Este é o título da tese de doutorado de Barato, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, defendida em 2003, na qual ele discute alternativas da fórmula teoria e prática como referência explicativa do conteúdo da educação, particularmente da formação profissional. Para examinar o conteúdo da técnica, o pesquisador considerou estudos sobre processos técnicos em cursos para formar cabeleleiros, programadores de computador, auxiliares de enfermagem, garçons e cozinheiros.
Minha intenção, ao fazer a leitura dessa pesquisa, foi buscar fundamentos sobre alguns aspectos que se relacionassem à formação dos profissionais de enfermagem. Em conversa com Barato, ele justificou o título de sua tese da seguinte maneira:
"Explicar o título não é tarefa fácil" [...]. Esta investigação reuniu argumentos para mostrar que o FAZER é um tipo de conhecimento com um status epistemológico específico. Em outras palavras, o título do meu trabalho procura mostrar que o FAZER é conhecimento [...]. O título do meu trabalho contém uma provocação. Ele antecipa as análises que faço
no corpo do texto, mostrando que a fórmula teoria e prática é uma matriz explicativa muito pobre. "FAZER não se fundamenta em SABER (pseudoteoria que explicaria a prática)" (BARATO, 2005)8.
No decorrer de seu trabalho, Barato explica suas intervenções no período de 1984 a 1991, quando coordenava projetos sobre ensino de técnicas, dentre elas, as técnicas básicas da enfermagem.
Os educadores do SENAC/SP, em nível de supervisão e de docência, utilizavam como referência explicativa teoria e prática. Como acontece em outras instâncias educacionais, predominava, entre os educadores, a idéia de que os “conteúdos práticos” são fundamentados por “conteúdos teóricos”. Isso tinha conseqüências no planejamento: antes de ir para laboratórios ou ambientes de aplicação, os alunos eram instruídos teoricamente. As sessões de ensino são organizadas em momentos prévios de “teoria” seguidos de momentos de “prática”.
Durante suas intervenções e coordenação dos projetos referentes ao ensino de técnicas no SENAC/SP, Barato observou que as explicações (teoria) antes da execução (prática) são mantidas como algo natural e inquestionável.
Segundo ele, os enfermeiros investidos de funções docentes revelaram uma resistência notável para desvelar saberes profissionais. Ele identificou três causas principais para a incomunicabilidade: uma persistência de segredos de ofício, a alegação de que ofícios são exercícios de arte e a própria natureza do fazer-saber (uma inteligência que dispensa o discurso como forma organizativa e comunicativa do saber). Essa constatação fez com que o autor, assim como as
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BARATO, Jarbas Novelino. Não há possibilidade de referenciar esta contribuição em particular por se tratar de palavras proferidas por ele em conversas informais.
equipes de educadores que com ele trabalharam mergulhassem no fazer-saber dos profissionais docentes, gerando soluções que valorizassem o fazer-saber, orientando suas “intervenções” no sentido de abandonar a referência teoria e prática e adotassem um caminho que enfatizasse o fazer-saber. Para o pesquisador, quando se emprega uma abordagem que enfatiza a ação, surgem perspectivas educacionais muito interessantes para orientar o aprender a trabalhar.
A tese elaborada por Barato, composta por 9 capítulos, propicia ao leitor uma visão geral acerca do propósito de realizar uma leitura coerente de eventos do ensino-aprendizagem de técnicas para elaborar sugestões metodológicas no campo da educação profissional. Para tanto, buscou, além de outros aportes teóricos, a obra de Wenger e Lave (1998), que valoriza sobremaneira o “aprender participando”. Nessa direção, considera o “aprender fazendo” um caminho natural para aprendizagens significativas.
A relevância desse estudo centra-se nas questões concernentes às possibilidades de investigação quando se consideram as questões da educação profissional a partir da visão hegemônica caracterizada pela fórmula teoria e prática:
Leciona-se “teoria” e, a partir dos resultados obtidos, infere-se a aprendizagem da “prática”, sem verificação de domínio deste último conteúdo por meio de execução;
Aborda-se o conteúdo “prático” apenas como um fazer explicado pela “teoria”, mas desprovido de inteligência (“teoria” é equiparada a conhecimento e “prática” à habilidade);
Cobram-se dos formandos competências na execução de determinado rol de técnicas, sem propiciar nas escolas condições de exercício concreto de todas as técnicas deste rol, apelando-se para uma indefinível criatividade, que deveria decorrer da boa assimilação da teoria (BARATO, 2003, p. 61).
Esse modo de conceber conteúdos da educação é um engano, e, como é percebido pelos educadores, resulta em encaminhamentos equivocados do processo de ensino-aprendizagem.
Dentre as possibilidades de investigação, Barato optou por abordar a questão do conteúdo do saber técnico. Estudou uma proposta de planejamento em cursos de formação profissional, que poderia ser organizada a partir do conceito de atividade. Nesse sentido, todo o conteúdo do curso poderia ser convertido em atividades, e cada uma delas seria orientada por um objeto e compreenderia os três níveis: a atividade, as ações e as operações. Para tanto, seria preciso discutir, na área de formação do profissional de Enfermagem, quais objetos valeriam a pena considerar.
Esses objetos dimensionariam as atividades, assim como as ações e operações necessárias. Dessa forma, é necessário um currículo completamente diferente das formas usuais de organizar unidades de ensino. Dentro de cada atividade, nos diferentes níveis, conceitos, princípios, fatos e processos seriam articulados (orquestrados) em função de finalidades significativas para os alunos. O desafio parece interessante.
O quadro de relações aqui descrito é bastante sugestivo em termos de um repensar do saber técnico. Ele realça a intencionalidade do fazer. Nesse sentido, qualquer técnica deve ser entendida como tendo necessariamente um objeto. Isso significa que as técnicas não são apenas um repertório de como executar uma tarefa.