5.2 Utvikling i praksis
5.2.2 Kontaktsykepleieren
De posse das tabelas contendo toda a caracterização dos modelos nacional e local da arquitetura residencial modernista, discorreremos sobre o confronto entre as duas matrizes de análise, que chamamos anteriormente de Quadro Geral do Paradigma Residencial
Modernista Brasileiro (Anexo C) e Quadro Geral da Arquitetura Residencial Modernista Potiguar (Anexo E). Portanto, seguindo a seqüência dos critérios de análise
comentaremos sobre o paralelo entre os dois casos.
Do ponto de vista da relação entre implantação e lote, observamos inicialmente que as mudanças na legislação ocorridas no início do século XX foram um fator importante para a valorização das casas construídas no período, principalmente, daquelas construídas em lotes urbanos e nas quais iremos nos deter, pois, diferentemente das casas paradigmáticas
brasileiras, projetadas e construídas em lotes urbanos, de praia ou de campo, as casas modernas potiguares encontram-se todas dentro do perímetro urbano da cidade de Natal.
No Brasil do primeiro pós-guerra, e após as leis e normas sanitárias que abrangiam questões sobre a higiene das habitações, a legislação passou a propor novas formas de ocupação do lote:
Referimo-nos aos recuos de frente e laterais que as prefeituras passaram a exigir nos arruamentos. O fato importante é que, antes da Primeira Guerra, as casas de classe média e as populares possuíam somente uma fachada: aquela voltada para a rua (LEMOS, 1979, p. 64).
Diante disso, parte-se do pressuposto de que, nos tempos da modernidade, a implantação dessas novas diretrizes, além de garantir a elevação da qualidade da vida urbana, possibilitou a demonstração do caráter tridimensional do edifício moderno, pois agora poderia se ter uma visão de todos os ângulos do prédio, um objeto a ser experimentado sob diversas perspectivas como recomendava a premissa européia.
Em Natal a situação não foi diferente. Com a Lei n° 459, de 2 de setembro de 1929, a
Prefeitura Municipal de Natal define novas diretrizes para a construção de prédios, instituindo, entre outras medidas, o zoneamento da cidade, características de soluções e materiais construtivos, disposição de ambientes, diretrizes para a configuração da estética das fachadas, além de normas para a implantação dos edifícios no lote. Nesse caso, como forma de atender às exigências relativas à insolação, iluminação e ventilação das residências, os projetos realizados a partir de então deveriam apresentar recuos laterais e de fundos com 1,50 metro e recuo frontal de 3,00 metros.
É certo que a arquitetura eclética (neoclássica) já apresentava o tratamento das 4 fachadas, mas o afastamento do prédio dos limites do terreno foi utilizado pelos modernistas internacionais, nacionais e locais como uma maneira de destacar o edifício diante da paisagem, possibilitando, dessa forma, as novas experiências projetuais pontuadas pela invenção, liberdade e valorização volumétrica (cubista).
59 A Lei n° 4, amparada pelo Código Civil, constituiu-se a única legislação para construir até a promulgação do
Código de Obras de Natal, em 1969. Foi a partir das diretrizes dessas leis que os projetistas modernistas potiguares definiram seus projetos durante as décadas de 50 e 60.
FIGURA 39 - Recuos-jardins de Rino Levi. Fonte: CAVALCANTI, 2001
No Brasil dos anos seguintes, a exigência dos recuos viria a ser fonte de inspiração para Rino Levi, porque tanto na residência do arquiteto (exemplar 19, Quadro 1), quanto na casa de Milton Guper (exemplar 41, Quadro 1), Levi aproveitou-se das recomendações da legislação paulista e transformou os afastamentos obrigatórios em recuos-jardins, propondo a ligação dos canteiros às calçadas e mantendo “[...] a unidade do espaço fechado, onde a vida familiar deveria desenrolar-se sem possibilidade de interferências externas” (BRUAND, 2002, p. 274). No entanto, a experiência de Rino Levi remete a uma outra questão que acaba por diferenciar as casas brasileiras das casas potiguares: a dimensão do lote (figura 39).
Mesmo sabendo que em cidades do eixo Rio-São Paulo a liberdade de criar era por vezes limitada pelo tamanho dos terrenos, percebe-se que, na maioria dos casos, os lotes urbanos, para os quais foram projetadas as casas modernistas brasileiras, possuem tamanhos que permitiram a realização de grandes expressões e experiências arquitetônicas, nada deixando a desejar aos projetos em lotes no campo ou na praia, principalmente no que diz respeito à manutenção da principal tônica modernista: a continuidade espacial criada a partir da indistinção entre o interior e o exterior através de amplos jardins e paredes envidraçadas.
