Imagem n. 26. Pastoril de Pirangi, Parnamirim. Fundação Hélio Galvão, 2003.
Criar e expressar-se são uma das características do Pastoril Flor do Lírio da Praia de Pirangi39, no município de Parnamirim, coordenado pela senhora Adalva Dias Rodrigues há
pelo menos duas décadas. Segundo nossa entrevistada a dança do Pastoril está presente nessa praia há pelo menos sessenta anos. Em tempos idos, era dançado por filhas de pescadores que passaram seus conhecimentos do folguedo para suas filhas e netas, ao passo que na atualidade a senhora Adalva repassa as cançonetas e movimentos da dança para adolescentes da Praia de Pirangi.
O Pastoril Flor de Lírio é formado por sete pastoras em cada cordão, mais a Diana e o palhaço. Uma das funções dessa formação de pastoras é resgatar as canções para que estas não caiam no esquecimento, uma vez que, segundo a senhora Adalva, não há registros escritos dessas canções. Ao tratar desse tema, a referida senhora canta uma das cançonetas de abertura do Pastoril Flor de Lírio denominada Cor de canela, cançoneta de domínio público:
Nós somos da cor de canela
39 Pertencendo ao município de Parnamirim, a praia de Pirangi está a cerca de 20 km de Natal. Ela é cortada pelo
Rio Pirangi, que a divide em Pirangi do Norte e Pirangi do Sul. É famosa pelo conhecido maior cajueiro do mundo, sendo registrado no Guinness Book e fazer passeios de barco até os parrachos, conhecidos como piscinas naturais, local propício para quem gosta de mergulho.
Do fogão quero calor Ai, ai, oi, oi
Nós somos da cor de canela Mais como são belas as pastorinhas Outras não há
Não há, não há
Quem saiba fazer quitute É do vatapá (bis) Prepara-se esse vatapá Se fizer é bem feitinho Se bota com o dedo
Na boca de seu benzinho (bis). (DOMÍNIO PÚBLICO)
Ao perguntar à senhora Adalva por que não se faz o registro das canções, a entrevistada respondeu que “antigamente” a maioria das pastoras não eram “letradas”, e, ao aprender a canção, não esqueciam mais. Essas brincantes têm a vocação de proporcionar o prazer do ouvir, às vezes acrescentando, às vezes condensando ou suprimindo versos das cançonetas. Ela disse que tem alguns registros de músicas de Pastoril, mas que a grande maioria delas o registro é da memória.
Recantadas ou re-elaboradas - mesmo a título de lhes conferir unidade narrativa - as cançonetas geralmente passam da oralidade para o texto escrito como uma espécie de apagamento da voz viva e sonora que, estimulada pela memória, se materializa em ação, em performance. Quando transcritas para texto, as cançonetas tornam-se um corpo caligráfico que impele o significante para além do texto, cujo significado é a escuta de uma voz que presentifica a enunciação. Sobre essa percepção, Zumthor (2007, p. 84) afirma que:
[...] a escrita só pode sugeri-la, a partir de marcas deíticas, frágeis e freqüentemente ambíguas, senão artificialmente apagadas. Essa oposição se manifesta, do lado do ouvinte-expectador e do leitor, no nível da ação ocular: direta, percepção imediata, por um lado; visão exigindo decodificação, portanto secundária, por outro: olhar versus ler. O olhar não pára de escapar ao controle, registra, sem distinguir sempre, os elementos de uma situação global, a cuja percepção se associam estreitamente os outros sentidos. Esses elementos - esses traços visíveis, essas coisas -, ele os interpreta: registra os sinais que nos dirige a 'realidade' exterior e fornece espontaneamente uma compreensão emblemática, na maioria das vezes fugidia e logo recolocada em questão. A vista direta gera assim uma semiótica selvagem, cuja eficácia provém mais da acumulação das interpretações do que de sua justeza intrínseca.
Apesar do frágil número de cançonetas subsistentes, pois segundo essa brincante, algumas se perderam no tempo, ninguém põe em dúvida a oralidade da poesia encontrada nas
melodias das cançonetas, pois essas canções que subsistiram à temporalidade foram confiadas à memória de suas intérpretes.
Na atualidade as adolescentes que participam do Pastoril não demonstram interesse pelo registro escrito da dança e não há um interesse dos órgãos públicos em manter viva essa tradição. “Falta incentivo financeiro para manter o grupo, incentivo este que ajuda na confecção do figurino que com o tempo se desgasta”, comentou a senhora Adalva. Ao tecer informações do Pastoril de outrora, dançado em Pirangi e adjacências, a entrevistada diz que quem organizou o primeiro Pastoril dessa praia foi o senhor Pedro Francisco das Chagas. A formação desse Pastoril era feito por familiares desse senhor, que era o seu organizador e ensaiador.
Em nossa conversa estava presente a senhora Antonia Cabral, filha do Sr. Pedro e antiga brincante do Pastoril. Ela informou que as brincantes dançavam no Pastoril da adolescência até a idade adulta, quando se casavam; após o casamento, deixavam de dançar para cuidar de sua nova família. Ela disse que, mesmo não dançando mais, ainda acompanha as brincantes em suas jornadas de apresentação pelas comunidades próximas a Pirangi.
Dona Antonia Comenta que havia uma hierarquia no Pastoril. Para se chegar ao posto de Mestra, a pastora passava pelos personagens da Diana, Contramestra, até assumir a função de Mestra; para tanto aprendia todas as jornadas. Tal hierarquia está relacionada com o domínio e conhecimento dos símbolos que conduzem a brincadeira. A própria participação na brincadeira está condicionada a esse saber. Mesmo que, para aprender a brincadeira os jovens precisem vivenciá-la, tal vivência se inicia com a observação, com tarefas que antecedem e precedem o ato de brincar: afinar um instrumento, organizar objetos e figurinos, cantarolar as canções, etc. Assim, à medida que cada um vai ganhando intimidade com aquela tarefa, vai tornando-se apto a participar de outra mais elaborada e, dessa forma, mudando de personagem. Nessa cadeia, aquele que conhece menos aprende com aquele que sabe mais e assim por diante; a experiência é que está em jogo no processo de transmissão, e a partilha do saber é construída na prática da brincadeira.
O Pastoril de Pirangi, que antes recebia o nome de seu organizador, era formado por doze moças. O senhor Pedro era o palhaço que recebia o nome de Venove, e a senhora Antonia era a Diana, vestida com um vestido branco com duas faixas, uma de cor vermelha e outra de cor azul, representando os dois cordões de pastoras.
As apresentações eram feitas em casas feitas de palhas e iluminadas por candeeiros a gás, e assistidas por pessoas da comunidade. O Pastoril tinha a vertente profana e no desenrolar das jornadas eram vendidas prendas, geralmente flores. Acompanhava as pastoras e o Velho um grupo de músicos com cavaquinhos, bandolins, violões e pandeiros. O dinheiro
arrecadado das prendas servia para a renovação do figurino das pastoras, mas a contrapartida era que as brincantes, ao serem escolhidas pelos rapazes que ofertavam as prendas, tinham que dançar com eles sob os olhos do Velho Venove.
O Pastoril de Pirangi foi ao longo das décadas se modificando e na atualidade recebe o nome de Pastoril Flor do Lírio. Suas pastoras atuais são adolescentes que fazem apresentações em tempo limitado, determinado pela organização dos festivais de que participam. O palhaço, nessa nova formação, recebe o mesmo nome do personagem de seu antigo fundador: Venove.