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O ser humano recebeu das mãos de Deus a capacidade de escolher o destino que deseja tomar para sua vida. Ele não é forçado a aceitar um destino que lhe é imposto pela divindade. Seus atos, pensamentos, atitudes e hábitos são dirigidos pela capacidade volitiva que Deus concedeu a cada ser humano. O ser humano é, portanto, livre para fazer suas escolhas e agir como desejar. A graça de Deus, conforme Wesley e White, não é irresistível, mas pode ser rejeitada pelo ser humano, se este o desejar. A soberania divina não interfere na liberdade de escolha humana.

Deus atrai o ser humano a Si. Sentindo-se atraído para a salvação, o ser humano é levado a se arrepender e mudar sua conduta. Qualquer mudança ou progresso deve ser realizado com o auxílio do Espírito Santo e com a decisão do indivíduo. Cada passo dado em direção ao amadurecimento do indivíduo é realizado pelo cristão que colabora com Deus. Aqui devem ser evitados dois extremos: por um lado, uma atitude de laissez faire – como se tudo ficasse nas mãos de Deus; e por outro, acreditar que tudo é responsabilidade humana, colocando Deus de fora de nossos problemas. Deus é soberano sobre o universo, mas ele optou trabalhar em conjunto com a humanidade. Ele permite que o ser humano participe de Seus planos e abre espaço para a atuação (ou não) humana. Por um lado, Deus não mantém uma soberania “absoluta”, como se cada minúsculo detalhe que acontece na vida do ser humano fosse de Sua responsabilidade. Por outro, Ele não largou tudo nas mãos do ser humano e abandonou o cenário. É nesta tensão provocada entre a atuação divina e a participação humana que a vida se desenvolve.

Conclusão

Como proposto neste capítulo, foi realizado uma comparação do pensamento de John Wesley e Ellen White. Em um primeiro momento, as aproximações entre o pensamento de ambos os autores foram consideradas. Oito semelhanças foram levantadas e analisadas: 1)

santificação como um amadurecimento contínuo, 2) santificação possui um aspecto individual como também social, 3) ser perfeito não significa alcançar a impecabilidade, 4) embora perfeito, o cristão pode “cair da graça”, 5) santificação ocorre em uma sinergia divino/humana, 6) santificação é apenas possível se houver obediência a Deus, 7) santificação é amor, e 8) Jesus Cristo é o padrão de perfeição.

Em um segundo momento, os distanciamentos entre o pensamento de ambos os autores foram destacados. Oito distinções foram apresentadas: 1) enquanto que a busca pela perfeição, em Wesley, estava relacionada ao reavivamento, para White, estava relacionado à sua expectativa escatológica da segunda vinda de Cristo. 2) Para Wesley, santificação é instantânea, 3) há um segundo momento da graça no processo da santificação, 4) e o pecado deixa de habitar no ser humano. Enquanto isso, White acreditava que, 5) a emoção e o entusiasmo não deveriam servir como evidência de santificação, 6) ser perfeito significa possuir perfeição de caráter, e 7) a perfeição pode ser alcançada dentro de diferentes esferas da experiência humana.

Diante de tais considerações, foram propostas oito contribuições que ambos os autores podem oferecer para a teologia na atualidade, considerando suas perspectivas e singularidades sobre o tema da santificação e temas relacionados: 1) o ser humano, mesmo perfeito, não se torna “infinito” mas continua marcado por suas limitações; 2) o ser humano, em seu estado natural é escravo do pecado, mas pode obter sua liberdade através de sua dependência na graça de Deus; 3) o ser humano precisa se manter dependente da graça divina tanto para continuar livre do pecado como para crescer em perfeição; 4) a santificação não diviniza o humano; 5) para que a humanidade possa evoluir e se desenvolver, é preciso que ela obedeça às leis de Deus; 6) toda práxis deve ser motivada por algo além do egoísmo e auto-satisfação, como, por exemplo, o amor ao outro e a Deus; 7) santificação deve ser entendida como um amadurecimento para o serviço ao outro e a Deus, e não como exclusão da sociedade; e 8) para que haja desenvolvimento do indivíduo como também do resto da humanidade, estes devem participar em colaboração com a atuação divina no mundo.

CONCLUSÃO

Este trabalho consistiu em um estudo comparativo entre os escritos de John Wesley (1703-1791), líder do movimento metodista na Inglaterra, e Ellen G. White (1827-1915), pioneira do movimento adventista nos Estados Unidos, procurando definir os seus conceitos de santificação. Procuramos descrever os fatores que levaram a elaboração desta percepção nos dois autores e verificar congruências e divergências entre eles quanto ao tema da santificação.

