• No results found

Os desenvolvimentos dos estudos em Análise do Discurso levaram o analista a perscrutar, além de novos temas e objetos que não somente o discurso político, novas materialidades. Também as modificações que sofreu o conceito de Formação Discursiva no interior desse campo teórico, tornando-se heterogêneo e dando lugar à noção de interdiscurso e memória discursiva, levaram o analista a compreender e analisar outros lugares de produção discursiva. Courtine ([1981] 2009a), inclusive, critica, nessa mesma época, a análise que se tinha até então na AD do discurso dos grandes atores, propondo a ampliação dos corpora, também com ampliação das fontes (o que levaria a incluir falas orais, imagens etc.). Esse fato, inevitavelmente, fez com que nos deparássemos com o não verbal (ora também com o sincrético, que contempla diferentes linguagens), já que é característica das sociedades pós- modernas a fabricação e a consequente difusão de imagens, principalmente pelos meios de comunicação midiáticos – desde a TV até a mídia impressa.

Quando este problema se pôs à frente do pesquisador do discurso, pretendeu-se uma análise tal qual aquela utilizada com o próprio discurso verbal, fazendo-se uso das mesmas noções e conceitos, acreditando que os dispositivos metodológicos eram suficientes para a compreensão do visual, para a análise de imagens. Porém, alguns “obstáculos” puseram-se diante do analista, levando-o a reavaliar a própria teoria; procurou-se, então, estruturar um intercâmbio de conhecimentos. É o que se nota, ainda no início da década de 1980, no

156 colóquio que deu origem ao livro Papel da memória ([1983] 1999), pela preocupação de Pêcheux – também de outros analistas naquele momento – em articular uma relação entre a memória do verbal e uma memória do icônico, do imagético, destacando uma importância que os estudos de Barthes teriam para essa nova etapa de pesquisa.

A questão da imagem encontra assim a análise de discurso por um outro viés: não mais a imagem legível na transparência, porque um discurso a atravessa e a constitui, mas a imagem opaca e muda, quer dizer, aquela da qual a memória “perdeu” o trajeto de leitura (ela perdeu assim um trajeto que jamais deteve em suas inscrições) (PÊCHEUX, 1999, p. 55).

Não é sem sentido, como já foi destacado, a busca por novos mecanismos de análise que contemplassem, também, o imagético (o icônico), já que o bombardeio de imagens, e uma consequente espetacularização dos discursos, se tornou frequente na sociedade, como se observou, por exemplo, pelo Maio de 1968 francês99.

No Brasil, essa fronteira que se delineava entre o texto verbal e o não verbal começou a se romper, principalmente nos meios de comunicação, com a abertura política iniciada no final da década de 1970, e se estabelecer de maneira mais clara a partir do processo de redemocratização concretizado após a ditadura militar. Nesse momento de abertura, a mídia começa a retrabalhar o discurso político que se encontrava em baixa em função da censura e da forte repressão estabelecidas pelo regime militar, buscando no espetáculo oferecido, principalmente, pelas imagens o aporte de que necessitava. Desse modo, a mídia cria novas ferramentas para atrair o leitor, colocando o verbal e o não verbal lado a lado na constituição de um texto sincrético. Hoje, segundo Courtine (2006), o discurso político adquiriu novas formas, tornou-se mais curto, e ao invés de tentar explicar ou convencer, tenta seduzir ou conquistar pelas novas formas produzidas: diálogos, entrevistas, holofotes de TV, videoclipes políticos etc. Isso torna a análise somente por métodos linguísticos insuficiente, “a mutação dos modos de comunicação política exige a renovação de uma semiologia política que permitirá sua apreensão global” (p. 85). Por tudo isso que se propõe a questão a respeito da necessidade de uma atualização da abordagem teórica para os estudos de uma memória do

99

Courtine (2006) afirma que o Maio de 1968, na França, foi a primeira revolução midiatizada. Ali se teve “uma revolução discursiva – uma exasperação da produção de discursos, uma multiplicação de sua circulação, uma inundação verbal que enchia as ruas e a mídia” (p. 52). O Brasil, além dos outros países da América do Sul em que a ditadura militar se estabeleceu, aparece em sentido contrário em relação ao explicitado por Courtine no que tange à situação francesa – também a americana e a de outros países da Europa –, devido, principalmente, ao fato significativo da censura e o forte controle do dizer.

