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Vimos anteriormente que, na perspectiva de Piaget, a natureza da relação pais-filhos na infância é inerentemente hierárquica na medida em que a criança acredita que as regras são externas e para cumprir. E só mais tarde e na interacção com os pares de idade, que a criança desen- volve o sentimento de que pode alterá-las, criar as suas próprias regras tendo por base uma compreensão da interacção. A relação pais-filhos, do ponto de vista da socialização, seria pois, inicialmente, predominante- mente unilateral (moralidade heterónoma), assente numa estrutura de autoridade claramente assimétrica em termos de reciprocidade.

Graças à emergência de um conjunto de novas capacidades cognitivas, o adolescente pode pela primeira vez pensar a realidade "pais", pensar a relação com os pais e pensar-se a si próprio nessa relação, quer no pas- sado quer no presente. Esta capacidade de estar simultaneamente dentro e fora, imerso na família e vê-la "à distância", cuja dimensão intra- psíquica foi descrita em profundidade pelas teorias psicanalíticas, coloca a família e o adolescente numa nova situação.

E forçoso então admitir que a socialização parental tenha um im- pacto diferente no adolescente e que as mudanças ocorridas no adoles- cente tenham, também elas, um impacto nas estruturas de socialização vindas da infância.

Esta questão tem sido abordada por investigadores na área das teorias sócio-cognitivas, numa preocupação de articulação com outras perspectivas, nomeadamente a perspectiva psicodinâmica e a perspectiva interaccional sistémica. Dessas contribuições iremos destacar aquelas que, do nosso ponto de vista, mais esclarecimento trazem, directa ou in- directamente, à questão da autonomia adolescente.

Uma contribuição teórica interessante para essa questão é a de Coser (1975, in Hill & Holmbeck, 1986) sobre a relação dos papéis sociais e a autonomia individual. Na sua essência, a teoria de Coser consiste em afirmar que, quanto maior for o leque de papéis sociais que o indivíduo tem de assumir e quanto mais complexa for a articulação desses papéis, maior é a probabilidade do individuo desenvolver a sua autonomia e se tornar um adulto autónomo.

Uma questão que se coloca é a da relação entre a autonomia e o con- flito entre pais e pares, ao nivel das novas expectativas de cada um destes sistemas de socialização. Segundo Coser, um nível moderado de conflito entre as normas e as expectativas de pais e pares será um fac- tor de desenvolvimento de autonomia no adolescente. 0 adolescente, ao confrontar-se com diferentes perspectivas, terá não só de desenvolver diferentes papéis sociais como ainda desenvolver a sua própria perspec- tiva.

Esta visão encontra algum suporte empírico no trabalho de Emmerich et ai. (1971, in Hill, 1980), cujos resultados indicam que só a partir da adolescência inicial é que o indivíduo é capaz de conceber dois meios sociais distintos, nos pais e nos pares, e de diferenciar o seu sistema de normas e que, é na medida em que os diferencia, que os pode integrar. Um outro tópico em que a teoria de Coser pode ser aplicada com van- tagens para a sua elucidação é a questão da relação entre a autonomia e uma prática educativa parental, assente na explicação das normas.

Tivemos ocasião de rever anteriormente alguns estudos que concluem que as explicações dadas pelos pais sobre a regras e normas familiares estão correlacionadas positivamente com os sentimentos e os comportamen- tos de autonomia (cf. a rubrica: Os Cuidados Parentais, Cap.III).

A maior ocorrência de práticas educativas assentes nas explicações parentais, nas famílias mais diferenciadas do ponto de vista socio- económico, dever-se-ía ao facto de nessas famílias os pais lidarem com um mais vasto leque de papéis sociais e portanto - e esse é o principal contributo de Coser - esses pais seriam adultos mais autónomos.

Por outras palavras, o facto dos pais lidarem com uma rede complexa de papéis sociais, dá-lhes a capacidade de uma maior tolerância em aceitar perspectivas diferentes, maior flexibilidade e maior capacidade de negociar as regras e normas com os filhos adolescentes.

Debrucemo-nos agora sobre as contribuições empíricas ao problema que equacionámos atrás. Merecem particular destaque o trabalho de al- gumas equipas de investigadores que, embora em linhas distintas, abor- dam, entre outros, o problema da interacção entre a autonomia e as relações familiares e que têm, com principal referência as pessoas de Youniss, Hauser, Grotevant e Cooper.

YOUNISS e SMOLLAR

Partindo de um quadro de referência que engloba a perspectiva de Piaget - Sullivan e o modelo conceptual de individuação elaborado por Grotevant e Cooper (conforme descrevemos no Cap. II, I PARTE), Youniss e colaboradores têm desenvolvido, desde 1970, uma ampla investigação sobre as relações do adolescente com o pai, a mãe e os amigos e o seu impacto em algumas áreas do desenvolvimento adolescente, nomeadamente a emancipação e a autonomia.

