O antigo Grupo Escolar então foi para a Rua Juvenal Galeno entre as avenidas Carapinima e Universidade e, hoje, chama-se Escola de Ensino Fundamental e Médio Rodolfo Teófilo. (Barroso, 2004, p.211)
Esse perímetro compreendido no Mapa 17 apresenta nas principais avenidas essa miscelânea de estruturas urbanas das quais estamos narrando, arquiteturas antigas ressignificadas junto a espaços novos permeados por signos urbanos da publicidade, pixação e graffiti.
Por meio da descrição e narrativa histórica percebemos que o bairro Benfica é representado por uma heterogeneidade de espaços. Das edificações tradicionais e modernas, dos lugares religiosos aos cabarés, e os espaços que abrigam temporariamente as festividades do carnaval. Dos equipamentos de lazer como bares, ginásios, campo de futebol, praças, livrarias, cafés e shopping, aos equipamentos destinados à educação como os campus da UFC, o IFCE, as escolas publicas e privadas e as bibliotecas.
Essa pluralidade de vida e paisagem que o Benfica produz, o qualifica como um bairro cultural onde a variedade de ideias e expressões têm livre abrigo. O bairro representa um apoio aos movimentos artístico-culturais, principalmente, aos grafiteiros que encontram nas instituições de ensino apoio para produzirem seus graffiti. (Pereira, 2012)
A Avenida Treze de Maio corta o bairro no sentido leste-oeste e mesmo que represente o Benfica em pequeno número de quarteirões, da Avenida dos Expedicionários à Rua Senador Catunda é uma das principais avenidas do bairro. Uma particularidade da Treze de Maio é a liberação dos muros da Reitoria e das Casas de Cultura da UFC para a produção de extensos murais de graffiti, desde 2007, inaugurado pelo projeto Acidum, e que vão sendo renovados aleatoriamente. Pode-se ver que é nesses muros, um de frente para o outro, que se concentram a maioria das intervenções urbanas do Benfica: graffiti, estênceis, colagens, pixações, cartazes políticos e outros signos que competem entre si nesses territórios.
O Professor Pedro Eymar, diretor do MAUC, é o principal colaborador das intervenções que acontecem nos muros da UFC, sejam na Avenida Treze de Maio ou Carapinima. Através do programa Bolsa-Arte e de articulações com a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis Eymar consegue recursos para iniciativas de pinturas dentro e fora do museu. A legitimidade de muros para o graffiti foi construída através dos eventos em parcerias com a UFC e o IFCE que corriqueiramente desde 2007 acontecem no Benfica. Desta
maneira, muitos coletivos e grafiteiros já estiveram presentes nas paisagens do bairro como apresenta a dissertação de Pereira (2012): P2K Crew, RAM Crew, MU Crew, Klã Crew, VTS Crew, Selo Coletivo, Grafiticidade, Paralelus, Acidum, Flip Jay, In Ação Crew, Arco Crew, 100Crew, Narcélio Grud, Aparecidos Políticos, Coletivo Curto Circuito, Carne de Porco …
Pô bicho, ali [Benfica] é porque tem o lance das faculdades já de artes, né, então tem muito a galera jovem né, que vê a coisa com outros olhos, que sempre tá por ali na redondeza, então isso já tem uma aceitação melhor, né. Se você botar [graffiti] em outro bairro, tem um pessoal que é mais conservador que se tu passar com uma mochila de spray assim, teco, teco, teco com as bilazinhas batendo na lata a pessoa já te olha atravessado, “porra, vai ser no meu muro, quê isso aí?”. Sabe? E lá não, lá se brincar tem uma galera que faz é te acompanhar pra saber onde é que tu vai lançar a parada. É tanto que lá tem muito, naquela redondeza toda tem muito graffiti e pixo, pixo lá tem demais. (Edu RAM)
A visibilidade e caráter cultural não chamam apenas a atenção de grafiteiros, mas também de pixadores desde o início dos movimentos de pixação em Fortaleza, como
expressam alguns dos comentários60 abaixo.
