4 Metode
4.3 Konkretisering av metode og gjennomføring
Alexandre Luis da Hora Silva, Niggaz, para o campo do grafite, faleceu aos 21 anos, em 29 de abril de 2003, nas águas da Represa Billings. O interesse por este artista não passa simplesmente por sua obra, mas por sua trajetória. Por meio dela, emergem caracte- rísticas importantes de uma vida na metrópole, vista e vivida por um sujeito oriundo da sua margem: Jardim Eliana (Grajaú – Zona Sul), na periferia da cidade, lugar onde cresceu. O grafite surgiu para ele como instrumento de construção de um caminho para outras paragens, lugares distantes e cheios de barreiras, por onde seus amigos de bairro não se imaginavam antes dele ultrapassar os obstáculos reais e simbólicos que levavam até eles.
A nave espacial que ele fez no beco da Rua Belmiro Braga (Vila Madalena), no projeto Beco Escola coordenado pelo Aprendiz, foi a síntese deste processo. A nave está a caminho de algum lugar imaginário, um outro mundo, para tanto é bem equipada para a viagem: cheia de dispositivos, botões, teclados de um computador central, monitores de controle etc. Mas o comandante desta nave não a move por livre e espontânea vontade, nas suas costas há um homem com um revolver na mão, ameaçando-o enquanto ele observa um monitor na sua lateral. Ele também segura o manche e tecla nos equipamentos da nave, parece dominar um processo complexo para colocá-la na rota de sua viagem. Junto da cabine ele é auxiliado por uma mulher, a co-pilota de sua jornada. O destino que seguem não podemos saber, apenas podemos supor que talvez não possua retorno.
O destino possível desta viagem do artista tratava-se imaginariamente da boemia na Vila Madalena. Ela era muito sedutora para um jovem periférico e tornou-se uma referência para um possível paraíso terrestre. A distância foi se aprofundando entre o ambiente familiar e o ambiente que lhe acolhera naquele bairro, onde vigorava uma moral inteiramente outra daquela que lhe formara. Em muitas outras aventuras pelo bairro em que se situa o Aprendiz, sem dinheiro para voltar para casa, nem amigos para o acolherem, passava as noites em claro esperando o primeiro ônibus. A distância foi o elemento mais marcante em sua vida de trânsito entre a Vila Madalena e o Grajaú, no extremo sul da cidade. As drogas surgiam neste contexto para diminuir os efeitos desta transposição entre os dois lugares, ora para mantê-lo acordado e atento, ora para retirar sua consciência e levá-lo para paraísos artificiais. A rua apresentava, assim, o que havia de pernicioso para o artista, um alento para passar mais uma noite em claro e que seria cobrado demasiadamente caro dentro de pouco tempo.
A distância assumia muitos significados na vida de Niggaz. Primeiro, num sentido efetivo de distância geográfica, depois, de convívio social (entre a classe média e a periferia pobre) e por fim de conduta, com a necessidade de praticar uma regra completamente es- tranha a tudo aquilo que vivera até então (entre a conduta dos fiéis Testemunhas de Jeová e a conduta libertina da noite paulistana). No seu núcleo de convivência inicial, entre os amigos do Grajaú, Niggaz não entrara em contato com álcool, cigarro ou maconha. Tudo que absorveu em matéria de alucinógenos, fora na Vila Madalena. Seu amigo Jerry diz que quando ficou depressivo em função de uma desilusão amorosa, não havia nada disso que houvera para Niggaz, o que foi um fator muito positivo para ele. As drogas potencializavam tudo, inclusive o que havia de ruim.
Uma das principais características de Niggaz era ser romântico. As experiências sentimentais intensas sempre povoaram sua traje- tória, recorrentemente aparecia com o desenho de uma mulher pela qual se apaixonara e os amigos apaixonavam-se por derivação, através de seu trabalho. A mulher ao seu lado na nave do painel do ‘Beco’ é o elemento que lhe dava estímulos para transpor as distâncias, que o acompanhava na viagem e lhe fornecia o afeto e a compreensão para diminuir as turbulências de sua vida, foi ela também que lhe trouxe uma das maiores desilusões.
