A priori vurdering av de ulike modeller
F. Konstruksjon av verditabeller og behov for interpolering
Segundo Nogueira e Pereira (2010, p.16), as pesquisas sobre a escolha do curso superior apontam duas conclusões básicas. Primeira, a de que o perfil dos estudantes varia de acordo com o curso frequentado. Eles não se distribuem aleatoriamente entre os cursos pelo interesse ou preferência pessoal. Segunda, a de que existe um difícil processo de autosseleção na escolha do curso superior. Geralmente os indivíduos escolhem cursos compatíveis com suas características sociais e escolares. Os elementos que levam à decisão por um curso são construídos durante a trajetória de vida dos sujeitos, influenciados pelos laços sociais que vão
sendo criados e pelas experiências dentro das diversas instâncias socializadoras, como a família, escola, Igreja, entre outras.
Ao que parece, no caso dos entrevistados desta pesquisa, a escolha dos cursos foi motivada pelas chances objetivas de cursá-los. Os jovens entrevistados, a exemplo de outras pesquisas, não buscaram as carreiras mais prestigiosas porque sabiam das limitações que a situação sócio-econômica de sua família impõe sobre a escolha das profissões. A escolha do curso não é definida simplesmente pela origem social, mas é fruto de um conjunto de fatores como os processos de socialização e a construção de disposições43.
Dos entrevistados, sete estão matriculados no curso de Pedagogia, quatro estão matriculados em área específica da Licenciatura – História, Geografia e Ciências Biológicas – e os outros quatro estão cursando o Bacharelado em Administração, Enfermagem, Nutrição e Psicologia. Apesar de estarem matriculados nestes cursos, alguns falam, mesmo que timidamente, do “desejo” em buscar outras qualificações. Alguns tentaram realizar seus sonhos mais ousados, porém não obtiveram êxito nos vestibulares. É o caso de Anita, que sonhava em ser médica e Érico que desejava fazer jornalismo. Juliana, no entanto, que pensava em fazer faculdade de Biomedicina ou Farmácia, não tentou nenhuma vez o vestibular para entrar nestes cursos. Segundo ela:
Aí eu queria fazer Farmácia, mas não era realmente Farmácia que eu queria; eu queria Laboratório porque eu já conhecia e achava muito lindo e a minha família não tinha condições pra isso. Nem pra fazer faculdade de Biomedicina e nem pra sair pra fora. Por que eu ia ser mantida lá, como? Aí eu ficava em casa meio triste e tal, mas meus pais sempre conversavam comigo. Se tivesse lá [Caetité] ou aqui em Guanambi uma faculdade pública que oferecesse, se fosse mais perto, tudo bem, mas pra mim ir lá fora seria difícil porque eles não iam ter condições de me manter lá fora, estadia, alimentação e ainda faculdade que, de uma certa forma, gasta. Então eu sempre fui compreensiva neste sentido...
Ao se analisar a fala de Juliana, percebe-se que ela não fez a escolha daquilo que mais “gostava” e sim de um curso que estava no seu horizonte de possibilidades e que, de certa forma, também lhe agradava, o curso de Pedagogia. E, na análise da sua trajetória de vida, percebe-se que houve certa influência de uma senhora licenciada em Letras e Pedagogia que coordenava um grupo de adolescentes na comunidade religiosa do qual Juliana participou dos sete aos dezoito anos: “a pessoa que tomava conta do coral, dona Djanira, ela era pedagoga.
43 Para discussão mais aprofundada sobre o tema: o processo de escolha do curso superior, ver tese de
Depois ela fez Letras, ensinou no Instituto de Educação, aposentou e eu me baseei muito nela, a estrutura de vida dela, a rotina. Ela era uma idosa que eu sou, era apaixonada por ela”.
Para outros entrevistados, também os companheiros dos grupos de jovens católicos foram referências importantes para fazer aflorar o desejo por mais conhecimento e escolarização. As conversas sobre o futuro com colegas de mesma idade, os jovens mais velhos que conversavam sobre vestibular nos intervalos das reuniões religiosas, o incentivo dos padres para que os jovens fizessem universidade e o exemplo de colegas e companheiros de ação pastoral se constituem influências positivas.
Wilton fazia pedagogia lá em Paulo Afonso (município baiano). Uma vez Vanessa e eu fomos visitá-lo. E assim, ele ia pra faculdade, UNEB. Ia pra faculdade, saía à noite, voltava, estudava, celebrava. Era uma pessoa que praticava esportes. Então eu ficava encantada com a vida que Wilton levava. Achava uma coisa assim, eu me encantei. E aí foi me dando, me impulsionando, cada vez mais me dando mais vontade de fazer o curso de Pedagogia principalmente. (Angélica)
Angélica narrou, deslumbrada, a disposição de Wilton para estudar, trabalhar (celebrar) e ainda praticar esportes. O referido padre a influencia na decisão em querer continuar a estudar e também reforçou o gosto pelo curso de Pedagogia.
