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Como citado anteriormente, a literatura existente sobre os Guarani é ampla, mas longe de se esgotar. Apesar dos diversos escritos sobre essa grande nação, cada autor contribui ao trilhar caminhos diversos. Não há pretensão em realizar aqui um percurso histórico sobre esse povo, mas fornecer alguns elementos que visam situar o leitor. Inicio com um breve histórico da ocupação Guarani na América Latina, abordando o já conhecido padrão de mobilidade até a formação de Tekoa Pyau. Em seguida, aponto algumas particularidades que foram por mim observadas em campo e que considero relevantes para futuras análises, sem, obviamente, esgotá-las, mesmo porque também abordo alguns aspectos culturais nos próximos capítulos.

2.1 - Um povo em movimento

Os Guarani atuais pertencem à tradição denominada “tupiguarani” pela arqueologia e “tupi-guarani” pela linguística. Se diferenciaram internamente há 2.500-3.000 anos em subgrupos com dialetos da família Guarani , tronco Tupi que remonta, por sua vez há 5.000 anos (Chamorro, 200, p.33).

O povo Guarani habita desde muitos séculos uma ampla região da América Latina. Antes da conquista, a grande família Tupi-Guarani habitava parte dos atuais territórios do Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Guiana, Bolívia, Perú e Equador (Rehnfeldt, 2007).

No Brasil encontramos os subgrupos linguísticos Nhandeva21, Kaiowa e Mbya. Todos falam línguas da família Tupi-Guarani, do referido tronco linguístico Tupi e se distinguem entre si quanto à localização, histórico de contato e rituais (Schaden, 1974).

Apesar dessa distinção, apontada pelos próprios Guarani, é possível verificar a presença de indívíduos pertencentes a diferentes subgrupos numa mesma aldeia, embora, como afirma Ladeira, estes estejam adaptados à comunidade em que estão inseridos (Ladeira, 2007, p.34).

De acordo com Meliá (1989), os Guarani partiram da Bacia Amazônica há cerca de 2000 anos migrando para as áreas subtropicais do Alto Paraná, do Paraguai, e Uruguai. As rotas de dispersão foram mote de alguns estudos etnoarqueológicos realizados por José Proenza Brochado e Francisco Silva Noelli que, com base em datações radiocarbônicas,

colocaram em questão22 o significado exclusivamente religioso atribuído ao padrão de mobilidade Guarani, difundido por vários pesquisadores, de que estes estariam caminhando em busca de yy mara ey, a terra sem males.

A hipótese que possui motivos religiosos como premissa de que os Guarani estariam buscando incansavelmente essa terra mítica, teve Curt Nimuendaju como seu principal difusor.

Apesar de destacar o valor seminal do trabalho de Nimuendaju, Noelli afirma que este comete uma confusão interpretativa, pois parte do postulado de que os Guarani e os Tupinambá têm origem na mesma cultura e, portanto, deduz que eles teriam os mesmos motivos para se deslocarem . Dessa forma, apesar de as conclusões de Nimuendaju serem por ele mesmo consideradas como suposições e representarem os motivos de migrações dos Tupinambás pouco antes do século XVI, a hipótese acabou se transformando em dogma reforçada por outros pesquisadores como Alfred Métraux, Egon Schaden, Heléne Clastres, entre outros (Noelli, 1993, p.40-71).

Nesse sentido, é interessante resgatar o significado de yvy mara ey realizado por Meliá (1989), que busca na tradução dada pelo padre jesuíta Antonio Ruiz de Montoya ([1639] 1876) a maneira mais adequada para a expressão. Montoya apresenta yy marã ey como o “solo intacto, que não foi edificado” ou seja, o “solo virgem”. Meliá também aponta para grandes diferenças existentes entre a noção de “solo intacto” dos séculos XVI e XVII e “terra sem mal” dos séculos XIX e XX, ambas denominadas yy marã ey. Para esse autor há dados suficientes para acreditar que a procura de novas terras para o estabelecimento das aldeias está atrelada à ideia de espacialidade e, dessa forma, sendo essa busca motivada pela crença na “recriação de um modo de vida autenticamente Guarani, quer pela renovação do local de assentamento, quer pelo reencontro com uma terra mítica (Meliá, 1988).

