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Konsekvensar av verneframlegget

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5. VERKNADER OG KONSEKVENSAR

6.2 Konsekvensar av verneframlegget

Extraordinário é o culto que se lhe consagra. Nos dias de tribulação, nas horas de tristeza, nos terríveis momentos de desalento da alma, todos para ele recorrem, todos vão implorar-lhe remédio para seus males...

Virgílio Várzea27

O principal objetivo deste capítulo é discorrer sobre a representação da Ilha de Santa Catarina, das décadas iniciais da segunda metade do século XX, como sendo um lugar eminentemente religioso. Uma cidade que se mostra católica, um povo que mantém acesa sua ligação com o divino, com o escatológico e como esse ethos reverbera nas práticas de cura religiosas ou mito-mágicas na atualidade.

Tendo como fonte o jornal O Estado de 1950 a 1960, foi possível perceber uma cidade- capital palco de muitas missas, celebrações religiosas, cerimônias católicas de cunho popular, procissões, sermões, numa emergente demonstração de fé da população habitante da parte insular da capital catarinense. De fato a ilha era mostrada, ao menos nas páginas do aludido jornal, como uma cidade que rezava.

Manchetes sobre a vida do Papa, procissões, reportagens sobre padres, programação de igrejas, matérias de festas religiosas, sermões, promessas e orações recheiam o Jornal O Estado e podem apontar para a possibilidade de, há cerca de meio século atrás a ilha de Santa Catarina ser caracterizada por uma religiosidade cuja predominância, ao que indica a fonte, era de católicos apostólicos romanos.28

27 (VÁRZEA, 1985. p. 74).

28 Registra-se a existência de uma importante Imprensa Católica, como por exemplo, o Jornal “O Apóstolo”, mantido pela Diocese de Florianópolis, entre as décadas de 20 e 60 do século XX. (cf. SILVA, 2001).

Outras fontes analisadas nesta pesquisa foram orações escritas ou impressas utilizadas por moradores do interior da Ilha de Santa Catarina29. A partir da análise dessas orações foi possível discorrer sobre práticas religiosas de cura relacionadas a rezas que, de uma forma ou de outra, atravessaram o século XX e emergem no século XXI.

Essas orações escritas compunham um ato de devoção e fé de ilhéus que as carregavam consigo e por assim agirem acreditavam estar imunes do contágio de pestes, da morte, de inimigos ou de outros males. Esse ato de trazer as orações foi mais evidenciado em moradores do interior da Ilha de Santa Catarina, sobretudo no período de 1950 a 1980, conforme datas encontradas nas próprias orações.

Algumas cartas pessoais de um morador do interior da ilha, possuidor de orações manuscritas, são tomadas como fontes. Nelas é possível perceber uma preocupação com a saúde, com o bem estar dos pais e familiares. Essa preocupação com a saúde pode ser evidenciada nas introduções das correspondências sempre fazendo menção à saúde. Mas essa forma de introdução repetida nas cartas pode ser uma forma condicional ou mesmo padrão um padrão particular do escrevente, de começar suas cartas. No entanto outras cartas de outra escrevente apresentam também a mesma introdução indagando sobre a saúde dos destinatários.

Sobre a utilização de cartas como fonte e material de análise histórico cabe sinalizar para o que escreve Cunha (2000, p. 162), que embora se refira aos diários pessoais acredita-se na possibilidade de ser aplicado às cartas:

Descobertos e utilizados como importantes fontes de pesquisa, os diários [ou as cartas pessoais] podem oferecer aos pesquisadores outras novas versões/representações das práticas individuais, políticas e sociais de uma época, além de revelar interessantes histórias pessoais [...] Se o diário é ancorado na memória individual, esta é dada a ver pela linguagem, e cabe ao historiador enraíza-la no rol das múltiplas experiências sociais, para que cada memória pessoal possa ser vista e estudada como uma perspectiva da memória coletiva.

29 Conforme trabalho anterior (Sabino Martins, 2004) a prática da fé em orações escritas ou impressas por moradores do interior da Ilha de Santa Catarina pode ser considerada como demonstração de uma devoção privada de religiosidade.

Semelhante ao ato de escrever em diários, a escrita de cartas ou orações podem ser considerados como escritas ordinárias que correspondem àquelas elaboradas por pessoas comuns, muitas vezes silenciadas pelo tempo e pelo desinteresse da historiografia oficial30.

As cartas e as orações são tomadas como fontes reveladoras de aspectos de um tempo- espaço. Como rastros de um passado; sinais de um tempo que ora se torna mais visível, ora se faz menos aparente.