A problemática levantada neste este trabalho partia de um estudo comparativo entre John Wesley e Ellen G. White. O que é santificação para ambos os autores? É ela posicional, instantânea ou é um processo duradouro? É a santificação distinta da justificação? Atua ela apenas na dimensão religiosa, ou também no aspecto físico, social e intelectual? Como que ambos os autores retratam a santificação, considerando que ambos os autores viveram em tempos e contextos diferentes? Quais são suas contribuições e implicações para a teologia na atualidade?

Conseqüentemente, as hipóteses levantadas por tal comparação sugerem que: 1) existe um conceito definido de santificação em John Wesley e Ellen G. White, 2) houve fatores que levaram a elaboração desta percepção tanto em John Wesley como em Ellen G. White, 3) existem congruências e divergências entre John Wesley e Ellen G. White quanto ao tema da santificação, 4) elementos wesleyanos sobre santificação em Ellen G. White podem ser encontrados, os quais ela os reconstrói dando enfoques específicos e particulares, e, 5) de tal estudo, contribuições e implicações para a teologia na atualidade poderão ser levantados.

O método empregado neste trabalho é o de estudos comparados, sendo que este se deteve apenas na comparação dos escritos de dois autores, pioneiros de dois movimentos evangélicos, procurando entender suas percepções quanto ao tema da santificação. Como resultado, apresentamos as semelhanças e diferenças entre ambos autores, como também oferecemos propostas para as discussões teológicas na atualidade.

No primeiro capítulo deste trabalho, o tema da santificação e da perfeição cristã no pensamento de Wesley foi discutido. Para contextualizar tal discussão, uma breve revisão histórica sobre Wesley foi oferecida. Nela procuramos mostrar um pouco a maneira em que seus conceitos se desenvolveram e foram expressos no decorrer dos anos. Procuramos, através de seus sermões, cartas e obras, captar seu pensamento e seus conceitos sobre santificação. Os diversos eventos com os quais ele interagiu também nos ofereceram uma janela para as suas idéias.

Em seguida, dentro da discussão teológica sobre santificação e perfeição cristã, observamos que sua compreensão de santificação cristã está intimamente interconectada com outros temas como o pecado e a natureza humana, a expiação, a justificação, a obediência à Lei de Deus e finalmente a perfeição cristã. Enquanto que santificação só começa a partir da justificação, ela segue o cristão durante toda a sua vida, e nunca acaba. É um caminho composto por diferentes etapas que permite ao cristão crescer até alcançar a perfeição cristã. Enquanto que a santificação permite a remoção da presença e do poder do pecado no ser humano, contudo, não é eliminada a possibilidade para erros, doenças, tentações e até a possibilidade de uma recaída em pecado. Mas ela habilita o ser humano a novamente “amar a Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo”, tornando a santificação um processo que afeta o indivíduo e se manifesta socialmente.

No entanto, para que tal obra possa ser realizada, deve haver um esforço por parte do ser humano em colaboração com a atuação divina. Este esforço se manifesta na forma de obediência à vontade e lei de Deus. Santificação possui como objetivo habilitar o ser humano com as virtudes que também havia em Cristo Jesus.

No segundo capítulo, o tema da santificação e da perfeição cristã no pensamento de Ellen G. White foram analisados. Seguindo o modelo estabelecido no primeiro capítulo, uma breve revisão histórica sobre White foi oferecida. Nela procuramos mostrar como que seus pensamentos e conceitos se desenvolveram, sendo articulados em sua vida no decorrer dos anos. Procuramos captar e contextualizar seus pensamentos e seus conceitos sobre santificação dentro de suas experiências. Os diversos eventos com os quais ela interagiu também nos ofereceram uma janela para as suas idéias.

Num segundo momento, observamos que sua compreensão de santificação cristã está intimamente interconectada com outros temas como o pecado e a natureza humana, a expiação, a justificação, a obediência à Lei de Deus e finalmente a perfeição cristã. Foi mostrado que seus conceitos sobre santificação estão intimamente relacionados à sua expectativa da segunda vinda de Cristo. Este era o tema motivador para sua busca de santificação assim como também para os adventistas que a sucederam. Sendo assim, santificação é um preparo contínuo para este grande evento. Santificação não é instantânea e emocional. Cada momento em que White se deparou com alguma alegação de santificação que valorizasse o aspecto emocional, ela rejeitou tal alegação. E em seu tempo, não foram poucas as situações.

Para White, santificação trabalha o caráter do indivíduo, preparando-o para amar a Deus acima de tudo e ao seu próximo. É uma habilitação para o serviço, levando o cristão a se interessar e buscar atender às necessidades daqueles que estão ao seu redor. Este processo deve direcionar corretamente todos os pensamentos, atos, sentimentos e hábitos a fim de que um caráter perfeito seja desenvolvido. Perfeição não significa alcançar um patamar de impecabilidade. Ninguém que esteja andando pelo caminho da perfeição deve afirmar ser perfeito ou alegar impecabilidade. Quanto mais próximo a pessoa está de Cristo, mais ela percebe suas falhas.

Cristo serve como modelo que deve ser constantemente imitado, sem que ele possa ser necessariamente igualado. Faz-se necessário uma colaboração entre a atuação divina e a participação humana no processo da santificação. Neste sentido, é importante que o ser humano se mantenha fiel e obediente à lei de Deus. Se à cada estágio do amadurecimento cristão, a pessoa se desenvolver conforme é o intencionado por Deus, esta pessoa pode ser considerada como “perfeita”.

No último capítulo, foi realizado uma comparação do pensamento de John Wesley e Ellen White. Em um primeiro momento, as aproximações entre o pensamento de ambos os autores foram consideradas. As seguintes semelhanças foram levantadas e analisadas: 1) santificação como um amadurecimento contínuo, 2) santificação possui um aspecto individual como também social, 3) ser perfeito não significa alcançar a impecabilidade, 4) embora perfeito, o cristão pode “cair da graça”, 5) santificação ocorre em uma sinergia divino/humana, 6) santificação é apenas possível se houver obediência a Deus, 7) santificação é amor, e 8) Jesus Cristo é o padrão de perfeição.

Em um segundo momento, os distanciamentos entre o pensamento de ambos os autores foram destacados. As seguintes distinções foram apresentadas: 1) enquanto que a busca pela perfeição, em Wesley, estava relacionada ao reavivamento, para White, estava relacionado à sua expectativa escatológica da segunda vinda de Cristo. 2) Para Wesley, santificação é instantânea, 3) há um segundo momento da graça no processo da santificação, 4) e o pecado deixa de habitar no ser humano. Enquanto isso, White acreditava que 5) a emoção e o entusiasmo não deveriam servir como evidência de santificação, 6) ser perfeito significa possuir perfeição de caráter, e 7) a perfeição pode ser alcançada dentro de diferentes esferas da experiência humana.

Diante de tais considerações, foram propostas oito contribuições que ambos os autores podem oferecer para a teologia na atualidade, considerando suas perspectivas e singularidades

sobre o tema da santificação e temas relacionados: 1) o ser humano, mesmo perfeito, não se torna “infinito” mas continua marcado por suas limitações; 2) o ser humano, em seu estado natural é escravo do pecado, mas pode obter sua liberdade através de sua dependência na graça de Deus; 3) o ser humano precisa se manter dependente da graça divina tanto para continuar livre do pecado como para crescer em perfeição; 4) a santificação não diviniza o humano; 5) para que a humanidade possa evoluir e se desenvolver, é preciso que ela obedeça às leis de Deus; 6) toda práxis deve ser motivada por algo além do egoísmo e auto-satisfação, como, por exemplo, o amor ao outro e a Deus; 7) santificação deve ser entendida como um amadurecimento para o serviço ao outro e a Deus, e não como exclusão da sociedade; e 8) para que haja desenvolvimento do indivíduo como também do resto da humanidade, estes devem participar em colaboração com a atuação divina no mundo.

Considerando que o presente trabalho representou apenas uma tentativa de estudo comparativo dos conceitos wesleyanos e whiteanos sobre santificação e perfeição cristã, as considerações e intuições aqui apresentadas são preliminares e incipientes, que poderão ser ampliadas e aprofundadas posteriormente. Como tema para estudos posteriores, sugerimos algumas questões que poderiam ser analisadas em futuras pesquisas: Qual é a relação entre o conceito de santificação e perfeição entre White e os movimentos de santidade americanos do século XIX e XX? Os conceitos whiteanos de santificação estão mais próximos de Wesley ou dos movimentos de santidade americanos? Existe diferença entre “vitória sobre o pecado” e “libertação da habitação do pecado”? Como entender o conceito whiteano de “esferas de perfeição”? Pode isto ser considerado como “graus” de perfeição? Como que o conceito de santificação se relaciona com assuntos como saúde, educação, alimentação, comportamento, liberdade cristã, responsabilidades cívicas e serviço social, entre outros. Qual é o lugar do sentimento e entusiasmo no processo de santificação? Tem ambos movimentos (metodista e adventista) mantido os conceitos originalmente apresentados por seus pioneiros ou houve alguma mudança significativa? Se houve mudanças significativas, de que natureza seriam?

Esperamos que as tradições religiosas que possuem como base o pensamento de um ou outro dos autores estudados possam ser, de alguma forma, beneficiadas pelas conclusões dessa pesquisa.

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