innvandrere og eneforelderfamilier
3.2.4. Kontakter med eneforelderfamilier er mer tidkrevende
Uma das técnicas de base do trabalho da companhia e de sua linguagem é a técnica do palhaço e a dimensão humorística, uma característica marcante. Como já disse anteriormente, por sua natureza de sombra, o palhaço, segundo Fellini (1974, p.2), é eterno, como “caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador”. Assim, o palhaço e o humor são ferramentas importantes para a realização dos curto-circuitos: permite e desmascara-se como a quebra de padrões. Aponto duas leituras complementares acerca do uso do humor na estética da companhia: (a) curto-circuito entre a codificação clássica da dança e a decodificação do palhaço; (b) identificam-se com crianças – devir-criança – e sentem que as crianças se identificam com a linguagem.
7.1.4.1 Curto circuito na forma: codificação x decodificação
VYGOTSKY (1925/2001, p.272) afirma que toda obra de arte “implica uma divergência interior entre forma e conteúdo”, o que provocaria um curto-circuito de emoções. A centralidade da técnica do palhaço indica uma dimensão central de choque entre forma e conteúdo: a decodificação da “dança tradicional” pela aliança com o palhaço, cujas conseqüências são a quebra da imagem tradicional da “bailarina fadinha”, de movimentos belos, perfeita e inatingível e uma liberdade muito grande para os intérpretes – a capacidade de comunicar-se com “qualquer um, em qualquer situação”. Ouso dizer que, dessa maneira, constrói-se uma “linha de fuga” da dança tradicional (terra de brancos); nesse novo “território”, augustos conquistam seu lugar.
[...] [palhaço forte] vem vindo da linguagem de base, porque a Quito é uma diretora, professora de palhaço. Tanto a relação do jogo em cena, da teatralidade, do teatro, da relação, mas o palhaço é uma técnica que, para mim, foi abrir um canal muito grande de tirar a pretensão de um espetáculo
ou de um bailarino, de um bailarino perder a pretensão acho que todo bailarino deveria fazer aula de palhaço”, pra olhar o seu ridículo e ver que você não é o fodão do pedaço; que seu ridículo é muito legal também, olhar para a exposição e não ter medo da exposição, mostra quem você é, de fato; mostrar o seu feio. Seu feio pode ser muito lindo; o que é feio em você, o que você acha que é feio pode ser muito lindo.E isso foi um ensinamento muito forte que eu acho que a técnica do palhaço me deu e eu não quero perder [...] porque eu vim do balé e eu sempre tive que fazer tudo muito bonito, tinha que ser a linda...e no palhaço não. (ICd, grifos meus)
[...] a companhia conseguiu acessar um lugar, aonde mesmo que cada um dance seus próprios hábitos, eu sinto que rola uma liberdade de estética, do que buscar [...]. Mas o que eu quero dizer é que isso talvez tenha trazido uma liberdade de comunicação e talvez isso faça a diferença. A gente chega para conversar com qualquer um, de qualquer tribo, rola um canal. E eu tenho percebido que as pessoas não têm; acaba codificado muito forte numa imagem, ou da yoga, ou da dança indiana, ou do balé. Mas pra hora que encontra pra improvisar, ou a dança como linguagem, muito pouca gente... E eu tenho percebido isso, “nossa cara, é incrível como a gente desenvolveu a capacidade de se comunicar em qualquer situação”. (ICa, grifos meus)
7.1.4.2 A vitalidade do devir-criança
Da “liberdade estética” que amplia as possibilidades de comunicação. O corpo se abre: o corpo “transforma-se num único órgão perceptivo, [...] hipersensível às variações de forças, ao seu tipo à sua intensidade, às suas mais finas tessituras. Corpo particularmente sensível às variações e aos ritmos dos outros corpos” – corpo vibrátil. Abrir-se à experiência de perceber o mundo por meio do afeto, das ondas de intensidade e de seu contágio. “No corpo aberto, fervilham afetos de vitalidade”; em geral, “as crianças têm corpo aberto” (GIL, 2004, p.25).
Abrir o corpo é criar a zona em que o corpo visto do exterior ao interior, entra em contágio com o mundo. É a zona o devir constante das crianças que brincam, em que as palavras agem e os gestos falam, em que o corpo espectral se dissolve nas forças que se conectam com o outro [...] A zona é, por vocação, o espaço dos primeiros agenciamentos do corpo com o mundo. [...] Os agenciamentos podem fazer do corpo inteiro um só dispositivo – como na dança, por exemplo, no Contato-Improvisação, em que a tendência vai no sentido de construir uma espécie de corpo único agenciando (e agenciado por) dois corpos em movimento que, no entanto, se agenciam cada um por si, com o espaço ou com o outro corpo. Assim acontece, igualmente, no amor ou na amizade. (GIL, 2004, p.27, grifo meu)
Daí a Cia. Nova Dança 4 identificar-se, tanto com o mundo das crianças, o brincar; ao mesmo tempo, elas, como espectadoras, podem ser um termômetro extremamente sensível “do corpo aberto, permeável, poroso”. Por um lado, o palhaço, inadequado por natureza; o lado ingênuo, inocente, permeável, poroso,
leal, canino. Às vezes, perverso e bagaceiro. Augustos em reunião, que “fazem sujeira em cima, revoltam-se ante tanta perfeição, se embebedam, rolam no chão e na alma, numa rebeldia perpétua” (FELLINI, 1974, p.3). O devir-criança, correndo solto e criando zonas privilegiadas de agenciamento coletivo. Ao mesmo tempo, a liberdade de descobrir o próprio corpo e “experimentar-se em ato”, característica do bebê, da criança.
Em várias inaugurações de SESC, trabalhando com crianças, foi um grande treinamento de “como chegar” porque, pra mim, a grande conquista era quando eu conseguia trazer um bebê próximo de mim. Eu treinei muito o olhar com bebê, um treinamento forte, aí eu trazia pra essa minha atmosfera próxima, bem sutil, sem assustar e agente dançava junto. E a criança... A criança, o cachorro, com essa relação do olhar é o parceiro ideal. E isso foi um grande treinamento pra aproximar com a energia mais equilibrada. (ICd, grifo meu)
Eu acho que é em relação a tudo, a relação de como você lida com aquele corpo. A desconstrução daquele corpo, a forma pela qual você vai contar uma história, que não é uma historinha ta, ta, ta... Outras formas de se comunicar. E que isso, todo ser humano tem. Mas como a gente foi criado em uma sociedade tão espelhada em relações de moda e convenções, regras, que as pessoas pouco tem esse treinamento de se experimentar. Uma característica da criança, do bebê, do corpo. (ICg, grifo meu)
[...] como as crianças se identificam com a linguagem, com o trabalho da gente, com a improvisação. É um instrumento da atmosfera, do clima. Como a gente lida com as coisas do cotidiano em cena: ser livre e poder dar uma cambalhota; de o virtuosismo ser a presença e não você fazer uma pirueta, nem levantar a perna e se você olhar a criança com esse olhar permeável e no estado do palhaço. (ICd, grifo meu)