DEL II: FOREKOMSTEN AV MOBBING I BARNEHAGE, SKOLE OG
4 FOREKOMSTEN AV MOBBING I BARNEHAGE, SKOLE OG FRITID
4.1 Konseptuelle og metodiske utfordringer i vurdering av forekomsten
De primeiro usava talipe’a [borduna] para cortar o mato, tinha machado de pedra para cortar pau de árvore. A gente sabia que branco tinha machado e facão, que dava para pegar com eles. Fizeram reunião e perguntaram:
-Vocês têm coragem de ir lá pegar?
Ainda não tinha branco aqui, só índio. Tinha que ir longe buscar, lá no mar. Ia viajar para lá um pajé Gavião e um pajé Zoró. Era pajé forte. Porque no rio longe tem muito gojan forte, jacaré tîì(2), cobra...
Viajaram, viajaram, dormiram dois dias na canoa. Chegaram no outro lado do rio. Tinha muita luz forte, branco estava lá mexendo, cortando pau.
- Como a gente faz para pegar machado?
Quando branco foi comer, aí índio foi lá e pegou machado e facão.
Machado e facão cortava rápido mato, pau. Era bom para trabalhar, agora todo mundo queria também.
- Vamos pegar mais coisa lá no branco?
Voltaram outra vez. No caminho do rio tinha barraco de palha no rio, precisava atravessar para chegar no outro lado.
48 Entraram no barraco, aí gojan veio e pegou canoa assim do lado. Gojan puxou
canoa para o fundo do rio. Os índios dormiram debaixo d’água. Foi pajé Gavião e Zoró que falou para gojan;
- Você não pode fazer isso não! A gente está indo viajar lá para o branco. E não é para pegar, fazer doença para parente nosso que fica aqui em volta do rio. Se não a gente volta e mata você.
- Você não faz isso não – falou o gojan – porque você é gente, e nós somos gente também.
Aí gojan devolveu canoa no rio outra vez.
Continuaram até chegar na cidade. Pegaram mais machado e voltaram. O branco ficou desconfiado.
- Quem está pegando as nossas coisas?
Branco ficou escondido esperando para ver quem aparecia. E na terceira vez que índio foi pegar suas coisas o branco viu e atirou neles. Mataram muito índio. Daí índio não voltou mais. (Informação verbal, 2013)26
A outra versão do mito, provavelmente resumida, apresenta um desfecho diferente, mas enfatiza aspectos semelhantes que eu quero destacar.
Mito 3- Origem das ferramentas
Na terra de Gorá27 lá existe facão, panela, colar, tem tudo.
- Como nós vamos buscar lá?
-É longe, abaixo do rio, para lá do rio Machado, Amazonas...será o mar? O Oceano?
Na época viajava de canoa, dormindo na beira do rio. Lugar do gojan é por lá.
Tem que caminhar até chegar em cachoeira, buraco que fica na cachoeira. Caverna.
Coloca capacete porque tem morcego grande por lá.
Depois de atravessar a caverna por muito tempo você chega a terra de Gorá. É lá onde pegaram as coisas dos índios e dos brancos.
(Informação verbal, 2012) 28
Os índios Arara mediaram o contato dos Gavião com os brancos, inclusive os primeiros instrumentos de metal (panelas e facões, principalmente) foram adquiridos através desses índios de forma pacífica. É curioso, no entanto que os mitos descrevam a aquisição de tais bens ambicionados por meio do roubo na cidade dos brancos. Os mitos que descrevem a origem do milho, do fogo e de outros bens culturais reiteram o caráter de apropriação do exterior.
Na primeira história os bens ambicionados dos brancos são obtidos através do roubo; o encontro com o sobrenatural acontece durante a travessia, enquanto no
26 Mito narrado por Cena Gavião / Aldeia Cacoal
27 Gorá é um herói cultural, criador de muitas coisas. Com o advento do protestantismo, os Gavião
passaram a associar Gorá ao Deus cristão.
49 segundo caso se dá no final, quando Gorá doa as coisas aos índios. A sobrevalorização do estrangeiro, que na mitologia corresponde a fonte de riqueza, também diz muito sobre como os Gavião se relacionam com a alteridade – com outros povos indígenas e com os brancos.
Pretendo desenvolver uma reflexão acerca da importância do estrangeiro, para isso destaco a própria constituição da identidade do povo Gavião como uma categoria que indica a exterioridade como um índice da noção de verdadeiro.
O mito da maloca da pedra descreve a origem dos povos segundo a mitologia Gavião, do qual eu apresento um trecho abaixo:
Mito 4 – Gorá e o começo da humanidade
As pessoas iam saindo, sentavam-se em banquinhos para se apresentar. Tinha muito banquinho, pois era muita gente saindo da rocha. Iam dizendo quem eram:
- Somos o povo Arara! - Somos o povo Gavião! - Somos o povo Zoró!
Faziam banquinho de madeira, igual a esses banquinhos de pajés, sentavam-se.
Saíram os Iaudurei, outros índios. Saiu um ‘branco’, djara. Disse: - Eu sou o ‘branco’, dono da riqueza. (MINDLIN, 2001, p.151)
Os povos têm a sua origem da pedra, signo da perenidade. A divindade Gorá tem sua origem da pedra, sua mulher e filho também, são por isso imortais (PICHUVY, 1988). Diferente da gênese dos povos a existência dos clãs, como aponta o estudo de Dal Poz (2004) acerca da mitologia Cinta-Larga, resulta da fecundação feita pelo demiurgo Gorá de várias espécies vegetais femininas, que deram origem aos nomes das divisões dos clãs. Por essa razão os clãs têm, em comum, nomes de espécies vegetais para os povos Tupi Mondé (YVINEC, 2011; MINDLIN, 2001; DAL POZ, 2004), sendo grupos marcados distintamente sob o signo da fugacidade, do que é perecível. Na epígrafe desse capítulo transcrevi uma passagem em que Gorá “troca o couro” das pessoas que sentam em seus bancos. As referidas “cascas” de humanos são perecíveis (envelhecem), enquanto o couro de origem estrangeira e sobrenatural, fornecido pelo demiurgo, é eternamente renovável, garantindo permanente juventude. Essa narrativa se assemelha muito ao mito 3, “origem das ferramentas”, permitindo alguns paralelos: