Como a hashtag é o símbolo principal do movimento e é por meio dela que os twitteiros medem a “força” do ativismo online no Twitter, o “#ForaMicarla” criou uma nova hashtag – “#CeidosAlugueis”. A tag faz parte do movimento maior que é o “#ForaMicarla” e faz referência aos contratos de aluguel das secretarias municipais que apresentavam supostos casos de improbidade administrativa de Micarla de Sousa. Dessa forma, uma nova temática seria a forma de proporcionar um “novo ânimo” ao movimento online.
De acordo com @dayvsoon, em conversa no MSN em 25 de abril de 2011 e após ele declarar no Twitter que o movimento “#ForaMicarla” estava enfraquecendo, dois seriam os motivos principais para a perda de força do movimento online: o primeiro era que a hashtag “#ForaMicarla” estava desgastada e a segunda questão era a falta de mobilização dos integrantes do grupo “#MobilizaNatal”, que apresentavam divergências partidárias. Esse último fator estava vinculado à aproximação das eleições de 2012.
Assim, @dayvsoon afirmou que o movimento social no TT depende de uma hashtag para ser reconhecido, por isso que ele e o @BlockdeMicarla estariam empenhados na criação de uma nova tag, sendo a da “#CeidosAlugueis”21. A postagem do Block com a hashtag “#CEIdosAlugueisja” no dia da conversa com @dayvsoon no MSN confirmou o fato de que o grupo formado por eles estava investindo nesse novo movimento.
Ao passo que a hashtag “#ForaMicarla” estava em um processo de desgaste, o subgrupo, que empenhava as ações online e que se configurou no “FlashMobdoAumento”, passava por modificações. As mudanças estavam nas ações e na chegada e saída de integrantes.
O grupo do “#FlashMobdoAumento”, formado por @DELLRN, @dayvsoon, @flanelson e @RodrigoCruz84, apresentava divergências e objetivos diferentes. De acordo com @dayvsoon, o que unia o grupo até aquele momento era a retirada da prefeita Micarla de Sousa do poder municipal. Essa declaração refere-se ao fato de que Dayvson Moura, naquele momento, fazia parte do governo de Rosalba Ciarline, Democratas (DEM), e @flanelson era filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), partidos de oposição nos cenários local e nacional.
21 Consiste na investigação dos contratos de locação de imóveis realizados pela prefeitura para abrigar
repartições públicas. Disponível em: <http://sargentoregina.blogspot.com/p/7-motivos-para-abrirmos-cei- dos.html>.
Em 29 de abril de 2011, chama a atenção um diálogo entre @DELLRN e @ItsMenrenx. A última postagem de Menrenx afirmava que a nova tag do Twitter era o “#ForaRosalba”, sendo esta a de pessoas insatisfeitas com o governo estadual de Rosalba Ciarline (DEM). Logo em seguida, @DELLRN diz para @ItsMenrenx que não é para esquecer que o foco é “#ForaMicarla”. Com esse trecho, podemos perceber mais um momento em que a “disputa” da hashtag a ser comentada, postada e retwittada é ao mesmo tempo a disputa por um campo político online.
Nesse mesmo dia, @DELLRN pede para @RodrigoCruz84 ajudá-lo a ter ideias iguais às que culminaram no movimento “#FlashMobdoAumento”. Assim, @DELLRN termina a conversa com a postagem da hashtag “#MobilizaNatal”. Logo em seguida, @DELLRN chamou alguns twitteiros, incluindo @dayvsoon, dizendo: “afim de movimentar?”. Então, Dell escreveu na mesma postagem o link com o endereço do blog “#MobilizaNatal” (http://mobilizanatal.blogspot.com).
Na parte superior do blog, há uma imagem de pessoas com cartazes e bandeiras como se estivessem unidas em um movimento de rua. Os primeiros posts do blog são a respeito da Comissão Especial de Inquéritos dos Aluguéis, do novo tema que o “#ForaMicarla” passou a buscar um “novo ânimo” por meio da hashtag “#CeidosAlugueisja” e da relação da cobrança do IPTU com a falta de acessibilidade para os deficientes físicos nas ruas da cidade.
Também no blog, o “#MobilizaNatal” postou um vídeo de uma criança chorando quando alguém falava sobre Micarla e outro com uma campanha de Micarla de Sousa durante as eleições de 2008. Esse último vídeo começa com uma cartela preta com os dizeres: “Proposta de Transporte feita por Micarla e a hashtag #MobilizaNatal”. O vídeo é modificado para ficar em branco e preto, proporcionando uma intenção de tristeza. No final, mais uma vez aparece uma cartela preta dizendo: “Mudou alguma coisa? #MobilizaNatal”.
