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2 Teoretisk bakgrunn

2.3 Konkurransestrategier og suksessfaktorer

Ao voltar o olhar à Linguística, Benveniste (2005 [1963a]) traça um paralelo de discussões entre a forma linguística e a função da linguagem, a fim de nos revelar sua posição. Essa posição assenta-se sobre a ideia de que não adianta olhar apenas para a forma, mas é necessário também olhar para a função da linguagem. Ou seja: para Benveniste (2005 [1963a]), de nada adianta fazermos uma descrição da forma, se não considerarmos a função da linguagem que se resume em simbolizar.

É, pois, a partir dessa função que apostamos no entendimento sobre o caráter inventivo/criativo da linguagem, pois a faculdade simbolizante é inerente ao homem e é o que o difere de outros animais, permitindo-lhe a atividade criadora. Portanto, o princípio da imaginação criadora constitui-se a partir da premissa de que a faculdade simbolizante permite ao homem a construção de um conceito pela via da abstração, pois não há relação direta entre o símbolo e o conceito. Logo, essa função simbólica, a nosso ver, é a fonte criadora da linguagem que dota o homem dessa capacidade, permitindo-lhe, por exemplo, um aparato específico de símbolos.

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Nesse caso, evidentemente, considerando a diversidade das línguas e das culturas. ―É definitivamente o símbolo que prende esse elo vivo entre o homem, a língua e a cultura‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.32). Disso resulta, para nós, a proposição de que a natureza convencional dos símbolos estaria para o recorrente (o iterativo) que vem em decorrência do criativo (do inventivo) da linguagem, porque ―o homem inventa e compreende símbolos; o animal, não‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.29) 80.

Em Benveniste (2005 [1963a]), compreendemos que a língua encarna-se na linguagem que organiza o mundo, fato é que ele afirma que ―propuseram como princípio criador do mundo essa essência imaterial, a Palavra‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.27), e, como vemos, tal feito está gravado nas sagradas escrituras: ―O princípio era o verbo [...]‖ (João, capítulo I, versículo I). Consequentemente, é na língua que se encarna, que se funda a sociedade e o indivíduo. Essa constituição encontra-se na escrita ―o princípio organizador da sociedade‖ (BENVENISTE, 2014 [1968-1969], p.168). Por meio desse argumento, fazemos alusão a uma passagem em Saussure que vem reforçar o nosso entendimento sobre a língua na linguagem, qual seja:

Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem, pode-se, enfim, fazer valer o argumento de que a faculdade – natural ou não – de articular palavras não se exerce senão com ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade; não é, então, ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem (SAUSSURE, 2006 [1916], p. 18).

Para Benveniste (2005 [1963a], p.27), o poder fundador da linguagem instaura uma realidade imaginária, e esse poder ―o homem sentiu sempre – e os poetas frequentemente cantaram‖. Desse argumento resulta a pressuposição de que a linguagem funda-se na re- criação, invenção do mundo: ―anima as coisas inertes, faz ver o que ainda não existe, traz de volta o que desapareceu‖. A linguagem, então, torna a realidade uma realidade que nada mais é a representação da representação, pois a realidade é inatingível, inacessível.

Benveniste (2005 [1963a]), ao definir o modo como vê a realidade, vai abrindo espaços, caminhos, para compreendermos a noção de iterativo (o que está para um modelo, estabilizado socialmente) e de inventivo (o que está para uma transgressão ao socialmente estabilizado) da linguagem. Atentemo-nos para o que ele diz-nos:

80 Sobre a distinção entre sinal e símbolo, Benveniste (2005 [1963], p. 28-29, destaque do autor) explica que

―um sinal é um fato físico ligado a um outro fato físico por uma relação natural ou convencional [...]. O animal percebe o sinal e é capaz de reagir adequadamente a ele. [...] O homem também, enquanto animal, reage a um sinal. Mas utiliza além disso o símbolo que é instituído pelo homem; [ ], pois o símbolo não tem relação natural com o que simboliza. O homem inventa e compreende símbolos; o animal, não‖.