157 não verbal, e do sincrético, diferente daquela estabelecida para o verbal, deslocando o conceito de interdiscurso e surgindo, dali, aquilo que se estabelece como intericonicidade.

Ora, é importante então destacar mais uma vez que essas preocupações instalam-se no âmbito de uma semiologia histórica, mas que evidentemente recorremos a esse conceito, inscrito ainda no interior da Analise do discurso, para fortalecer uma análise que contemple efetivamente a história, uma historicidade (a longa duração é aí enfatizada), que marque e determine o caráter sincrético do(s) objetos(s) de análise e que traga para a teoria e para as análises princípios antropológicos. Enquanto Barthes, ainda na década de 1960, sugeria uma transposição para outros sistemas semiológicos, em especial as imagens (estáticas ou em movimento), de uma análise que propunha para o signo verbal (o objeto linguístico), Courtine enfatiza que é necessária uma abordagem discursiva do texto sincrético, que tome a historicidade do objeto e perceba o papel do sujeito na produção discursiva.

O conceito de intericonicidade (uma designação) não tem outro papel senão destacar que o discurso não é apenas verbal, mas que contempla diferentes semiologias.

Vê-se, então, a necessidade de se estudar a relação que se estabelece entre o icônico e o verbal100. Para isso, é importante buscar entender como se constrói uma memória do icônico e, mais além, observar em que medida torna-se pertinente partir do quadro teórico da Análise do Discurso, que compreende conceitos como o de interdiscurso e memória discursiva, para empreender conceitos que tenham alcance de análise das novas materialidades que se impõem. Courtine (apud MILANEZ, 2006, p. 168) afirma que “toda imagem se inscreve em uma cultura visual, e essa cultura visual supõe a existência, para o indivíduo, de uma memória visual, de uma memória das imagens, toda imagem tem um eco”. Também, estabelecendo relação com as pesquisas antropológicas – que tem o homem no centro dos estudos –, a memória do icônico – de um modo mais claro, chamada de intericonicidade – tem estreita relação com o sujeito, pois, ainda de acordo com Courtine (ibidem) “o indivíduo, o sujeito, [se porta] não só como produtor, mas também como intérprete, e de certa maneira como suporte das imagens dessa cultura”. É nesse ponto que se estabelece uma clara diferença entre a noção de interdiscurso, que estabelece uma memória para o verbal, e intericonicidade, que apresenta uma memória do icônico. Enquanto o interdiscurso estabelece uma relação entre um acontecimento e a língua, a intericonicidade estabelece relação direta com o sujeito, considerando um papel ambivalente, em que as imagens exteriores, sempre “pregadas” a uma

100

Vale ressaltar a diferença entre código/sistema semiótico/linguagem (verbal, imagético etc.), de lado, e canal/meio de expressão (sonoro ou visual), de outro (cf. nota de rodapé 48, p. 73). O verbal, por exemplo, pode ser sonoro ou visual; o visual, então, pode ser icônico, verbal, gestual etc.

158 materialidade, estabelecem relações com as imagens interiores, que residem no próprio sujeito e que sem ele não produziria sentido101.

Courtine, dessa forma, estabelece relação com os trabalhos de Hans Belting sobre o estudo das imagens e seu efeito icônico.

Por meio delas [as imagens], o homem representa a concepção que ele faz do mundo e que ele quer mostrar a seus contemporâneos. Para que as imagens sejam eficazes, sua produção depende de duas condições que são recíprocas: da nossa faculdade de animar as imagens que são inanimadas, como se elas estivessem vivas e susceptíveis de sustentar um diálogo; e da capacidade das imagens de tomar corpo em seu suporte102 (BELTING, 2004, p. 08, tradução nossa).