Em Natal, a pequena dimensão dos lotes limitou a liberdade de criação dos projetistas potiguares, dificultando a realização de projetos com a presença de grandes áreas verdes e residências de dimensões próximas às de seus referenciais nacionais.
O loteamento de Tirol e Petrópolis - principal área de disseminação da arquitetura residencial moderna - deu origem a terrenos de pequenas dimensões, onde o tamanho dos lotes, geralmente retangulares, alcança em média os 12, 15 metros de largura por 30 metros de comprimento, ou seja, aproximadamente 450 m2. Esse fato direcionou os projetistas a optarem por soluções de implantação caracterizadas pelo máximo de aproveitamento do terreno. Por isso, é comum ver lotes com uma alta taxa de ocupação, onde, quase invariavelmente, a locação estende-se no sentido longitudinal do terreno.
Como a maior parte dos lotes estudados situa-se no meio da quadra, essa tendência de implantação longitudinal - seja ela no centro, na lateral ou nos fundos do lote - tornou-se comum nas casas em Natal. No entanto, apesar de poucos, os lote de esquina geralmente tendem a sofrer com a exigência de dois recuos frontais e, nesse caso, a implantação
geralmente tende a valorizar a fachada voltada para a maior testada (maior lado do retângulo) ou para aquela situada na via de maior importância dentro da malha viária. Escolhendo a posição da fachada principal, define-se a posição do acesso à residência, seja de moradores, visitantes, empregados e do automóvel, para em seguida partir para a distribuição dos setores social, íntimo e de serviço.
Como outra alternativa para o melhor aproveitamento de lotes exíguos, muitos são os exemplares potiguares onde se observam plantas coladas nos limites do lote, com implantações assimétricas e irregulares que buscam cumprir o programa de necessidades sem prejudicar a ventilação e insolação dos ambientes. Nesses casos, - e a exemplo de Rino Levi, com sua galeria aberta munida de brises-soleils na casa de Milton Guper e Lúcio Costa, com suas casas voltadas para os jardins como a de Argemiro Hungria Machado (exemplar 10, Quadro 1) (figura 40) - fez-se costumeira a presença de pátios internos, áreas descobertas ou protegidas por elementos protetores (pérgolas, cobogós,...) que permitem a abertura de esquadrias e o contato com o exterior, cumprindo o atendimento às necessidades de conforto dos ambientes.
A questão do conforto ambiental das residências apresentou-se como uma grande preocupação não somente para os arquitetos brasileiros, mas também para os projetistas potiguares. Em via de regra, a orientação do lote tornou-se um fator determinante para a forma de implantação da edificação e principalmente para a configuração das plantas das casas modernas brasileiras e potiguares.
O reflexo da orientação do lote sobre as plantas será abordado mais adiante, no item Aspectos Espaciais, no entanto, cabe-nos dizer que as casas potiguares foram locadas de
FIGURA 40 - Casa de Argemiro Hungria Machado, de Oscar Niemeyer (1942) Fonte: MINDLIN, 2000
FIGURA 41 - Casa Norchild, de Gregori Warchavchick (1931)
Fonte: CAVALCANTI, 2001
FIGURA 42 - Casa de Lina Bo Bardi (1951) Fonte: CAVALCANTI, 2001
forma a dispor os setores social e íntimo na orientação do sol nascente, ou seja, na direção Leste, e o setor de serviço na posição do sol poente, no sentido Oeste, como também viabilizando a captação dos ventos vindos do Sudeste. Sendo assim, o tipo de implantação e configuração espacial varia de acordo com o controle da incidência solar e a necessidade de ventilação dos ambientes.
Confrontando outro ponto relacionado à implantação e lote, percebe-se mais um diferencial da casa modernista natalense diante do modelo residencial modernista nacional: a topografia do terreno. Nesse caso, devemos considerar que, diferentemente da região potiguar, as cidades da região Sudeste, em especial o Rio de Janeiro, possuem uma variedade topográfica que se refletiu em muitos dos projetos escolhidos como representantes do modernismo residencial brasileiro.
Citando alguns exemplos, começamos pela casa Norchild (exemplar 04, Quadro 1)
(figura 41), do arquiteto Gregori
Warchavchik. A casa na Rua Toneleros, em Copacabana, foi desenvolvida em 04 níveis e, de acordo com Cavalcanti (2001) e Bruand (2002), o escalonamento e a interpenetração de volumes, marcas do partido arquitetônico desse exemplar, tiravam partido da forte inclinação do terreno.
