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O falante, o enunciador, o ator, o sujeito, o agente ou qualquer outra categoria atribuída àquele que produz o discurso ou o enunciado é, na análise estilística, responsável pela escolha dos gêneros, dos temas, das lexias, das estratégias.

Alguns estudiosos, apesar de correntes distintas, observam a capacidade criativa do falante. Para uns, essa criação é relativizada, pois concebem a língua como fruto de apropriação, não vislumbrando a capacidade de o falante contribuir naestrutura da língua; para outros, a língua é vista como fruto de interação e constituição permanente, observando que o falante é ator incessante dessa constituição.

Os estudos da Estilística sempre se preocuparam com a criação, com a expressividade e, consequentemente, com a intenção. Cardoso (2004) enfatiza essa relação, esclarecendo que um dos objetivos da Estilística é analisar os efeitos estéticos e a expressividade, frutos da escolha feita pelo enunciador no momento da criação:

Um dos objetivos da Estilística é justamente analisar a escolha feita pelo enunciador, dentre os elementos linguísticos disponíveis, verificando-se de que maneira se consegue com ela efeitos estéticos e expressividade e, sobretudo, tentando-se chegar à intenção do enunciador por meio do estilo encontrado em seu texto. (2004, p. 148)

Como se sabe, no discurso literário, algumas vezes a criação foi considerada uma falha, um erro, já que o correto para determinadas épocas e autores era seguir os padrões, respeitar, idolatrar e imitar os grandes escritores, os quais buscavam escrever de acordo com as regras e valores estabelecidos. No Modernismo, momento em que a obra de Mário de Andrade se insere, a criação foi considerada sinônimo de rebeldia, de contestação e, no nosso entendimento, estava vinculada, simultaneamente, à racionalidade e à

subjetividade, ou seja, existia um projeto racional de nacionalismo e de ruptura de regras que permitia a valorização da subjetividade, da expressividade. Assim, a obra poética marioandradiana da década de vinte mostra, a partir da inovação formal, a preocupação com os costumes, com a modernidade, com a língua brasileira, aspectos que faziam parte de um projeto maior e consciente de valorização do nacional, quer de forma xenófoba, quer de forma despreconceituosa.

Como observamos anteriormente, a expressividade é fundamental para a análise estilística do texto literário. No caso do poema, ela se transfigura na função poética de Jakobson, em que a elaboração da mensagem é fundamental para a poeticidade. Nos poemas estudados de Mário de Andrade, percebemos a utilização de variados recursos expressivos para caracterizar o poeta, a cidade de São Paulo e o Brasil.

A compreensão desses recursos expressivos, que dão às palavras tonalidades emotivas diversas do seu significado denotativo, contribui para a construção do sentido da obra. Lapa (1973), ao considerar que o bom escritor escolhe as palavras com maior valor expressivo para motivar as mais diversas e vivas imagens, enfatiza o sentido figurado presente no texto literário:

Vemos pois que, em volta de cada palavra ou, para melhor dizer, de certas palavras, se estabelece uma atmosfera fantasiosa e sentimental que constitui seu valor expressivo. Há, evidentemente, palavras mais evocadoras do que outras. O bom escritor saberá aproveitá-las, para suscitar mais vivas e variadas imagens.(1973, p.10)

Martins corrobora a importância da linguagem figurada, destacando que ela é o fator de afetividade mais importante, acrescentando que o valor expressivo só pode ser captado de forma relacional:

O mais importante fator de afetividade é certamente o emprego da linguagem figurada, seja da metáfora e da metonímia, em que as palavras assumem um sentido mais afastado do significado fundamental, seja das figuras de construção e pensamento (metataxes e metalogismos, cf Retórica Geral) em que as palavras envolvidas assumem um relevo ou conotação especial. Observe-se que é praticamente impossível delimitar o valor expressivo das figuras apenas à palavra; mesmo que, em certas metáforas, a expressividade se concentre em determinada palavra, ela só é apreendida pela relação sintático-semântica dessa palavra com outras.(2000, p.91)

Concebemos, como falamos no capítulo anterior, estilo como escolha e percebemos que a utilização desses recursos expressivos é fruto do trabalho do escritor, havendo, no nosso entendimento, intenção por trás do seu uso. É claro que a intencionalidade pode ser questionada, e muitas vezes o analista não chegará a captá-la, já que a língua não é transparente a ponto de todos enxergarmos num texto a mesma coisa, e é exatamente essa postura que faz com que o discurso/enunciado se atualize e se constitua. Afinal as várias leituras de diversos sujeitos em momentos diferentes contribuem para a sua constituição, não havendo, a nosso ver, a possibilidade de simples e passiva apropriação.

Destacamos ainda que o discurso literário, subjetivo pela sua natureza, é plurissignificante, o que reforça a tese de não haver possibilidade de uma única interpretação para ele. Acreditamos que o interlocutor, como o falante, também seleciona, só que seleciona a interpretação que julga mais adequada de acordo com o seu repertório de mundo ou de sua opção pessoal. Alguns poderiam questionar a ausência de cientificidade, de objetividade nessa nossa prática; poderiam, também, objetar a validade de uma análise que se confessa restrita, incompleta, subjetiva, no entanto esse nosso fazer/entender estilístico fundamenta-se na concepção de que o homem é um ser relacional e que essa nossa atividade faz parte do constituir a língua, do agir com e sobre ela, entendendo sempre que o conhecimento não está fora do ser humano.