Uma outra possibilidade, defendida por Susnik, Brochado, Noelli e pelo próprio Meliá, levaram em consideração as pesquisas arqueológicas e afirmam que alguns fatores como as pressões devido ao aumento da densidade demográfica, denominada por Brochado de enxameamento, levou-os a ocupar outras regiões e que esses deslocamentos teriam se intensificado com a chegada dos conquistadores (Noelli, 1993, p.40-71).

Estima-se que a população Guarani pré-contato era de aproximadamente 1.500.000 habitantes dominando cerca de 350 km², com uma densidade de pouco mais de quatro

22 Não há condições aqui de fazer juízo de valor , pois correria o risco de cometer erros e injustiças. Mas apenas

habitantes por quilômetro quadrado (Clastres, 1978). Não há dúvidas de que esse contigente foi abalado com a conquista, haja visto que o trabalho escravo a que muitos foram submetidos somado às epidemias e guerras tenham provocado uma verdadeira “hecatombe” entre os Guarani como observado por Meliá (1986, p.88).

Vários autores afirmam que há uma grande dificuldade em estimar a população Guarani atual devido ao seu intenso padrão de mobilidade (Ladeira, 2008; Brighenti, 2001; Meliá, 1989), pois como o território Guarani extrapola fronteiras nacionais, os dados numéricos não passam de suposições. No entanto, a partir de dados oficiais e informações coletadas pelas principais organizações indígenas e indigenistas, é possível deduzir que a população Guarani na América so Sul esteja em torno de 225 mil pessoas23.

No Brasil, segundo levantamentos feitos pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e CIMI (Conselho Indigenista Missionário), a estimativa é de que a população Guarani seja de aproximadamente 50 mil pessoas; 40 mil, ou seja 80%, vive no estado do Mato Grosso do Sul e os outros 10 mil, o que corresponde a 20%, em terras tradicionais localizadas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e numa terra reservada no estado do Pará.

Esses números são apenas estimativas, visto que as pesquisas realizadas entre os Mbya revelam que as relações de parentesco se estendem entre aldeias situadas em todas as regiões do seu território. Essas redes ocasionam uma dinâmica social intensa implicando numa grande mobilidade territorial, uma vez que os deslocamentos objetivam a visita aos parentes, coleta de material para confecção de artesanato, participação nos rituais, entre outros (Ladeira, 2008).

O contato intenso com os jurua (não-índios) desde o século XVI não desagregou efetivamente a cultura e o modo de viver tradicional. Estudos indicam que os Mbyá atuais, diferente dos outros subgrupos Guarani, descendem de grupos que não se submeteram durante o período colonial aos encomenderos espanhóis, nem às missões jesuíticas, refugiando-se nos montes e nas matas da região de fronteira do Paraguai com o Paraná, no Brasil (Cadogan, 1950 apud Litaiff, 1996). Essa ideia é corroborada pela pesquisa de Noelli (1993) que, fundamentando-se na arqueologia, afirma que os Guarani pouco mudaram o seu padrão, incluindo sua cultura material. Além disso, conforme Susnik (1975, apud Noelli, 1993) os

23 Fonte Campanha Guarani Grande povo, disponível em:

Guarani são tidos como representantes de uma sociedade etnocêntrica impositora de comportamentos, colonizadora e conquistadora de regiões e de outras sociedades.

Os estudos sobre os Guarani antes do contato revelam dados surpreendentes como o realizado por Nordenskiold (1917) também citado por Rodrigues (2003), que relata a invasão que grupos Guarani realizaram sobre o império inca (provavelmente por motivações bélicas e busca de metais). Esses estudos nos levam a pensar, como afirma Monteiro, que os indígenas hoje não podem ser considerados como “pobres remanescentes”, desqualificando-os enquanto atores históricos legítimos, afinal são muitos os relatos históricos que mostram verdadeiros “focos” de resistência indígena (Monteiro, 1999, p.237-249).

Na literatura do século XIX os Mbya apareciam com o nome genérico de Cainguá ou Kayguá, “habitantes da mata” , corruptela do nome depreciativo que outros subgrupos Guarani lhe aplicavam (Cadogan,1978 apud Ladeira,1988, p.16). Conforme aponta Schaden (1974, p.3), Mbuá24 é a autodenominação mais usada pelos Guarani cujo significado “gente” é utilizado para esse grupo se distinguir dos demais. O termo Mbya também foi traduzido por Dooley como “muita gente num só lugar” (1982, p. 112).

