Sabe-se que, através dos Acordos de Washington, o minério de ferro vindo de Itabira e transportado pela EFVM foi matéria-prima para a fabricação de material bélico durante a Segunda Guerra Mundial.
A mica, produto abundante na região do Vale do Rio Doce, também atraiu olhares de norte-americanos, pois esse mineral era utilizado como isolante de eletricidade pelas indústrias bélicas.
Assim, “ao lado do minério de ferro, a extração e beneficiamento da mica foi o motivo do financiamento americano para o saneamento e erradicação da malária” com implantação do Projeto Rio Doce e Projeto Mica, na década de 40. (SPINDOLA et al., 2010, p.37). Ambos faziam parte do Projeto de Saneamento do Vale do Rio Doce, e, juntamente, com o Projeto de Minas Gerais, na década de 50, acelerou o
processo de ocupação e modernização da região. (GENOVEZ; VILARINO, 2010, p.
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Conselheiro Pena foi uma das cidades do Vale do Rio Doce que receberam melhorias em virtude de tais projetos, derivados do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), uma agência criada por meio de um acordo entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, na década de 40, para o tratamento de água e combate a doenças como a malária.
Foi nessa mesma década que o entrevistado Sr. Edson nasceu. Ele relata que, naquela época, o pai, Sr. Levindo José, sustentava a família com a comercialização da mica:
Meu pai era comprador de mica, mica que na época chamava-se malacacheta. Ele reproduzia, beneficiava aquelas placas de mica enormes e revendia. A revenda normalmente acontecia para Valadares, Belo Horizonte ou outras cidades vizinhas aí, que era exportação, na época, era exportação. Então ele ganhou bastante dinheiro, teve aquelas oscilações
que às vezes estava em alta depois dava baixo, mas com tudo isso ele ganhou um bom dinheiro e depois começou um comércio, comércio com variedades.
A história revela, e o testemunho oral do entrevistado confirma, que a extração e o beneficiamento de mica geraram riquezas, desenvolvimento e saneamento para o Vale do Rio Doce. A abundância da mica despertou a atenção de empresas americanas e, além disso, a ampliação da EFVM trouxe para a região um número alto de trabalhadores estrangeiros, em sua maioria, de origem americana.
2.2.1 Boom migratório
Acredita-se que essa presença de norte-americanos, principalmente em Governador Valadares, foi um dos fatores que contribuiu para fixar na memória popular a ideia dos Estados Unidos como um país promissor e de grandes
oportunidades (PINTO; SIQUEIRA, 2010, p. 246).
Porém SIQUEIRA; ASSIS e CAMPOS (2010, p.207) defendem que as redes sociais estabelecidas entre os amigos e parentes que migraram para os Estados Unidos e aqueles que ainda moravam na região foram o fator que mais contribuiu para esse fluxo migratório.
A entrevistada Ângela Ferraz fez parte desse grupo que migrou para a América do Norte em busca de melhores oportunidades.
Aos 27 anos, ela saiu de Conselheiro Pena para morar nos Estados Unidos, onde foi acolhida por uma prima que já estava morando naquele país. Sua saída se deu em 1984, na década conhecida como a do boom migratório, e Ângela compartilha como foi sua decisão de ir para os Estados Unidos:
Eu tinha na minha cabeça que eu não precisava fazer a mesma história que todo mundo fazia aqui em Conselheiro Pena (...) eu achava que eu não tinha que ser igual todo mundo, que eu podia ter uma vida própria. Ninguém tava achando que eu deveria ir, mas eu apostei que eu ia e que ia dar certo.
O primeiro trabalho de Ângela foi como doméstica em uma casa de judeus em Nova Iorque; com o tempo, ela conseguiu ter seu próprio negócio, mas deixa claro que muitas foram as dificuldades enfrentadas naquele país.
E eu sofri demais lá, mas sofri muito de solidão, de tudo o que você imaginar (...). Eu sabia que era duro, mas, assim, de passar fome porque eu não sabia pedir uma comida, porque eu tava lá na montanha sozinha trabalhando, eu nunca pensei que ia passar por isso. Aí quando eu saí dos judeus, que eu tinha um pouquinho de domínio de inglês, eu montei uma firmazinha, como todo mundo lá, e aí sim eu fiquei melhor um pouquinho. Porém, mesmo diante de tudo isso, ela complementa dizendo: “Compensou ter ido sim, financeiramente sim, emocionalmente não. Valeu a pena mesmo, acho que faria tudo outra vez.”
A ida de Ângela para os Estados Unidos acolhida, a princípio, por sua prima, ilustra bem a questão sobre as chamadas redes sociais que impulsionaram o fluxo migratório desses mineiros, principalmente de Governador Valadares, para os Estados Unidos.
SIQUEIRA; CAMPOS e ASSIS (2010, p.211) explicam que as cartas, acompanhadas de fotos, que os imigrantes enviavam relatando as oportunidades e maravilhas daquela terra despertavam interesse nos parentes e amigos que haviam ficado em Minas Gerais. Além disso, o suporte prometido por quem já se encontrava em situação de certa estabilidade era um grande impulso para se ter coragem de partir e “fazer a América”.
TRUZZI (2007, p.269), quando fala sobre Memória de comunidades, chama a atenção para a memória coletiva produzida no interior de um grupo e explica que elementos evocados pela memória de uma experiência comum, acabam fundando certa identidade. No caso desses brasileiros, a promessa de uma vida melhor e os bons resultados obtidos por aqueles que foram, ou ainda estão nos Estados Unidos, acabam alimentando o imaginário coletivo desse grupo da região do Vale do Rio Doce.