Quanto às orações aventa-se que seus escreventes não tinham a pretensão de deixar um registro histórico, mas sim, manifestar sua devoção, buscar proteção ou a cura de algum mal. De mesma forma ao escrever as cartas, não era o escritor movido pela intenção de fazer história, mas, a de se comunicar com outra pessoa.

Cartas, orações e jornais, podem ser tomados como importantes vestígios produzidos num determinado tempo e espaço e logo estão embevecidos com os aromas, apresentam-se carregados com as cores e moldados com as formas de um período e lugar específicos nos quais foram produzidos.

No caso apresentado o período corresponde à segunda metade do século XX, e o lugar é a Ilha de Santa Catarina. Parece que o período e o lugar são marcados por um ethos religioso bastante forte, dada a presença marcante nos jornais, no cotidiano e na vida das pessoas eventos religiosos como novenas, missas, procissões, promessas (ver Anexo A).

Ou mesmo práticas de cura relacionada a rezas, bênçãos, orações e simpatias, promovidas, em sua maioria, por benzedores e curadores. Essas mulheres e homens surgem nos testemunhos de moradores do interior da Ilha e em histórias que envolvem a cura de males que afligem a população da ilha-capital, quase sempre vítimas das bruxas que povoam essa porção de terras emersas, segundo Cascaes (2002 e 2003)

Aos benzedores e benzedeiras era atribuída a capacidade de poder “curar” os males ditos provocados pelas bruxas, e assim adquiriam notoriedade e prestígio junto às comunidades, tornando-se queridos e respeitados. Aos benzedores e benzedeiras eram atribuídos dons de curar males do corpo e da alma proferindo palavras e fazendo determinados gestos, ou, ainda, receitando remédios e ervas.

30 Cf. CASTILLO (2001 p. 9-34).

Além dos “embruxamentos”, esses benzedores e benzedeiras foram (e ainda são) procurados pelos moradores da ilha para “curar” outras “doenças” pouco convencionais, tais como “olho-gordo” e “arca-caída”. E outras doenças mais tradicionais como o “amarelão”, “cobreiro”, “erizipela” e mesmo “mau-jeito” (contusões ou torções).

A temática desse primeiro capítulo é basicamente a busca por esta religiosidade na ilha, que, imagina-se, é manifestada em público nas festas, procissões e também no privado, com rezas orações e promessas.

Este primeiro capítulo encontra-se dividido em três principais seções. A primeira visa mostrar um ethos religioso de predominância católica na Ilha de Santa Catarina, por meio das reportagens do jornal O Estado durante a década de 1950, principalmente, período onde é mais representativo o número de matérias e reportagens sobre manifestações religiosas católicas de cunho popular. Convém salientar que a expressão “catolicismo popular” não possui o mesmo significado que “catolicismo apostólico romano”. As práticas populares de religiosidade tais como a fé nas curas religiosas, guardam características próprias de uma religiosidade particular, pessoal.

A segunda seção deste capítulo tem como principal objetivo evidenciar uma prática de devoção e fé privadas manifestadas por alguns moradores da Ilha de Santa Catarina os quais atribuem poderes taumaturgos às orações manuscritas ou impressas tornando-as capazes de curar ou prevenir doenças do corpo e da alma31.

A terceira e última seção é motivada e impulsionada pelas histórias de curas por meio de rezas e bênçãos promovidas por benzedeiras e/ou benzedores tendo como ponto de partida os relatos e depoimentos de moradores do interior da Ilha de Santa Catarina pesquisados e narrados pelo folclorista catarinense Franklin Cascaes.

31 Por “alma” entende-se a energia vital, o espírito imortal do ser humano, o seu animus, na expressão latina, ou seja,

o ânimo de viver, segundo a doutrina cristã católica apostólica romana, o sopro divino que deu vida ao homem. Assim a referência no texto às doenças da alma leva em conta as muitas doenças de cunho psicológicos tais como síndrome do pânico, depressão e as diversas fobias. Salienta-se que tanto o Velho como o Novo Testamento não dividem o ser humano em corpo e alma. A Nova Bíblia Americana em seu “Glossário de Termos de Teologia Bíblica” (pp. 27, 28), diz: “No Novo Testamento, ‘salvar a alma’ (Mr 8:35) não significa salvar alguma parte ‘espiritual’ do homem, em contraste com o seu ‘corpo’ (no sentido platônico), mas a inteira pessoa, com ênfase no fato de que a pessoa está viva, desejando, amando e querendo, etc., em adição a ser concreta e física.” (The New American Bible,1970)

Sempre lembrando que no exercício histórico no tempo presente existe um constante movimento entre o passado e o presente. A narrativa histórica dentro da perspectiva do Tempo Presente é construída com elementos do passado e por questões e problemas do presente. Passado e presente se misturam, se completam. O presente é por vezes inundado pelo passado, mas esse passado é também uma construção do presente.

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