Como o acervo de filmes produzidos no Brasil é variado, o que inclui não só os exibidos em cinemas, mas também em cineclubes, TV, etc., esta pesquisa definiu para análise os filmes escolhidos pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar e a recepção desses filmes pela Comissão do Oscar. Para entender como o processo de seleção funciona, o MinC publica, anualmente, um edital abrindo as inscrições para as produções que queiram concorrer ao Oscar. Dos inscritos, um corpo de jurados seleciona apenas três obras, as quais são objeto de uma nova seleção para escolher a que vai representar o Brasil na premiação. Cabe salientar que a escolha não implica uma indicação de imediato, pois a Comissão do Oscar para a premiação, por sua vez, seleciona apenas três obras dentre as várias na categoria “melhor filme em língua estrangeira”, vindas de várias partes do mundo, e a indicação do Brasil é apenas mais uma dentre muitas.
O recorte do corpus foi feito com o objetivo de investigar como o Ministério da Cultura percebe aquilo que é “digno” de representar o Brasil e qual representação é aceita sobre o Brasil pela premiação. Dentro desse universo, temos nove filmes escolhidos para representar o Brasil, na última década. Eles foram selecionados pela Comissão instituída pelo Ministério da Cultura; e cinco deles foram aceitos pela Comissão de Premiação do Oscar. Desse modo, posso investigar a brasilidade tanto do ponto de vista dos brasileiros, quanto dos estrangeiros.
Essas comissões (a do Ministério da Cultura e a da premiação do Oscar) possuem importância para além das suas atuações, pois acabam por influenciar os produtores, roteiristas, diretores em relação a que tipo de narrativa fílmica seria “aceita” ou selecionada por eles. Salientamos aqui a importância da contribuição teórica de Swales (1990) com seu conceito de comunidade discursiva. Segundo esse autor, comunidade discursiva consiste em um grupo de pessoas que se unem com objetivos de manter e desenvolver
características discursivas. Ainda sobre esse assunto, essa comunidade desempenha um movimento, no intuito de persuadir, treinar ou qualificar outros elementos em prol de manter determinadas características discursivas. Partindo do gênero objeto desta investigação, há duas comunidades discursivas bastante características, delimitadas pela relação com o gênero filme (mas nem por isso homogêneas): uma no âmbito nacional (Comissão do Ministério da Cultura), outra no âmbito internacional (Comissão para o Oscar).
Contudo, observo que essas duas comunidades discursivas não são uníssonas como sempre acontece com qualquer outra comunidade discursiva na perspectiva de Swales (1990), ou seja, não se assemelham por claras características discursivas. No caso da comissão do Ministério da Cultura, os integrantes são “convocados” devido à sua experiência com o gênero filme (roteiristas, professores, cineastas etc.), mas não há delimitação do que será mais, ou menos, pontuado em termos de técnicas ou de temas. O processo de seleção começa com a publicação de uma portaria, no Diário Oficial da União (DOU), em meados de agosto de cada ano, para a inscrição dos interessados. A priori, não há regras rígidas para a participação, mas também não há transparência sobre o que realmente vai ser observado ou avaliado. Um dos elementos, eliminatório no processo de seleção, é que o filme deve ter sido exibido publicamente, com fins comerciais, em uma sala de cinema em um período preestabelecido. Na mesma portaria, é estabelecida a constituição de uma comissão que avaliará os filmes inscritos. Apenas isso: não há critérios que norteiam essa avaliação em nenhum texto oficial do Ministério da Cultura, o que provoca comentários e protestos de muitos profissionais que estão sendo objeto da avaliação, ou que ficaram de fora da comissão, em vários blogs, posts etc.
Para se ter uma ideia dessa problemática, a mesma portaria cita os nomes dos componentes da comissão, mas não quem são na comunidade discursiva. Segundo Swales (1990), essa é uma das características necessárias para identificar um grupo de indivíduos como uma comunidade discursiva: espera-se que os membros possuam um grau de especialização relevante sobre o tema, o que vai se repetir na Comissão do Oscar. Para
exemplificar essa situação, na última portaria para avaliação dos interessados no Oscar 201187, os integrantes foram definidos no art. 4:
Art. 4º A indicação far-se-á por Comissão Especial de Seleção, composta pelos seguintes membros: I - Cássio Henrique Starling Carlos;
II - Clélia Bessa; III - Elisa Tolomelli;
IV - Frederico Hermann Barbosa Maia; V - Jean Claude Bernardet;
VI - Leon Kakoff;
VII - Márcia Lellis de Souza Amaral; VIII - Mariza Leão Salles de Rezende; e IX - Roberto Farias.
Depois de alguma pesquisa, é possível saber que Roberto Farias é cineasta, presidente da Academia Brasileira de Cinema (ABC); Clélia Bessa é produtora de cinema e professora da PUC-RJ / ABC; Elisa Tolomelli é produtora, diretora e roteirista de cinema / ABC; Mariza Leão Salles de Rezende é produtora de cinema e presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Audiovisual do Rio de Janeiro (SICAV)/ABC; Leon Kakoff é crítico de cinema, criador e diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/Ancine; Márcia Lellis de Souza Amaral (Tata Amaral) é cineasta/Ancine; Cássio Henrique Starling Carlos é jornalista e crítico de cinema/MinC; Frederico Hermann Barbosa Maia é Assessor do Ministério da Cultura/MinC; Jean Claude Bernardet é cineasta, crítico cinematográfico, escritor, teórico e professor da UnB e da USP/MinC.