Como observa Ladeira, a escassez de notícias dos Mbya em território brasileiro deve- se, em grande parte, às imprecisões daqueles que entraram em contato com os grupos Guarani no século XIX, principalmente no estado do Paraná, classificando todos eles como “Guarani” sem especificar as diferenças dialetais, não diferenciando os Mbyá dos outros subgrupos Guarani, como os Nhandeva/Xiripa e os Pai/kaiowá (Ladeira, 1988, p.16-17).

Atualmente, os Mbya estão presentes em várias aldeias na região oriental do Paraguai, no nordeste da Argentina (província de Misiones) e no Uruguai (nas proximidades de Montevidéu). No Brasil, as aldeias encontram-se no interior e litoral dos estados do Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – e em São Paulo e no Espírito Santo em diversas aldeias localizadas nas proximidades da Mata Atlântica.

Povo livre por excelência, os Guarani continuam sua caminhada visando a possibilidade de viver o nhandereko (seus costumes). Fiéis à sua ecologia tradicional, procuram buscá-la e recriá-la dentro das possibilidades, porém constantemente se deparam com ameaças e ações de expulsão de suas terras, além da destruição sistemática da Mata

Atlântica, ambiente que pode ser considerado “ideal” para sua reprodução física e cultural. Mas essa terra, como veremos adiante, efêmera e fadada à “imperfeição”, leva-os à uma preocupação extrema e um estado de angústia que perpassa todo o seu modo de ser (Meliá, 1989, p.298).

2.2 - Breve histórico da região do Jaraguá

A região do Jaraguá, na zona oeste da cidade de São Paulo, foi cenário de inúmeros conflitos envolvendo indígenas e colonizadores. Como aponta Silva (2007), além das lavras de ouro que empregavam mão de obra indígena, a região era o ponto de partida e chegada das bandeiras, expedições que tinham como objetivo a captura de indígenas para o trabalho escravo.

O histórico da região já foi abordado nas dissertações de Motta (2006) e Silva (2008) que, através de informações obtidas no Departamento do Patrimônio Histórico de são Paulo, relatam a descoberta das minas de ouro em 1532 por Martim Afonso de Souza e a posterior adminstração da mineração na região por Luis Martins e Brás Cubas, por volta de 1560 (A Gazeta, 24/05/1952).

Outro personagem importante na história da região é Afonso Sardinha, português que veio ao Brasil em 1580 e encontrou ouro no Jaraguá. No entanto, Sardinha só conseguiu estabelecer-se na região e iniciar a mineração dez anos mais tarde devido aos intensos ataques promovidos pelos indígenas que viviam na área e lutavam pela integridade de seu território. Sardinha foi juiz ordinário em 1587 e empossado em 1592 supremo comandante das forças da vila. Nesse mesmo ano ocorreu uma grande guerra contra os indígenas culminando no extermínio de algumas etnias (A gazeta. 06/02/1954).

A partir do século XIX, devido à escassez definitiva da extração do ouro na região do Jaraguá, a área passa a ser destinada a práticas agrícolas fomentadas após a visita de José Bonifácio de Andrada e Silva e Martim Franciso de Andrada, realizada em 1820 que, sensíveis à questões ambientais notaram a ganância dos europeus que ali viviam. (A Gazeta, 24/05/1952).

Segundo levantamento feito por Motta (2006), a área de 202 alqueires da Fazenda do Jaraguá passou por sucessivas transmissões até que em 1940 tornou-se de domínio público. Pouco antes, por volta de 1939, o então governador do Estado de São Paulo, Ademar de Barros, foi autorizado a adquirir a fazenda. A vegetação da área encontrava-se precária devido à intensa exploração de ouro e criação de gado e o decreto determinava o plantio de espécies como jequitibás, jacarandás, ipês, guapuruvus, canelas, pau brasil, entre outros. O reflorestamento, administrado por Otávio Bicudo, levou um período de quase dez anos.

2.3 – A comunidade do Jaraguá

A comunidade do Jaraguá está dividida em duas pequenas aldeias, Tekoa Ytu e Tekoa Pyau, comumente denominadas inclusive pelos próprios moradores como “aldeia de baixo” e “aldeia de cima” respectivamente. Como veremos adiante as aldeias contam com lideranças e características próprias.

