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A partir das discussões acerca das diferentes orientações do desenvolvimento rural no Brasil, expressas nas políticas públicas, evidenciam-se projetos políticos diferenciados de desenvolvimento voltados para o meio rural. De um lado, a partir da década de 1970, uma proposta de desenvolvimento calcada em processos de modernização que excluía grande parte dos agricultores familiares, com uma orientação no sentido de inserção em mercados, utilização de insumos químicos aos processos produtivos e uma estrutura fundiária concentrada. De outro lado, a partir do surgimento do PRONAF e da mobilização social e organização política dos trabalhadores rurais, na década de 1990, emerge uma concepção de desenvolvimento rural que tem como eixo central a agricultura familiar e o conjunto de relações (econômicas e produtivas) estabelecidas por esses sujeitos sociais. Esses dois projetos políticos evidenciam as principais disputas nas arenas políticas da agricultura no Brasil, principalmente quando a agricultura familiar passa a integrar a agenda de políticas públicas de desenvolvimento rural.

A partir dos dados e análises possibilitadas pela pesquisa do histórico do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Espera Feliz é possível identificar a relação de mudança no nível local no mesmo período de mudanças no contexto das políticas públicas de desenvolvimento rural. São períodos bem marcados, no final da década de 1980, com temas relacionados à assistência social, para temas relacionados às questões produtivas e de organização econômica a partir de meados da década de 1990. Nesse período se constituíram novas organizações de agricultura familiar no município. Dessa forma, a emergência dessas organizações evidencia a incorporação de diretrizes e políticas em nível local, provocando mudanças na prática sindical.

Percebe-se que existiam dispositivos coletivos utilizados pelos agricultores como estratégia de ação coletiva. Esses dispositivos eram o fundo rotativo de crédito, banco de sementes, entre outros, que sofreram uma adaptação em suas regras de reciprocidade, passando a constituir estruturas institucionais formalizadas, tais como a ASIMAF, COOFELIZ e ECOSOL.

O contexto de surgimento dessas organizações, no âmbito do STR, é um componente explicativo da relação entre as mudanças nas políticas públicas de desenvolvimento rural e as dinâmicas locais. O surgimento dessas organizações representa, neste estudo, uma evidencia empírica de mudanças nas dinâmicas locais a partir do momento em que se modificam as orientações e as agendas das políticas públicas, incorporando temas como organização da produção e comercialização no projeto alternativo de desenvolvimento rural. Essas organizações também podem ser vistas como possibilidade de criação de mecanismos de acesso a determinadas políticas públicas de desenvolvimento rural ou como estratégias de constituição de organizações mais próximas à orientação da ação coletiva dos agricultores familiares no município.

A partir das análises conclui-se que apenas o surgimento de uma política pública não explica a criação desses mecanismos nem das organizações. Entende-se que as políticas, quando acessadas, encontram um conjunto de experiências prévias que têm potencial de gerar processos de aprendizagens coletivas capazes de viabilizar processos de desenvolvimento.

Foi possível identificar, no processo histórico do STR, a emergência dos mediadores sociais externos e a construção de práticas relacionadas a essa emergência. Essa relação entre os mediadores sociais e as dinâmicas locais não possui, entretanto, uma relação causa-efeito, ou seja, os temas não começam a ser discutidos na escala local especificamente a partir do momento em que são estabelecidas relações com os mediadores sociais. Destarte, existe uma organização prévia sob a qual as relações externas incidem como complementaridade dessas ações locais.

Através do acesso a determinadas políticas públicas, criam-se aproximações entre mediadores sociais com vistas a estabelecer mecanismos de acesso ou mesmo potencializar as estratégias desenvolvidas pelas organizações locais. Esses mediadores, no caso de Espera Feliz, estiveram presentes na criação dessas organizações. Essa relação com os mediadores também é conflituosa na medida em que a aproximação diverge, por vezes, das orientações coletivas para o desenvolvimento que os agricultores possuem.

Percebe-se que as políticas acessadas incidem em uma rede social na qual havia interesses comuns e de leituras da realidade que são convergentes. Esses interesses são

demonstrados a partir da formalização dos dispositivos coletivos dos agricultores e da edificação de novas organizações de agricultura familiar nesses dispositivos. Existe uma rede de indivíduos, empoderados e organizados; eles vão constituindo o tipo de organização necessária para resolver cada tipo de problema (sindicato, associação, cooperativa de crédito ou de comercialização). Todas as organizações são ‘roupagens’ específicas dessa rede (praticamente) única de agricultores familiares. É uma espécie de polimorfismo organizacional, necessário para acessar as políticas públicas.

As relações estabelecidas com as políticas públicas de desenvolvimento rural se dão de diferentes formas. Desde relações de complementaridade a relações de dominação normativa e dificuldades e tensões. Nesse conjunto de relações, vão se forjando aproximações entre as organizações e entre os mediadores sociais que atuam no município. O fenômeno causado por essas políticas nas organizações de agricultura familiar geram relações diversas, ora potencializando, ora gerando dificuldades para a sua execução.

No caso da relação de complementaridade, o acesso a determinada política pública promove uma mudança positiva nas ações já desenvolvidas pelos agricultores. Em relação à dominação normativa, o acesso a determinados programas pode gerar mudança em nível local no sentido da adequação das estruturas organizativas locais aos procedimentos necessários de execução do programa.

Na relação de dificuldades e tensões, fica expressa a descontinuidade entre a orientação das diretrizes de programas específicos e os mediadores sociais responsáveis por sua execução. Essa relação é vista, principalmente, na linha específica do PRONAF Agroecologia.

Há mudança na prática sindical em Espera Feliz a partir da emergência de novos temas e da constituição de uma organização responsável por uma atividade econômica. Essas mudanças se relacionam com mudanças no contexto do sindicalismo rural no Brasil; com a agricultura familiar enquanto agenda de políticas públicas e com o cotidiano de gestão de uma estrutura constituída para execução de programas e projetos específicos.