O Gráfico 2 permite visualizar os motivos apresentados pelos entrevistados para a escolha dos cursos em que estão matriculados. As respostas foram tabuladas e alguns entrevistados apresentam mais de uma resposta para a questão proposta.
Gráfico 2 – Motivos para escolha do curso superior
Fonte: Entrevista com os estudantes (1º semestre 2011).
0 1 2 3 4 5 6 Profissão valorizada na comunidade
Curso menos concorrido Influência da família Horário do curso Afinidade com disciplinas do curso Gosto pelo magistério Continuidade do curso de Magistério Curso oferecido na cidade Possibilidade de conciliar com trabalho Profissão que permite ajudar pessoas
Por meio da análise do Gráfico 2, podemos verificar que seis entrevistados disseram ter escolhido o curso de Pedagogia porque gostam do magistério. Todos eles fizeram o curso de Magistério e optar pela Pedagogia era a continuidade daquela profissão que escolheram anteriormente. Angélica disse ter escolhido o curso de Pedagogia para continuar o trabalho que já desenvolvia em sala de aula. Nesse grupo, todas as respostas são de mulheres, o que corrobora com os resultados apresentados pelo censo IBGE 2000 sobre pessoas com cursos de nível superior concluído. Os dados apontam uma presença notadamente feminina (90,7%) nos cursos ligados às áreas de ciências da educação e formação de professores, enquanto que a participação masculina, nestes cursos, é de 9,3%.
Os entrevistados de nossa pesquisa, que optaram pelas licenciaturas em áreas específicas (História, Geografia e Ciências Biológicas), o fizeram porque tinham afinidade com os conteúdos discutidos no Ensino Médio e Fundamental relacionados a essas licenciaturas. É o caso de Eunice que escolheu a Licenciatura em Geografia, porque, segundo contou:
“Geografia sempre foi a minha paixão. Sempre. Desde a primeira série... Fiz vestibular para Geografia por conta disso”.
A família, representada aqui por irmãos e primos, também constitui uma influência para a escolha dos cursos. Maria, que foi aluna de Matemática do irmão da 5ª até o 3º ano do Ensino Médio, disse ter feito a opção pela Licenciatura em Matemática porque se espelhava neste irmão e depois, quando teve a oportunidade de cursar Nutrição, na faculdade particular, foi a palavra da irmã que falou mais alto. Rita, Rosa e Antônio também sofreram influências da família na escolha do curso de Pedagogia porque os irmãos haviam escolhido este curso também.
Eduardo que tentou vestibular quatro vezes para o mesmo curso – Administração – primeiro escolheu por questão de horário para conciliar com trabalho: “Em 2005 e 2007 eu fiz mais pela questão do horário. Pelo fato de ser um curso à noite e tinha também o curso de Pedagogia à noite e achei interessante pro lado da Administração, mais pelo oba, oba...”.
Em outro momento, falou da influência de um primo que insistiu com ele para fazer, apesar de reconhecer que não seria fácil, pela concorrência. O curso de Administração é o segundo mais concorrido da UNEB, Campus XII Guanambi. Em 2010, quando Eduardo foi aprovado, a concorrência era de 9,6 por vaga. Alto quando se compara ao curso de Pedagogia que foi de 2,96 por vaga.
O motivo da opção de Érico chama a atenção porque escolhe o curso baseado na valorização do ofício do professor, o que confirma, em parte, a afirmação de Vargas (2008) que considera ser uma especificidade da realidade do Nordeste a sobrevalorização de cursos como Pedagogia ou da Enfermagem associadas à importância e multiplicidade de programas assistenciais. Nas palavras de Érico:
Eu vou falar baseado na minha concepção de quando surgiu o sonho. Na verdade, na minha região ser professor era assim uma profissão bastante rara. Poucas pessoas que estavam habilitadas a ser professor lá na minha região. Então por conta disso era uma profissão bastante valorizada... Eu achava bonita aquela relação do professor com os alunos. Foi baseado nisso.
Este entrevistado mora numa região quilombola no interior do município de Riacho de Santana/Bahia. Sonha em terminar o curso de Pedagogia para compartilhar os conhecimentos adquiridos com a sua comunidade. Está no último semestre, mas teme não poder concluir por outras questões também importantes, ele quer se candidatar novamente a vereador pela comunidade, pois, segundo disse, preocupa-se com a falta de representação política naquele ambiente.
