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Na Itália, por exemplo, a partir de seu processo de unificação, Edmundo de Amicis48 escreveu a obra Cuore. Libro par I ragazzi (1861). Na França, o livro Le Tour de la France

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Essa expressão foi usada por Alain Choppin na sua conferência de abertura no Simpósio Internacional Livro

Didático: História e Educação, realizado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP),

entre os dias 5 e 8/11/2007. Na referida conferência, Choppin citou o livro infantil brasileiro As reinações de

Narizinho, de Monteiro Lobato, como exemplo de “livro-instituição”.

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Edmundo de Amicis (1846-1908) escritor italiano, militar, jornalista, monarquista moderado, tornou-se, depois de 1890, um ardente socialista. Suas obras estão centradas em três focos: a pátria, os jovens em processo de escolarização e a população pobre.

par deux enfants: devoir e patrie (1877) constitui outro exemplo de “livro-instituição” ou “lugar de memória”49 da república francesa (OZOUF, 1997).

Desses livros estrangeiros, o de maior sucesso junto às crianças e jovens brasileiros foi Cuore, do escritor italiano Edmundo de Amicis (1846-1908). O livro narra, em forma de diário, a vida escolar do menino Enrico, na época do Risorgimento (pós-unificação da Itália), e seu conceito fundamental é o de educar a mente e o coração dos jovens com exemplos de virtude, de abnegação e de coragem, além de difundir valores morais, cívicos e patrióticos. No prefácio, em sua última edição nacional, há uma explicação acerca dos propósitos do autor: “Este livro é particularmente dedicado aos meninos das escolas primárias, que têm entre nove e treze anos, e poder-se-ia intitular: História de um ano escolar, escrita por um aluno de terceiro ano, duma escola primária da Itália.” (DE AMICIS, 1974, p. 8).

Esse livro fez sucesso no mundo todo, com traduções em vinte e cinco idiomas50 e adaptações para a televisão e o cinema italianos (BASTOS, 2004). No Brasil, a tradução mais conhecida é a do escritor João Ribeiro, pela Livraria Francisco Alves, em 1891, embora já houvesse traduções portuguesas circulando em escolas brasileiras.

Somente na Itália mais de um milhão de exemplares do Cuore foram vendidos. Numerosas traduções em diversos idiomas apareceram desde fins do século passado até o presente. Livro de leitura escolar e, ao mesmo tempo, obra clássica da literatura infantil, Cuore conquistou também as crianças brasileiras e exerceu sensível influência sobre nossos autores de livros de leitura, conforme se pode constatar nas obras de Romão Puiggari e Arnaldo de Oliveira Barreto, Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Scaramelli e outros (PFROMM NETO, 1974, p. 174, grifo nosso).

Coração foi lido por várias gerações de brasileiros e citado também por muitos autores consagrados da literatura, em suas memórias de infância, a exemplo de Humberto de Campos, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Pedro Nava, entre outros.

49Para Pierre Nora “Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que

é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. [...] Os lugares de memória são, antes de tudo, restos” (NORA, 1993, p. 13). Na obra organizada pelo historiador francês, há alusão a outro livro escolar considerado também “lugar de memória” – o Petit Lavisse, ao qual ele denomina “evangelho da República” (NORA, 1997, p. 239).

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Particularmente, além das edições brasileiras, tive acesso a duas traduções: uma para o espanhol (DE AMICIS, Edmundo. Corazón: diário de um niño. Buenos Aires: Ediciones Peuser, 1947) e outra para a língua inglesa, ainda em circulação (DE AMICIS, Edmundo. Cuore: a heart of a boy. Dufon Editions, Inc., 2005).

José Lins do Rego, no romance autobiográfico Doidinho, fez menção a esse livro escolar, na voz de um personagem – o estudante Carlinhos:

Seria para mim uma vitória abandonar aqueles cadernos amarelos. Mas o meu grande ideal de aluno estava no Coração. [...] E como era diferente a escola de lá da do professor Maciel! Distribuíam prêmios, os professores falavam manso, não existiam palmatórias. O nosso colégio não se parecia com as escolas da Itália. [...] Todo esse livro delicioso me chamava para as suas páginas (REGO, 1980, p. 30-1).

