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perspetiva dos autores suprarreferenciados, a tendência mais geral da língua é a de colocar os elementos mais longos e complexos em posição final:
(137) a. É provável que a casa esteja inundada. b. *Que a casa esteja inundada é provável.
Na literatura de especialidade, há dois grandes subgrupos de orações relativas: relativas livres e relativas com antecedente expresso275. No primeiro subgrupo, o pronome
relativo, tipicamente marcado com traço semântico /+ Humano/, figura-se na fronteira inicial da frase e, por isso, não é precedido por qualquer nome (138a), ao passo que, no segundo subgrupo, o pronome relativo, quer seja marcado com traço semântico /-Humano/, quer com traço /+Humano/, se posiciona no interior da frase precedido de um nome (138 b):
(138) a. Quem viu a Namy durante a infância sabe que ela gosta da natureza b. A rapariga a quem ofereci apoio escolar é a Namy.
Os exemplos acima demonstram um caso de orações relativas livres em que o morfema relativo se localiza na fronteira inicial da frase, ou seja, à esquerda do verbo e, de igual modo, um caso de relativa com antecedente expresso em que o morfema relativo se localiza no interior da frase, portanto à direita do seu antecedente. As relativas com antecedente expresso, por sua vez, subdividem-se em restritivas e explicativas. As orações relativas explicativas ou apositivas, diferente das restritivas ou atributivas, consistem «num comentário acerca de um individual denotado pela expressão nominal antecedente, antecedente esse que tem um valor referencial independente, sendo tipicamente uma descrição marcada»276:
(138) a. Esta é a rapariga que aprecia a natureza.
b. Namy, que aprecia a natureza, escreveu uma estória ecológica.
Nas frases acima, há dois casos de orações relativas diferentes a nível da sintaxe funcional e posicional: uma relativa com função atributiva ou de adjunto adnominal (138 a), posicionada à direita do seu antecedente sem qualquer pausa gráfica ou fónica e uma relativa com função apositiva (138 b), posicionada à direita do seu antecedente, porém, separada por duas vírgulas. Depreende-se, assim, que uma oração relativa é restritiva por exercer a função de atributo e é apositiva por exercer a função de aposto:
(139) a. Esta é a rapariga que aprecia a natureza. b. Esta é a rapariga apreciadora da natureza.
c. Namy, que aprecia a natureza, escreveu uma estória ecológica.
d. A rapariga, a apreciadora da natureza, escreveu uma estória ecológica. Com efeito, a deslocação do pronome relativo da sua posição habitual, da posição pós-antecedente para a posição pré-antecedente, evidenciaria certa impossibilidade funcional de realização do subtipo de subordinação em estudo:
(139) e. *Que esta é a rapariga aprecia a natureza.
275 Vide Telmo Móia, A Sintaxe das Orações Relativas sem Antecedente Expresso do Português, Dissertação de Mestrado em Linguística Portuguesa, Lisboa, Universidade de Lisboa, 1992, pp. 1-10. 276 Ana Maria Barros de Brito, A Sintaxe das Orações Relativas em Português, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1991, p. 123.
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f. *Que, a rapariga aprecia a natureza, escreveu uma estória ecológica.
A análise contrastiva dos corpora europeu e brasileiro permitir-nos-á apresentar, em 2.2.3.4, uma proposta de subclassificação das orações adjetivas apositivas em três grupos à sintaxe descritiva do português: apositivas intercaladas (139 c e d), apositivas enumerativas (139 g) e apositivas transpostas (139 h):
(139) g. Esta proposta só será exequível se mandarem também os doentes de férias e de folgas, afirma a bastonária, que nota que há vários serviços hospitalares que já hoje devem 1300 horas e 800 horas aos enfermeiros, que há profissionais a fazerem horários ilegais (Público, 01 de junho de 2016, p. 2).
h. Eles são um grupo fantástico, que teve grande impacto na cena de jazz (O Globo, 20 de maio de 2016, p. 1).
Mais do que apresentar um quadro panorâmico do terceiro grande grupo das orações subordinadas, descreveremos, abaixo, o padrão posicional das orações adverbiais a partir das noções da linguística funcional de sintaxe nuclear e periférica. Tradicionalmente, as orações adverbiais diferenciam-se das substantivas e adjetivas por serem introduzidas por uma conjunção subordinativa ou por uma forma nominal do verbo, bem como por funcionarem como adjunto adverbial da oração subordinante277:
(140) a. A brisa da porta abriu-se para que os vestidos se desfizessem em pó. b. Saí da porta quando ela chegou.
c. Ela tem vivido como os seus pais.
d. Caso termine a tarefa, cuidarei do almoço. e. Terminada a tarefa, cuidarei do almoço.
