Na leitura dos anais das sessões parlamentares do ano de 1822, pode-se perceber, pelas manifestações de frei Servando, os principais temas que ocuparam o primeiro Congresso constituinte. As demandas que surgem em relevo, por meio do posicionamento do dominicano, giravam em torno da moderação dos gastos públicos, a criação de cargos, indultos relativos aos insurgentes, questões de fronteiras e o caso da separação do Texas, medidas para garantir a segurança do Estado, bem como a criação de datas comemorativas e a criação de museus para perpetuar a memória e resguardar os bens culturais da nação que surgia.
Causa interesse a preocupação servandina no que tange à definição do vestuário a ser utilizado pelos deputados e também sobre que forma de tratamento seria dado aos empregados públicos. O dominicano defende a idéia de que não fosse permitido o uso de capas pelos deputados nas sessões e muito menos de botas, devendo-se expor a etiqueta que seguiam as nações estrangeiras. Uma outra inquietação manifestada pelo sacerdote, que talvez argüisse em causa própria, remete-se aos salários pagos aos deputados, pois era certa a grande necessidade de que muitos padeciam, chegando-se ao nível de depauperamento indecoroso.
Acerca da formatação do regimento interno do Congresso, pode-se vislumbrar o posicionamento de frei Servando, que, embora considere o regime inglês muito eficiente, entende ser impossível adaptá-lo à realidade mexicana. Era necessário que existissem partidos que apoiassem e outros que de algum modo se opusessem ao governo, pois só assim se comprovaria a existência da liberdade, como ocorria no sistema britânico. Esse temperamento contrabalanceado, contudo, não existia no México. Para Mier, a escolha mexicana aproximava-se mais da vertente francesa onde só existiriam os extremos: ora eram os cidadãos mexicanos extremamente servis, ora liberais muito exaltados.
Uma das proposições de frei Servando no Congresso foi a de que se substituísse o dia festivo de São Hipólito, em razão de o santo ser considerado o padroeiro da conquista da América, e que se proclamassem patronos São Domingos, São Francisco, Santo Agostinho, por serem patriarcas do continente americano, e São Tomé, por ser o apóstolo da América, conforme os estudos já realizados por ele. Observando os posicionamentos servandinos na arena religiosa, constatou-se que dominicano exige providências quanto aos éditos da Inquisição. Segundo ele, era preciso não apenas cancelar os decretos que taxavam como heresia afirmar que a soberania nacional residiria no povo, como também extinguir os éditos sobre proibição de livros contrários ao governo espanhol.
As excomunhões dos insurgentes e heróis da pátria deveriam ser declaradas nulas, assim como a autoridade eclesiástica só devia estender-se às doutrinas saudáveis e recomendar sua aplicação. Era preciso assinalar apenas que princípios seriam declarados perniciosos e ímpios, proibindo-os com penas somente na esfera espiritual, única esfera de atuação à qual a Igreja estava completamente autorizada. Mier defende que a Igreja não poderia punir com penas temporais – como confisco das obras e dos bens dos autores – pois Jesus Cristo havia dito que seu reino não era deste mundo e por isso as autoridades eclesiásticas não possuíam nenhuma legitimidade no mundo material. Ainda que frei Servando possua posturas avançadas acerca do catolicismo, continuaria a favor da proibição de livros contrários à religião católica, com base no entendimento de que, na Europa, as pessoas que liam e seguiam as idéias propaladas por Voltaire e Rousseau eram dignas de desprezo.
Um dos principais temas em debate do Congresso constituinte de 1822 foi com relação à nomeação de membros do Judiciário pelo Poder Executivo. Mier segue o entendimento de que a soberania residia na nação mexicana e esta, por sua vez, havia delegado seus poderes plenos a um Congresso. Esse corpo parlamentar seria o soberano de fato e a nação de direito. Na visão do dominicano, a Europa passava por grandes dificuldades para conter os braços do Poder Executivo, que se estendiam sobre as outras áreas, desequilibrando a divisão de poderes e perpetuando práticas anti-democráticas. O medo de Mier é que esse mal pudesse vir a ser repetido no México. Na opinião
do mexicano, seria “entregar sardinha para gato com fome”. Porém, somente no período de formação do estado nacional mexicano é que o sacerdote concordaria com a nomeação do Judiciário por parte do Executivo, pois não se trataria de mandamento direto do Poder Executivo, mas sim, de uma emanação do supremo poder constituinte, do Congresso. Embora houvesse um imperador, faltava ainda definir suas atribuições e limitar seu poderio e, em razão disso, o Congresso reteria a supremacia do poder executivo.
Mier posiciona-se de forma contrária à preparação de manifestos para informar as nações estrangeiras e a nação mexicana sobre os motivos que justificariam a independência do México e os objetivos do Congresso. Se as nações estrangeiras estavam cônscias da justa independência e não ignoravam o meio com que foi alcançada, não era oportuno expor a nação mexicana a uma crítica desagradável. Para frei Servando, era preciso apenas esperar para que se consolidasse a idéia de um Estado mexicano no cenário internacional. Com respeito à compreensão da independência pelo povo mexicano, o modo de persuadi-lo e convencê-lo seria com obras, e não palavras, e assim aceitariam que o Congresso soberano pensava em seu bem estar.
Essas manifestações de frei Servando no Congresso de 1822 são aptas a revelar suas principais preocupações acerca do caráter que assumiria a nação mexicana. O fantasma da Revolução Francesa ainda pairava sobre a formação dos novos Estados, que temiam a radicalidade do movimento de massas e condenavam as obras rousseauanas como origem do mal das sociedades em construção. Ainda que muitos posicionamentos de Mier demonstrem conservadorismo político, pode-se perceber grande modernidade acerca dos temas religiosos, ao pregar a separação da Igreja dos assuntos de Estado e a revisão dos éditos da Inquisição, além de possuir perspicácia acurada sobre os males de um Poder Executivo com força superior ao próprio Congresso.
Embora se discutissem temas essenciais para o funcionamento da maquinaria estatal, pode- se perceber que muitas das inquietações de frei Servando e do parlamento versavam sobre matérias de caráter acessório, entre outros temas relacionados à manutenção e postura dos deputados e do corpo parlamentar, o que denota certa imaturidade diante do fazer político, característica dos primeiros anos de independência. Por mais que a nação exigisse decisões políticas substanciais para garantir a estabilidade de sua estrutura independente, a novidade do trabalho democrático e das instituições liberais talvez ofuscasse os olhos daqueles que buscavam a porta de saída que levava ao progresso.
Em 26 de agosto de 1822, como se viu, Iturbide mandou prender frei Servando e outros deputados, bem como muitos oficiais do exército, sob a acusação de traição ao império por pregarem o estabelecimento da república. Além disso, o Congresso foi dissolvido por causa das constantes críticas ao governo levantadas no parlamento. Antes de entregar o poder aos
conspiradores, Iturbide reconvoca as sessões parlamentares e, em 29 de março de 1823, Mier ressurgiria no Congresso como deputado por Novo Leão.