O ethos do revoltado, peculiar aos modernistas, passa a compreender que a verdadeira modernidade se dá pela inserção do outro, o que acaba fazendo surgir o ethos da alteridade, o ethos antropofágico. Essa constituição do ethos antropofágico ocorre, inicialmente, com a proposta de um grupo de intelectuais modernistas em redescobrir o Brasil.
A viagem dos modernistas às cidades históricas em 1924 orienta para a construção do Movimento Pau-brasil. Mário de Andrade publica em Clã do jabuti o poema “Noturno de Belo Horizonte” (1980,p.178) composto logo depois da viagem a Minas Gerais. Digno de nota é o fato de o poeta suíço, Blaise Cendrars, acompanhar os modernistas nessa redescoberta do Brasil e
112 ficar impressionado com um preso que teria devorado o coração de sua vítima, crime revelador, no pensamento modernista, de nossas raízes históricas.
Em Vida e morte da Antropofagia, obra-depoimento de Raul Bopp sobre o Modernismo, o poeta relata que Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade levaram em uma noite uns amigos a um restaurante cuja especialidade era rã. A iguaria foi recebida com aplausos e discurso. Oswald afirmava em seu humorado discurso ser o homem descendente da rã, o que fez com que Tarsila interviesse dizendo que, então, diante daquela explicação, eles estavam sendo, naquele momento, uns quase antropófagos. Citaram ainda, durante o jantar, estudiosos da antropofagia e a famosa frase "Lá vem nossa comida pulando" atribuída ao chefe tupinambá, Cunhambebe, quando avistou os portugueses, registro feito por Hans Staden. Como é sabido, Hans Staden foi aprisionado pelos índios para depois ser comido, o que acabou não acontecendo, e, graças a esse fato, Hans Staden pode relatar os costumes dos tupinambás nas suas crônicas no século XVI. Em busca de resgatar as nossas origens, os modernistas estudaram os textos coloniais, sendo que o de Hans Staden que falava da antropofagia indígena foi valorizado, uma vez que viram no relato desse ritual a explicação convincente para a gênese do movimento.
O grupo que havia participado do jantar de rãs, dias depois, reuniu-se para o batismo da pintura de Tarsila denominada Abaporu, antropófago em tupi-guarani, quadro que teria sido o estopim para a subsequente redação do Manifesto Antropófago. Para alguns pesquisadores, Raul Bopp teria sugerido, nessa ocasião, a realização de um movimento em torno do quadro, o que se concretizou através da fundação do Clube da Antropofagia juntamente com a Revista de Antropofagia. Raul Bopp afirma que a líder, a semeadora de ideias do movimento foi Tarsila e que Oswald seguia as suas orientações. De toda forma, sendo sugestão de Bopp, de Tarsila ou de Oswald, a Antropofagia foi um anseio coletivo de uma elite artística que via a necessidade de mexer nas artes e romper com a Europa como forma de modernização. É bem verdade que grande parte dos participantes do movimento tinha estudado na Europa, além de muitos viajarem com certa regularidade para lá o que os aproximava mais ainda da cultura europeia. É fato também que a Antropofagia recebeu
113 inúmeras influências: Marx e o pensamento revolucionário, Freud e a psicanálise; o surrealismo de Breton; o Manifeste Cannibale de Picabia; a questão do selvagem de Rousseau e de Montaigne; a bárbarie de Keyserling, enfim uma série de eventos para além das nossas fronteiras que acabaram por determinar o surgimento do referido manifesto. Segundo Augusto de Campos (1975, p.10), por mais que a crítica queira estabelecer como precursores da Revista de Antropofagia e do Manifesto Antropófago a revista Cannibale e o Manifeste Cannibale Dada de Francis Picabia, ambos de 1920, não há uma associação efetiva, uma vez que o canibalismo dadaísta foi pura fantasia, não tinha ideologia, enquanto a Antropofagia foi um movimento com propostas claras de transformação em todas as áreas.
Vale destacar que a revista e o manifesto franceses são de 1920 e que naquele momento era o auge do primitivismo e da arte africana, o que justifica o aparecimento, como afirma Augusto de Campos (1975, p.10), da metáfora do canibalismo presente nas vanguardas europeias. De posse desse universo de tendências, Oswald redige o Manifesto Pau Brasil em 1924 que já antecipa a digestão antropofágica:
Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia (ANDRADE, 2011, p.331).
Oswald concretiza a devoração das diferentes vertentes com a publicação do Manifesto Antropófago em maio de 1928 no número 1 da Revista de Antropofagia, cujas publicações vão até agosto de 1929. Como notamos, a Antropofagia não ficou restrita ao manifesto ou a alguns números da revista, ela teve uma existência de mais de um ano, observando-se, ao longo desse tempo, o amadurecimento crítico das reflexões políticas, sociais, linguísticas, psicanalíticas e literárias.
Salientamos que o fato de o Manifesto Antropófago ser datado do ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha remete explicitamente ao naufrágio do
114 primeiro bispo, D. Pedro Fernandes Sardinha, que foi devorado pelos caetés. Esse episódio passa a ser para os modernistas antropófagos o marco do calendário antropofágico, uma paródia do calendário cristão que é contado a partir do nascimento de Cristo. Destacamos que o bispo Sardinha foi devorado pelos caetés em 1556, ou seja, o correto historicamente falando seria datar o Manifesto de 372 e não de 374, no entanto, não existia a preocupação na exatidão da data, o que importava era o ressignificação do evento, já que eles se apropriaram desse fato para usá-lo como instrumental do movimento. Além disso, o que os modernistas antropófagos fizeram foi inverter a visão dos colonizadores que apagaram qualquer vestígio da herança indígena para aqui instalar o cristianismo. Na verdade, os antropófagos estabeleceram, como marco do movimento, uma relação dialógica com as diversas etnias, tendo como fio condutor a antropofagia.