À exceção da última alínea, todas as orações sublinhadas em (140) são introduzidas por uma conjunção ou locução subordinativa: final em (104 a), temporal em (140 b), comparativa em (140 c) e condicional em (140 d). Por isso, a primeira recebe a designação de oração subordinada final, a segunda temporal, a terceira comparativa e a quarta de condicional. Por ser introduzida por um particípio passado, a oração apresentada em (140 e) recebe a designação de subordinada participial, à semelhança das orações introduzidas por um infinitivo ou gerúndio, havendo, por conseguinte, orações subordinadas infinitivas (140 f) e gerundivas respetivamente (140 g):
(140) f. Ao terminar a tarefa, cuidarei do almoço. g. Terminando a tarefa, cuidarei do almoço.
As frases em estudo demonstram que no grande grupo das orações adverbiais umas se destacam por se localizarem no início (140 d e e), meio (140 b) e no final da frase (140 a e b), o que ilustra que as orações adverbiais, em relação à oração principal, podem ocorrer em diversas posições da frase: em posição inicial, intermédia e final. Todavia, algumas destas orações perderiam a funcionalidade se fossem deslocadas das posições em que se encontram:
(141) a. Saí da porta quando ela chegou. b. Quando ela chegou, saí da porta.
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(142) a. Ela tem vivido como os seus pais. b. *Como os seus pais ela tem vivido.
(143) a. Caso termine a tarefa, cuidarei do almoço. b. Cuidarei do almoço caso termine a tarefa.
(144) a. Terminada a tarefa, cuidarei do almoço. b. *Cuidarei do almoço terminada a tarefa.
(145) a. Terminando a tarefa, cuidarei do almoço. b. *Cuidarei do almoço terminando a tarefa.
Verifica-se que a transposição posicional da oração adverbial implica, em determinadas situações, o acréscimo ou a supressão de pausa fónica e gráfica como em (141) e (143). Neste sentido, propõe-se, em Eduardo Paiva Raposo et alii278, uma distinção das
orações adverbiais em duas subclasses sintáticas: orações adverbiais integradas, que apresentam maior grau de ligação prosódica e estrutural com a oração principal e orações adverbiais periféricas, que manifestam um menor grau de ligação prosódica e estrutural com a oração principal.
Assim, para estes autores, fazem parte das orações adverbiais integradas a maioria das orações temporais, as orações finais de evento, condicionais com se, caso, no caso de e na condição de, as orações causais introduzidas por porque, ao passo que fazem parte das orações adverbiais periféricas as orações causais e explicativas finitas introduzidas por como, uma vez que, já que, dado que, visto que e as infinitivas introduzidas por dado e visto, as orações finais de enunciação, as concessivas, as orações bicondicionais (com desde que + conjuntivo, contanto que, a não ser que), assim como as orações conformativas.
Quanto à sintaxe posicional, Eduardo Paiva Raposo et alii mencionam, entre outros, os seguintes aspetos que diferenciam os dois subgrupos de orações em abordagem279:
a. As orações adverbiais integradas podem ocorrer em posição final sem marcação especial (146), ao passo que as orações adverbiais periféricas só podem ocorrer em posição final se forem antecedidas de pausa ou quebra entoacional, a que corresponde geralmente uma vírgula na escrita (147):
(146) a. Voltei à porta para meditar sobre a vida.
b. Voltei à porta porque desejava meditar sobre a vida. c. Voltaria à porta se desejasse meditar sobre a vida.
(147) a. Não voltei à porta, uma vez que estava a fazer a tarefa.
b. Decidi voltar à porta, a pesar de que a cabeça se encontrasse noutro lugar. c. Voltarei à porta, a não ser que deseje meditar sobre a vida.
b. Os dois subgrupos de orações podem, de igual modo, ocorrer no início da frase (ou entre o sujeito e o predicado, porém, como estruturas autónomas a nível fónico e separadas por vírgula:
(148) a. Para meditar sobre a vida, voltei à porta.
278 Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et alii, vol. 2, p. 2031. 279 Idem, ibid., pp. 2033-2036.
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b. Porque deseja meditar sobre a vida, voltei à porta. c. Se desejasse meditar sobre a vida, voltaria à porta.
(149) a. Uma vez que estava a fazer a tarefa, não voltei à porta.
b. A pesar de que a cabeça se encontrasse noutro lugar, decidi voltar à porta. c. A não ser que deseje meditar sobre a vida, voltarei à porta.
Assim sendo, terminamos o estudo sobre a sintaxe estrutural e funcional da frase em português cuja aplicação contrastiva entre o português europeu e brasileiro será empreendida nos dois últimos capítulos da nossa dissertação.