Anita, segundo relatou, não selecionou um curso, mas uma área que possibilitaria ajudar pessoas; nestes termos, ela escolheu cursos que estão na área de saúde. Sua primeira opção foi Medicina, todavia não foi aprovada. Buscou, então, Enfermagem e Psicologia que ela considera que também estejam no grupo de profissões que podem ajudar as pessoas. Nas escolhas feitas por Anita, há estratégias associadas ao fator econômico. Aprovada tanto em Psicologia como em Enfermagem, cursou um semestre de Psicologia, mas optou por Enfermagem com a seguinte justificativa: “Enfermagem é diurno, não posso fazer
concomitante com nada. Aí termino e começo a trabalhar. Depois posso fazer Psicologia ou especialização em Saúde Mental”.
Nossa conversa com Anita não foi suficiente para precisar o grau de influência do grupo religioso na escolha do curso de graduação e da carreira que a jovem deseja seguir. Se por um lado havia a mãe com o sonho de que a filha fizesse o curso de Medicina, ela própria disse que escolheu uma carreira que pudesse ajudar as pessoas. Esta disposição, identificada no seu discurso, pode ter sido construída durante a sua participação em grupos religiosos católicos,
no caso, o grupo dos Jovens Vicentinos, e o ministério da pastoral de rua, da Renovação Carismática Católica44.
Pesquisas sobre longevidade escolar de jovens das camadas populares apontam que as limitações econômicas e sociais são, dentre outras, aquelas que mais dificultam a chegada dos jovens ao ensino superior. Para os entrevistados, houve empecilhos econômicos e a barreira da reprovação no vestibular para entrar ou permanecer nos cursos escolhidos. Os elementos elencados no Gráfico 2, que dizem respeito à questão econômica, referem-se a cursos que são oferecidos pela UNEB em outro município, o que implica a necessidade de pagar transporte e dificuldade para conciliar horário de trabalho com os cursos oferecidos no diurno. Foi assim para Adriana:
... que eu tinha vontade de fazer a faculdade, eu tinha vontade de fazer o curso de Geografia, mas pelo fato de ser em Caetité – não é tão difícil – mas pras minhas condições ia ficar mais difícil ainda. Aí eu passei a saber um pouco do que estudava Pedagogia, do que se tratava, eu vi que era uma área boa e eu gostei também e pronto, aí eu decidi fazer Pedagogia, e aí pronto, acabei esquecendo Geografia. Eu acho que no fundo, no fundo, não era assim aquele gostar, gostando, né? Que quando é assim bem no fundo a gente não desiste fácil.
Também Rita diz que “escolheu” fazer Pedagogia por eliminação: o curso de seus sonhos – Licenciatura em História – era oferecido em outra cidade, o que dificultava pela necessidade de desembolsar certa quantia para pagar o transporte. Mesmo em Guanambi, se pudesse escolher, gostaria de cursar Educação Física e, nesse caso, seria impossível conciliar com seu trabalho. Assim, segundo ela, ficou com o único que teria condições de cursar.
A escolha do curso também parece estar ligada a estratégias para a aprovação. Como a concorrência para a entrada em alguns cursos é maior, os alunos buscam aqueles menos concorridos porque há mais chances de serem aprovados; ou, então, fazem como Artur que se inscreveu num curso menos concorrido, mas com a intenção de migrar para outro assim que fosse possível. Neste caso, conseguiu transferência de curso ainda no terceiro semestre e migrou da Licenciatura em Geografia para a Licenciatura em História.
Por que entre os entrevistados não surgiram desejos de cursar a faculdade particular da própria cidade que oferece cursos de alto prestígio, como Direito, Farmácia, Biomedicina e Fisioterapia? Ao que parece, isso não está no horizonte dos jovens e muito menos de suas
famílias. A única exceção às condições imediatas econômicas é o caso de Anita que, se não está cursando Medicina, é por conta da alta concorrência do curso, pois quatro tentativas de ingresso foram realizadas sem nenhum sucesso. Neste caso, parece que o fato de ter muitos amigos com aspirações mais elevadas em relação ao futuro e, principalmente pelo empenho da mãe, parece ter sido fortes influências para suas escolhas. Segundo Zago (2005), para a grande maioria dos jovens pobres não existe verdadeiramente uma escolha, mas uma adaptação, um ajuste às condições que o candidato julga condizentes com sua realidade e que representam menor risco de exclusão.