Desse modo, o grupo do “#FlashMobdoAumento” passou a ser o “#MobilizaNatal”, também grupo do “#ForaMicarla”. Os integrantes desse novo adensamento formado no seio do “#ForaMicarla” eram: @dayvsoon, @DELLRN, @ItsMenrenx e @BlockdeMicarla. Então, a hashtag também serve no contexto do movimento “#ForaMicarla” como uma forma de marcar a identidade de um grupo e as ações que eles desempenham.
O “#MobilizaNatal”, dentro do “#ForaMicarla”, é um grupo que faz uso da convergência midiática para contestar as propagandas da gestão de Micarla de Sousa que são veiculadas na televisão. Por causa da limitação da estrutura técnica da televisão, os cidadãos ficam impedidos de se manifestar no momento e da forma que desejam ao se sentirem enganados pela administração municipal. Assim, as tecnologias digitais, nesse caso a
tecnologia do Twitter, permitem um campo de confrontação que inexiste nas mídias analógicas. Nesse sentido, Lévy (1999, p. 63) enfatiza que a mídia digital propicia um novo dispositivo comunicacional, a saber: a relação entre os participantes da comunicação.
Podemos distinguir três grandes categorias de dispositivos comunicacionais: um- todos, um-um e todos-todos. A imprensa, o rádio e a televisão são estruturados de acordo com o princípio um-todos: um centro emissor envia as suas mensagens a um grande número de receptores passivos e dispersos. O correio ou o telefone organizam relações recíprocas entre interlocutores, mas apenas para contatos indivíduo a indivíduo ou ponto a ponto. O ciberespaço torna disponível um dispositivo comunicacional original, já que ele permite que comunidades constituam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum (dispositivo todos-todos).
Desse modo, a partir dos apontamentos de Simmel (1983, p. 122-127), o conflito é pensado neste trabalho como uma unidade de “sociação” positiva em torno da temática “#ForaMicarla”, em que os cibernautas, mediante as possibilidades das tecnologias online de comunicação, podem extravasar seus sentimentos por meio da ação de protesto e do ativismo online. Essas são as ações que levam os sujeitos desse movimento a não se sentirem vítimas das circunstâncias produzidas pela gestão municipal da cidade de Natal-RN.
Em 21 de maio de 2011, @DELLRN comunicou-se com @dayvsoon afirmando que estava saindo de casa e estaria às 10h no local combinado para fazer as gravações. No final, @DELLRN escreveu: “#MobilizaNatal com força hj!”, ao que @LidianeMary respondeu: “quero só ver o resultado”.
Horas depois, @dayvsoon retorna ao Twitter dizendo que a gravação do “#MobilizaNatal” ocorreu com o @DELLRN. Logo em seguida, Dell disse que havia acabado de gravar o vídeo com Dayvson e postaria instantes depois no Youtube.
@PauloSBarbosa perguntou a @dayvsoon e a @DELLRN se deu certo a “parada”. Depois, @DELLRN respondeu dizendo que estava terminando o vídeo e foi quando @PauloSBarbosa disse que confiava cegamente na capacidade de @dayvson e @DELLRN.
@DELLRN postou no Youtube e no Twitter o vídeo “#MobilizaNatal22: AME Planalto não fica em Natal”. No Youtube, os dois colocaram a descrição do vídeo: “A prefeitura de Natal investe na divulgação das AMEs, onde constatamos que a AME do bairro Planalto na verdade fica em Emaús/Parnamirim. Mande sua sugestão e vamos até o seu bairro para mostrar os problemas de nossa cidade. Sigam @dayvsoon e @DELLRN”.
No início do vídeo, Dayvson Moura e Wendell Jefferson afirmam que vão fazer uma série de matérias “#MicarlaFez”. Em seguida, os dois divulgam seus endereços no Twitter e se apresentam no vídeo com seus nomes de “twitteiros”, como podemos verificar neste trecho da fala de Dayvson Moura: “Então, veio aqui eu @DELLRN e @dayvsoon”. Assim, Dayvson interferiu dizendo que seu nome no Twitter é com dois “o”, porque ele teve a conta original “roubada”.