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Isso deve entender-se da maneira mais literal: a realidade é produzida novamente por intermédio da linguagem. [...] a situação ao exercício inerente da linguagem que é da troca e do diálogo, confere ao ato do discurso dupla função: para o locutor representa a realidade; para o ouvinte,

recria a realidade. Isso faz da linguagem o próprio instrumento da

comunicação intersubjetiva. (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.26, destaques nossos).

A respeito da passagem mencionada anteriormente, esclarecemos que, ao empregar o termo ―recria‖, Benveniste (2005 [1963a]) marca o iterativo em decorrência do inventivo da linguagem. Ou seja: ele dá ênfase ao aspecto inventivo. Disso resulta a estreita relação entre o iterativo e o inventivo, posto que os limites para o inventivo são tênues, não obstante o limite que se instaura via língua, decorrente daquilo que é recorrente – e resultado do efeito da comunicação intersubjetiva – . Consideramos que esse limite está para a recorrência das ―unidades de sentidos‖ (BENVENISTE, 2006 [1968c], p.99), os signos, em número finito, entretanto as possibilidades de combinações dessas unidades são infinitas.

Esse limite, também, está nas convenções instituídas nas sociedades pelos homens e é, talvez, paradoxal, pois ele próprio é uma possibilidade de o homem criar/inventar, dado que ―cada locutor fabrica sua língua, [...]. Trata-se antes de tudo da língua como organização e do homem como capaz de organizar sua língua‖. (BENVENISTE, 2006 [1968a], p.19). Além do mais, a ênfase ao espírito humano de invenção – essa que está para a singularidade em relação aos locutores que se colocam na condição/posição de sujeito e enunciam – é tamanha que Benveniste sublimadamente afirma:

Todo homem inventa sua língua e a inventa durante toda sua vida. E todos os homens inventam sua própria língua a cada instante e cada um de uma maneira distintiva, e a cada vez de uma maneira nova. Dizer bom dia todos os dias da vida a alguém é cada vez uma reinvenção. (BENVENISTE, 2006 [1968a], p. 18).

Tomadas por essa construção de Benveniste (2006 [1968a]), somos impelidas, na posição de pesquisadoras, a pensar no ensino de escrita como lugar em que coexistem os aspectos iterativo e inventivo da linguagem. Todavia, por razões culturais, sócio-políticas e, portanto, institucionais, o ensino de escrita no espaço sócio-escolar quase sempre atende a um modelo de formalização, a um modelo ―ensinável‖ em que sobressai, em razão a essas demandas, o ensino da forma com prevalência aos aspectos recorrentes – iterativos – da língua.

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Sobre o espaço que se abre para a (re)invenção – o inventivo – , a criação, é possível estabelecermos um paralelo entre o poeta e o aluno. Dizemos que, ao poeta, permite-se a licença poética, inventiva; ao aluno, quase sempre, o espaço à produção escrita, iterativa, recorrente. O cantar do poeta, em Benveniste, é o mover-se dentro dos espaços limítrofes da linguagem, cujo poder é a criação, a invenção, a imaginação. Com isso, há a possibilidade de produzir o diferente, a poesia81. Todavia, o que vemos é que o espaço sócio-escolar não sustenta uma prática de ensino em Língua Portuguesa em que se considera prioritariamente o ensino de escrita; quanto menos, uma prática de escrita que dá lugar à (cri)ação, tendo por base as experiências que esta pesquisa enfoca. Com efeito, geralmente, desvanece esse poder de possibilidade de criação. Mesmo assim, em condições adversas, à revelia, alguns alunos clamam por esse espaço inventivo e, ainda assim, concebem uma escrita criativa. É o que veremos, por exemplo, na produção escrita de Pedro e nas (d)enunciações dele e de Ana, alunos participantes deste estudo.

