ou não) esses estudos; pela disponibilidade física dos laboratórios e dos aparelhos; pelo interesse dos alunos; etc. Ou seja,
embora, Keller tenha propiciado importantes subsídios para o ensino inicial da Análise do Comportamento no Brasil e para a construção de laboratórios; e que os usos da caixa de Skinner sejam essenciais para uma caracterização do trabalho inicial dos analistas do comportamento no contexto brasileiro, o que vem juntamente neste caso, é a importância da organização e da colaboração científica.
Essa comunidade, contudo, não ficou restrita apenas ao ambiente da USP. Os impactos do laboratório de Análise do Comportamento se ampliaram para a atuação de alguns dos brasileiros que acompanharam Keller e Sherman (GUEDES et al., 2008). Em 1962, no curso de Pedagogia de Rio Claro (São Paulo), esta concepção de ensino de Psicologia foi introduzida em um curso de Pedagogia. Bauermeister (200843), uma das alunas de Pedagogia
de Rio Claro deste ano, diz que Carolina Bori foi uma das primeiras professoras de Psicologia do curso e, em sua disciplina, foi exigida a leitura de Skinner e do K&S. Além disso, no segundo ano do curso, foi introduzido o laboratório com ratos albinos, nas palavras de Bauermeister (2008): “no segundo ano de Pedagogia vieram novos professores [...] e uma nova disciplina de laboratório: experimentação com ratos brancos. Era a parte prática dos princípios aprendidos no ano anterior, com as leituras de Keller e Skinner”. Assim, mais uma vez se observa uma apropriação do laboratório e de seus equipamentos a partir do ensino.
Nesse movimento, outros estados brasileiros também foram influenciados pelos desenvolvimentos ocorridos na USP. Podemos citar, como exemplos, o caso da UnB em 1964 (TODOROV, 1996) e da UFMG em 1969 (JARDIM, 1998). Especificamente sobre a UFMG, no ano de 1969 Célio Garcia, professor de Psicologia Social na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FaFiCH) da UFMG, convidou Carolina Bori para oferecer um curso sobre Psicologia Social Experimental (JARDIM, 1998). João Bosco Jardim (1998) afirma que embora o foco do curso ministrado não tenha se desenvolvido na UFMG, o paradigma da Psicologia Experimental defendido por Carolina Bori seduziu um conjunto de alunos que tinham recém terminado sua formação ou que estavam em vias de fazê-lo. No segundo semestre de 1969, João Bosco, um desses alunos que acabara de ocupar a cadeira de professor assistente de Psicologia Geral e Experimental na UFMG, com outro colega na mesma situação, Lúcio Marzagão, foram à São Paulo para observar o departamento de Psicologia
43 ENTREVISTA com Herma Brigitte Bauermeister. Entrevista realizada via carta em 2008. Além disso, como
concomitantemente ela estava escrevendo um texto com sua história para outra pesquisadora interessada em história da Análise do Comportamento no Brasil, tivemos acesso e licença de uso deste segundo material. Este registro também foi obtido em 2008. Ambos os arquivos encontram-se de posse dos responsáveis por esta pesquisa.
Experimental daquela instituição. Na volta a Belo Horizonte, João Bosco e Lúcio Marzagão traziam alguns textos básicos, anotações bibliográficas, dicas de equipamentos e os programas do curso de introdução à Psicologia Experimental da USP (JARDIM, 1998). Em 1971, na FaFiCH/UFMG, na figura desse conjunto de alunos assinalado por Jardim (1998), iniciou-se o ensino de Psicologia Experimental pelo viés analítico-comportamental com trabalhos práticos com pombos e, em 1972, começaram as práticas com ratos albinos.