Os resultados de Youniss e Smollar estão em grande parte compilados no livro "Adolescent Relations with Mothers, Fathers and Friends", editado em 1985, e que iremos tomar como base de referência para a nossa síntese sobre a emancipação e autonomia, aspectos que desenvolveram profundamente na sua investigação.

O livro compila os resultados e a discussão de oito estudos inde- pendentes (amostragem e metodologia específicas), conduzidos durante quatro anos (1980 - 1983), abrangendo 1049 adolescentes estudantes, com idêntica representação de ambos os sexos, de idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos. Os estudos utilizam uma metodologia mista de observação da interacção familiar, entrevista e questionário.

0 objectivo comum e organizador destes estudos é chegar à descrição das características das estruturas relacionais do adolescente com os seus pais e com os seus amigos.

Para isso, os investigadores estudam os seguintes aspectos: "interacções típicas e agradáveis", "comunicação", "conflitos", "obrigações percepcionais", "o self na relação" e recorrem basicamente às percepções do adolescente das interacções e às concepções do seu self, nessas interacções.

Tentaremos sintetizar aqui os resultados mais directamente relacionados com as percepções parentais e a autonomia, problemática em que a nossa própria investigação se insere.

(1)^Percepções da relação Pais - Filha:

0 pai é percepcionado pela filha adolescente como uma figura autoritária que orienta e define padrões de comportamento. A relação pai-filha é descrita como distante, pouco conflitual, mas desprovida de conteúdo emocional, intimidade, compreensão e aceitação.

A mãe é também percepcionada em termos de autoridade embora a relação mãe-filha seja menos distante e mais complexa. A rapariga adolescente respeita e confia na mãe, sentindo-se livre para confiar mas também para desobedecer, o que permite um espaço de conversação e de in- timidade, apesar da qualidade da comunicação nem sempre ser a ideal. A vertente de autoridade implicita na relação mãe-filha é atenuada por momentos de proximidade relacional.

(2) Percepções da relação Pais - Filho:

O pai e a mãe são percepcionados pelo filho adolescente como objec- tos de respeito, a quem se deve obedecer obrigatoriamente.

A relação com o pai é essencialmente unilateral e distante embora exista um espaço para a realização de actividades em conjunto e discussão de problemas práticos e objectivos.

A relação com a mãe é mais forte e directa o que permite a partilha de confidências e uma maior proximidade relacional. A posição de autoridade e disciplina é temperada com compreensão e "saber ouvir", possibilitando a comunicação nos dois sentidos.

(3) Percepções da relação Adolescente - Amigos:

A relação de amizade é percepcionada pelo adolescente como uma relação de suporte. E um espaço relacional que se caracteriza pela par- tilha de actividades, cooperação e a ajuda mútua, compreensão reciproca, aceitação e respeito pelas posições e opiniões diferentes. A relação

adolescente - amigos possibilita um contexto em que o adolescente se ex- periência como ser individuado e separado dos pais, contribuindo deste modo para o desenvolvimento psicológico e formação da identidade.

(4) Emancipação e Autonomia:

0 conceito de emancipação refere-se tradicionalmente ao insight que o adolescente consegue ter sobre a sua dependência ao laço parental no passado. Desse insight progressivo resultariam ganhos no atenuar dos laços aos pais. Ora, Youniss e Smollar argumentam que os resultados dos seus estudos não sugerem que a emancipação seja consequência duma compreensão interna atenuadora do laço emocional até porque a relação parental conserva a sua força; afirmam então que "uma descrição mais apropriada é a que considera que a relação é transformada e não rompida, em que os adolescentes continuam a responder à autoridade parental ao mesmo tempo que se sentem mais livres dela" (op. cit., p. 160).

Quanto ao conceito de autonomia os autores propõem uma revisão do conceito, que tradicionalmente no seio das teorias cognitivas se refere à capacidade do adolescente contar mais com o seu auto-raciocinio do que com a aprovação parental. Contrariando esta concepção, os autores ar- gumentam, tendo por base os seus resultados, que mesmo depois da emancipação ter começado os adolescentes continuam a procurar o apoio dos seus pais para as suas ideias e que mais do que um raciocinio autónomo o que é típico na adolescência é uma co-construção cooperativa com os amigos e pares de idade. Concluem que: "os resultados sugerem que as teorias prévias sobre a autonomia exageraram a independência a expen- sas do reconhecimento da importância da construção social e da sua base relacional" (op. cit., p. 161).

Os resultados dos estudos de Youniss e Smollar dão claramente suporte empírico às formulações de Piaget e aos autores de orientação social-cognitiva que revimos, questionando uma formulação mais puramente

c o g n i t i v i s t a . Nesta última formulação, o conceito de autonomia refere-se