A proposta de Belting (2004), em uma abordagem antropológica, considera que são os homens que produziram e continuam produzindo imagens. O autor analisa a imagem em uma configuração triangular, por meio da relação dividida em três parâmetros distintos: (i) imagem-médium/suporte-olhar ou, de outro modo, (ii) imagem-dispositivo-corpo, “tanto é verdade que não saberia representar uma imagem sem colocá-la imediatamente em correlação estreita com um corpo observador e um dispositivo visto103” (p. 09, tradução nossa). É dessa forma que se pode afirmar que as imagens que sobrevivem ao tempo são aquelas que se adaptam aos diferentes suportes e dispositivos de reprodução.

Courtine (apud MILANEZ, 2006, p. 168-169) afirma que a intericonicidade supõe as relações das imagens exteriores ao sujeito, mas também aquelas interiores a ele, “todos os catálogos de memória da imagem do indivíduo. De todas as memórias. Podem até ser os sonhos, as imagens vistas, esquecidas, ressurgidas e também aquelas imaginadas que encontramos no indivíduo”. É a própria memória do icônico, as imagens sem as quais se torna impossível a produção de sentidos para os discursos (do não verbal ao sincrético). Aqui se estabelece a dimensão da relação com a pesquisa antropológica de seu trabalho, ainda que se possa pensar o sujeito do discurso não semelhante à concepção de homem pela antropologia,

101

O sujeito é produtor de imagens inscritas na relação com uma memória, com a história, o que marca ainda sua condição de sujeito social, construído historicamente. Porém, é importante destacar que há na década de 1980 um combate ao excesso do assujeitamento que, sem abrir mão do sujeito social, histórico, observa uma certa singularidade do sujeito (DOSSE, 2003c).

102

No original: “À travers elles, l’homme représente la conception qu’il se fait du monde et qu’il veut donner à voir à ses contemporains. Pour que les images soient efficaces, leur production dépend de deux conditions encore une fois réciproques: de notre faculté d’animer les images inanimées, comme si elles étaient vivantes et susceptibles de se prêter à un dialogue, et de la capacité des images à prendre corps dans leur médium” (BELTING, 2004, p. 08).

103

No original, “[...] tant il est vrai que je ne saurais me figurer une image sans la mettre aussitôt en corrêlation étroite avec un corps regardant et un médium regardé” (BELTING, 2004, p. 09).

159 já que as construções discursivas, e mesmo o “arsenal” de imagens próprio ao sujeito, estão inscritas na história e na construção de uma memória.

Assim, diferentemente do que se pensava para o interdiscurso, uma memória do icônico pressupõe uma dupla história: uma interior, relacionada com o próprio sujeito e suas produções mentais, e outra exterior, que se estabelece na materialidade (por meio de um suporte – médium) externa ao indivíduo. Dessa forma, o suporte exterior em que as imagens aparecem são de fundamental importância, já que as imagens reclamam uma visibilidade corporal, pois, diferentes da própria imagem, os suportes apresentam uma temporalidade já que, em determinada época, os homens escolhem a materialidade apropriada à veiculação de suas imagens. Assim, segundo Belting (2004), os meios são suportes cujas imagens têm necessidade para estabelecer sua visualidade.

[...] a experiência das imagens se liga, por sua vez, a uma experiência de seus suportes. Esses que apresentam uma forma dinâmica que eles adquirem em seus ciclos históricos de seu desenvolvimento. [...] Cada suporte possui uma forma temporal que lhe assinala a um momento dado. A questão dos suportes [e da própria materialidade] é então, por essência, uma questão histórica104 (p. 40, tradução nossa).

Com base nessas discussões sobre a imagem e naquelas que delineiam as metamorfoses do discurso político, torna-se fundamental analisar a mídia impressa da fase da abertura política, considerando seu caráter sincrético (verbo-imagético). O aparecimento de imagens na mídia instaura um diálogo com o presente, recorrendo ao passado para estabilizar- se na história. No fim do período de regime totalitário no Brasil, a mídia desenvolveu-se e abarcou a imagem como meio de compensar a falta de interesse do povo pela política e atrair novamente seu público para o que acontecia no país, fato que se tornou mais explícito na segunda metade da década de 1980, a partir da redemocratização do país e a possibilidade concreta de circulação dos dizeres, sem a sombra da interdição por meio da censura.