As caixa d'água do Benfica tinha nome do Rape, Pastor, Raposão, Zanrla, Iron, Carlos, tudo já nome antigo deles mesmo na época . As barracas de caipirinhas da feirinha da gentilandia ficavam aí do lado dela (Jair Bezerra)
Boas lembranças... fui poucas vezes na gentilândia.... frequentei mais a praça da bandeira... que diga-se de passagem virou point um pouco depois. Mas foi sem dúvidas o grande point de todas as galeras sem exceção.. do fim dos anos 80 e início dos anos 90. quem nunca esteve na praça da gentilândia não sabe da história do xarpí desse tempo. (Kakinho GUP)
OUTRA PRAÇA QUE NUNCA VAI SER ESQUECIDA CORAÇÃO DE JESUS LEMBRO COMO SI FOSSE HOJE ... GRANDE COYOTE GU, VERME GS, RUSSU GU E MUITOS MAISSSSSS TEMPO BOM (Campelo Campelo) Aquela época Era a ÉPOCA hehehe...Nao volta jamais...Ficam as lembranças dos sorrisos e das agendas no estacionamento do Iguatemi, onde mais de 400 jovens de todos os bairros de fortaleza se juntavam nos sábados a noite pra conversar, debater e da os "autógrafia"... e as meninas entao? Tudo doidas por nos hehehe... (Marcos Rodrigues)
Marcos Mgr vale ressalta esta caixa d’água quem descabaçou 1°- foi CAVEIRA - AB foi uma segunda pra terça feira, pq na terça feira a noite era o encontro da galera na praça da gentilândia… (Fuga RM)
As narrativas destacam algumas praças de Fortaleza que eram point das galeras de pixação: Praça da Bandeira, Praça Coração de Jesus, Pracinha do Jornal O Povo, Praça da Gentilândia e suas barracas de caipirinha nas terças à noite, como também o Iguatemi aos sábados à noite.
60 Parte de uma discussão sobre a história da pixação de Fortaleza na comunidade Biografia do Xarpi em
O Benfica abrigava em suas praças diferentes tribos urbanas61 como a dos pixadores que percorriam a cidade nas madrugadas e faziam das feiras livres paradas de encontros entre praticantes que atualizavam as notícias do xarpi e aumentavam seus ciclos de amizade.
A importância do Benfica na pixação eu diria que ela serve de instrumento de divulgação do seu xarpi, porque se eu compro uma tinta e eu saio pra dentro das minhas áreas né, pronto eu gastei aquela tinta todinha no meu bairro, eu vou ter um ibope? Vou, vou ter um ibope ali, mas temporário, né, que é só das pessoas da região. Agora se eu pego a minha tinta e vou do meu bairro que é o Bom Jardim até o Benfica, o que eu fizer pelo Benfica, não só as pessoas que moram no meu bairro vão ver, mas como outras pessoas de outros lugares, que assim vai gerando uma divulgação do seu xarpi, ta entendendo? (Roco SF62)
Fotografia 19 – “Outrem”, Avenida da Universidade
Fonte: Vampyro AC (2014).
Legenda: Miscelânea de tipografias revelam uma série de influências regionais na estética do “PIXO” que desvela uma Fortaleza diacrônica.
61 Categoria do sociólogo francês Michel Maffesoli cujo estudo nas grandes cidades identifica-se o fenômeno de
constituição de redes de afinidades e interesses que ligam os sujeitos nas chamadas tribos urbanas também como um grupo de resistência ao poder.
O Benfica é o bairro do ibope63 tanto para pixadores como para grafiteiros (PEREIRA, 2012), essa valorização dos espaços públicos vista entre esses dois grupos tende a construir rivalidades nos muros que podem ser visualizadas nas paisagens. Muitos muros apresentam imagens de signos que se atritam, mas também relações harmoniosas entre pixo e graffiti como na Fotografia 20 seguinte.
Fotografia 20 – Graffiti de Narcélio Grud e pixo de Babal GPS, av. Treze de Maio
Fonte: Arquivo pessoal (jul. 2014).
Olha aí o trampo do camarada aqui do lado, né, o cara usou a paredezinha do cantinho, isso é respeito. Mesmo o cara usando umas cor que o preto ia destacar em cima, mas o cara usou o cantinho, talí o pixo dele, ta ali, de boa, saca? Quer dizer graffiti de um lado e o pixo do outro, mas tá ali oh, todos os dois tão na mesma caminhada. (Edu RAM)
Outras imagens dessas relações entre signos urbanos serão apresentadas nos capítulos seguintes, buscando por meio destas tecer discussões sobre as práticas da pixação e do graffiti e as representações que cada uma dessas culturas constrói.
3.2 Estudo exploratório dos pixos, graffiti e publicidade no Benfica
Pelo adensamento de equipamentos urbanos e de lazer o bairro Benfica possui um cotidiano de grande deslocamento de pessoas e veículos sejam particulares ou públicos, várias
63 Termo utilizado por pixadores e grafiteiros para significar algo que promove fama, sucesso, prestígio. Muro
linhas de ônibus trafegam pelas avenidas da Universidade, Carapinima e Treze de Maio. São nos muros dessas avenidas onde ocorre o maior número de intervenções urbanas no bairro. Esses locais são disputados por grafiteiros, pixadores e agentes da publicidade por conta da visibilidade dessas paisagens.
Por meio do registro fotográfico desses muros pude melhor observar os vários signos e códigos que envelopam essa malha urbana, dando atenção aos pontos de pixo e graffiti. A visualização geral dessas linguagens se dá pelo mapeamento64 dos pontos de intervenção.