Da mesma forma, a casa de Lina Bo Bardi em São Paulo (exemplar 29, Quadro 1)
(figura 42), como declara Mindlin (2000),
enfatiza exatamente o aproveitamento da vista da paisagem que se forma diante do terreno em colina com a solução da “caixa de vidro” sobre pilotis e o bloco posterior maciço apoiado no solo. Já na casa de Canoas (exemplar 42, Quadro 1) (figura 43), o arquiteto Oscar Niemeyer demonstra um respeito integral com o local de implantação da obra. No projeto localizado em um declive na Floresta da Tijuca, a área íntima está disposta no subsolo, com acesso através
FIGURA 43 - Casa de Canoas, de Oscar Niemeyer (1953)
Fonte: MINDLIN, 2000
FIGURA 44 - Avenida Getúlio Vargas, 554 (1962). Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 45 - Rua Dionízio Filgueira, 763 (1963) Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
de uma escada escavada na rocha e com os cômodos desfrutando da vista da baía de Guanabara.
Em Natal, a planície de Cidade Nova, que abrange quase toda a área dos bairros de Tirol e Petrópolis, definiu a topografia da maioria dos terrenos situados naquela área, ou seja, o que se observa é que grande maioria dos exemplares estudados, foram locados em terrenos planos e por isso não apresentam soluções semelhantes aos exemplos brasileiros citados anteriormente. O que ocorre em alguns
casos é a implantação de residências em planos acima ou abaixo do nível da rua, sem muitas alterações para acompanhar as inclinações. Uma casa que exemplifica tal modelo de implantação é a residência na Avenida Getúlio Vargas, 554 (exemplar 23, Quadro 2) (figura
44). Embora situada no alto de uma colina em Petrópolis e privilegiada com a panorâmica de
uma das mais importantes praias urbanas da cidade e da Fortaleza do Reis Magos, a residência não possui uma implantação escalonada já que a sua locação foi feita no alto do terreno, em área plana.
Em outros casos, o que se vê é a presença de subsolos e aterros, geralmente destinados às garagens e dependências de serviço, ou seja, soluções para um melhor aproveitamento de área útil dos lotes e que representam um condicionante local que se reflete na formação do partido arquitetônico potiguar. Para melhor visualizar, citamos o exemplo da casa na Rua Dionízio Filgueira, 763 (exemplar 30, Quadro 2) (figura 45), da casa na Rua Cordeiro de Farias, s/n (exemplar 33, Quadro 2) (figura 46) e da casa na Avenida Hermes da Fonseca, 1214 (exemplar 58, Quadro 2) (figura 47), pois todas elas dispõem de 02 níveis, sendo um deles subsolo da garagem.
FIGURA 47 - Avenida Hermes da Fonseca, 1214 (1968).
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de FIGURA 46 - Rua Cordeiro de Farias, s/n (1963).
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
No estudo do acervo residencial modernista potiguar, especificamente de suas características recorrentes relativas à implantação e lote, fica evidente que a dimensão dos terrenos tornou-se o principal ponto norteador da concepção dos projetos arquitetônicos realizados pelos projetistas potiguares.
Ao se definir o critério da dimensão dos exemplares para a seleção da amostra desta pesquisa, não houve a intenção de realizar nenhum tipo de comparação entre o tamanho das casas brasileiras e potiguares, mas sim de utilizar uma característica comum entre os dois modelos: tanto nas cidades do Sudeste quanto em Natal, os projetos modernos foram propostos para terrenos, dentro das devidas proporções regionais, mais amplos, se comparados aos das casas ecléticas. Diante disso, e muito embora a exigüidade da maioria dos lotes tenha se refletido nos aspectos formais e espaciais das residências, ainda se pode considerar os terrenos das casas modernistas de Tirol e Petrópolis como áreas privilegiadas para os padrões locais, principalmente se comparadas aos bairros antigos, como Cidade Alta e Ribeira, e outros pontos de disseminação da arquitetura residencial moderna, como os bairros Alecrim e Praia do Meio.
Abaixo, pode-se visualizar os croquis60 que apresentam os principais tipos de implantação encontrados nas casas modernistas potiguares. A primeira, em lote irregular, com as testadas não ortogonais, formando lotes com forma de polígonos irregulares, algumas vezes resultantes da reunião de dois ou mais terrenos (figura 48). Em seguida vem a implantação no 60 Todos os exemplos demonstrados nos croquis estão em escala esquemática e com as frentes dos lotes
FIGURA 48 – Implantação de lote irregular (exemplar 08, Quadro 2).