Monteiro Lobato, por outro lado, tinha opinião diversa. Em carta endereçada a seu amigo Godofredo Rangel, datada de 1916, Lobato indagava:

Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto é, habilidade por talento, ando com idéia de iniciar a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos. Mais tarde, só poderei dar-lhes o Coração, de De Amicis – um livro tendente a formar italianinhos [...] (LOBATO, 1956, p. 104-5, grifo nosso).

Por sua vez, Viriato Corrêa, em vários depoimentos à imprensa, afirmou que esse livro de leitura serviu de inspiração para que ele escrevesse um outro clássico da literatura infantil nacional – Cazuza: memórias de um menino de escola (1938).

Quando li o “Coração”, de De Amicis, já era homem formado, e achei o livro uma obra-prima, embora contivesse dois graves defeitos para a criança brasileira: era muito triste e fazia amar a Itália – disse-nos o escritor (acadêmico) Viriato Corrêa, evocando a origem de seus livros infantis e da obra didática, que vem publicando ininterruptamente desde 1908 (CORRÊA, 196051).

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A ausência de mais informações se deve ao fato do trecho ter sido extraído de um recorte de jornal sem data (n.a.)

Figura 3 – Coração – capa. Fonte: DE AMICIS, 1891.

Figura 4 – Coração – capa. Fonte: DE AMICIS, 1982.

Já o livro Le Tour de la France par deux enfants serviu de inspiração para a elaboração de um livro de leitura nacional – Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim. Esse livro francês, de autoria da escritora Augustine Fouillé 52, é considerado um dos maiores sucessos da literatura escolar ocidental de todos os tempos, com centenas de edições, chegando a atingir a marca de 6 milhões de cópias vendidas na Europa. O livro narra a viagem de dois jovens órfãos – Julien e André – por diferentes regiões francesas e, a exemplo do Cuore, visava a desenvolver nos jovens um forte sentimento de patriotismo, a partir do conhecimento da geografia e da história francesas.

Cada capítulo desse “livro de leituras correntes para o curso médio, com mais duzentas gravuras instrutivas para as aulas de ciências” era uma verdadeira “lição” (de história, de geografia, de ciências, é claro, mas sobretudo lição de moral), trazida pelas peripécias de uma viagem através da França. André e Julien descobriam os monumentos, as paisagens, as técnicas de trabalho e construíam, no decorrer do tempo, uma nova representação do mundo: variedade do seu país, dureza dos tempos, solidariedade dos homens. Por meio desse périplo educativo, o autor mostrava que o amor à pátria poderia proporcionar à moral escolar uma unidade ainda mais indiscutível do que a religião cristã. Fazendo a volta da França, as duas crianças aprenderam a ter coragem e confiança, mesmo na adversidade, a assumir um destino coletivo. Dessa forma, ‘tornaram-se’ francesas, quer dizer, solidárias com um solo, uma língua, com uma história (HÉBRARD, 1999, p. 62-3, grifo nosso).

Registre-se que esse livro surge no contexto em que a França havia sido duramente derrotada pela Alemanha e perdido partes importantes de seu território – a Alsácia e a Lorena. A autora pretendia, pois, elevar a auto-estima dos seus compatriotas franceses e resgatar a consciência nacional, profundamente abalada pela derrota de 1871.

Vê-se que esse livro de leitura, bastante usado na escola primária francesa, difundiu a pedagogia republicana, calcada no amor à Pátria, no culto aos que desapareceram na guerra e no exemplo dos grandes homens.

Recentemente, a antropóloga Michele Petit, ao analisar os hábitos e práticas de leitura dos jovens, cita depoimento de um agricultor francês acerca de suas memórias de leitura, o que bem atesta como esse livro formou várias gerações de crianças francesas, durante a primeira metade do século XX:

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Escritora francesa, esposa do filósofo Alfred Fouillé, usou, nessa obra, o pseudônimo de G. Bruno. Logo no prefácio de sua obra, a autora adverte: “La connaissance de la patrie est le fondement de toute véritable instruction civique.” (BRUNO, 2006, p. 4)

Lembro de meus avós. Meu avô lia para mim A volta da França por duas crianças. Havia uma grande lareira, nem me lembro se tinha eletricidade, e depois do jantar minha avó colocava no fogo uma grande panela com vinho e tomilho e punha a ferver. Com mel. E ele nos contava... não sei por que, talvez porque eu fosse jovem, mas ele lia bem – a gente vivia aquelas histórias à medida que ele contava, sabe? Com meu irmão, quando a gente fala dessa Volta da França... conforme eles davam a volta da França, e curiosos, podíamos vê-la... isso devia ser por volta de 1945-46 (PETIT, 2008, p. 21-2).