Todavia, o que vale notar é que Niggaz possuía grande domínio técnico, como o comandante da nave nas suas atribuições. No seu painel de grafite do ‘Beco’ podemos observá-lo pela composição que criou num espaço bidimensional: dos quatro monitores presentes, três servem de espelho para os personagens, dando impressão de profundidade num ambiente fechado. Nas roupas dos tripulantes encontramos um jogo de claro/escuro, sombras, uma bela composição de cores e um degradê que confere movimento. Na roupa do algoz que porta a arma, uma distinção, seu paletó está aberto. Durante toda a sua infância foram os quadrinhos e os
114
desenhos animados da TV que lhe forneceram o repertório que aparece em seus personagens.
Niggaz dominava o desenho, no papel desenvolvia qualquer figura. Por meio dos trabalhos publicitários que apareciam no Aprendiz, passou a ganhar dinheiro como nunca havia obtido. Porém, seu pai não acreditava na profissão de artista, apenas reconhecia como trabalho o que ele próprio fazia, tinha internalizado que aquele não era um lugar para o filho. Conseqüentemente, o artista presente em Niggaz não possuía a menor ressonância na família. O reconhecimento de sua arte existia apenas fora do núcleo familiar. Ela era incapaz de visualizar o talento do filho para esta oportunidade gerada pelo Aprendiz. Além disso, aqueles que partilhavam laços consangüíneos, seus pais e dois irmãos, eram fiéis da religião Testemunhas de Jeová, grupo que segue o Antigo Testamento da Bíblia e é reconhecida pelo grande rigor na conduta. Nela, as mulheres não podem usar batom, vestir calças, e os fiéis não podem assistir à televisão (para citar poucos dos elementos prescritos pela religião). Neste sentido, tanto o repertório imagético que Niggaz criava quanto a sua conduta afeita à boemia, de modo algum suscitaria aceitação da família. Nos seus últimos momentos, ficava de dois a três dias sem voltar para casa, pois a família impunha horários rígidos a serem cumpridos, que quando burlados geravam grandes conflitos e desentendimentos.
O painel do ‘Beco’ guarda outra peculiaridade: depois do seu falecimento seus amigos se incumbiram de restaurá-lo regularmente. Mauro e Jerry, grafiteiros que vieram da mesma região de origem do Niggaz, e foram estimulados por ele a se introduzirem no mundo da arte, prestam esta homenagem para que sua memória permaneça viva. Principalmente pelas circunstâncias em que se deu a sua morte.
Ele estava no auge de sua produção quando ocorreu o fato trágico e, no entorno do mistério que envolve sua noite derradeira, especula-se que o artista suicidou-se. Os amigos mais próximos acreditam ser pouco provável, dada a imensa distância que transpôs e o espaço que conquistou do outro lado da cidade entre os bairros mais abastados, tal fato fora uma proeza e ele estava feliz por realizá-la. Porém, seus amigos não se questionam que neste fato imponderável e inescapável, ele pode ter construído toda a sua expressão. Analisando seus grafites, podemos visualizar sua disposição em sair deste mundo.