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 49 – Implantação longitudinal e lateral do lote (exemplar 06, Quadro 2).
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 50 – Implantação assimétrica/ irregular, colada nos limites do lote (exemplar 14, Quadro 3)
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 51 – Implantação em lote de esquina (exemplar 01, Quadro 2).
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
sentido longitudinal e lateral do lote, onde geralmente a edificação encontra-se locada próxima a uma das laterais ou quase que totalmente colada ao limite lateral do terreno (figura
49).
A implantação seguinte é muitas vezes resultante do cumprimento de programas extensos em lotes exíguos. A locação de forma assimétrica geralmente apresenta-se em forma de uma alta taxa de ocupação e com a residência colada em diversos limites do terreno. Essa solução acaba por imprimir formas irregulares de plantas que refletem o compromisso em manter áreas abertas (recuos) para que sejam atendidas as exigências do conforto ambiental (controle da insolação, ventilação e chuvas) (figura 50). Já a implantação em lotes de esquina apresenta uma característica recorrente, a manutenção de grandes afastamentos nos dois limites voltados para a rua em virtude da busca pela privacidade. Todavia, a locação da obra também tem o objetivo de voltar a fachada principal para a via mais importante da malha viária (figura 51).
FIGURA 52 – Implantação longitudinal no centro e fundos do lote (exemplar 63, Quadro 3)
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 53 – Implantação longitudinal no centro do lote (exemplar 105, Quadro 3).
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
A implantação no centro e fundos do terreno é o principal reflexo da segregação das áreas de serviços aos fundos das residências. São as dependências de serviço, muitas vezes em forma de edículas, que são dispostas nos fundos do lote (figura 52). E, por fim, tem-se o modelo longitudinal no centro do lote. É o mais recorrente dentro do acervo potiguar e caracteriza-se por preservar todos os seus recuos frontais, laterais e de fundos (figura 53).
Sob o ponto de vista estético e formal, pode-se dizer que os caminhos traçados pelos arquitetos brasileiros na criação de seus ícones modernistas foram os mesmos que os levaram à constituição do vocabulário moderno residencial, e neste último, as referências de dois grandes paradigmas residenciais tornaram-se norteadores nos processos de criação: a Ville
Savoye e a Casa da Cascata, representantes do racionalismo e do organicismo que viriam a
diferenciar estilos e tendências dentro do cenário arquitetônico nacional, mas que não interfeririam na proposta de imprimir um sotaque nacionalista nos cânones europeus.
Na concepção da linguagem modernista brasileira, o modelo formal europeu, representado pela vanguarda figurativa, ultrapassa os limites da criação diante da diversidade plástica desenvolvida pelos arquitetos brasileiros a partir da matriz volumétrica cubista.
A dinâmica cubista e o racionalismo se complementavam e originaram um novo vocabulário que traduzia a relação constante entre o espaço, com a liberdade das plantas resultante da estrutura livre, e o volume, fruto da decomposição geométrica e das formas puras e desnudas.
FIGURA 54 - Casa de Juscelino Kubitschek, de Oscar Niemeyer (1943)
Fonte: BRUAND, 2002
FIGURA 55 - Casa de Jadir de Souza, de Sérgio Bernardes (1951)
Fonte: CAVALCANTI, 2001
[...] planos que avanzan y retroceden, superficies que se cortan y que se interpenetran formando ángulos diversos; planos suspendidos en el espacio sin relación entre ellos (em el sentido unívoco, focal de la perspectiva) y, en fin, transparencia, formas que aparecen unas detrás de las otras e cuyos efctos se superponen [...] (ZEVI, 1977, apud DE FUSCO, 1981, p. 223)61.
Todavia, a concretização da dinâmica e fluidez racionalistas contou com o domínio e a utilização unânime da técnica do concreto armado, capaz de materializar as mais utópicas e inovadoras formas plásticas, e do uso do vidro, cuja transparência ultrapassava os limites de cumprimento das diretrizes do conforto ambiental e permitia a fusão – continuidade espacial - entre o edifício e o seu entorno.
Rego (2000), reflete sobre a rememoração de configurações da matriz racionalista em sintaxe com a intuição dos projetistas brasileiros e, como resultado, destaca o uso reincidente de três motivos formais na arquitetura moderna brasileira exemplificando-os em algumas residências: as abóbadas em fila; o telhado-borboleta e a composição de linha mista – curva, reta e curva. Em Natal, somente as duas últimas versões foram adotadas nos projetos residenciais, ainda que apresentando algumas diferenças quanto à função de cada solução.
