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KONKLUSJON OG IMPLIKASJONER FOR VIDERE FORSKNING OG PRAKSIS

3.2.1 A morte do aluno na porta da escola/O baixo rendimento escolar

Entender as condições materiais, objetivas e subjetivas que levaram aos sujeitos da Escola Estadual de Ensino Médio de Tempo Integral Miriti a repensar o próprio cotidiano pedagógico e administrativo transforma-se em um convite viável para repensar o cotidiano das escolas públicas de um país que possui a maior concentração de renda do mundo, alinhavado por interesses políticos e econômicos distintos, por fortes desigualdades socioespaciais, e por profundas disparidades entre os diferentes segmentos de classes sociais, que se encontra com maior intensidade, paradoxalmente, dispostas no espaço desordenado das grandes metrópoles brasileiras. Sobretudo, nos guetos aonde crescem a miserabilidade e os níveis assustadores de desemprego, de violência urbana e de desestruturação familiar, trata-se de um quadro caótico que tem sido naturalizado pelo meio social, que se tem atribuído cada vez mais funções e se exigido mais respostas da escola pública.

Esse conjunto de evidências da realidade brasileira impacta negativamente a escola pública, em especial, quem depende exclusivamente dela para se escolarizar e qualificar a juventude da classe trabalhadora que, em meio a tantas desolações e incertezas, estão sendo compelidos à precoce inserção no mercado de trabalho, e também, a vivenciar cotidianamente com essa realidade. É uma classe que sofre com os enormes déficits de escolarização, com o abandono escolar e com outros problemas criados por um sistema social desigual, que os acompanham em um momento pessoal marcado por tantas dúvidas. Mesmo assim, Dayrell et al. (2014) alerta que:

Os índices alarmantes de violência, principalmente os homicídios, o tráfico de drogas, o consumo de álcool e de outras drogas, a ameaça da AIDS e a gravidez na adolescência são fenômenos que contribuem para cristalizar a imagem de que a juventude é um tempo de vida problemático. Não que esses aspectos da realidade não sejam importantes e que não estejam demandando ações urgentes para serem equacionados. Enxergar o jovem pela ótica dos problemas é reduzir a complexidade desse momento da vida. É preciso cuidar para não transformar a juventude em idade problemática, confundindo-a com as dificuldades que possam afligi-la. É preciso dizer que muitos dos problemas que consideramos próprios dessa fase, não foram produzidos por jovens. Esses já existiam antes mesmo de o indivíduo chegar à idade da juventude (DAYRELL, et al, 2014, p. 106 -107).

Tudo isso tem atingido as juventudes bruscamente e também às escolas públicas. Um exemplo desse quadro de extrema violência foi presenciado com maior intensidade entre os sujeitos da Escola Miriti no ano de 2010 que aconteceu um homicídio no portão principal de entrada da escola, e ceifou a vida de um jovem estudante do turno da tarde. Este episódio

lamentável, segundo professores, foi divisor de águas no percurso pedagógico e administrativo da escola, pois a partir dessa tragédia censurável, despertou-se um forte desejo por mudanças, por maior organização e efetividade nas ações de cobrança dos órgãos responsáveis superiores, para combater a violência, entre os sujeitos da própria escola, no sentido de transformá-la em um espaço educativo melhor. Como afirma o Professor 03: ―Porque quando houve o assassinato do José Edmilson aqui na frente da escola, nós tivemos que nos reunir e cobrar do estado que tivesse segurança”. E, o Professor 05 comenta que: “Tudo começou depois da morte do aluno [...], isso mesmo do José lá, do menino”.

De tal forma que, apontaram não para um caso específico, isolado de agressão e extrema violência, e sim na repercussão de que a escola era um ambiente marcado pela cultura da violência, instaurada como rotina, que de acordo com o depoimento do Professor 01: ―Aqui era violento, era comum ter brigas, mas foi a primeira vez que ocorreu morte aqui na frente”.

Ratificamos que os problemas apresentados são de caracteres sociais, exigindo ações urgentes para o enfrentamento, que devem vir e ir além do espaço escolar, com o real interesse de atingir toda a sociedade. Nesse contexto, a juventude é atingida com forte intensidade, por não está bem consolidada a trajetória de vida, não se pode desvirtuar e criar generalizações, mas muitos são os problemas sociais que lhes assolam. Mediante a tudo isso, deve haver ações coletivas que possam combater essas tristes constatações:

Podemos constatar assim que, para a maioria da população jovem brasileira — seus setores empobrecidos —, baixos níveis de escolaridade, trabalho precário e desemprego são realidades cotidianas, observando-se poucas perspectivas de vida diante do incremento da violência nas áreas urbanas metropolitanas, sobretudo os homicídios. (DAYRELL, et al, 2014, p. 114).

