Fonte: Elaborado pelo autor, 2014.
Abbagnano (1998, p.755-756) afirma que: “[...] como transação a natureza da percepção deriva da situação total em que está inserida e tem suas raízes, tanto na experiência passada do indivíduo e quanto em suas expectativas de futuro”.
Considerando as impressões do colaborador a cerca dos modelos 1 e 4 (Mapa do Campus e Globo Terrestre, respectivamente), as experiências passadas e a expectativas futuras acerca da percepção parecem influenciar nas impressões de Tarso. Ao explicitar as suas impressões acerca do mapa da UFSC, ele afirma já ter tido contato com este modelo anteriormente e isso interferiu nas suas percepções na medida em que entrou em contato mais de uma vez com o material e, de certa forma, já tinha concepções prévias acerca do modelo. No caso do Globo Terrestre, o autor da pesquisa informou se tratar de um Globo Terrestre, fazendo com que Tarso
já tivesse alguma ideia do modelo, contribuindo para sua percepção. Abbagnano (1998, p.756) afirma que:
[...] desse ponto de vista é fácil evidenciar o caráter ativo e seletivo da percepção, o fato de ela valer-se de indícios com base nos quais reconstrói o significado do objeto e, também sua outra característica fundamental é o fato de ser constituída de probabilidades e não de certezas.
O caráter probabilístico da percepção fica expresso nas falas de Tarso no decorrer das entrevistas. Em alguns momentos ele parece retornar várias vezes à mesma parte do modelo para confirmar suas hipóteses.
4.3 ANÁLISE DA PERCEPÇÃO À LUZ DA PSICOLOGIA COGNITIVA E MODELOS MENTAIS
De acordo com Davidoff (2001, p.140):
[...] os sentidos podem ser considerados nossas janelas para o mundo. Elas nos trazem informações. O processo de coleta de informações sobre nosso meio ambiente é conhecido como sensação.
No caso do colaborador desta pesquisa, que é um geógrafo cego, parece plausível supor que o sistema somático, ou seja, o sistema que é responsável pela percepção por meio da pele, tem sua função destacada e ele parece ter consciência de que, no momento em que o estudante está explorando algo por meio do tato, este sistema parece sobressair com relação aos demais, tanto no fato de utilização puramente fisiológica - neste momento a audição é menos utilizada, por exemplo, quanto no sentido da atenção empreendida para ter consciência daquilo que está sentindo, a partir do toque (DAVIDOFF, 2001).
De acordo com Davidoff (2001, p.145), “[...] convém também observar o que ignoramos: paramos de prestar atenção a experiências repetitivas ou conhecidas”.
Mudanças de estímulo parecem “chamar mais atenção” do organismo, pois este parece se concentrar mais nas mudanças de estimulação. Remetendo-se ao caso desta pesquisa, verifica-se que a mudança de estímulo, pode corresponder à mudança na textura de algum material utilizado na elaboração de materiais táteis para o cego, por exemplo, que certamente notará imediatamente esta mudança. Nas atividades realizadas com o mesmo, ele conseguiu reconhecer, imediatamente,
quando se trocou o material que inicialmente era de isopor, e passou a ser um objeto cujo acabamento era de argila. É possível dizer, que neste caso, houve mudança do estímulo para o cego já que o acesso principal a qualquer tipo de informação ocorre por meio do tato e não por meio da visão, como geralmente ocorre. As informações nas quais as pessoas têm acesso, geralmente, são visuais.
Considerando as características da Gestalt, Davidoff (2001, p.165) explica que: [...] o mesmo objeto pode ser interpretado como figura ou fundo, dependendo de como você direciona a sua atenção. Ao se analisar qualquer imagem, dependendo de que maneira que se foca a atenção, o mesmo elemento pode se configurar ora em figura, ora como fundo.
No caso dos modelos explorados pelo colaborador, pode-se inferir que estes também possuem figura e fundo. No caso, as partes ressaltadas dos modelos em função do braile e da simbologia utilizada para representar os diferentes elementos podem ser consideradas figura e o restante, fundo.
A característica da constância perceptiva também parece ser perceptível para as pessoas que não enxergam, ainda que possa ser mais difícil percebê-la quando da falta da visão. O cego, ao tatear algum objeto, vai percebendo cada uma das partes, para que consiga formar uma imagem mental do todo, por meio da “junção” das partes. Para tanto, é indispensável que a constância perceptiva se faça presente nos materiais produzidos para os cegos. Uma vez que é necessário tocar muitas vezes a mesma parte do material para que se consiga, de fato, extrair alguma informação. Parece que a constância perceptiva é uma característica indispensável para esta leitura.
Sobre a característica do agrupamento, Davidoff (2001, p.166-167) explica, “[...] como pessoas que percebem, continuamente escolhemos dentre agrupamentos alternativos, a maneira pela qual agrupamos dependem das propriedades dos elementos e de como estão dispostos”.
No caso do colaborador desta pesquisa, esta característica também ocorre em sua percepção. Ao verificar o mapa do Campus, ao fazer referência às representações triangulares, (que representavam as paradas de ônibus no interior do Campus), o mesmo reconheceu que se tratavam da mesma representação, agrupando-as.
Segundo Davidoff (2001, p.182):
[...] quando exposta por longos períodos a ambientes desprovidos de estimulação sensorial, as pessoas demonstram enfraquecimento visual e auditivo temporário e outros tipos de enfraquecimentos perceptivos.
Esta característica da percepção parece estar presente quando relacionada ao sentido do tato. Num dos mapas utilizados no estudo, havia três tipos distintos de linhas contínuas: fina, média e grossa. Entretanto, Tarso teve dificuldade de encontrar uma das representações. Isto sugere que a presença de representações muito parecidas e de poucas mudanças de estímulos pode prejudicar a percepção de pessoas desprovidas de visão.
De acordo com Davidoff (2001, p.140) “[...] percepção é o ponto em que cognição e a realidade encontram-se” e, talvez, “a atividade cognitiva mais básica das quais surgem todas as outras”.
Esquematicamente, a ideia da autora pode ser representada pelo seguinte