Utilizando o telhado-borboleta, os arquitetos brasileiros valiam-se “[...] da variação da altura da cobertura para acomodar o programa em vários níveis, assegurando o jogo espacial e a interpenetração dos ambientes contidos num volume único da arquitetura cúbica” (REGO, 2000, p. 4). Essa solução pode ser observada tanto na casa de Juscelino Kubitschek, de Oscar Niemeyer (exemplar 14, Quadro 1) (figura 54), como na casa de Jadir de Souza, projetada por Sérgio Bernardes (exemplar 30, Tabela I) (figura 55).
61 [...] aviões que se movem, superfícies que são cortadas e mutuamente formando vários ângulos; aviões
suspensos no espaço sem qualquer relacionamento entre elas (em termos inequívocos, a perspectiva focal) e, finalmente, a transparência, algumas formas que parecem estar por detrás e os outros cujos efeitos se sobrepõem [...] [Tradução nossa].
FIGURA 56 - Avenida Hermes da Fonseca com Teotônio de Carvalho
Fonte: ARQUIVO MUNICIPAL DE NATAL
Já os profissionais atuantes em Natal adotaram a cobertura “asa de borboleta” como uma alternativa diante das grandes inclinações das coberturas em telha cerâmica, remanescentes da arquitetura tradicional e, utilizadas em larga escala nos projetos modernos. Na verdade, o modelo de cobertura sugeria um resultado formal diante de um limitador tectônico, pois não há exemplos onde ele interfira na configuração interna, já que as lajes de cobertura, sempre planas, não possibilitam a formação de vãos amplos e em níveis, suprimindo os jogos e interpenetrações de espaços, como observado no projeto da casa da Avenida Hermes da Fonseca com Teotônio de Carvalho (exemplar 15, Quadro 3) (figura 56).
Supõe-se que essa reinterpretação ocasionou a disseminação das empenas inclinadas, retomadas em duas ou em apenas uma água, caracterizando a volumetria de muitas casas modernas em Natal e, mais que isso, definindo um dos modelos volumétricos mais recorrentes da arquitetura residencial moderna potiguar dos anos 50, denominado “prisma sobre prisma”, do qual falaremos mais adiante.
A composição de linha mista – curva, reta e curva, outro motivo formal reincidente no Brasil, segundo Rego (2000), e retomado pelos projetistas em Natal – representou para os arquitetos brasileiros o léxico ideal para conduzi-los à liberdade plástica inicialmente proposta por Le Corbusier e traduzida na forma de poesia arquitetônica nas obras modernistas brasileiras. Tratava-se de um processo de reinterpretações de figuras e contornos da paisagem em diversos elementos arquitetônicos (marquises, lajes, obras de arte - murais, painéis e pinturas e jardins – caminhos, espelhos d’água,...); uma busca pela interação entre obra e
paisagem na qual Oscar Niemeyer e o paisagista Roberto Burle Marx foram grandes protagonistas.
Em Natal, a plasticidade e o ritmo da combinação de retas e curvas também sugere uma certa organicidade às obras modernistas locais, reiterando a idéia de continuidade formal entre o edifício e o seu entorno através de volumes e outros elementos (lagos e jardins) que retomam contornos naturais. Tomemos como exemplo os passeios e o volume da rampa de entrada, todos sinuosos, da casa na Rua Dionísio Filgueira (exemplar 30, Quadro 3, foto 10) e o jardim da casa na Avenida Hermes da Fonseca, 1076 (exemplar 04, Quadro 2), onde os taludes e o lago – não mais existentes - apresentam-se numa seqüência de curvas que, como diria Le Corbusier, “massageiam” o olhar do espectador.
A questão compositiva do modernismo brasileiro, quando abordada sob o ponto de vista da síntese entre a tradição e o modernismo, vai além do racionalismo formal e assume características que complementam e enriquecem o legado moderno. Como diz Amorim (2001), em seu Paradigma da Forma, o emprego de elementos, assim como de soluções remanescentes da cultura nacional imprimiram personalidade à arquitetura moderna brasileira. Com isso, vimos os canônicos cinco pontos de Le Corbusier serem reavaliados, reinterpretados e somados a outras soluções locais sugerindo desdobramentos formais, técnicos e espaciais que traduziam o contexto nacional.
Tal como ocorreu no cenário arquitetônico nacional, a história do modernismo arquitetônico em Natal se confunde com o processo de formação da linguagem formal utilizada na casa modernista potiguar, pois ambos se desenvolveram a partir da absorção do legado formal modernista brasileiro (racionalista e tradicional) somado a algumas reinterpretações, elementos e soluções locais que refletiam as limitações (mão-de-obra e