Segundo Benedito Prezia (comunicação pessoal) , o nome Jaraguá é de origem tupi (y= água + jará = senhor, senhora + kuara = esconderijo) e anterior à presença portuguesa, significando “esconderijo da Yara, a senhora da água”. De fato, no Jaraguá, há mais de uma lagoa na região, havendo também em tempos antigos, um pequeno lago, onde ficava represada a água da lavagem do ouro, que era encontrado no morro. O topônimo pode significar também “esconderijo do Senhor”, numa alusão à montanha, que poderia ser a morada de alguma entidade tupi. No entanto, a primeira hipótese é a mais provável devido ao mito – A Uiara do Jaraguá – recolhida em 1938, pelo padre Armando Guerrazzi (ANEXO 4).

A ocupação dos Guarani Mbya do Jaraguá remete à fundação do Parque Estadual do Jaraguá criado através do decreto 38.391 de 03 de maio de 1961, sob a responsabilidade da Secretaria da Agricultura, em que 10 alqueires foram cedidos à Secretaria de Turismo para a implantação do complexo turístico na região.

Conforme Silva (2008), a inauguração do Parque foi realizada sob o clima das comemorações do IV Centenário de São Paulo em um evento que contava com a presença do então governador Carvalho Pinto. Monteiro (2004) afirma que para dar um “colorido

especial” à fundação do Parque, uma família Guarani foi convidada a fazer uma aldeia na área, a família de Seu Joaquim Augusto Martins e Jandira Augusto Venâncio.

Dessa forma nos anos 60 formou-se Tekoa Ytu, que sobreviveu pelo isolamento da família de Seu Joaquim, marido de D. Jandira Kerexu, atual liderança da aldeia. A área, com cerca de 2 hectares, foi homologada e registrada em 1987 e abriga aproximadamente 12 famílias com cerca de 55 moradores. Nessa aldeia os casamentos mistos e a mestiçagem dos descendentes é bastante significativa, apesar de não desintegrar os núcleos familiares e a ligação com parentes distantes. No depoimento de Moacir Augusto Martins (Karai), filho de Dona Jandira, fica evidente que a ocupação da área do Jaraguá se realizou num contexto onde a permanência desta família na aldeia da Barragem, onde residiram até 1960, se tornou insustentável:

“Nasci em 1956, depois fomos para a represa e moramos lá até 1960, quando meu pai teve uma briga com os índios. Eles iam lá pedir ajuda para a saúde, médicos, e meu pai fazia a ponte entre os índios que chegavam doentes e os brancos, mandando os índios para os hospitais e internava-os.

Um pai de família indígena, que chegou com uma criança muito doente que estava com broncopneumonia em estado adiantado, meu pai levou para a santa casa de Misericórdia em Santo Amaro, mas a menina não resistiu e acabou morrendo. A partir daí começou a briga: o pai da menina falou que meu pai não tinha tomado conta da menina e se quisesse teria salvo a menina. Foi na nossa casa com facão para tentar matar meu pai. Mas como meu pai conhecia Fausto Ribeiro de Barros, que já é falecido, e que era presidente da Sociedade Geográfica Brasileira, nos disse que tinha um canto no Jaraguá conhecido como “Tanque de Ouro” e esse são os quatro tanques onde Afonso Sardinha25 lavava o ouro. E esse canto foi oferecido para meu pai tomar conta, como caseiro, mas só uma pequena parte, porque naquela época não era área indígena, era uma propriedade particular. Mas depois de algum tempo, oito, nove ou dez anos, mais ou menos, o pessoal daqui saiu e mudou para outro canto e a terra ficou abandonada. E meu pai começou a fazer plantação de milho, feijão, batata...fomos adquirindo a posse da terra praticamente dita. Depois disso, entre 1979 a 1981, começou a briga do meu pai e do pessoal daqui, dos Guarani, contra Antonio Pereira Leite que se dizia dono da terra.

Depois de algum tempo a Funai fez a demarcação. Marcaram, demarcaram tudo, colocaram uns pontos certos, e mesmo demarcado, com meu pai tendo a documentação toda em dia, Antonio Pereira Leite sempre invadia. Tivemos que chamar a Polícia Federal, a Militar, e fomos até a casa dele e ele parou e deixou a terra.”

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A tradição oral mantêm que as terras onde se localizam o Parque do Pico do Jaraguá foram de propriedade do sertanista Afonso Sardinha, no final do século 16, já que muitos autores, baseados nas informações do genealogista seiscentista, Pedro Taques de Almeida Paes Leme, confirmam essa versão.