Portanto, a superação dessas condições exigem esforços do Estado, bem como da sociedade. No caso da Escola Estadual Miriti, exigiu-se principalmente da comunidade escolar outro formato de escola, como afirmam os sujeitos desse espaço. É com esse olhar luzidio que se buscou compreender as estratégias e os caminhos que formaram a trajetória de enfrentamento e a superação das dificuldades que incidiram sobre a realidade na Escola Miriti.

3.2.2 Elaboração do projeto interdisciplinar de combate à violência e melhora da capacidade de leitura interpretação textual e habilidade com cálculos

Nota-se que o episódio fatídico da morte do aluno na Escola Miriti, levou a um grupo de professores, técnicos e a gestão repensar proposições positivas ao enfrentamento não apenas da violência, mas além dela orientar uma nova condução das ações pedagógicas a serem desenvolvidas pelos sujeitos da escola para incentivar: leitura, escrita e o cálculo. Para o Professor 03:

O principal problema da educação, em termos de habilidades está entre os alunos que não sabem ler, não sabe escrever e não sabem calcular. Tá, isso constatado em 2003 na primeira prova que eu fiz aqui em 2003. Aí nos montamos um esboço de projeto pra resolver, tentar resolver esse problema. Inicialmente, eu tento fazer o trabalho com os alunos e deu certo. Conversei com o pessoal de português e começou a melhorar, é claro que eu peguei uma professora das melhores, que tu deverias entrevistar, e depois entrou o pessoal do cálculo, temos um professor magnífico, professor se aposentou, infelizmente, ele só entrou já no final, então, em 2010, ele estava pra se aposentar. Entendeste? (PROFESSOR 03, 2015, grifos nossos).

A estratégia central foi construir uma proposta que pudesse ser desenvolvida no coletivo social, que, inicialmente, era um rascunho do que se tem sido efetivado com o Projeto Escola de Tempo Integral. Trata-se do projeto principal da escola como afirma o próprio Professor 03: ―Esse espaço aqui (biblioteca), ele é resultado de um projeto que nós implantamos que é o projeto interdisciplinar, leitura, escrita, cálculo e combate à violência, que é o principal projeto dessa escola”.

A denominação dada à proposta visualiza a preocupação não apenas em combater a violência escolar, mas erradicar outros problemas estruturais que fazem parte do cotidiano pedagógico da escola, quando relacionados às dificuldades centrais dos alunos da educação básica, com leitura, escrita e cálculo, que deveriam ter sido amenizadas na etapa final, no que se refere à relação com os números. Como afirma o Professor 01: “Quando chegavam às provas as questões de cálculos, parece que eles têm preguiça de pensar, mas se for umas questões teóricas leem e vão atrás das respostas, mas quando eles veem os números eles fogem”.

A solução encontrada redeu aos sujeitos da Escola Miriti reconhecimento e notoriedade por parte da SEDUC-PA, que escolheu o projeto e financiou um grupo de professores para ir à Brasília apresentar ao MEC a proposta que foi considerada inovadora entre as escolas de nível médio da rede estadual do Pará, visto que enquadrava com as novas proposições exigidas pelo órgão gestor, de incentivo as reformulações curriculares. Repercutindo positivamente como um novo e possível caminho para o ensino médio na escola

Miriti, ao aderir ao ProEMI, como apontou o Professor 06: “Nós fizemos algumas adaptações nos banheiros que é para atender algumas necessidades também. Então, com esse recurso do ProEMI que nós conseguimos fazer algumas modificações aqui na escola”.

O projeto repercutiu positivamente recebendo financiamento para reforma da biblioteca, do banheiro e de outros espaços no interior da escola Miriti: além disso, a implantação do projeto tornou-se bandeira da escola ao combate à violência em favor de uma escolarização melhor para os jovens estudantes. São encaminhamentos bastante pertinentes para as reflexões que levam não só a melhora na infraestrutura do espaço escolar, mas contribui para o combate de problemas crônicos que sondam o ensino médio paraense:

O sistema educacional paraense no nível do ensino médio vem condicionado por uma tríplice tragédia, posto que a rede estadual é a que menos aprova os alunos atendidos, promove maior reprovação dos estudantes matriculados e há maior número de abandono escolar registrado nos estabelecimentos estatais. Houve, portanto, uma queda de produtividade do ensino nessa modalidade (CORREA; BARRETO, 1999, p. 24, grifo do autor).