Julgamos que jogar com os limites da língua é uma possibilidade que permite ao aluno o espaço para a criatividade, a inventividade. É, antes de tudo, considerar que, a partir de uma posição enunciativa benvenistiana, o iterativo e o inventivo são constitutivos da língua enquanto realização na linguagem que é simbolismo, pois ―se realiza necessariamente em uma língua‖ (BENVENISTE, 2005 [1956b], p.92). Por essa razão, a ascensão de homem na série animal ―deve-se antes de tudo à sua faculdade de representação simbólica‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p. 29) que o dota do poder de criação.

Além disso, na perspectiva teórica benvenistiana, o caráter iterativo e o inventivo da linguagem sustentam-se, também, a partir da interpretação que se faz do semântico e, nesse caso, a língua é sempre possibilidade de significar, consequentemente, de inventar e refazê- la. Sobre isso, Benveniste diz-nos que

A apropriação da linguagem pelo homem é a apropriação da linguagem pelo conjunto de dados que se considera que ela traduz, a apropriação da língua por todas as conquistas intelectuais que o manejo da língua permite. É algo fundamental: o processo dinâmico da língua, que permite inventar novos conceitos e por conseguinte refazer a língua, sobre ela mesma de algum modo. (BENVENISTE, 2006 [1968a], p. 21, destaques nossos).

Das palavras de Benveniste (2006 [1968a]), em destaque, no excerto anterior, focalizamos a nossa atenção em dois termos, quais sejam: inventar e refazer. Sobre o termo

81 Assim nos diz Quintana (2006 [1973], p.388): ―a poesia não se entrega a quem a define‖. Essa afirmação

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inventar, estabelecemos uma relação com a questão do semântico. Essa relação explica-se

em razão do processo dinâmico da língua, a partir do qual depreendemos que o inventivo é constitutivo da natureza semântica da língua que nada mais é a abertura para (a simbolização d)o mundo. Assim, nesse mundo, a cultura, tanto quanto o semântico, ―é um sistema que distingue o que tem sentido, e o que não tem‖ (BENVENISTE, 2006 [1968a], p. 22), visto que ―nenhuma língua é separável de uma função cultural‖ (BENVENISTE, 2006 [1968a], p.24)82,

em decorrência de que a língua é o ―primeiro consenso coletivo‖ (BENVENISTE, 2006 [1968a], p.20). Ao contrário a essa abertura para o mundo, o semiótico ―é o sentido fechado sobre si mesmo e contido de algum modo em si mesmo‖ (BENVENISTE, 2006 [1968a], p. 21).

A respeito da ênfase ao termo refazer, fazemos referência à posição de Dessons (2006) sobre Benveniste, especificamente no que tange ao prefixo re-. Essa referência, também, dá-nos razão para problematizar o caráter iterativo e inventivo da linguagem, pois, de acordo com Dessons (2006), esse prefixo, em Benveniste, tem um valor crítico e apresenta o caráter dual e significativo de iteração e de invenção.83

Ao dedicarmo-nos ao caráter de duplo funcionamento da língua, considerando os aspectos iterativo e inventivo desse funcionamento na linguagem, fazemos referência a outra relação entre Dessons e Benveniste, a partir do empreendimento teórico de Dessons (2006) sobre a teorização em Benveniste. Sob o plano enunciativo benvenistiano, julgamos que a escrita é uma maneira de olhar a si e ao mundo, porque o exercício da linguagem (BENVENISTE, 2006 [1965]) constitui-se de uma experiência de linguagem via experiência humana que é única e, portanto, subjetiva e intersubjetiva. Esse exercício permite ao homem o espírito criativo e inventivo da linguagem e assenta-se sobre o argumento de Dessons – que se harmoniza com seu argumento anterior, a respeito do prefixo re-, em Benveniste –, segundo o qual ―para o exercício de linguagem, o mundo não é um eterno retorno, mas uma constante criação‖ (DESSONS, 2006, p.14).