A área onde hoje encontra-se a aldeia Tekoa Pyau era utilizada como extensão para os moradores da aldeia Tekoa Ytu tanto para o plantio de alguns cultivares como para a construção de poucas casas, cujo objetivo maior era acolher as pessoas que vinham de outras aldeias para visitar parentes ou realizar algum tratamento médico. Algumas famílias já moravam no local, todos ligados à D. Jandira, como sua filha Eunice, sua neta Jaciara e sua irmã Maria. É importante ressaltar que na década de 80 a área foi dividida ao meio devido a construção da Rua Comendador José de Matos (Silva, 2007, p.75).

2.4 - Tekoa Pyau

Tekoa Pyau (aldeia nova) é comumente chamada “aldeia de cima”, devido à localização geográfica em relação à Rua Comendador José de Matos e a Estrada Turística do Jaraguá. Ironicamente, a Rodovia dos Bandeirantes está localizada atrás da aldeia, pressionando-os. Apesar da identificação como terra indígena desde 2003, a terra não está demarcada e, atualmente, um projeto de revisão de limites para futura demarcação está em trâmite. A área é extremamente pequena, contando com 2,5 hectares, muito populosa, com poucos recursos naturais disponíveis, o que leva a comunidade a procurar outras formas de subsistir, uma vez que a manutenção de muitas práticas culturais, como a produção de roças e a caça, ficaram impossibilitadas.

Atualmente Tekoa Pyau conta, segundo os moradores, com cerca de 98 famílias e aproximadamente 380 moradores. A presença de uma forte liderança religiosa nesta comunidade, o pajé José Fernandes, Karaí Poty26, parece ser o principal responsável por agregar essa comunidade.

Não há dúvidas de que a chegada de José Fernandes à área em meados dos anos 90 foi decisiva para a formação de Tekoa Pyau. Com ampla experiência sobre questões fundiárias, tendo inclusive participado da luta pela demarcação do Ribeirão Silveira ao lado de Jijokó, renomado lider nhandeva quando a rede de supermercados Peralta avançava sobre a área, Xeramõi José Fernandes era a pessoa certa para dar propulsão ao processo de demarcação de Tekoa Pyau.

Um episódio envolvendo novamente Antônio Pereira Leite, que se dizia dono da área onde hoje é Tekoa Pyau, foi relatado27 por um dos moradores e considerado um marco importante na luta pela aquisição de direitos sobre o território:

Eu cheguei aqui no Jaraguá em 2000. Quando foi em 2003 teve o problema com o Pereira Leite. Teve interferência do Ministério Público, né? Eu pensei, logo um português? De novo, né? (Risos). Aí falei para o Xeramõi: deixa comigo, que a gente vai lutar para conquistar esse pedaço de terra.

Teve um dia, eu estava na rua e vi um carro parado. Era o Pereira Leite, só que eu não conhecia ele. Então ele falou assim pra mim: “eu não sabia que vocês tinham vindo pra cá. Logo aqui? Aqui não tem nada pra vocês...não dá pra plantar, pra sobreviver. Por que vocês vieram?”

Eu não falei nada. Aí ele disse pra mim: “eu vou fazer uma proposta pra você, além de eu dar dinheiro pra você, eu vou alugar um ônibus e você pega todos os seus parentes e leva tudo embora daqui”. Aí, eu falei pra ele assim: “a minha consciência ninguém compra, eu sei o que eu estou fazendo,

eu não posso trair meus parentes e a gente vai lutar. Se você quiser, a gente vai brigar, mas não fisicamente. Eu sei do meu direito e você sabe também, a gente vai brigar na justiça. Se a justiça decidir que a gente não deve ficar aqui, a gente vai embora, mas se a justiça decidir que nós temos direito, a gente vai continuar aqui. Aí ele falou assim: você tá certo, você tem razão.

26

José Fernandes também é conhecido pelo apelido de Kamba Puku (negro) e por seu outro nome Guyra Pepo (asa de pássaro). Como veremos adiante, é comum as pessoas mudarem de nome em determinadas

circunstâncias.

27

Curioso como o relato de um evento histórico adquire características de uma narrativa mítica, pois apesar de ter ocorrido uma ação coletiva, o relato se desenvolve como quem conta os feitos de um herói, o que, sem dúvida não deixa de ser quando se trata da luta pela terra.

Eu nem sabia que era ele. Um dia me chamaram para um encontro