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A fim de esclarecermos melhor a relação do sujeito com a linguagem, principalmente, sua relação com a escrita, vamos percorrer um trajeto marcado pela história e pelo jogo de poder existente no processo de aquisição da linguagem escrita. Pretendemos iniciar esta breve explanação, refletindo sobre o importante papel da linguagem para o posicionamento do sujeito na sociedade em que se insere, particularmente, as sociedades contemporâneas ocidentais.

A linguagem torna-se responsável por posicionar o sujeito na sociedade em que vive, na medida em que as suas produções linguísticas são valorizadas, de acordo com a maneira como são empregadas no contexto social e cultural em que circulam. Essa maneira, segundo Gnerre (1998), diz respeito a como são realizadas essas produções e em que medida elas são apropriadas ao contexto em que se inserem, considerando as regras e as relações sociais que as constituem. Essas regras servem para estabelecer uma previsão do ato linguístico, pois se cria uma expectativa em torno do que será enunciado. No entanto, nem todos os sujeitos têm acesso a essas regras, sendo que somente uma parte dos membros da sociedade, por exemplo, tem acesso a uma variedade de língua “culta” ou “padrão”. É a partir deste ponto que pretendemos iniciar nossa reflexão. Para tanto, nos utilizamos das palavras de Gnerre (1998, p.23):

A função central de todas as linguagens especiais é social: elas têm um real valor comunicativo, mas excluem da comunicação as pessoas da comunidade linguística externa ao grupo que usa a linguagem especial e, por outro lado, têm a função de reafirmar a identidade dos integrantes do grupo reduzido que tem acesso à linguagem especial.

A língua “culta” ou “padrão”, entendida aqui como uma linguagem especial, cumpre esta função de exclusão para alguns, ao mesmo tempo em que serve de reafirmação da identidade para outros. Aqui, podemos perceber o jogo de poder presente nesta constatação. A língua “padrão”, embora seja considerada um patrimônio cultural e, por isso, todos deveriam ser capazes de acessá-la, tem seus valores legitimados pela tradição escrita e gramatical, o que a torna de certo modo excludente, pois não são todos que a dominam. Pensando na legitimação da escrita como língua “padrão”, temos que ela surgiu em determinado grupo da

sociedade que detinha o poder e, posteriormente, foi proposta como expressão da identidade nacional, carregando consigo toda uma bagagem cultural. Podemos perceber o poder atribuído à escrita em relação às outras modalidades linguísticas e, consequentemente, o poder conquistado por quem a domina. Diante disso, concordamos com Gnerre (1998, p.22) quando diz que “a linguagem constitui o arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder”.

No Brasil, temos que este jogo de poder exercido por meio da linguagem se faz presente desde a colonização. Segundo Rodrigues (2011), o colonizador português ao chegar ao Brasil logo fez questão de legitimar a sua linguagem como oficial e superior, sem levar em consideração as culturas existentes, suas crenças, valores, línguas; pelo contrário, procurou exterminá-las, como demonstração de poder e forma de dominação. Dessa forma, temos que o colonizador, por meio da imposição de sua cultura e língua, buscou homogeneizar as diferenças linguísticas aqui existentes, sendo a instituição escolar o veículo utilizado por ele para legitimar os valores culturais da classe social dominante a qual pertencia. Segundo este modelo de dominação, a escola torna-se um "cenário para a consolidação da língua oficial e para a homogeneização das culturas coexistentes no Brasil e não o espaço para reconhecimento da diversidade que constitui a sua população."(RODRIGUES, 2011, p. 34).

Assim, até hoje essa forma de dominação é praticada em nossas escolas, ao se tentar impor aos alunos as normas padrão da língua, principalmente, por meio da gramática, desprezando a variedade linguística presente na sala de aula, constituída pela bagagem histórica e cultural de cada sujeito.

Exemplo disso é o desrespeito às variedades linguísticas diversas da norma padrão culta e, por conseguinte, aos falantes/escreventes dessas variedades, o que caracteriza também como uma forma de opressão e ação discriminatória. Além do que, em se tratando mais especificamente do escrever, talvez possamos inferir que a freqüente redução da escrita dos alunos a modelos e gêneros previamente definidos seja também uma tentativa de domina-los, o que contribui para alienação e os concede à marginalidade caso não alcancem e utilizem satisfatoriamente a 'palavra oficial'. (RODRIGUES, 2011, p.43)

A partir da dimensão histórica, aqui exposta, e conhecendo a imposição da língua oficial pelas classes dominadoras, fica mais fácil compreendermos os possíveis motivos relacionados às dificuldades dos sujeitos escolares em praticar a escrita e autoria. A negação

do outro, da multiplicidade cultural, veta a entrada e a circulação de diferentes discursos e variedades linguísticas não só no espaço escolar, mas também no meio social. Esse veto afeta o processo de identificação do sujeito com sua escrita e prejudica a instauração da autoria.