Em suma, apesar de pertencer à esfera do cinema, nem mesmo o motivo da escolha dessas pessoas pelo Ministério da Cultura é apontado. Fato que se repete portaria após portaria. No entanto, para quem se interessa e pesquisa o currículo dessas pessoas, é possível identificar que a escolha é motivada pela participação e atuação desses indivíduos em eventos relacionados ao cinema no Brasil. A cada ano, essa comissão muda seus integrantes parcialmente, o que reflete as características de não coesão da comunidade discursiva, neste caso, a fílmica. Contudo, para os candidatos que inscreveram seus filmes para concorrer à premiação, essa não coesão, associada ao fato de não serem evidentes ou mencionados os parâmetros discursivos de avaliação que serão adotados, se torna um complicador, pois também não é possível fazer projeções sobre o que seus filmes deverão “dizer”
87Portaria n.° 92, de 17 de agosto de 2010, publicada no DOU n.° 158, de 18 de agosto de 2010.
para serem selecionados. Assim, a brasilidade, em novos filmes, se constitui na análise e interpretação do que já foi selecionado.
Processo semelhante acontece também com a escolha dos membros da Comissão Organizadora do Oscar: os membros escolhidos estão ligados de alguma forma ao cinema por uma comissão formada por mais de 6 mil membros, dividida em 15 setores, de acordo com cada área da indústria cinematográfica, como atores, diretores, documentaristas e técnicos de efeitos especiais. Não é possível ser sócio de mais de um setor – se o sujeito é ao mesmo tempo ator, diretor e roteirista, será escolhido para participar como representante de apenas uma dessas categorias. Para fazer parte dessa comissão, é necessário manter relações políticas com alguém que já faça parte dela; na verdade, é preciso dois membros para apresentar o nome do candidato e defender seu nome perante a diretoria do setor. Se apoiada, a candidatura vai adiante e o Conselho da Academia (menos de 10% do total de associados) avalia, então, se o candidato representa os "altos padrões" da Academia ou se fez alguma contribuição importante ao cinema (isso é avaliado num processo bastante relativo e controverso, pois se baseia em critérios subjetivos, uma vez que não estão claros ou explícitos). A Figura 33 mostra a fotografia oficial do Conselho da Academia, em 201188.
Figura 33: Fotografia oficial do Board of Governors/2011, o Conselho da Academia Disponível em: <http://www.oscars.org/academy/history-organization/governors.html>;
acessada em 14 de julho de 2011, às 22h
88 Informação disponível em:<http://www.oscars.org/academy/history-
Os critérios para a premiação são mais políticos do que técnicos. Como cada setor é responsável por um quesito, há situações em que o(a) diretor(a) da área concorre à estatueta, ou seja, preside a votação e pode ser votado. Depois de reduzir o número de indicados aos três que serão apresentados na solenidade, para cada categoria (ator, atriz, coadjuvante, roteiro etc.), todos os membros de todas as categorias votam nos escolhidos (isto é, ator vota em efeitos especiais, documentário, produtor etc.), o que torna o resultado não setorizado, sendo revelado apenas no momento da entrega da estatueta. Todo esse processo está resumido na Figura 34, que mostra esquematicamente como a Academia de Premiação do Oscar funciona, evidenciando que o processo tem mais ênfase no político do que no qualitativo.
Figura 34: esquema para participação e premiação no Oscar. disponível
em:<http://ultimosegundo.ig.com.br/oscar/saiba+como+entrar+na+academia+e+vencer+o+osca r+de+melhor+filme/n1238096874423.html>; acessado em: 31 de março de 2011, às 5h05min.
A “delimitação” dessas comunidades discursivas que avaliam os filmes, tanto no Brasil quanto no Exterior, é muito tênue, uma vez que pessoas ligadas ao cinema podem ser convocadas, no Brasil, por meio de portaria do Ministério da Cultura ou, no caso do Oscar, podem ser escolhidas pelo Conselho. Ou seja, o avaliado pode se transformar em avaliador. De toda forma, a formação de uma comunidade discursiva sobre o gênero filme é importante, pois o seu papel passa a funcionar como uma amarra para manter esse gênero menos disperso, no que se refere a tema, produção, efeitos e roteiro. Swales (1990) afirma que uma comunidade discursiva possui seis características essenciais, as quais funcionam como critérios de formação: 1) objetivo comum; 2) mecanismos participatórios; 3) troca de informação; 4) gêneros específicos da comunidade; 5) uma terminologia altamente especializada; e 6) um alto nível de especialização. Como mostrado anteriormente, a comissão de seleção do Ministério da Cultura e a comissão para o Oscar possuem todas essas características (mesmo que de maneira não enfática) e as decisões tomadas podem acabar servindo de parâmetro para a produção fílmica nacional, na medida em que filmes escolhidos servem de modelo para a caracterização da representação de brasilidade.