Nesse contexto, a Escola Miriti fez a escolha de criar e implantar projetos interdisciplinares, com a finalidade de ajustar os trajetos pedagógicos e administrativos, uma alternativa para impulsionar um novo e possível caminho, no redimensionamento das ações internas, exigindo assim mais segurança e a implementação de políticas públicas que lhes fossem favoráveis para obterem mais condições estruturais materiais e objetivas para o pleno do projeto educativo e incentivo na construção de possibilidades e trajetórias de sucesso às juventudes, como abordaram Dayrell et al. (2014). Assim:

Outras questões estão relacionadas à posição que ocupam no mundo, às possibilidades de mudar seus destinos pessoais, de romper com barreiras impostas pelo meio social de origem, de superar situações de discriminação e de violência que, muitas vezes, limitam a construção de projetos de vida. A convivência no espaço escolar, os componentes curriculares com todos os seus limites, as atividades que extrapolam o contexto das aulas, assim como as relações estabelecidas com os profissionais da educação, são elementos constitutivos para a construção de projetos de vida. Não existem receitas prontas para a atuação da escola junto aos jovens para a construção de projetos de longo prazo. Mas, um olhar mais atento às biografias desses jovens e às demandas que são trazidas para a escola permitirá que cada instituição de ensino possa incluir ações que contribuam no sentido de ampliar as possibilidades, não só de construção, também de viabilização de projetos de vida (DAYRELL et al, 2014, p. 141).

Não é comum ver esses projetos de vida fazerem parte da agenda educacional do Estado, e para a juventude da classe trabalhadora, tão importantes quanto atingir a plena expansão e universalização do ensino público, é ter a possibilidade não apenas pela escola,

mas de a escola pública se constituir como espaço que contribui para a ampliação de alternativas formativas e na viabilidade desses projetos, como afirma a COEM/SEDUC-PA:

Às vezes o aluno está ali amarrado naquela matriz curricular, e ele tem de estudar matemática, ciências, tem que estudar geografia, mas ele tem outros dons, vamos dizer assim, outros interesses, e isso é passado por cima de qualquer profissional que esteja na escola. E a educação integral a gente entende que a qualidade que ela propõe que ela deve propor é isso, ir além dessa matriz fechada, daqueles horários né tão fechados, disciplinas compartimentadas. E aí o aluno é esquecido àquela vontade, aquela identificação dele com quê? Qual o projeto de vida daquele aluno? A gente faz educação hoje no ensino médio a gente vê que passa por cima, não tem o interesse de ver aquele aluno como sujeito como ser humano (COEM/SEDUC-PA, 2014).

No primeiro ciclo de escolas do Pará, a escola Miriti aderiu ao ProEMI, um programa que sofreu alterações no âmbito local, segundo os critérios de parcerias estabelecidas pela SEDUC-PA, apontados na seção anterior. Ademais, a escola tem sido a executora na materialização de ações sociais coletivas com universidades, igrejas e comunidade ao entorno, com interesse de contribuir e impulsionar os projetos de vida da juventude que, no caso da Escola Miriti, buscaram-se no diálogo e no esforço coletivo dos sujeitos que fazem a escola às ações peculiares a esse equilíbrio entre os sujeitos de viabilizar projetos. No entanto, nem tudo foi solucionado, ainda há muito que se fazer.

É fato não existir fórmula única e as transformações têm exigido às escolas públicas a obrigação de mínimas condições para oferecer uma melhor escolarização, escolas eficazes e professores bem mais preparados. Os elementos constitutivos de efetividade do pleno funcionamento da escola pública são pedidos e os mesmos dependem, sobretudo, da vontade política e da ação do Estado, esperam-se as mínimas condições para o funcionamento, condições materiais e objetivas ao enfretamento das adversas contradições que impeçam viabilizar projetos de vida formativos às juventudes.

A partir do ano de 2012, houve um convite de adesão por parte da SEDUC-PA, para a Escola Miriti fazer parte de um grupo seleto de 10 escolas da rede que iniciariam o Projeto Escola de Tempo. Este processo de adesão não foi bem aceito por toda comunidade escolar, tanto pela forma que foi implantado, quanto pelo conteúdo da proposição que não ficou bem claro. Como disserta o Professor 05:

Ele iniciou aqui na escola em 2012. [...] Porque assim, a escola, antes dessa proposta de ensino integral, ela já vinha trabalhando dentro de uma proposta de avaliação interdisciplinar, desde 2010, que esse projeto que iniciou, houve um aluno aqui da escola que foi assassinado aqui na porta da escola, e a partir daí, um professor, um grupo de professores organizou um projeto que foi inscrito no ensino médio inovador, onde a escola recebeu recursos que foi implementado aqui, houve

reformas, fizeram algumas adaptações estruturais aqui na escola (PROFESSOR 06, 2014).

Assim, esse processo de adesão trouxe implicações que ainda ecoam dentro do espaço escolar, mesmo depois de ter completado três anos ou como afirmam os professores, depois de um ciclo do integral implantado na Escola Miriti.