Frente a essas considerações, podemos entender que as práticas de escrita na escola, muitas vezes, acabam por reproduzir o caráter dominador e opressor a que foram submetidas as línguas brasileiras pelo colonizador e reafirmam o poder da classe que detém o domínio do código "padrão".

Interessante observarmos que esse poder, consolidado ao longo de um processo histórico e exercido pelo domínio de uma linguagem, extrapola a relação de disputa entre as classes sociais e recai sobre o próprio instrumento de dominação, a linguagem escrita. Assim, a escrita, considerada patrimônio cultural e, por isso, pertencente a todos os membros da sociedade em que se insere, assume o papel de dominadora. Nesta perspectiva, a escrita domina o sujeito, pois se transforma em um objeto de opressão. Sobre o processo de transformação da escrita em objeto, Pereira (2011) o denominou de processo de reificação da escrita.

A reificação da escrita, segundo o autor (idem), consiste na transformação da escrita em objeto, destituído de qualquer recurso interpretativo, a partir de diversas filiações a discursos científicos que recorrem ao interdiscurso para sustentar a ideia de escrita como uma “coisa” visível e de uso comum, distanciada da ideia de mediadora das práticas discursivas e sociais. De acordo com essa visão, a escrita torna-se independente do sujeito e passa a governar sua vida, pois este é capturado por um processo de alienação decorrente das formações ideológicas que sustentam essa formação imaginária.

É desta forma que o discurso da escrita circula na escolarização. As alianças entre enunciado dominante da escrita e seu mecanismo de retroalimentação na escolarização permitem entender a estagnação do sujeito à posição de escrevente, por conta de um processo imaginário de reificação (atribuída ao assujeitamento aos disfarces da escrita, tal como enunciada de uma formação discursiva mais letrada, como o discurso científico), que cristaliza essa mesma evidência ideológica de seu disfarce como abstração simbólica. (PEREIRA, 2011, p.135)

A citação de Pereira (2011) chama atenção para o fato de que o sujeito não se dá conta de como ele é assujeitado pelo discurso da escrita, especialmente o discurso científico sobre a

escrita, que a coloca num lugar de prestígio e rebaixa aqueles que não têm acesso, tais como as práticas de escrita realizadas, na maioria, das escolas. O efeito disso é o apagamento do processo sócio-histórico da linguagem escrita e o fortalecimento do seu processo de reificação que compreende a escrita como sendo um produto acabado e caracterizado pela abstração.

Como produto, a escrita adquire o status de coisa e perde sua função ligada às práticas sociais. Nessas condições, o sujeito do discurso é reduzido a indivíduo e tem negado seu acesso à interpretação. Dessa forma, temos um indivíduo que se preocupa em produzir uma escrita dentro das regras e padrões fixados, sem considerar a incompletude da língua, os processos sócio-históricos e a língua como um lugar possível para emergência da subjetividade. Isso faz com que a escrita se torne algo distante do sujeito e cada vez mais abstrata.

Sobre a abstração à qual a escrita é submetida, Rodrigues (2011) argumenta que o poder atribuído à escrita reside, exatamente, nessa abstração e que é resultado de uma evidência ideológica oriunda do recalcamento da oralidade. Essa evidência, como demonstram estudos sobre letramento, afeta diferentes práticas e saberes sociais e discursivos, e se sustenta na escrita devido a sua característica de descentralização, dando ao sujeito a ilusão de transparência da linguagem.

Diante dessas considerações acerca dos processos sócio-históricos que constituem e alimentam a relação entre poder e escrita, buscamos compreender o percurso histórico de legitimação e valorização da linguagem escrita, bem como suas implicações e desdobramentos referentes à sua aquisição pelo sujeito. A seguir, pretendemos desenvolver essa discussão, refletindo sobre como as práticas que envolvem a escrita, desde sua aquisição, contribuem ou não para a identificação do sujeito com a escrita e a assunção da autoria.