No local da gravação, foi inaugurado, em novembro de 2010 pela gestão de Micarla de Sousa, o primeiro “Ambulatório Médico Especializado (AME)” da cidade, no bairro do Planalto. Dessa forma, @davsoon e @DELLRN entrevistaram moradores que afirmaram que o local fazia parte do bairro de Emaús, pertencente ao município de Parnamirim. Ao final da gravação, os dois fizeram um trocadilho com o slogan da propaganda da Prefeitura Municipal veiculada na televisão. A peça publicitária original contém os dizeres: “Você não sabia, mas agora aprova”. No vídeo do “#MobilizaNatal”, @dayvsoon e @DELLRN terminam dizendo: “Você não sabia, mas agora reprova”.
Um twitteiro da rede de seguidores de @DELLRN disse: “Irado o vídeo”. @LidianeMary afirmou que não sabia sobre o fato e também não aprovava a obra da gestão municipal. @BlockdeMicarla disse: “Valeu @DELLRN e @dayvsoon”. Uma twitteira/jornalista postou: “@DELLRN @dayvsoon Vocês são osso duro de roer... quero morrer amigas de vocês”. @DELLRN disse que tinha outro vídeo no “forno” e que o e-mail dele estava cheio de sugestões.
Em resumo, a hashtag é o elemento de fundamental importância para a nova cultura política que vem estabelecendo-se por meio das ações cotidianas dos twitteiros. A tag é o ponto de encontro, a comunidade virtual do Twitter, o símbolo da guerra online e a demarcação desse território. Nos usos da hashtag e nos dramas sociais que ela evoca, percebemos que não podemos entender a tag apenas como um marcador de assunto, mas também como um campo social de luta para os movimentos sociais que são formados em rede e online.
3 FAKE: IDENTIDADE, ESTIGMA E CONFLITO
A partir da conversa no MSN com @dayvsoon, em 17 de março de 2011, tomei conhecimento do primeiro sujeito-fake do movimento “#ForaMicarla”, o @BlockdeMicarla. A foto desse twitteiro é um cachorro com uma mordaça e a hashtag “#ForaMicarla”. Em seu perfil, ele se apresenta como: “Comunidade feita para o registro de protesto dos cidadãos insatisfeitos e bloqueados23 pela Prefeita Micarla de Sousa que não permite críticas à sua administração”.
Assim, no dia a dia do conflito entre o “#ForaMicarla” e os twitteiros da gestão de Micarla de Sousa, outros perfis fakes foram nascendo. Neste trabalho, vamos tecer análises em torno desses sujeitos, que, além do @BlockdeMicarla, apresentaram durante o trabalho de campo notoriedade no conflito online do “#ForaMicarla”, são eles: @PaquitaMoema, @PrefeitaMimi e @milenatristorn.
As pesquisas sobre a cibercultura têm voltado nos últimos anos a atenção para um tipo de sujeito que surge nas redes online de relacionamento a partir das possibilidades tecnológicas de se viver uma “segunda vida” – o fake (CAMOZZATO, 2007; SEGATA, 2007). Na cultura online, esse sujeito, como a própria tradução da palavra aponta, é um perfil falso de usuário. O fake é um avatar construído na plataforma que não faz referência ao corpo físico, nem aos papéis sociais do sujeito offline que comanda o perfil.
No trabalho de Segata (2007, p. 41) sobre a comunidade “Lontras” da rede de relacionamentos online Orkut (www.orkut.com), o autor afirma que para os nativos dessa plataforma o fake é uma “espécie de personagem para brincar”. Entretanto, para os nativos do movimento “#ForaMicarla” do Twitter, o fake vai além de um personagem criado com a função de divertir os habitantes do TT.
Dentro do contexto do movimento “#ForaMicarla”, o fake é pensado a partir de duas concepções. Porém, partirmos do princípio de que essas concepções estão diretamente relacionadas com o conflito online entre o grupo “#ForaMicarla” e os twitteiros ligados à gestão municipal de Micarla de Sousa. Assim, o fake é o sujeito/identidade criado a partir dos
23 No Twitter, a ação de bloquear um usuário é feita por meio do botão “block”. O twitteiro realiza esse ato
quando ele não quer que uma pessoa leia as suas postagens. Assim, a única forma de banir o usuário de sua lista de seguidores é bloqueando-o. Dessa maneira, o ato de bloquear significa que a pessoa que recebeu o “block” não aparece mais na lista de contatos do usuário. Outros impedimentos são: as atualizações não podem ser vistas pelo bloqueado e a pessoa que recebeu o “block” fica impedida de adicionar o twitteiro que o bloqueou.
contextos de conflito do movimento “#ForaMicarla” e em outro momento é uma palavra acionada como arma/estigma por parte da administração municipal.