Já a historiadora Haroche, ao mostrar a formação dos sentimentos coletivos dos franceses no final do séc. XIX, aponta o livro de História da França, de Ernest Lavisse, que foi escrito em 1876 e que, segundo ela, enquadra-se nos mesmos propósitos da pedagogia republicana, ao contribuir também para o fortalecimento do nacionalismo patriótico.

Lavisse faz parte dos republicanos franceses que, abalados pela derrota de 1871, pretendem, pela escolha dos temas de reflexão, das narrativas edificantes, do ensino da história, fabricar uma consciência nacional nutrida pelo amor da pátria. Ernest Lavisse insiste, como outros, sobre o dever da doação de si: na pátria, ele vê um país cujas crianças preferirão morrer a viver sob o jugo do estrangeiro (HAROCHE, 2002, p. 90).

Figura 5 – Le Tour de La France par deux enfants –

capa. Clássico da literatura infantil ocidental.

No Brasil, quais livros poderiam ser considerados “livros-instituição”? Que leituras promovidas na escola brasileira constituíram-se em “cartilhas da nacionalidade”53? Alguns livros de leitura constituíram-se símbolos da nacionalidade e, de certa forma, influenciaram a produção literária de Viriato Corrêa: Por que me ufano do meu País (Affonso Celso, 1900), Contos Pátrios (Olavo Bilac e Coelho Neto, 1904), A Pátria Brasileira (Olavo Bilac e Coelho Neto, 1909) e Através do Brasil (Olavo Bilac e Manoel Bomfim, 1910).

Na primeira década da República, o escritor e crítico literário José Veríssimo preconizava que uma das tarefas mais urgentes no campo educacional brasileiro seria a reforma do livro escolar, sobretudo o chamado “livro de leitura”. Dizia ele: “cumpre que ele seja brasileiro, não só feito por brasileiros que não é o mais importante, mas brasileiro pelos assuntos, pelo espírito, pelos autores trasladados, pelos poetas reproduzidos e pelo sentimento nacional que os anime.” (VERÍSSIMO, 1906, p. 6).

A iniciativa da produção dessa literatura por parte de diferentes intelectuais foi uma característica do período. Vários intelectuais que pertenciam ao IHGB e passaram a formar o seleto grupo da ABL54, foram responsáveis pela escrita de livros escolares adotados nas escolas primárias e lidos pela infância brasileira nas primeiras décadas republicanas. Destaque especial deve ser dado a algumas produções didáticas de membros da ABL que se tornaram verdadeiros cânones literários escolares.

Defino cânone literário escolar55 como o livro que teve adoção contínua na escola, com sucessivas edições e tiragens consideráveis de exemplares, tendo sido leitura obrigatória de várias gerações de crianças e jovens. Um dos sinais ou indícios (GINSBURG, 1989) para se constatar a existência do cânone literário escolar é o depoimento de autores em livros de memórias e autobiografias.

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Algumas cartilhas de alfabetização, destinadas à aprendizagem da leitura e da escrita de crianças, tornaram-se verdadeiros impressos da nacionalidade. É o caso da Cartilha do povo, de Lourenço Filho, que, publicada em 1928 pela Editora Melhoramentos, circulou até a década de 60, com mais de 2 mil edições (MACIEL; FRADE, 2003).

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A ABL foi criada em 1897, no Rio de Janeiro, por um grupo de intelectuais (Machado de Assis, Silvio Romero, Affonso Celso, Olavo Bilac, Coelho Neto, entre outros), nos moldes de sua congênere francesa (PIZA, 2003; RODRIGUES, 2003).

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Ver OLIVEIRA, Luiz Eduardo M. de. Entre a História Cultural e a Teoria Literária: rumo a uma história dos cânones escolares no Brasil. In: Revista Brasileira de História da Educação, Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE), nº 8, jul./dez. 2004.