Como se vê, ao usarmos a concepção de estilo como escolha, adotamos ainda, na esteira de Possenti, o conceito de língua não como uma estrutura pronta, da qual o falante se apropria, mas como uma atividade da qual o sujeito participa, agindo também em relação ao mecanismo sintático e semântico da língua de forma a se constituir como sujeito:

A realidade não apresenta uma língua estruturada, embora mantendo alguns lugares destinados, por oposição aos outros, a marcar a presença do sujeito. Apresenta-a, ao contrário, como tendo por traço relevante a própria atividade do sujeito, atividade esta de natureza constitutiva e não apropriadora. O que não significa que o falante não deve submeter-se a um conjunto de regras, porque nem tudo é indeterminado. A atividade do sujeito não se dá apenas em relação ao aparelho formal da enunciação, mas em relação aos e sobre os próprios mecanismos sintático e semântico. É nesta atividade que o sujeito se constitui como tal, e exatamente por esta atividade. (2008, p.64)

Ao produzir um discurso, o sujeito atua, então, sobre a língua quer mantendo determinados traços, quer inovando pelo acréscimo, pela supressão ou por qualquer outro tipo de alteração. Ao escolher, dentre os muitos recursos, aquele que julga mais adequado ao efeito que quer produzir, o falante se individualiza, mostra-se agente do discurso, usando elementos para informar ou sensibilizar o interlocutor, que também trabalhador da língua, tenta captar, sentir o discurso do locutor.

Cressot, ainda que em linha teórica diversa de Possenti, enfatiza também a importância do interlocutor no processo de escolha do falante, uma vez que, segundo o autor, ele considera, ao selecionar, não só o seu próprio domínio linguístico, mas também o do interlocutor:

Por outras palavras, perante o material de que o sistema geral da língua dispõe, operamos uma escolha, a partir não só da consciência que possuímos desse sistema como da que atribuímos ao destinatário do enunciado.(1980, p.13)

Mais adiante, o autor ressalva que essa seleção está ligada à flexibilidade da língua, advertindo que a necessidade de se fazer entender, os fatores sociais e as determinações gramaticais acabam por limitar o falante:

Limitada pela necessidade de nos fazermos compreender e pelos fatores sociais que designaremos com o nome genérico de conveniências, a escolha é ainda limitada por imposições gramaticais: a morfologia, a sintaxe, a ordem das palavras, não nos permitem liberdade total, embora conheçamos a sua relativa flexibildade.(1980, p.14)

Acreditamos que a consciência do sistema do falante e do interlocutor a que Cressot se refere não se limita ao domínio linguístico, já que muitas vezes o falante / enunciador leva em conta outros aspectos como, por exemplo, o repertório do interlocutor/ enunciatário quer no sentido de se fazer entender com maior facilidade ou no sentido de surpreender pelo inusitado de certas exposições. Ressaltamos que a limitação de que fala Cressot não está presente no texto literário já que o descumprimento de regras é autorizado pela criação estética, e acaba por ser uma marca de estilo individual ou de época, como assevera Proença Filho:

Na maioria dos casos, é a própria obra que traz em si suas próprias regras. A obra de arte literária se faz, fazendo-se.

Observe-se que as normas reguladoras do texto não-literário, aquelas que se impõem ao indivíduo por corresponderem àquilo que habitualmente se diz, precisam ser obedecidas, sob pena de sérios ruídos na comunicação e, em certas circunstâncias, até de total obliteração do que se pretende comunicar. No texto literário a criação estética autoriza qualquer transgressão nesse sentido. E em termos de história literária, múltiplos e vários têm sido os percursos nessa direção, seja em termos individuais, seja em termos de movimentos de época. (2007, p.47)

Outra questão a se destacar em relação ao texto literário é que, além da escolha das palavras pela significação, há ainda a seleção do aspecto formal que aproxima a forma da significação do texto. Goldstein enfatiza essa característica do texto literário e especificamente do poema:

O discurso literário é específico; sua linguagem é elaborada, de modo que o aspecto formal também aponte as significações do texto. No poema, isso se dá de maneira particularmente acentuada. Seleção e combinação de palavras são pautadas não apenas pelo critério de significação, mas também por outros critérios, como o rítmico, o sintático, o sonoro, o decorrente de paralelismos e jogos formais. (2006, p.8)

Como se vê, a escolha do falante é resultado da seleção do que dizer, do como dizer, do que tradicionalmente chamamos de conteúdo e de forma, na concepção de Possenti:

Forma será entendida na sua oposição tradicional a conteúdo, sendo conteúdo qualquer efeito de sentido que a forma, utilizada contextualmente, é capaz de produzir, seja uma informação, seja um efeito de tipo ilocucional, de tipo perlocucional, seja uma inferência, etc.; enfim, todos os elementos recobertos pelas diversas teorias da significação. A forma é o veículo linguístico, realizado sonoramente, que veicula ou provoca os efeitos de sentido. Não se deve, portanto, reduzir a noção de forma a fim de recobrir apenas o que é aprendido sob a noção de significante (da mesma maneira como a noção de efeito de sentido não deve recobrir apenas o terreno do significado). Interessa exatamente é apreender a noção de forma como materialidade significativa. (2008, p.158)

Estudiosos de teorias divergentes observaram que a escolha do autor pode compreender os elementos linguísticos, os fatores textuais e discursivos. O nosso estudo, então, perpassa o aspecto discursivo, partindo de uma concepção de língua como processo de interação social, que vê a necessidade de inserir a obra na situação, na história e na ideologia da época, ressaltando

a importância do contexto de produção e de recepção da obra e destacando que os aspectos sócio-históricos e linguísticos associados são indispensáveis na reconstrução do sentido.

Como no nosso corpus há a presença de criações sintagmáticas, metáforas e metonímias, julgamos necessário aliar a Estilística léxica, que estuda os aspectos expressivos das palavras, a algumas concepções que tomam o enunciado e o discurso como prioridade, ainda que esse trabalho não tenha a intenção de se aprofundar em questões próprias da análise do discurso.