Essa criação estaria para a ideia de que, segundo Benveniste (2005 [1956a], p.84), ―a língua fornece o instrumento de um discurso no qual a personalidade do sujeito se liberta e se cria , atinge o outro e se faz reconhecer por ele‖. Nessa afirmação, está também a disposição de sentidos que nos serve de meio à compreensão da língua como ―estrutura socializada‖, para

82 Entendemos que, conforme os pressupostos benvenistianos, a língua é reveladora de cultura, porque a língua

é que funda a cultura lugar onde o homem nasce (BENVENISTE 2006 [1968a]). Especificamente sobre a afirmação – modalizadora – de Benveniste (2006 [1968a], p.23, destaque nosso) de que ―a língua pode ser reveladora de cultura‖, Benveniste trata de afirmar que a cultura integra-se à espessura de outras culturas e, com isso, a língua que determinada cultura tem pode ou não revelar as espessuras de outras culturas.

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fins pessoais e (inter)subjetivos. Desse raciocínio, resulta a posição de Benveniste de que ―o discurso é ao mesmo tempo portador de uma mensagem e instrumento de ação‖ (BENVENISTE, 2005 [1956a], p.84).

Além do mais, ao consubstanciarmos esse poder de (cri)ação à língua em funcionamento, damos ênfase à constituição benvenistiana de linguagem enquanto exercício de (cri)ação. Para isso, tratamos de demonstrar, em figura esquemática, o modo como depreendemos essa constituição. Vejamo-la a seguir:

FIGURA 3 – Ilustração esquemática sobre a constituição benvenistiana de linguagem enquanto exercício de criação (ou ilustração sobre a tríade benvenistiana de linguagem: língua – homem – cultura)

Fonte: As autoras.

Antes de atentarmos para a compreensão da figura apresentada anteriormente, damos relevo à tríade língua – homem – cultura, de modo que nós consideramos que há uma indissociabilidade nessa tríade, haja vista a mútua relação dessas noções em Benveniste. É a língua como interpretante de todos os outros sistemas simbólicos que permite ao homem a condição exclusiva de sua inserção na ordem do simbólico, no mundo simbólico, no qual a sociedade reconhece-se como língua (BENVENISTE, 2005 [1963a]). Por conseguinte, ―pela língua, o homem assimila a cultura, a perpetua ou a transforma‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.32). A cultura, então, lugar onde o homem nasce, é um ―conjunto dos fenômenos sociais‖ (BENVENISTE, 2005 [1963b], p.47) e é ―inerente às sociedades dos homens‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.31), às especificidades de cada sociedade. Ela, portanto, abarca tudo que é da ordem do simbólico.

Homem CULTURA L I N G U A G E M HOMEM MANEJO C R I A Ç Ã O LÍNGUA

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Assim, a ilustração esquemática que esboçamos sobre a constituição benvenistiana de linguagem enquanto exercício de (cri)ação teve a pretensão de dar relevo ao modo como essa perspectiva põe em foco o olhar perquiridor sobre o funcionamento da linguagem. Em vista disso, consideramos que a tríade língua – homem – cultura sempre é ponto de partida para pensar numa problematização sobre a língua. Conforme a ilustração, a língua, em consubstanciação com o homem e com a cultura, produz as manifestações de linguagem (acontecimentos em exercício da linguagem), repercutindo singularidades, particularidades, em razão do manejo do locutor que se coloca como sujeito na língua.

Lembrando-se de que, nesse manejo, está subentendida a intencionalidade daquele que diz, ou seja, o intentado da significação, não obstante a imprevisibilidade do sentido. Disso tudo, resulta, conforme as setas da figura esquemática indicam, cada qual em direção oposta a outra, uma relação infindável e em permanente funcionamento da linguagem em (cri)ação, de maneira que pressupomos o princípio de que a linguagem reclama a (cri)ação, a coexistência entre o iterativo e o inventivo.

Portanto, ―estabelecendo o homem na sua relação com a natureza ou na sua relação com o homem, pelo intermédio da linguagem, estabelecemos a linguagem‖ que ―se realiza sempre dentro de uma língua‖ (BENVENISTE, 2005 [1963a], p.31, destaque do autor). Com isso, pensar na tríade língua – homem – cultura é sair do lugar da língua pela língua e deslocar-se para a relação entre essas noções (ponto central da teorização benvenistiana).

2.6.4 Escrita enunciativa: autoria, singularidade e subjetividade no processo iterativo e