115
Na obra acima, onde seu personagem está no topo de um edifício. Novamente vemos a iminência de sair deste mundo. Carrega um foguete nas costas e uma auréola na cabeça, da sua direita um anjo parece vir em sua direção, não se sabe se para impedi-lo ou para encontrá-lo no caminho do céu. Ele não olha para o anjo, está cabisbaixo, pensativo com a cidade diante de si. Internalizou uma mo- ral rígida que lhe apresentava um mundo bem diferente do que encontrou na Vila Madalena, ao mesmo tempo em que lhe prometia um paraíso no Céu. Tributária deste aspecto é a sua disciplina, desenhava horas a fio durante toda a sua infância. Os mecanismos da religião para oferecer sentido simbólico à sua existência, contrapostos a uma experiência de pobreza material e ausência de equi- pamentos públicos satisfatórios na região, saneamento básico, boas escolas e atendimento médico digno, impulsionavam o artista a esperar por uma vida melhor em outro lugar, depois do Juízo Final. A própria religião, por meio da revista ‘Sentinela’ que os fiéis distribuem aos domingos pela manhã, disponibilizava enorme riqueza de imagens idílicas de uma realidade meramente imaginada. Foi esta mesma religião que, depois da morte de Niggaz, motivou seu pai a queimar todo o seu acervo pessoal de cadernos, dese- nhos e pinturas criados pelo artista, pois, diferentemente da revista ‘Sentinela’, os temas que apareciam em suas obras representa- vam os aspectos sofridos de uma existência na metrópole. Felizmente, o artista havia requisitado para seu amigo Akeni guardar parte de seu material, pensando em preservar sua memória.
Exclusão e diferenciação eram outros elementos que lhe ofereciam barreiras, quando Niggaz estava na Vila Madalena. Dizia que era mandado recorrentemente para o paredão (em alusão ao programa de reality show Big Brother da TV Globo) pelos grafiteiros do Aprendiz, mas sempre era apoiado por Akeni, um jovem oriundo da mesma região da cidade. Highraff, um grafiteiro de classe média, ajudava Niggaz ao mesmo tempo em que fazia chacota, característica de um universo juvenil e ambivalente. No entanto, todos os grafiteiros presentes no Aprendiz admiravam sua técnica, dominava o spray e o desenho. Neste processo, ensinava Highraff a dese- nhar e ele o ensinava a montar um “portfolio”.
Ele foi o primeiro grafiteiro que chegou à Vila Madalena vindo de uma origem social mais baixa, também o primeiro que fez estes gra- fiteiros de classe média circularem pela periferia. Quando então, além de reconhecerem as distâncias que ele ultrapassara, passaram a valorizar a sua disposição em transpô-las. Porém, sempre houve querelas, em que Highraff dizia que Niggaz copiava Os Gêmeos. Em certa ocasião, Dinho questionara Highraff dizendo que este fizera o mesmo procedimento de cópia. Como Highraff se esquivara do assunto, então Dinho buscou um livro e mostrou que o desenho dele era idêntico ao encontrado na imagem da publicação. Por sua vez, Niggaz falava que deveriam se influenciar pelos bons, não tinha reticências em manifestar suas fontes. Mas a relação com Highraff era multifacetada, nas situações em que Niggaz passava por dificuldades na noite da Vila Madalena era para ele que ligava em busca de socorro. Em um evento especial ele foi chamado para salvar a vida de Niggaz que estava sendo perseguido por homens armados em Parelheiros.
No último muro do projeto “100 muros” da instituição Aprendiz (realizado em 2001), observamos novamente este personagem prestes a se desgarrar do mundo. Ele se agarra à espiral de mosaicos do painel enquanto é sugado por uma força centrípeta. Sua indumentária revela que ele utiliza equipamentos de astronauta, desta vez com uma máscara que lhe fornece o oxigênio. Neste painel ele está ao lado das obras de Zezão, Paulo Ito, Dinho, Ciro, Highraff, Tim.
Nesta recorrência de personagens prestes a sair deste mundo, Niggaz pode ter anunciado o seu fim com a obra de arte e, mais do que isso, representou um dilema partilhado com Zezão e Spencer na relação com a ONG Cidade Escola Aprendiz, um ambiente pretensioso de fraternidade que repete a distinção social presente na classe média paulistana. Depois que saiu de seu bairro, num caminho sem retorno, não possuía outro lugar para que o acolhesse com afeto.
116
Imagem 82: Painel coletivo na Av. Paulo VI, no encontro com a Av. Henrique Schaumann, no muro de fundos do Instituto Goethe, São Paulo, 2001.
Técnicas: mosaico e grafite. Foto de Lucila Wroblewski. Fonte: KLOTZEL, 2003.
Imagem 84: Detalhe do grafite de Niggaz. Fonte: KLOTZEL,
2003.
117